Cinema e Argumento

Maze Runner: Correr ou Morrer

It was all done for a reason.

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Direção: Wes Ball

Roteiro: Grant Pierce Myers, Noah Oppenheim e T.S. Nowlin, baseado no livro “The Maze Runner”, de James Dashner

Elenco: Dylan O’Brien, Thomas Brodie-Sangster, Ki Hong Lee, Will Poulter, Aml Ameen, Dexter Darden, Blake Cooper, Kaya Scodelario, Patricia Clarkson, Chris Sheffield, Joe Adler, Jacob Latimore, Randall D. Cunningham

The Maze Runner, EUA, 2014, Aventura, 113 minutos

Sinopse: Em um mundo pós-apocalíptico, o jovem Thomas (Dylan O’Brien) é abandonado em uma comunidade isolada formada por garotos após toda sua memória ter sido apagada. Logo ele se vê preso em um labirinto, onde será preciso unir forças com outros jovens para que consiga escapar. (Adoro Cinema)

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Fora o público-alvo, é difícil entender quem ainda aguenta esta febre de aventuras jovens baseadas em best sellers que invadiu o cinema desde Jogos Vorazes. Particularmente, tenho filtrado muita coisa desde então – e até onde sei não perdi grandes filmes. De qualquer forma, este Maze Runner – Correr ou Morrer conseguiu fisgar a minha atenção neste balaio de semelhantes adaptações infanto-juvenis, principalmente porque a proposta parece ser a junção de dois filmes que gosto bastante: A Vila (no sentido de mostrar uma comunidade que não ultrapassa determinadas fronteiras em função de um perigo real) e Cubo (o labirinto e o quebra-cabeça cheio de ameaças mortais). A ideia por si só já é instigante – claro que com suas devidas proporções de violência e coragem, já que este é um filme para jovens -, mas o diretor Wes Ball pode se considerar bem sucedido ao levar para as telas o livro The Maze Runner, de James Dashner.

Para embarcar em Maze Runner é necessário, claro, abstrair eventuais cafonices e o fato de que nem todos os jovens atores são bons ou convincentes. Só que existe algo a ser comemorado: não espere aqui um manjado triângulo amoroso ou sequer um flerte meloso, muito menos grandes estrelas liderando um elenco repleto de rostos bonitinhos. Não, praticamente todos os intérpretes deste filme são desconhecidos e – repetindo – mesmo que nem todos sejam bons, é interessante ver de vez em quando uma história mais próxima da realidade neste sentido de trazer pessoas que parecem comuns, da vida real mesmo. Quem mais vai puxar sua memória no filme é Thomas Brodie-Sangster, o garotinho de Simplesmente Amor que segura bem as pontas ao lado do protagonista Dylan O’Brien.

Voltando ao filme em si, Wes Ball acertou em uma parte fundamental: a tensão. Se Maze Runner tem suas didáticas introduções e patina bastante para desenvolver a personalidade de seus personagens, a aventura compensa a certa falta de consistência do lado dramático. As cenas ambientadas no labirinto são o ponto alto da produção por duas razões bem claras: a) os efeitos cumprem as expectativas e ajudam a conduzir a adrenalina com bastante firmeza, e b) o  perigo é um só, e não um Sítio do Pica-Pau Amarelo cheio de criaturas folclóricas que conduziriam a ação a uma histeria. O labirinto supre a falta de força da convivência entre os jovens, que é pontuada inclusive por alguns clichês, como o personagem do contra que se acha líder e resolve virar arqui-inimigo do mocinho recém chegado que inevitavelmente será o profeta do grupo. Ou seja, Maze Runner se sustenta por sua aura de mistério, por sua premissa intrigante, não por seus conflitos dramáticos.

Obviamente existe toda uma expectativa em relação ao final deste longa. A boa notícia é que ele funciona muito bem, trazendo realismo e um eficiente clima apocalíptico para a trama. A má é que Maze Runner não acaba aqui, já que a saga, em sua versão literária, tem nada menos que cinco livros – o que significa que o cinema vai tentar explorá-la ao máximo, claro. Mas é por ter uma história que supostamente se estende por tantos capítulos que fica a dúvida: afinal, quais são os rumos que serão tomados por Maze Runner? As expectativas são muito mais em função da curiosidade (não necessariamente positiva) em relação ao que será criado daqui para frente do que necessariamente por causa do gancho final. Como espectador leigo, não projeto grandes alcances para Maze Runner, já que a ideia em si do filme está praticamente esgotada neste primeiro volume.

