Cinema e Argumento

Os vencedores do Oscar 2014

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Primeiramente, quero deixar bem claro que amo a Ellen DeGeneres. Mas ela me decepcionou profundamente na noite deste domingo (02) como apresentadora do Oscar 2014. Esse seu humor educado e quase inocente tinha funcionado anos atrás, mas o que vimos na cerimônia de ontem foi pura repetição. Essa questão das fotos com os artistas ela mesma já tinha feito anteriormente e não lembro praticamente de nenhum momento genuinamente interessante dela sem a presença das estrelas presentes no Dolby Theatre. Claro que a foto que ilustra esse post fica como um dos mais maravilhosos registros dos últimos anos. Mas por que mesmo? Ora, porque todo o PIB de Hollywood se juntou em uma imagem. Falta aqui a ousadia de Tina Fey e Tina Poehler, que são, sem exageros, as melhores escolhas dos últimos anos.

A cerimônia em si? Bateu recordes de tédio. De cara não entendi a decoração com Oscars de plástico e mais adiante o gigante fundo floreado com rosas. Certamente a decoração mais pobre que vi desde que passei a acompanhar a cerimônia. A homenagem aos herois? Outra pobreza. De ideias e de execução. O que foi mesmo aquele vídeo que o Jim Carrey apresentou de animações? Acho que até eu consigo fazer algo mais interessante no Windows Movie Maker aqui em casa. Sobre a enrolação prefiro nem me repetir. Ela não tem fim. Quanto aos prêmios, bati meu recorde de acertos em apostas: apenas um erro, e ainda em uma categoria que só errei por teimosia (montagem). Tantos acertos têm uma razão: é só seguir a matemática, Oscar não tem mais surpresas. A edição de 2014 selou isso de uma vez por todas. No final das contas, vibrei mais com o total esquecimento de Trapaça e as derrotas do U2 e da Jennifer Lawrence do que com a maioria das vitórias.

Entretanto, não dá para falar mal da previsibilidade, já que quase todos os prêmios foram muito bem distribuídos. Gravidade foi o grande vencedor com sete prêmios (faltou apenas o de melhor filme), enquanto 12 Anos de Escravidão foi o filme do ano, levando também atriz coadjuvante (um dos melhores momentos da cerimônia) e roteiro adaptado. Cate Blanchett continuou soberana e humilhou meio mundo com sua beleza e elegância ao receber um merecido segundo Oscar, Pharell Williams teve a melhor apresentação musical da noite (já que Let it Go, mesmo vencendo, não foi nada inspirada) e Eduardo Coutinho foi dignamente lembrado no In Memoriam. Meu momento preferido, no entanto, foi o discurso de Jared Leto. Quem diria que aquele ser estranho que falou até sobre depilação em um discurso bizarro no Globo de Ouro conseguiria falar coisas tão belas, sensatas e reflexivas? Bom, nos vemos novamente ano que vem. Até o Oscar 2015! Abaixo, a lista completa de vencedores.

MELHOR FILME12 Anos de Escravidão

MELHOR DIRETOR: Alfonso Cuarón (Gravidade)

MELHOR ATRIZ: Cate Blanchett (Blue Jasmine)

MELHOR ATOR: Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jared Leto (Clube de Compras Dallas)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO12 Anos de Escavidão

MELHOR ROTEIRO ORIGINALEla

MELHOR FIGURINOO Grande Gatsby

MELHOR MAQUIAGEMClube de Compras Dallas

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃOMr. Hublot

MELHOR ANIMAÇÃOFrozen – Uma Aventura Congelante

MELHORES EFEITOS VISUAISGravidade

MELHOR CURTA-METRAGEMHelium

MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIOThe Lady in Number 6: Music Saved My Life

MELHOR DOCUMENTÁRIOA Um Passo do Estrelato

MELHOR FILME ESTRANGEIROA Grande Beleza (Itália)

MELHOR MIXAGEM SOMGravidade

MELHOR EDIÇÃO DE SOMGravidade

MELHOR FOTOGRAFIAGravidade

MELHOR EDIÇÃOGravidade

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOO Grande Gatsby

MELHOR TRILHA SONORAGravidade

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante)

Oscar 2014: apostas

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Hora de ir direto ao assunto. Dia de Oscar! A cerimônia, que tem como apresentadora a comediante Ellen Degeneres, será transmitida aqui no Brasil somente pela TNT, a partir das 20h30 com o tapete vermelho. Confira abaixo as nossas apostas!

