Cinema e Argumento

Rapidamente

Em Burton e Taylor, Helena Bonham Carter e Dominic Weston interpretam o célebre casal Elizabeth Taylor e Richard Burton

Em Burton e Taylor, Helena Bonham Carter e Dominic West interpretam o célebre casal Elizabeth Taylor e Richard Burton

BURTON E TAYLOR (Burton and Taylor, 2013, de Richard Laxton): Produção da BBC, Burton e Taylor narra o conturbado relacionamento entre o célebre casal Richard Burton (Dominic West) e Elizabeth Taylor (Helena Bonham Carter), focando-se no espaço de tempo em que os dois dividiram pela última vez a cena de uma ficção: no caso, a peça de teatro Private Lives. Era de se esperar que o filme de Richard Laxton fosse menos… TV aberta. Extremamente objetivo, Burton e Taylor é bastante simplista no uso da trilha – que sempre acentua comicamente a excentricidade de um momento ou a baixa de um momento dramático – e na forma quase extrema como desenvolve seus personagens: enquanto Burton é o ator íntegro e sério que resolveu muito bem sua separação com a ex-companheira, Taylor é mimada, vive se atrasando para as apresentações e cai no estereótipo de mulher magoada que não aceita estar longe do homem que ama. Pode ser que tudo isso seja realmente verdade, mas, como o filme aponta no começo, o roteiro é baseado ajusta fatos para efeitos dramáticos. Nesse sentido, então bem que poderiam ter tornado esse retrato mais complexo. Bonham Carter (figura forte e quase indissociável demais para o papel, mas bastante digna) e Dominic Weston dão a simpatia necessária para o filme, que, no final das contas, só tem essa decepção de ser menos marcante e revelador do que poderia ser. Aqui no Brasil, a HBO exibe Burton e Taylor no dia 1º de março, às 22h.

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (Don Jon, 2013, de Joseph Gordon-Levitt): Joseph Gordon-Levitt deve ter feito esse filme para dar uns amassos em Scarlett Johansson e Julianne Moore. Só isso para explicar o tempo investido nesse Como Não Perder Essa Mulher, comédia sobre um jovem viciado em pornografia. E uma comédia careta, quase chata. Não existe qualquer nudez aqui e o as insinuação mais fortes do tema logo já são colocadas de escanteio por Levitt. Algo meio incoerente com o assunto que vende. Nada tem muita graça aqui, especialmente porque o principal conflito do filme é batido: o solteiro convicto que transa com todas as garotas e que tenta mudar seus hábitos quando encontra a mulher ideal (leia-se Scarlett usando todas as maquiagens e roupas necessárias para representar tal figura). A figura de Joseph Gordon-Levitt também já começa como um certo empecilho: ele sempre foi o jovem querido e simpático (algo muito bem explorado em (500) Dias Com Ela) e não esse musculoso pegador que vemos aqui. Ainda com diretor e roteirista do longa, ele não corresponde, apresentando uma história fraquíssima e um roteiro praticamente sem propósito. E o pior: Como Não Perder Essa Mulher também fica devendo como diversão. Falta sexo, originalidade e uma boa risada.

UM DIA NA VIDA (idem, 2010, de Eduardo Coutinho): Poucos dias depois da trágica morte de Eduardo Coutinho, começou a circular pela internet a oportunidade inédita de assistir a esse Um Dia na Vida – que, até então, só havia sido exibido uma única vez em 2010, sem ganhar chance no circuito comercial devido a questões de direitos autorais. O motivo é simples para essa ausência: Um Dia na Vida é a compilação de imagens da TV aberta que Coutinho capturou durante um dia. Programas e comerciais da Globo, SBT e Band, entre outras emissoras, ilustram esse filme, que chega a ser uma espécie de Koyaanisqatsi sobre a televisão brasileira. Ou seja, nada de entrevistas, narrações ou recursos tão presentes nos documentários. É, basicamente, uma sequência de imagens que falam por si só. E, assim como no filme de Godfrey Reggio, o resultado – por incrível que pareça – é hipnotizante. Quando larguei minha relação com a TV (hoje sequer consigo ficar poucos minutos assistindo a programas de canais abertos), não havia necessariamente racionalizado o porquê desse distanciamento. Até conferir Um Dia na Vida. Lá em 2009, quando registrou as imagens, Coutinho já indicava como a programação aberta do Brasil não é nada instrutiva e como ela só gira em torno de futilidades, valores errados, exploração da desgraça alheia e formas de arrancar o dinheiro do espectador. Um experimento que infelizmente ainda é atual.

