Cinema e Argumento

Flores Raras

Lose something every day.

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Direção: Bruno Barreto

Roteiro: Carolina Kotscho, Julie Sayres e Matthew Chapman, baseado no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Lucia de Oliveira

Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Treat Williams, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Anna Bella, Marcio Ehrlich, Griffin Addison

Brasil, 2013, Drama, 118 minutos

Sinopse: A história de amor entre Elisabeth Bishop (poeta americana vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956) e Lota de Macedo Soares (“arquiteta” carioca que idealizou e supervisionou a construção do Parque do Flamengo). Ambientado no Brasil dos anos 50 e 60, quando a Bossa Nova explodia e Brasília era construída e inaugurada, o longa acompanha a história dessas duas grandes mulheres e suas trajetórias inversas.

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As armadilhas envolvendo Flores Raras não eram poucas. Além de contar uma história de amor entre duas mulheres (alguém lembra do tema ser tratado com a devida dignidade pelo cinema nacional?), o filme de Bruno Barreto também é baseado em figuras reais – sendo uma delas Elizabeth Bishop (Miranda Otto), marcante poeta do século XX. Por isso, era perfeitamente compreensível se o longa ficasse abaixo da média, caísse em estereótipos de uma relação homossexual ou ficasse cansativo ao transpor para o cinema a poesia da nova iorquina. Felizmente, não é o que acontece com Flores Raras, um filme que surpreende pela maturidade e pela sutileza com que desenvolve temas tão complicados com o devido êxito (e, ao contrário do que aparenta, a homossexualidade está longe de ser a principal engrenagem).

Exibido na abertura do 41º Festival de Cinema de Gramado, Flores Raras escapa das armadilhas que tinham tudo para torná-lo um fracasso. No relacionamento entre as duas protagonistas, consegue universalizar o amor. No processo criativo da poeta Bishop, apresenta a obra da escritora com o devido interesse. Só que antes de amor homossexual ou poesia, o filme de Bruno Barreto é sobre duas pessoas desencontradas – e que talvez só tenham acertado os ponteiros no momento em que se apaixonaram. Lota (Glória Pires) e Bishop (Otto) eram de mundos completamente diferentes. Também não tinham as mesmas visões de mundo e se expressavam de maneiras distintas. Ainda faltava sintonia: quando uma dizia sim, a outra apostava no não. Quando a incapacidade de se expressar passava a ser tratada de um lado, de outro isso já não parecia mais importar.

Ao longo de quase duas horas, Flores Raras, então, mostra ao espectador as distintas trajetórias pessoais e profissionais dessas duas mulheres. E toda essa passagem de tempo – que acompanha desde a chegada de Elizabeth ao Brasil, passando por sua adaptação cultural e emotiva, até sua volta para Nova York 20 anos depois – é muito bem pontuada por Barreto. Muito além da maquiagem (não deixem de perceber como o cabelo de Glória pouco a pouco se torna grisalho), é o roteiro que consegue acompanhar com uma excelente dramaticidade os conflitos e as evoluções dessas duas mulheres. Elizabeth e Lota se amavam, mas estavam em constantes mudanças, e quase nunca andavam na mesma linha. Nós absorvemos essa distância das duas, mas também abraçamos o amor “opostos se atraem” delas – que é encenado de forma muito sincera e natural pelas duas atrizes.

Glória Pires, por sinal, consegue superar as barreiras entre o idioma (quase toda a história é falada em inglês) e sua interpretação – o que não é nada fácil, especialmente se considerarmos os últimos intérpretes estrangeiros que saíram de seus países de origem para ganhar a vida em Hollywood (das mais recentes, quem mais vem à cabeça entre as vitoriosas é Marion Cotillard). Porém, o show mesmo é da australiana Miranda Otto, atriz que já atuou em O Senhor dos Anéis e que recentemente finalizou The Homesman, ao lado de Meryl Streep e Tommy Lee Jones. Acertando muito mais do que a mera reprodução de trejeitos e sotaques de Bishop, ela é impecável ao construir uma personagem complexa e difícil. Otto não tem medo de abraçar toda timidez e antipatia da poeta, nunca facilitando sua aceitação para o espectador – e, por isso mesmo, sua trajetória como ser humano e profissional se torna tão natural, recompensadora e emocionante.