MELHOR FILME

Quem vence: 12 Anos de Escravidão, porque é o que a matemática aponta

Fique de olho em: Gravidade, o único que pode surpreender

Quem merece: Gravidade, pela excelência e pelo legado que deixa

MELHOR DIREÇÃO

Quem vence: Alfonso Cuarón, não tem como ser diferente

Fique de olho em: Steve McQueen, caso queiram contrariar o mundo inteiro

Quem merece: Alfonso Cuarón, que faz algo sobrenatural em Gravidade

MELHOR ATRIZ

Quem vence: Cate Blanchett, a unanimidade do ano

Fique de olho em: Amy Adams, só para dizer que coloquei uma alternativa

Quem merece: Cate Blanchett, Cate Blanchett, Cate Blanchett!

MELHOR ATOR

Quem vence: Matthew McCounaghey, que tem uma fórmula infalível

Fique de olho em: Leonardo DiCaprio, porque vai que dessa vez dá…

Quem merece: Chiwetel Ejiofor, que só não ganha por causa do nome e da falta de apelação

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Quem vence: Lupita Nyong’o, porque Jennifer Lawrence não merece um segundo Oscar tão cedo

Fique de olho em: Jennifer Lawrence, já que aparentemente é a estrela da década

Quem merece: Sally Hawkins, a mais incompreendida entre as indicadas

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Quem vence: Jared Leto, que está travestido, mais magro, etc…

Fique de olho em: Barkhad Abdi, o único azarão que pode surpreender

Quem merece: Leto, Abdi ou Fassbender, todos mais ou menos no mesmo nível

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Quem vence: Ela, que só vai levar esse prêmio

Fique de olho em: Trapaça, se quiserem dar algo de consolação para o filme

Quem merece: ElaNebraska ou Blue Jasmine. Ficaria feliz com qualquer um.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Quem vence: 12 Anos de Escravidão, uma das poucas categorias em que tem chances reais de vencer

Fique de olho em: Philomena, que já ganhou no Festival de Veneza e no BAFTA

Quem merece: Antes da Meia-Noite, que já me deixa melancólico só de lembrar

** como não vi alguns indicados das categorias abaixo, seguem apenas as apostas (excetuando curtas e documentário)

MELHOR ANIMAÇÃOFrozen – Uma Aventura Congelante / alt: Vidas ao Vento

MELHOR FILME ESTRANGEIROA Grande Beleza / alt: A Caça

MELHOR FOTOGRAFIAGravidade / alt: Os Suspeitos

MELHOR MONTAGEMCapitão Phillips / alt: 12 Anos de Escravidão

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOO Grande Gatsby / alt: Ela

MELHOR TRILHA SONORAGravidade / alt: Ela

MELHOR FIGURINOO Grande Gatsby / alt: Trapaça

MELHOR MAQUIAGEMClube de Compras Dallas / alt: O Cavaleiro Solitário

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante) / alt: “Ordinary Love” (Mandela: Long Walk to Freedom)

MELHOR MIXAGEM DE SOMGravidade / alt: Capitão Phillips

MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Gravidade / alt: Capitão Phillips

MELHORES EFEITOS VISUAISGravidade / alt: Além da Escuridão – Star Trek

Oscar 2014 – Filme

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Desde 1999, quando Shakespeare Apaixonado faturou o Oscar de melhor filme, um vencedor desta categoria não sai da festa com pelo menos um prêmio de roteiro, montagem ou direção. Por isso é no mínimo estranho toda a certeza para a vitória de 12 Anos de Escravidão, uma vez que ele só é franco favorito na categoria principal. Shakespeare Apaixonado, por exemplo, tinha a seu favor a badalação de Gwyneth Paltrow e Judi Dench. Mas nem isso o filme de Steve McQueen tem, uma vez que Lupita Nyong’o disputa até o último minuto a categoria de melhor atriz coadjuvante com Jennifer Lawrence.