O PASSADO (Le Passé, 2013, de Asghar Farhadi): Aqui no Brasil, integrou a programação do Festival Varilux de Cinema Francês 2013 e, comercialmente, tem previsão de estreia para 16 de maio. Mas, sinceramente, é bom não criar muitas expectativas, especialmente se você é grande fã de A Separação. Falta em O Passado justamente aquele dinamismo que Asghar Farhadi imprimiu em seu filme anterior. Tudo nesse seu novo longa faz justamente o oposto: o ritmo é maçante, a história tem problemas de foco e o resultado final está bem longe de sequer empolgar. Fica muito claro que o roteiro é um problema, já que, a partir da metade, O Passado inverte completamente a abordagem da sua trama e se transforma em um filme completamente diferente. Com isso, o resultado só tem a perder, já que tudo fica meio sem compasso e a mudança brusca da trama nunca tem efeitos dramáticos que justificam a escolha. Foi particularmente decepcionante e cansativo acompanhar esse longa (poucas vezes nos últimos anos uma história me pareceu tão sem ritmo), já que, além de tudo, Bérénice Bejo não sustenta o papel (sabe-se lá o porquê de ela ter vencido Cannes por essa interpretação repetitiva e sem criações). Faltou aquela visceralidade narrativa que fez de A Separação uma das melhores experiências de seu respectivo ano.

Três atores, três filmes… com Maria do Rosário Caetano

rosariotresConheci a Maria do Rosário Caetano em 2012, quando estive pela primeira vez na assessoria de imprensa do Festival de Cinema de Gramado. E devo confessar que logo de cara já virei fã dela, que é uma profunda conhecedora do cinema brasileiro e uma figura sempre cativante nos debates do evento. Integrante da equipe da Revista de Cinema e do semanário Brasil de Fato, além de autora do blog Almanakito, Rosário fez uma excelente seleção para o Três atores, três filmes, contemplando atores franceses, estadunidenses e brasileiros das mais variadas gerações. A lista tem muito mais do que três escolhas, mas o avanço no número estabelecido pela seção está plenamente justificado, com uma relação de dicas que pode muito bem servir de guia para todo e qualquer cinéfilo. Fiquem, abaixo, então, com as sábias escolhas da Rosário!

Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor) e Philip Seymour Hoffman (Capote)
Há filmes que não figuram em nossas listas de obras imperdíveis, mas que revemos sempre que eles cruzam nosso caminho (na TV, por exemplo). Este é o caso de Piaf – Um Hino ao Amor, produção francesa protagonizada por Marion Cottillard . E também de Capote, no qual brilha o agora saudoso Philip Seymour Hoffman. Estes dois atores estão tão magistrais nestes filmes – ambos lhes renderam o Oscar de melhores intérpretes – que os revemos para presenciar, mais uma vez, a imensa riqueza de suas composições. Sempre descobrimos uma nuance, um novo sinal de como são talentosos, sensíveis, arrebatadores. Ainda não revi Capote depois da trágica (e precoce) morte de seu protagonista. Sei que, quando isto acontecer, a emoção será ainda maior. Por isto, recomendo aos leitores do blog do Cinema e Argumento que leiam, no caderno Aliás, do Estadão (10/02/2014), o excelente artigo de Lee Siegel sobre a trajetória dos grandes atores, seres que nos parecem tão fortes, mas que são também frágeis como muitos de nós.