Outro achado de Flores Raras é a trilha sonora do brasileiro Marcelo Zarvos (que fez carreira lá fora trabalhando recentemente para a HBO, em Phil Spector, e para a Showtime, no seriado The Big C). Eficiente, a trilha inova por conseguir sublinhar diversos momentos dramáticos do filme sem exagerar ou irritar. E isso merece reconhecimento, pois o cinema brasileiro raramente acerta no uso de trilhas sonoras. Com duas atrizes que se entregam de corpo e alma ao projeto, Flores Raras pode trazer certo desconforto para os brasileiros (por melhor que Glória Pires seja no inglês, é estranho vê-la falando outro idioma), assim como também deve decepcionar um pouco com o final que deveria ser mais mastigado e algumas mudanças que parecem um tanto superficiais (principalmente as de Lota, que repentinamente se torna a frágil e problemática da história). Entretanto, o diretor Bruno Barreto supera tais detalhes e entrega um longa-metragem que, mesmo não sendo necessariamente empolgante, surpreende pelas pequenas escolhas, que vão da sensibilidade com temas difíceis (ainda temos alcoolismo!) à economia de emoções. Escolhas essas que, no final das contas, tornam a experiência mais do que válida.

FILME: 8.0

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* Filme conferido no 41º Festival de Cinema de Gramado

Três atores, três filmes… com Rubens Ewald Filho (segunda parte)

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Nesta segunda parte do Três atores, três filmes, com o Rubens Ewald Filho, ele mais uma vez surpreendeu. Se, na postagem passada, Rubens escolheu duas interpretações de um mesmo filme praticamente desconhecido, agora ele resolveu fazer uma análise de um tipo pouco reconhecido pelo cinema: o das mocinhas. Ou melhor, o das ingênuas. Muitas são os vilões que conhecemos e que são celebrados pelo cinema… Mas quem são aqueles intérpretes que realmente sabem fazer uma pessoa de boa índole e ainda assim surpreender? No comentário abaixo, Rubens fala um pouco sobre isso e ainda define a sua maior queridinha quando esse assunto vira pauta. Mais uma vez, agradecemos a presença dele aqui no blog!

Nunca entendi porque a crítica – e, por vezes, o próprio público – confunde personagem com ator. Até hoje mesmo em novelas é muito comum o ator ser chamado pelo nome do personagem e não o dele. E o sistema de colocar as identificações todas rápidas e sem foto em nada ajuda. Antigamente, com freqüência, os trailers identificavam os nomes e hoje somos obrigados a recorrer às revistas de fãs ou fofocas para reconhecê-los. Tem uma hora que todos ficam com a mesma cara, em particular as meninas. E, quando uma delas consegue ter um tipo mais marcante (como Juliana Paes), é um milagre. Por isso, não se criam estrelas e, hoje, os verdadeiros astros da TV estão com 60 anos, velhos demais para serem galãs. Mas onde estão os de 40 para substituí-los, tanto homens quanto mulheres?

Bom, não é problema nosso. Viemos falar de cinema e louvar os coitados que tem a infelicidade de fazer papeis de ingênuos, mocinhos e mocinhas, heroínas e galãs. Todo mundo do meio sabe que nada melhor do que ser vilão: são personagens mais ricos, mais cheio de nuances e de altos e baixos, e muito mais difíceis de esquecer do que alguém que está ali porque é bonitinho. São tantos os nomes que se tornaram inesquecíveis como vilões (Vincent Price, Boris Karloff, Bela Lugosi, Christopher Walken) ou mulheres fatais (Marlene Dietrich, Hedy Lamarr, Bette Davis, Joan Crawford). E todos com maior longevidade de carreira. Mas o que você pode fazer com uma ingênua quando ela envelhece? No máximo fazer papel de mãe, tia ou futuramente de avó. Outra chatice total. Pode render surpresas (como a ingênua Shirley Jones, que levou um Oscar injusto por Entre Deus e o Pecado só porque fez papel de prostituta!) ou aposentadoria precoce.