Porém, se existe algo que aprendi com o Oscar é não brigar com a matemática. Até porque ano passado a cerimônia quebrou vários jejuns, inclusive o de consagrar Argo em melhor filme mesmo sem indicá-lo em direção (o que não acontecia desde os anos 1980, quando Conduzindo Miss Daisy passou pela mesma situação). No fundo, acho que deve dar Gravidade, que indiscutivelmente será o maior vencedor da noite em número de estatuetas (direção, trilha, fotografia, edição de som, mixagem de som, etc), mas vou pelo mais óbvio, já que essa foi a lógica que passou a reinar na cerimônia desde que todos rejeitaram largamente a surpresa de Crash – No Limite como melhor filme.

Por incrível que pareça, este é um ano quase impossível de apontar graves injustiças na categoria principal. Desde que a seleção passou de cinco para até dez filmes, o Oscar só amargou listas fraquíssimas e que davam títulos de “indicado ao Oscar de melhor filme” para longas que não chegavam nem perto de merecê-lo. Não em 2014. Claro que Trapaça, por exemplo, está erroneamente indicado em função do buzz descontrolado que David O. Rusell acumulou nos últimos anos, mas, no geral, todos os exemplares possuem suas singularidades. Assim como em outras categorias, se alguém ficou de fora, não foi por injustiça, mas sim sim por falta de espaço mesmo. Que continue assim nos próximos anos!

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12 ANOS DE ESCRAVIDÃO: Entendo perfeitamente a comoção e o envolvimento com esse drama de Steve McQueen, mas não fui um dos surpreendidos. O elenco faz um excelente trabalho (Chiwetel Ejiofor, especialmente), o diretor traz a escravidão por meio de um ponto de vista diferenciado e a narrativa do filme está longe de ser a que estamos acostumados a ver em filmes do gênero. Só que 12 Anos de Escravidão me conquistou muito mais pelo valor social e humano do que por seu resultado cinematográfico. Estranhamente, como já mencionado, ganhou todos os prêmios de melhor filme da temporada mesmo sem levar qualquer outra estatueta de roteiro, direção ou montagem. Vamos ver no que vai dar…

CAPITÃO PHILLIPS: Paul Greengrass é o diretor que não estoura nas bilheterias mas é o que todos copiam infinitamente. As razões de seu estilo reverberar em tantas outras cópias inferiores estão em Capitão Phillips, um filme que mostra sua habilidade de trazer tensão com puro realismo, sem apelar para artifícios duvidosos ou mirabolantes. A história vai amortecendo sua constante agonia depois da metade, mas os desempenhos de Tom Hanks (com pelo menos duas cenas marcantes) e Barkhad Abdi, bem como o trabalho de Greengrass com o sempre ótimo montador Christopher Rouse, nunca deixam o filme perder o fôlego por completo. No ano que David O. Ruell não deveria – novamente – estar concorrendo, Greengrass poderia ter ficado com a vaga.

CLUBE DE COMPRAS DALLAS: Está aqui pela força dos atores e pela relevância do tema mais do que por qualquer outro mérito. Gosto da forma como o filme de Jean-Marc Vallée lida com a questão da AIDS sem estereótipos ou melodramas, mas a história é um tanto mal resolvida em seu foco: percebam como até a metade é sobre a autoaceitação de Ron (Matthew McCounaghey) para depois se tornar quase que exclusivamente um estudo formal sobre as pesquisas da AIDS nos anos 1980. Junto com Trapaça, é um dos longas que menos merecia estar aqui. Só que repetindo: foram os atores que trouxeram Clube de Compras Dallas a esse patamar – o que torna sua presença aqui nada surpreendente.