Matheus Nachtergaele e Selton Mello (O Auto da Compadecida)
O trabalho de Matheus Nachtergale e Selton Mello em O Auto da Compadecida é algo mágico. A química entre os dois é perfeita. O tempo do humor que eles assumiram ao recriar, no cinema, a peça de Ariano Suassuna é infinitamente mais potente que o das versões anteriores do filme (a de George Jonas, com Armando Bogus e Antônio Fagundes) e mesmo a dos Trapalhões, dirigida por Roberto Farias. Matheus e Selton são coadjuvados por um elenco de ponta (Fernanda Montenegro, o saudoso Rogério Cardoso, Lima Duarte, Denise Fraga, Marco Nanini, Diogo Vilella, Maurício Gonçalves, entre muitos outros). Mas o filme é deles, Matheus e Selton, que nos fascinam a cada instante, a cada sequência. Concordo com Daniel Filho quando ele diz que este filme é “o verdadeiro milagre da Compadecida”. Fez sucesso na TV como microssérie, fez sucesso nos cinema, como filme (mesmo depois de exibido em capítulos e em bom horário na Rede Globo) e ainda nos encanta, a cada reprise no Canal Brasil. Ariano Suassuna e Guel Arraes têm muita responsabilidade pelo sucesso desta terceira adaptação cinematográfica do texto do dramaturgo paraibano-pernambucano. Mas a verdadeira causa do estouro deste filme tem nome: a dupla Matheus “João Grilo” Nachtergaele & Selton “Chicó” Mello.

José Dumont (Narradores de Javé)
Tenho imenso carinho e interesse por Narradores de Javé, ótimo filme de Eliane Caffé, escrito em parceria com o grande dramaturgo Luiz Alberto de Abreu. O filme, que reúne grandes atores como Luci Pereira, paraibana retada, Maurício Tizumba, Gero Camilo, Ruy Rezende, etc, tem um mestre de cerimônia de talento ímpar: José Dumont. Ele, que brilhara em O Homem Que Virou Suco faz barba-cabelo-e-bigode no filme em que interpreta um homem que escrevia a lápis: Antônio Biá. Um “chaplin brasileiro”, que faz de seu corpo o que quer. E o que nós queremos ver e rever, infinitas vezes. Grande Zé do monte paraibano!

* OUTROS GRANDES ATORES
A lista está ficando grande. Já passei das três indicações solicitadas. Mas listo a seguir atores que arrebentaram em filmes que devem muito a eles: Fernanda Montenegro em A Falecida; Paulo José e Helena Ignez em O Padre e a Moça; Jardel Filho e Paulo Autran, exasperados, em Terra em Transe; Leila Diniz em Todas Mulheres do Mundo; Paulo Villaça e Helena Ignez em O Bandido da Luz Vermelha; José Wilker em Os Inconfidentes; Darlene Glória, em Toda Nudez Será Castigada; Milton Gonçalves, magnífico e arrebatador na pele de A Rainha Diaba; Lima Duarte em Sargento Getúlio; Lázaro Ramos em Madame Satã; João Miguel em Cinema, Aspirina e Urubus; Fernandinha Torres em A Marvada Carne; Ana Lúcia Torre em Reflexões de um Liquificador; Wagner Moura em Tropa de Elite I e II; a trinca de “Filme de Amor”, de Bressane (Bel Garcia, Josi Antelo e Fernando Eiras); e, claro, o elenco infantil e juvenil de Cidade de Deus (em especial Leandro “Dadinho é o Caralho” Firmino da Hora).