Sempre tive um fraco, porém, pelas “girls next door” – fruto, sem dúvida, da minha juventude reprimida. Atrizes como Sandra Dee, Piper Laurie, Pat Crowley, Jane Powell, Diane Baker, a atlética Esther Williams (com quem me identificava porque era também nadador), Terry Moore, Natalie Wood, Pier Angeli (ainda que algumas como esta tivessem “o diabo no corpo” como se dizia antigamente) tiveram esse problema: não conseguiram se livrar do tipo e tiveram que recorrer a outras saídas. Sandra Dee se aposentou, se tornou alcoólatra e destruiu sua vida traumatizada por ter sido violentada quando criança pela padrasto. Diane foi para a TV, Esther vender piscinas, Piper foi procurar papeis bons em teleteatros…

Mas nenhuma delas resiste tanto tempo quando a minha favorita foi e continua a ser, por fidelidade, Debbie Reynolds. Não pensem que ela deve tudo a Cantando na Chuva – até porque esse filme só foi reconhecido e descoberto décadas depois de ter sido lançado. Antes, era apenas mais um musical da Metro e pronto. Debbie não era dançarina nem cantora. Mera ginasta. Mas começou com 17 anos, passou a estudar e aprender. Tinha uma notável energia e concentração que se tornaram sua marca registrada. Essa personalidade, que, com o tempo, floresceria em um incrível senso de humor e autocrítica, seria a base para transmitir na tela a irresistível graça de Tammy, a Flor do Pântano (ela teve dois discos de ouro pelos sucessos de Abba Daba Honey Moon e do tema musical de Tammy). Mas seu maior êxito foi na vida real, quando enfrentou um marido (Eddie Fisher) que a deixou por Elizabeth Taylor, com quem teve dois filhos pequenos. Depois, dois outros maridos que roubaram tudo que ela tinha e fizeram falir inclusive um cassino!

Mas Debbie não desistiu e se tornou realmente unsinkable, “inafundável”, como a sua personagem Molly Brown, que escapou do naufrágio do Titanic no filme A Indomável Molly, de 1964, que lhe deu sua única indicação ao Oscar. Se gostava dela criança é porque suspeitava que ela tinha dentro de si essa força de vida que me serviu de lição também na minha própria experiência. Como Debbie, há poucos anos fui roubado por um parente que fugiu com meu dinheiro e causou uma crise em família, que praticamente acabou. Não a crise, a família! Seguido por outra amiga que também fez parecido, usando trapaça para pagar as contas dela. Processar não daria resultado. Fiz como Debbie: enfrentei a situação, estou dando ainda a volta por cima (mais difícil psicologicamente do que na grana). Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo.

Amor Pleno

Life’s a dream. In dream, you can’t make mistakes. In dream, you can be whatever you want.

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Direção: Terrence Malick

Roteiro: Terrence Malick

Elenco: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Javier Bardem, Rachel McAdams, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O’Gans, Charles Baker, Marshall Bell, Casey Williams, Jack Hines, Paris Always

To the Wonder, EUA, 2013, Drama, 112 minutos

Sinopse: Um homem (Ben Affleck), descontente com a sua vida, viaja a Paris e inicia uma profunda relação amorosa com uma europeia (Olga Kurylenko). Ele volta para os Estados Unidos e se casa com esta mulher, para ajudá-la a ter a permissão de estadia americana. Mas após o casamento, a relação dos dois se degrada. Neste momento, ele encontra uma antiga namorada (Rachel McAdams), com quem inicia um novo romance. (Adoro Cinema)