ELA: É o filme que corre por fora – até mais que Clube de Compras Dallas -, e manteve esse mesmo título durante toda a temporada de premiações. Mesmo que favorito ao Oscar de roteiro original, não tem qualquer outra chance nas demais categorias. É a primeira grande celebração para um filme de Spike Jonze, que realizou, em Ela, o seu trabalho mais melancólico e intimista. Não seria o caso de ser um longa indicado caso existissem apenas cinco concorrentes como antigamente, mas certamente merecia figurar em outras categorias – como ator, por exemplo, onde Joaquin Phoenix deveria ser lembrado em função de mais um desempenho super especial.

GRAVIDADE: Mais do que um filme espetacular, Gravidade deixa um enorme legado. Não só em termos de histórias passadas no espaço (câmera sem eixo, atenção aos detalhes científicos, etc), mas no que se refere a como a tecnologia pode estar a favor de uma história e de uma escala de emoções – não servindo apenas como pretexto para explosões e suspense. Chega a ser emocionante ver a perfeição técnica, as inventividades da direção de Alfonso Cuarón e a própria performance de Sandra Bullock (cada vez mais decidida a mostrar o quão prematuro foi seu Oscar por Um Sonho Possível). É o filme de maior aceitação entre os indicados – e também o de maior bilheteria -, o que pode merecidamente pesar a seu favor.

O LOBO DE WALL STREET: Era esperado que  O Lobo de Wall Street fosse ignorado pelos votantes devido a uma forte campanha contra o filme, que foi acusado de ser uma celebração à imoralidade. Quanta bobagem! Sorte que o Oscar não comprou essa ideia maluca e abraçou o filme, que é o melhor Scorsese em anos. Todo o seu estilo está aqui, em uma história de corrompimento humano que também traz Leonardo DiCaprio em um grande momento. Pelo menos para mim, as três horas de duração não foram um problema significativo e o resultado ficou bem acima de qualquer preguiça que elas poderiam indicar. O Lobo de Wall Street é, no entanto,um filme dessa principal seleção que sairá da festa de mãos abanando.

NEBRASKA: É o menos badalado entre os nove indicados, tanto em termos de repercussão de público e crítica quanto em número de prêmios. Nebraska está destinado a sair do Oscar 2014 sem um Oscar sequer. E pior: também deve ser aquele longa que todos deixarão para ver por último – se assistirem, claro. O que é de se lamentar, já que é o melhor trabalho de Alexander Payne em anos. Minucioso e magnífico ao contar momentos da vida de pessoas como todos nós, Nebraska é uma aula de sutilezas. Um pequeno grande filme que merecia muito ter uma visibilidade mais ampla.

PHILOMENA: É o pequeno filme que conseguiu estar entre os grandes quando isso não era necessariamente esperado em função de seu perfil. Philomena sofre preconceitos em função de sua história singela, de sua discrição e da sua lógica de que histórias não precisam de grandes acontecimentos para conquistar. É o típico caso “não acontece nada nesse filme” ou “não é nada demais”. Que bom que os votantes não caíram nessa incompreensão e celebraram devidamente o longa de Stephen Frears. Uma história minuciosa e muito feliz ao construir a personalidade de sua protagonista, com muitas surpresas e também um refinado andamento a uma trama que tinha tudo para ser novelesca.

TRAPAÇA: São dez indicações ao Oscar 2014, mas isso não quer dizer muito, já que metade é bastante discutível. Ainda me incomodo com o fato de Trapaça plagiar tantos diretores e filmes, o que tira por completo qualquer boa vontade que eu poderia ter com David O. Rusell – que ainda não me convenceu depois de tantas celebrações. Nesse filme, particularmente, ele está pouco inspirado apesar das tentativas, e – mais uma vez – é o elenco que consegue ser o ponto alto do resultado, assim como os figurinos (que podem surpreender na premiação). De resto, nada de muito especial ou digno de aplausos. Certamente, o pior longa da ótima seleção.

Oscar 2014 – Ator

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Um bom ano para os atores protagonistas, com representantes das mais variadas gerações e estilos de interpretação. Por isso, é um tanto frustrante que a disputa esteja tão definida para Matthew McCounaghey, o ator do momento que agora ainda vive uma era de sucesso na TV com True Detective, da HBO. Sua celebração, no entanto, não é nenhuma novidade, já que transformação física é ingrediente certo para prêmios. É praticamente impossível que ele perca o Oscar, mas, caso dê uma louca na Academia, tudo indica que seria finalmente o momento de Leonardo DiCaprio, uma ideia que me agrada bastante já que Chiwetel Ejiofor corre completamente por fora.