BAFTA 2014: vencedores

Emma Thomspon entregou o prêmio de melhor ator coadjuvante ao somali Barkhad Abdi (Capitão Phillips), em um dos melhores momentos da cerimônia

Emma Thomspon entregou o prêmio de melhor ator coadjuvante ao somali Barkhad Abdi (Capitão Phillips), em um dos melhores momentos da cerimônia

Foi no mínimo estranho acompanhar a cerimônia do BAFTA neste domingo (16). Com a total escalada de Gravidade (foram, ao total, seis prêmios: filme britânico, direção, efeitos visuais, fotografia, som e trilha sonora), era de se esperar que o filme do mexicano Alfonso Cuarón ganhasse também a categoria principal. Isso se deve ao fato não só de Gravidade ter dominado a atenção dos prêmios técnicos mas ao favorito 12 Anos de Escravidão ter sido lembrado apenas na categoria de melhor ator, onde Chiwetel Ejiofor ganhou talvez pela ausência de Matthew McCounaghey (Clube de Compras Dallas não entrou em cartaz a tempo nos cinemas britânicos para concorrer ao BAFTA). Estranhamente, mesmo apenas com a estatueta de ator, o filme de Steve McQueen foi vitorioso na categoria principal.

Ainda é difícil crer que esse cenário se repetirá no Oscar. Afinal, é preciso revirar o baú de vencedores para lembrar a última vez que o melhor filme não ganhou sequer um prêmio de direção, montagem ou roteiro (se alguém tiver esse dado, por favor, compartilhe!). O mais lógico seria ver 12 Anos de Escravidão totalmente ignorado em prol de Gravidade, que é, com certeza, o filme que mais terá prêmios em seu currículo na cerimônia da Academia. Se você considera o BAFTA um prêmio que influencia o Oscar, então pelo menos duas categorias ficaram mais confusas: Jennifer Lawrence foi eleita a melhor atriz coadjuvante (ela não venceu ano passado por O Lado Bom da Vida), ainda que uma segunda vitória consecutiva no Oscar pareça improvável; Trapaça, sem a presença do favorito Ela (que também não estreou a tempo), levou roteiro original, o que pode ser uma forma de compensar – injustamente – o filme de David O. Rusell de alguma forma.

No mais, o BAFTA continuou reforçando sua sabedoria de escolhas e sua capacidade de surpreender (sem ser necessariamente injusto). Com Jared Leto fora, premiaram certeiramente Barkhad Abdi, ótimo em Capitão Phillips. Para o novato – que dificilmente seguirá carreira no cinema – a distinção deve ter tido um gosto muito especial. “Obrigado, Paul Greengrass, por ter acreditado em mim antes de eu mesmo acreditar”, agradeceu Abdi ao diretor. Rush – No Limite da Emoção, que passou em branco no Oscar, faturou melhor montagem, e Emmanuel Lubezki levou mais um prêmio de melhor fotografia por um filme de Cuarón (anos atrás por Filhos da Esperança e agora por Gravidade).

O auge da cerimônia, no entanto, foi o emocionante discurso de Cate Blanchett, eleita melhor atriz por Blue Jasmine. Ela não falou sobre Woody Allen. Nem sobre Sally Hawkins. Aliás, não homenageou ninguém do filme. A única lembrança de Blanchett em seu discurso foi para Philip Seymour Hoffman. O depoimento da atriz em homenagem ao amigo segue abaixo, na íntegra, em tradução literal, junto com a lista completa de vencedores.


“Eu queria dedicar esse prêmio a um ator que tem sido uma contínua e profunda inspiração para mim. Uma presença monumental que agora está tão tristemente ausente: o grande Philip Seymour Hoffman. Phil, o seu talento monumental, a sua generosidade e a sua incansável busca pela verdade na arte e na vida farão falta não apenas para mim, mas para muitas pessoas. Não só aqui nesse teatro ou na indústria, mas para os espectadores que te amam tão carinhosamente. Você elevou o padrão continuamente, e a um padrão tão alto… Tudo o que podemos fazer, em sua ausência, é tentar dar sequência a isso por meio do nosso trabalho. Phil, meu amigo, isso é para você! Seu desgraçado, espero que você esteja orgulhoso!”
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BAFTA 2014 – OS VENCEDORES:

MELHOR FILME: 12 Anos de Escravidão

MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Gravidade)

MELHOR ATRIZ: Cate Blanchett (Blue Jasmine)

MELHOR ATOR: Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jennifer Lawrence (Trapaça)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Barkhad Abdi (Capitão Phillips)

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: A Grande Beleza (Itália)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Trapaça

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Philomena

MELHOR FILME BRITÂNICO: Gravidade

MELHOR DOCUMENTÁRIO: O Ato de Matar

MELHOR ANIMAÇÃO: Frozen – Uma Aventura Congelante

MELHOR MAQUIAGEM: Trapaça

MELHOR MONTAGEM: Rush – No Limite da Emoção

MELHOR FOTOGRAFIA: Gravidade

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: O Grande Gatsby

MELHOR SOM: Gravidade

MELHOR FIGURINO: O Grande Gatsby

MELHORES EFEITOS VISUAIS: Gravidade

MELHOR TRILHA SONORA: Gravidade

MELHOR ATOR/ATRIZ EM ASCENSÃO: Will Poulter

BAFTA 2014: apostas

bafta

Hoje é dia de conhecer os vencedores do BAFTA. A premiação tem tudo para embolar a disputa em três importantes categorias: melhor ator, ator coadjuvante e roteiro original, já que Clube de Compras DallasEla não concorrem ao prêmio por ainda não terem entrado em cartaz nos cinemas britânicos. Confira aqui a lista completa de indicados e abaixo as nossas apostas!

MELHOR FILME: 12 Anos de Escravidão / alt: Gravidade

MELHOR FILME BRITÂNICO: Gravidade / alt: Philomena

MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Gravidade) / alt: Steve McQueen (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ATRIZ: Cate Blanchett (Blue Jasmine) / alt: Judi Dench (Philomena)

MELHOR ATOR: Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street) / alt: Bruce Dern (Nebraska)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão) / alt: Jennifer Lawrence (Trapaça)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão) / alt: Matt Damon (Minha Vida Com Liberace)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Blue Jasmine / alt: Nebraska

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: 12 Anos de Escravidão / alt: Philomena

Philomena

I forgive you because I don’t want to remain angry.

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Direção: Stephen Frears

Roteiro: Steve Coogan e Jeff Pope, baseado no livro “The Lost Child of Philomena Lee”, de Martin Sixsmith

Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Harrison D’Ampney, Peter Hermann, Sean Mahon, Anna Maxwell Martin, Michelle Fairley, Cathy Belton, Charlie Murphy

Reino Unido/EUA/França, Drama, 2013, 98 minutos

Sinopse: Irlanda, 1952. Philomena Lee (Judi Dench) é uma jovem que tem um filho recém-nascido quando é mandada para um convento. Sem poder levar a criança, ela o dá para adoção. A criança é adotada por um casal americano e some no mundo. Após sair do convento, Philomena começa uma busca pelo seu filho, junto com a ajuda de Martin Sixsmith (Steve Coogan), um jornalista de temperamento forte. Ao viajar para os Estados Unidos, eles descobrem informações incríveis sobre a vida do filho de Philomena e criam um intenso laço de afetividade entre os dois. (Adoro Cinema)

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Algumas histórias são tão boas que só mesmo um diretor tremendamente ruim para destruí-las. Já outras são tão suscetíveis a erros que precisam do diretor certo para funcionar. Philomena se encaixa nessa segunda categoria. É de se agradecer que o britânico Stephen Frears esteja capitaneando esse enredo protagonizado por Judi Dench. A razão é muito simples: a saga de Philomena (Dench) para encontrar o filho que lhe foi tirado em um convento há mais de 50 anos poderia cair no lugar-comum ou no excesso de melodramas caso comandada por um diretor qualquer. Não com Frears, realizador que sempre traz o que existe de mais especial entre os britânicos: discrição e sobriedade. Ao acompanhar a jornada da protagonista pelo filho perdido, portanto, não espere choros compulsivos ou diálogos de auto-ajuda. Philomena ganha o espectador com a simplicidade.