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Ter estilo é para poucos. Mais difícil ainda é criar um e ser celebrado por ele. Quentin Tarantino tem. Pedro Almodóvar também. Só que nem todos conseguem adotar um estilo e alcançar 100% de aproveitamento sempre. O próprio Almodóvar já se repetiu de forma pouco interessante (caso de Abraços Partidos, um filme preguiçoso). E é exatamente nessa armadilha de reciclagem de estilo que o diretor Terrence Malick cai em Amor Pleno, produção que marca o espaço mais curto de tempo entre dois de seus trabalhos (normalmente, esperam-se no mínimo quatro anos). Este lançamento está apenas um ano na frente de A Árvore da Vida, que dividiu opiniões mas que foi celebrado mundialmente, da Palma de Ouro em Cannes até a indicações ao Oscar – incluindo a de melhor direção para Malick. Talvez entusiasmado com tamanha repercussão, o diretor tenha tentado reproduzir tudo desse longa em Amor Pleno. O resultado, no entanto, é uma versão menor e mais desinteressante de A Árvore da Vida – filme que, para o escriba que vos fala, já não era lá tão empolgante.

O que mina a aceitação de Amor Pleno é a falta de novidades, já que, aqui, pouco se cria. Tal repetição poderia ser interessante futuramente, mas não agora, quando A Árvore da Vida foi realizado há tão pouco tempo. Por estar tão próximo deste longa, o novo trabalho de Malick é duplamente cansativo – e isso não se refere apenas ao ritmo pausado, mas a própria insistência do diretor em querer ser contemplativo durante cada minuto da projeção. Por isso, prepare-se: novamente vamos ter pessoas girando incansavelmente entre árvores, folhas caindo, muitas correntezas, vento movimentando cabelos, e por aí vai… Se você foi um daqueles que se sentiu incomodado com isso em A Árvore da Vida, não pense duas vezes: passe longe de Amor Pleno, longa onde a reciclagem é acentuada e excessiva – mas também com uma história menos complexa e com atores que não chegam a instigar. Também pudera: os diálogos são praticamente inexistentes, onde o protagonista entra mudo e sai calado e tudo é construído por meio de breves narrações em off. Eles só precisam girar, correr e se abraçar…

Amor Pleno, claro, é muito bonito. Até porque se, nessa repetição, não fosse certeiro aí seria mesmo de cortar os pulsos. Temos novamente a parceria com o brilhante Emmanuel Lubezki (e o resultado, óbvio, é espetacular), uma bela trilha sonora (sai Alexandre Desplat, entra o igualmente competente Hanan Townshend) e imagens de encher os olhos. Fora os elementos técnicos, outro ponto interessantíssimo do filme é a storyline do personagem vivido por Javier Bardem. Como um padre em plena crise espiritual, seu papel se destaca por duas razões: primeiro porque seus dilemas são, de fato, interessantes (e aqui sim o tom contemplativo é aplicado efetivamente), e segundo porque Javier é um grande ator, cujas expressões por si só já tornam o personagem atraente. Ele quase nos faz esquecer que sua história está quase deslocada e avulsa diante de todo o conjunto. Ainda em relação à história, para um filme que deseja falar de relacionamentos, falta coração em Amor Pleno, que é frio e seco. Sentimos o visual, mas não a história.

Cansativo e restrito em sua totalidade (seja pelo ritmo da trama ou pelo exaustivo jogo de imagens), Amor Pleno é um exercício acomodado que não precisava existir – o que se reflete na sua própria recepção: até mesmo alguns entusiastas de A Árvore da Vida desaprovaram essa mais recente investida de Terrence Malick. Sem falar, ainda, do fracasso de bilheteria e de um suposto processo de investidores que querem de volta o dinheiro. Para 2014, o diretor tem nada menos que mais três (!) projetos: Knight of Cups, com Christian Bale e Natalie Portman, já em pós-produção; Voyage of Time, com Brad Pitt e Emma Thompson, também em finalização; e um projeto ainda sem título, que reúne um elenco simplesmente absurdo: Ryan Gosling, Cate Blanchett, Michael Fassbender, Rooney Mara, etc. Que todos esses projetos devolvam a fé por Malick e que não sejam, como esse Amor Pleno, um projeto monótono e deveras pretensioso.