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BRUCE DERN (Nebraska): A sensibilidade com que Bruce Dern conduz o seu personagem é um dos pontos alto de Nebraska. Impressiona a forma como o ator interpreta um velhinho distante, quase surdo e frequentemente rabugento mas nunca cai em estereótipos – seguindo o exemplo de tudo o que Alexander Payne realiza na direção desse subestimado longa. É certo que celebrá-lo sem mencionar Will Forte (esse sim o protagonista de Nebraska) é um tanto errado, mas não quero contestar uma merecida lembrança para esse filme que passará em branco no Oscar.

CHIWETEL EJIOFOR (12 Anos de Escravidão): Para vocês verem como um nome complicado e uma carreira alternativa pesam na vida de um ator. Se fosse qualquer outra estrela no lugar de Ejiofor (um Denzel Washington da vida, por exemplo) entregando exatamente o mesmo desempenho, o favoritismo da categoria não seria tão evidente para McCounaghey. Em 12 Anos de Escravidão, o britânico Ejiofor dá um verdadeiro show como o sofrido Solomon. Da sobriedade ao choro, ele convence e emociona, dominando momentos de tirar o chapéu (a cena final particularmente me desmontou). Merecia ser o favorito.

CHRISTIAN BALE (Trapaça): Um dos atores mais versáteis de sua geração, Christian Bale volta a distribuir esse seu talento em Trapaça. Talvez seja a atuação mais criativa do decepcionante filme de David O. Rusell – o que, sinceramente, não diz muita coisa. De todos os indicados de 2014, esse seria o mais descartável da seleção. Assim como todo o elenco do longa, Bale alcança uma boa média e se comunica muito bem com os outros atores, mas nada tão digno de uma celebração como essa.

LEONARDO DICAPRIO (O Lobo de Wall Street): O destino está sendo cruel com Leonardo DiCaprio no Oscar. Astro e galã que se reinventou nos últimos anos, ele chega a sua quarta indicação sem metade do favoritismo de Matthew McCounaghey – que, ironicamente, também ex-galã que deu uma virada em sua carreira, conseguiu praticamente todos os prêmios da temporada logo na primeira grande investida. Sou muito mais DiCaprio que, de rosto limpo e desprovido de alegorias, impressionou com talento puro, sem ter que emagrecer ou apostar em outras artimanhas para impressionar.

MATTHEW MCCOUNAGHEY (Clube de Compras Dallas): A tática é infalível: McCounaghey veio de uma carreira nada admirável e surpreendeu com um desempenho repleto de transformações físicas. Entretanto, reduzir o desempenho dele somente a isso é maldade. O ator tem sim seus momentos na construção emocional do personagem e se sai muito bem neles. Além de fazer uma ótima dupla com Jared Leto, ele segura com dignidade as pontas quando está sozinho. De novo: fórmula infalível e, nesse sentido, de êxito incontestável. Só que a minha preferência aponta para outra direção…

O ESQUECIDO

G001C004_120530_R2IZ.0859800Estatisticamente, Tom Hanks seria o grande injustiçado por Capitão Phillips. Só que, ao meu ver, a injustiça é ainda maior com Joaquin Phoenix, que não foi indicado a prêmio algum por Ela. Melancólico e introspectivo, ele dá mais uma prova de grande versatilidade no filme de Spike Jonze – especialmente depois de seu momento forte e visceral em O Mestre. Mas, infelizmente, é o tipo de desempenho que as premiações não costumam reconhecer.