Sem realizar algo relevante desde 2006, quando entregou o elegantíssimo A Rainha, Frears agora vem com essa adaptação que ainda nos dá o privilégio de ter a veterana Judi Dench em um papel super especial. Não dá para falar Philomena sem começar por ela. Dench é a prova real de que, por mais que jovens como Jennifer Lawrence ganhem prêmios mundo afora e tenham amor e bilheteria de sobra do público, não existe nada como a experiência. Com um único olhar, um único gesto, Dench, em Philomena, deixa toda uma nova geração comendo poeira. Simplesmente adorável, ela reafirma sua capacidade de transitar entre os mais variados papeis. É surpreendente vê-la tão doce como a avó que todos nós gostaríamos de abraçar quando, nos últimos tempos, esteve tão firme como a solitária ensandecida de Notas Sobre Um Escândalo ou como a sagaz M da franquia 007. Um desempenho que tem tudo a ver com a proposta de Frears e que entende plenamente a figura que dá título à produção.

Falando em Philomena Lee, chegamos a esse que é um dos grandes trunfos do roteiro de Jeff Pope e Steve Coogan (que, ótimo, também divide a cena com Dench). Ao invés de mulher amargurada por ter o filho tirado de suas mãos por freiras em um convento onde foi colocada à força, ela é estranhamente leve, positiva e quase ingênua. Mais do que isso, é fascinante buscar os porquês de ela não ser uma detratora da religião, e sim uma cristã que segue à risca o cristianismo. E tudo se torna ainda mais interessante quando ela é colocada ao lado de Martin (Coogan), sujeito que se indigna com esses posicionamentos adotados por Philomena após uma traumática vida religiosa. Racional e prático, ele é o contraponto da protagonista. Ambos em uma jornada onde um ensina o outro. Mas nada piegas, e com um texto que não aposta no estereótipo da dupla de opostos que cai na estrada e se implica o tempo inteiro.

Em termos de desenvolvimento da trama, é importante ficar atento ao fato de que a resolução principal acontece lá pela metade, com o passado de Philomena também mostrado em menos de meia hora de filme (em flashbacks, o que funciona muito bem). Porém, se isso tinha tudo para ser um problema, não se engane: o filme não termina seu ciclo nesse momento e muito ainda tem a ser dito sobre a busca do filho perdido, só que por meio de outro ponto de vista – o que se revela ainda mais interessante do que poderia se esperar originalmente. A previsibilidade está uma vez ou outra instalada – claro que a protagonista não desistirá facilmente como o filme quer induzir e que a jornada não terminará com o primeiro obstáculo que surge no caminho – mas é impossível rivalizar com um resultado tão singelo e cuidadoso.

Philomena é realmente um filme feito de coração, protagonizado por uma atriz que não parece fazer um esforço sequer para ser adorável, crível e encantadora.  É do DNA dos britânicos a sobriedade, e Stephen Frears, como um dos expoentes deles, consegue concentrar essa característica em todas as escolhas do seu mais novo longa. Há quem diga que essa é uma história convencional, sem ousadias e até mesmo esquemática, mas se limitar a ver apenas isso e não a beleza humana do resultado é estar a um passo de ser como o próprio personagem Martin Sixsmith vivido por Coogan, que classifica histórias “humanas” como meros produtos rasos para pessoas ignorantes e tolas. Tomara que, após a sessão, esse público, assim como Sixsmith, seja capaz de se reinventar e passe a valorizar devidamente os relatos que possuem esse mesmo valor afetivo de Philomena

FILME: 8.0

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