FILME: 5.5

2*

TOP 10: Bette Davis

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Talvez Bette Davis tenha sido atriz de um papel só. Mesmo quando não interpretava personagens inegavelmente maldosas, como a Regina Giddens, de Pérfida, ou a própria Baby Jane, de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, ela sempre tinha em seu currículo mulheres de temperamento forte e gênio difícil, marca que esteve presente até os últimos anos de sua carreira (lembro particularmente de Baleias de Agosto, onde Bette, já velhinha, interpretava uma senhora cega e mal humorada). Só que o mais impressionante é que ela nunca deixou a sensação de que estava se repetindo. Sempre inspirada e afiada, a atriz teve uma carreira repleta de personagens marcantes e filmes que, cada um ao seu modo, marcaram época. Bette deu adeus à vida em 1989, quando perdeu uma luta contra o câncer de mama. Fora as figuras icônicas que deixou para o cinema, a atriz, em seus últimos anos, ainda escolheu uma sucessora: Meryl Streep, para quem escreveu uma carta dando seu aval de admiração pela até então iniciante. Assim, não à toa, as duas melhores atrizes que o cinema já viu compartilham as mesmas qualidades: talento e humildade. Por isso, elencar as melhores interpretações de Bette Davis não foi uma tarefa fácil – em qualquer sentido. Torço para que a listagem abaixo faça um bom balanço do que foi a carreira dessa intérprete incomparável…

1. O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (1962): Já disseram que é um momento decadente de Bette Davis e que ela se perdeu em papeis excessivamente bizarros como esse no final de sua carreira. E não é que eu acho justamente o contrário? Sua Baby Jane é uma síntese extremada de todos os tipos que ela interpretou na vida. Divertidíssima com seu humor ácido e com uma figura completamente única, a atriz entrega aqui aquele desempenho que, junto ao de A Malvada, é o mais icônico de sua carreira. Claro que sua companheira de tela Joan Crowford tem uma personagem ingrata, mas é praticamente impossível concorrer com a Baby Janes de Davis. Simplesmente genial em todos os seus extremos.

2. A MALVADA (1950): Ao contrário do que o título indica, não é Bette Davis a tal malvada e tampouco a estrela absoluta desse filme de Joseph L. Mankiewicz. Ela divide o protagonismo com a ótima Anne Baxter, mas tem este que é um dos grandes momentos de sua filmografia. Como a estrela Margo Channing, Davis entrega aqui o papel que mais reproduz com sutilezas o seu tipo de mulher ácida e geniosa. Ao contrário de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? – que seria realizado na década seguinte -, em A Malvada, a atriz aposta na na lógica de que menos é mais para criar uma personagem marcante. É uma interpretação irretocável e que felizmente é devidamente apreciada até os dias de hoje.

3. A CARTA (1940): Quando Leslie Crosbie arromba portas disparando várias vezes contra um homem logo na cena que abre A Carta, já podemos notar o quão marcante a protagonista será. Aqui, temos uma perfeita combinação entre um personagem muito bem desenvolvido (impossível não se envolver com as atitudes dissimuladas dela) e uma atuação cheia de grandes momentos de Davis. Com direito às clássicas lágrimas quando se atira em uma cama para lamentar alguma coisa, a atriz tem nesse filme uma de suas personagens mais intensas. E o show não é só dela: o filme de William Wyler também é surpreendente como a sua própria protagonista.