Oscar 2014 – Ator Coadjuvante

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Não é um grande ano para os atores coadjuvantes e muito menos misterioso em relação ao futuro vencedor. A lógica é bastante clara: Jared Leto será o vitorioso por Clube de Compras Dallas. Quem diria que Leto, que não atuava desde 2009 (quando fez o magnífico Sr. Ninguém), seria o grande nome de uma temporada de premiações? A resposta é simples: transformação. Se Felicity Huffman não teve chances com o estereótipo de moça-de-comédias-populares-que-aprendeu-a-atuar de Reese Witherspoon, Leto levou a melhor este ano, onde a concorrência é praticamente inexistente. Se fosse para citar um azarão, esse seria Barkhad Abdi, por Capitão Phillips. Mas é certo, coloque no bolão: Leto é a aposta certa.

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BARKHAD ABDI (Capitão Phillips): Mais uma discussão pertinente sobre o papel de um dos candidatos cabe aqui (como Julia Roberts, em Álbum de Família). Seria Barkhad Abdi protagonista ou coadjuvante em Capitão Phillips? Difícil dizer. Mas não acho sua classificação como coadjuvante um total absurdo. No seu trabalho de estreia no cinema, Abdi se saiu maravilhosamente bem como o pirata somali que lidera o sequestro do navio de Phillips (Tom Hanks). Sem nunca vilanizar por completo uma figura que poderia cair nessa armadilha, o estreante é o azarão que pode surpreender (levou o BAFTA com Jared Leto fora da disputa).

BRADLEY COOPER (Trapaça): Das quatro indicações que Trapaça recebeu para seus atores, essa é, sem dúvida, a mais questionável. Se ano passado Bradley Cooper de fato mereceu concorrer em um ano incrível para os atores, agora ele já não deveria estar nem nessa categoria relativamente mediana. Sua interpretação é a mais sem variações do filme de David O. Rusell. Enquanto os outros atores exploram talentos ou diversões de diferentes maneiras, Cooper surge acomodado e repetitivo em seu papel. Dos cinco concorrentes, o menos interessante.

JARED LETO (Clube de Compras Dallas): É válida a dúvida sobre a verdadeira razão de Jared Leto roubar todos os holofotes quando entra em cena em Clube de Compras Dallas. É uma mera transformação impressionante ou realmente um desempenho repleto de criações? De fato ele está nessa linha tênue, mas certamente venceu todos os prêmios da temporada (menos o BAFTA, onde não concorria) por essa sua capacidade de se destacar em cada minuto do filme. É fácil simpatizar e torcer para que logo venha mais um momento do travesti Rayon graças ao que Leto realiza – independente do peso da ajuda de seu maquiador e hairstylist.

JONAH HILL (O Lobo de Wall Street): É a segunda indicação ao Oscar de Jonah Hill que não é necessariamente merecedora de estar entre as finalistas. Só que nesse ano tão fraco para os coadjuvantes nem dá para reclamar muito de sua presença aqui. Por mais que ele não traga qualquer novidade em O Lobo de Wall Street, é um bom suporte para a história e alcança um resultado digno ao lado de Leonardo DiCaprio. Ainda espero, no entanto, o dia em que ele seja lembrado por algo surpreendente, e não por sobra de espaço ou situações inexplicáveis (por que concorreu por O Homem Que Mudou o Jogo mesmo?).

MICHAEL FASSBENDER (12 Anos de Escravidão): Muitos já reivindicavam uma indicação para Michael Fassbender por Shame, mas só agora ele conseguiu chegar entre os finalistas. Lembrança bastante justa a um desempenho forte e que se beneficia de um papel impressivo.  Fassbender assumiu publicamente que não faria campanha e, mesmo que fizesse, seria difícil ele bater Jared Leto – em papel muito mais atraente para os votantes – na competição deste ano. De qualquer forma, é uma justa menção ao nome deste ator em ascensão que, um dia, certamente terá a estatueta em casa.

O ESQUECIDO

oscarfosactorDaniel Brühl por Rush? Por mais que o desempenho dele seja ótimo no filme de Ron Howard, considerá-lo coadjuvante é o mesmo que dizer que Ethan Hawke também é coadjuvante em Antes da Meia-Noite. Por isso, fico mesmo com Jake Gyllenhaal, em Os Suspeitos, o melhor filme mais subestimado nessa temporada de premiações. Nesse suspense exemplar, Gyllenhaal é certeiro como um policial cheio de tiques que precisa desvendar um desaparecimento.