4. VITÓRIA AMARGA (1939): Bette Davis não teve qualquer chance contra Vivien Leigh e o furacão … E o Vento Levou no Oscar, mas que justiça seja feita e todos assistam ao belo trabalho da atriz em Vitória Amarga. Como uma mulher que descobre ter uma doença terminal (ela, pouco a pouco, vai perdendo a visão), Davis consegue, inclusive, estar tocante nesse ótimo filme que, fora a indicação para melhor atriz, foi merecidamente lembrado em várias outras categorias do Oscar. Mais do que isso, Vitória Amarga envolveu as plateias da época, tornando-se o maior sucesso de bilheteria da atriz até aquele ano.

5. VAIDOSA (1944): Quando jovem, Fanny tinha todos os homens aos seus pés. Gostava de aproveitar o que podia de cada um deles, sempre encantando-os com um jeito difícil. Mas logo ela trocava de flerte e dispensava qualquer pretendente com extrema facilidade. Só que o tempo passa e não é nada generoso com Fanny, que, em certo ponto, encontra-se sem muitas opções de matrimônio. Por isso, casa-se, justamente, com um homem que era apaixonado por ela antigamente e que, apesar dos pesares, sobreviveu a sua esnobação. Toda essa transição de Fanny é acompanhado com grande talento por Bette Davis, que não se repete ao longo do filme e que distingue com precisão as diferentes fases de uma mulher repleta de transformações.

6. UMA VIDA ROUBADA (1946): Poucos conhecem esse excelente filme, que tem uma história que viria a ser popularizada no Brasil com a novela Mulheres de Areia: a do conflito entre uma irmã gêmea má e outra boa. A atriz consegue tirar os dois papeis de letra, nunca levando qualquer uma das personagens a extremos. Como  a boa, não a inocenta demais. Como a má, nunca vulgariza a figura, deixando-a apenas como uma pessoa complicada. Por já conhecermos o enredo, os rumos são conhecidos, mas vale a pena apreciar o filme, que tem ótimos momentos e excelentes interpretações de Bette.

7. PÉRFIDA (1941): Regina Giddens é uma das “vilãs” mais marcantes da carreira de Bette Davis. Se o filme em si demora a compreender que é nessa personagem que reside o seu maior mérito (todas as outras figuras são bem desenvolvidas, mas não causam o mesmo encantamento), a atriz faz questão de aproveitar cada minuto que lhe é dedicado. A esposa gananciosa que não mede esforços para conseguir o que deseja financeiramente se destaca particularmente no final, com confrontos pra lá de marcantes (destaque para as cenas com a filha e o marido) e uma resolução totalmente coerente com o que plantou ao longo da história. Se fosse a estrela absoluta de Pérfida, certamente seria ainda mais marcante.

8. PERIGOSA (1935): Com esse filme, veio o primeiro Oscar de Bette Davis – após uma indicação por Escravos do Desejo. Por mais que o resultado não seja lá muito especial, é perfeitamente compreensível a celebração da atriz: aqui, temos aquele tipo de trabalho que já mostra toda a força de uma principiante que se revelava uma das grandes apostas da época. No longa de Alfred E. Green, ela é Joyce Heath, uma atriz com problemas alcoólicos que é colocada em reabilitação mas se mostra ainda mais perigosa nesse processo de “desintoxicação”. Falta algo mais forte no filme, só que Bette compensa tudo, pois já começava a construir o tipo de mulher difícil e geniosa que permearia toda a sua carreira.

9. LÁGRIMAS AMARGAS (1952): Foi um dos últimos papeis de Bette Davis indicado a premiações. E o filme é, de certa forma, uma previsão dos últimos dias da carreira da atriz, que, conforme muitos dizem, entregou-se a papeis estranhos e aparições bizarras. Em Lágrimas Amargas, ela é Margaret Elliot, atriz cuja popularidade e fortuna não estão bem das pernas. Toda ironia e senso de humor de Bette estão presentes nesse papel frequentemente óbvio, mas que dá as devidas chances para a atriz. Posteriormente, ela só viria a ser celebrada com O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

10. JEZEBEL (1938): A primeira parceria com o diretor William Wyler já foi de ouro: por seu papel em Jezebel, Bette ganhou seu segundo Oscar (o primeiro, como já mencionado, foi por Perigosa). Porém, é um tanto incompreensível o entusiasmo: primeiro porque este está longe de ser um dos melhores momentos da atriz e segundo porque Jezebel é um longa que beira o monótono. A proposta, contudo, tinha seus atrativos: uma jovem egocêntrica da aristocracia local provoca o rompimento do seu noivado ao usar um vestido vermelho, em uma época em que as moças deviam usar branco. Apesar de seu antigo noivo se casar com outra mulher, ela continua amando-o. Ela tem a grande chance de lhe provar que realmente deixou de ser uma jovem mimada quando uma peste se abate sobre a cidade.

Obsessão

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Direção: Lee Daniels

Roteiro: Lee Daniels e Pete Dexter, baseado no romance “The Paperboy”, de Pete Dexter

Elenco: Zac Efron, Nicole Kidman, Matthew McConaughey, Macy Gray, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Nealla Gordon, Peter Murnik, Kevin Waterman, Danny Hanemann, Adam Sibley, Gary Clarke

The Paperboy, EUA, 2012, Drama, 107 minutos

Sinopse: Ward (Matthew McConaughey) é jornalista de um grande jornal e precisa retornar para sua pequena cidade para fazer a cobertura da prisão de Hillary Van Wetter (John Cusack), acusado e condenado à morte pelo assassinato do xerife local. Os problemas começam quando Jack (Zac Efron), seu irmão mais novo, começa a se envolver com Charlotte (Nicole Kidman), mulher misteriosa e mais velha, que mantinha contato com o prisioneiro. (Adoro Cinema)

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“Erotizado? É impossível evitar isso se tratando de Zac Efron. A câmera não resiste. E eu sou gay!”, defendeu o diretor Lee Daniels, em uma entrevista após a exibição de seu mais novo longa-metragem, Obsessão, no 65º Festival de Cannes. O diretor rebatia os comentários sobre a excessiva fetichização de Zac no filme em questão, onde o ator volta e meia transita descamisado ou apenas de cueca em cenas que não tinham muita relevância para a trama ou para a contextualização da época.  A justificativa de Lee Daniels para o fato da câmera não resistir ao corpo de Efron só é uma pequena prova da sua total incapacidade de saber discernir o que é fetiche pessoal e o que é dar personalidade a uma obra cinematográfica. E Zac em si é o menor dos problemas: em Obsessão, o diretor quer, a todo custo, mostrar que tem algum estilo. Com isso, ele se descontrola em cenas onde a erotização se confunde com o mau gosto e as rimas visuais só tornam o filme ainda mais sujo e bagunçado.

Já não é lá muito original contar uma trama a partir da narração de alguém relembrando o passado. Essa ferramenta raramente amplia a dramaticidade da história e é frequentemente mal conduzida, sendo esquecida ao longo do filme ou inconveniente ao verbalizar situações e sentimentos que ficariam melhores no silêncio ou na subjetividade. Obsessão é mais um caso onde a narração não serve para nada. E ela também não ajuda o espectador a descobrir sobre o que é o filme roteirizado por Lee Daniels e Pete Dexter (com base no livro homônimo do segundo). Quando começa, dá a impressão de ser sobre o dia-a-dia e as descobertas de um adolescente com hormônios em ebulição (Jack, vivido por Efron). Minutos depois, apresenta uma trama de investigação envolvendo um crime mal resolvido. Logo, preocupa-se mais em mostrar as loucuras da excêntrica Charlotte (Nicole Kidman). E, finalmente, no meio disso tudo, faz um rascunho do racismo na década de 1960, traz pitadas de dramas familiares e desenvolve a paixonite de Jack por Charlotte. Obsessão, porém, é ineficiente em todas as suas investidas. O roteiro atira para todos os lados e não acerta em nada, sendo sempre muito superficial e bagunçado.

Digamos que o roteiro pode até ter grande parcela de culpa nesse caráter inconstante e disléxico de Obsessão, mas nada se compara ao pavoroso trabalho de Lee Daniels como diretor. Se Tom Ford fez um belo trabalho ao homoerotizar Direito de Amar com elegância e sutileza, Daniels, em contrapartida, já se mostra completamente incapaz de fazer o mesmo – ou de ser, no mínimo, apenas previsível. O sexo é sempre sujo – em Preciosa – Uma História de Esperança fazia sentido, aqui não – e a história parece apenas um pretexto para que o diretor explore suas fantasias técnicas e sexuais. Pelo menos dois momentos marcam essas terríveis investidas de Daniels. Primeiro, a cena em que Nicole Kidman se masturba na frente de quatro homens para satisfazer o seu “namorado” que está preso e não pode ter qualquer contato físico com ela. Marca porque não é uma cena que apenas sugere: ela faz questão de mostrar pequenos detalhes sórdidos, como Matthew McConaughey, por exemplo, ajeitando a calça para esconder sua ereção. Segundo, a já famosa cena da praia, onde Zac Efron, após ser queimado por várias águas-vivas no mar, é milagrosamente salvo pela urina de Nicole Kidman que é colocada em contato com o seu corpo. O mais preocupante no segundo exemplo é como o momento não diz absolutamente nada: é um devaneio avulso do diretor.

Trazendo e retomando personagens quando bem entende sem qualquer preocupação com uma continuidade, Obsessão falha até em fazer o retrato de um local e de uma época. Como é a cidade onde o filme é passado? Qual o perfil da população? Quais são os hábitos daquela época? Como se dá a tão comentada profissão de jornalista? Mas se o filme não consegue nem se decidir sobre o que vai contar ao longo de toda a sua cansativa duração, como podemos exigir que ele faça um recorte como esse? Tão preocupado em desenvolver mais seus cacoetes do que uma história propriamente dita, o roteiro de Daniels e Dexter, muitas vezes, ainda chega a brincar com o bom senso do espectador: é particularmente absurdo o momento em que um personagem, após a salvar a vida de seu irmão que acabara de ser torturado (incluindo com um rosto mutilado), resolve transar, na cena seguinte, com a maior facilidade, alegria e excitação, anulando completamente o choque, as lágrimas e o trauma de segundos antes.

O que existe de melhor em Obsessão é, sem dúvida, a presença de Nicole Kidman. A atriz, que, possivelmente, nunca esteve tão linda no cinema, é o destaque do longa com a personagem que construiu, seja pelo visual estonteante, pelo discreto sotaque ou por todas as suas excentricidades. Mas arrisco a dizer que ela não vai além dessa composição curiosa, inclusive porque o filme não lhe dá muitas chances com uma personagem que oscila entre extremos de relevância e não tem tantas variações. Dentro das limitações, entretanto, ela se sai bem. Quanto ao resto do elenco: continuo colocando fé em Zac Efron, ator que ainda precisa provar ser mais que um rosto bonito, mas que já é melhor que um Robert Pattinson da vida; John Cusack, achando que estar descabelado é sinônimo de parecer louco, está exagerado e aparece pouco para conseguir fazer um trabalho melhor; e Matthew McConaughey tem um personagem tão bagunçado que nem dá para avaliar muito bem sua performance. Só que a culpa toda mesmo é de Lee Daniels, diretor que precisa urgentemente rever seus conceitos sobre como desenvolver uma trama – o que está bem resumido no desfecho de Obsessão: com o cafona barquinho que se distancia da câmera em um rio com a luz do pôr-do sol ao fundo, já nem sabemos mais o que foi encerrado… A não ser, claro, a nossa tortura de ver um filme tão perdido.

FILME: 3.0

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