O Lobo Atrás da Porta

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Direção: Fernando Coimbra

Roteiro: Fernando Coimbra

Elenco: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré, Thalita Carauta, Karine Teles, Emiliano Queiroz, Antonio Saboia, Isabelle Ribas, Gustavo Novaes, Paulo Thiefenthaler, Tamara Taxman

Brasil, 2014, Suspense/Drama, 95 minutos

Sinopse: O desaparecimento de uma criança faz com que seus pais, Bernardo (Milhem Cortaz) e Sylvia (Fabiula Nascimento), vão até uma delegacia. O caso fica a cargo do delegado (Juliano Cazarré), que resolve interrogá-los separadamente. Logo descobre que Bernardo mantinha uma amante, Rosa (Leandra Leal), que é levada à delegacia para averiguações. A partir de depoimentos do trio, o delegado descobre uma rede de mentiras, amor, vingança e ciúmes envolvendo o trio. (Adoro Cinema)

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Muito mais do que estar vivendo uma excelente fase repleta de filmes ricos em conteúdo e inovações, o cinema brasileiro também tem sido brindado nos últimos anos com a revelação de vários profissionais na direção de longas-metragens. São deles os melhores filmes que vimos nos últimos tempos aqui no Brasil. Do grito libertador de Tatuagem (debut na direção de ficção do exímio roteirista Hilton Lacerda) ao charme irresistível do bem sucedido Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (dirigido por Daniel Ribeiro, adaptando seu segundo curta-metragem), a filmografia brasileira ganhou grandes filmes em um curto espaço de tempo nos últimos meses com diretores estreantes. A coroação desta bela escalada acontece, no entanto, com o surpreendente O Lobo Atrás da Porta, que é, facilmente, o mais intenso e surpreendente de todos os exemplares desta safra.

Um dos longas mais consistentes de 2014 em qualquer geografia, o filme marca a iniciação do paulista Fernando Coimbra na direção de longas-metragens – e a estreia já começou com brilho: no Festival do Rio, O Lobo Atrás da Porta faturou os prêmios de melhor filme e melhor atriz para Leandra Leal em 2013. É um merecido reconhecimento e incentivo a este diretor que mostra plena segurança ao construir uma história que, mesmo classificada como suspense, transita perfeitamente bem entre diversos gêneros. Se, nos primeiros minutos, anuncia ser quase um policial envolvendo a investigação do desaparecimento de uma garotinha, logo Coimbra mostra, pouco a pouco, que as resoluções e consequências deste mistério se darão a partir de um roteiro mais interessado em uma análise psicológica e comportamental de seus personagens do que em fatos ou revelações propriamente ditas.

A partir do momento que começa a estabelecer conexões entre cada uma das figuras a partir de flashbacks, dá até para esquecer que existe um mistério a ser resolvido de tão envolvente a construção de cada situação e desenvolvimento. Este resultado é mérito da segura direção de Coimbra e do eficiente roteiro escrito por ele próprio, mas também do excepcional elenco reunido, que merece todos os elogios possíveis. Como há bastante tempo não víamos no cinema nacional, temos aqui um grupo de atores em plena forma. Falar do magnífico desempenho de Leandra Leal (mais uma vez!) é cair no lugar comum, até porque todos que a acompanham também são perfeitos em suas devidas proporções e abordagens, do protagonismo de Milhem Cortaz aos dois ou três momentos em que Thalita Carauta rouba a cena.

Em O Lobo Atrás da Porta há espaço espaço para comédia, drama e tensão. De tudo um pouco, mas sem perder a forte personalidade impressa pelo diretor. As resoluções, que lembram os extremos que o ser humano sente frente à dor e à vingança ao estilo mais recente de A Pele Que Habito, são desconcertantes pela falta de qualquer concessão. Coimbra não quer agradar. Mais do que isso, é um final muito honesto na forma como dá puro realismo a seus personagens, em especial à personagem de Leandra Leal. Não existem respostas ou julgamentos certos para tudo o que acontece em O Lobo Atrás da Porta. É apenas o retrato franco do quanto o ser humano faz o que bem entende para não se prejudicar ou simplesmente apenas para curar mágoas e injustiças. E falar mais do que isso é estragar as pequenas grandiosidades desse que é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano.

Mapas Para as Estrelas

Na-na-na-na! Hey-hey-hey! Goodbye! Sing it!

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Direção: David Cronenberg

Roteiro: Bruce Wagner

Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Evan Bird, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Niamh Wilson, Emilia McCarthy, Sarah Gadon, Amanda Brugel, Jayne Heitmeyer, Clara Pasieka

Maps to the Stars, EUA/Canadá/Alemanha/França, 2014, Drama, 111 minutos

Sinopse: Agatha Weiss (Mia Wasikowska) acabou de chegar a Los Angeles e logo conhece Jerome Fontana (Robert Pattinson), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator. Eles começam a sair juntos e flertar um com o outro, por mais que Agatha mantenha segredo sobre seu passado. Não demora muito para que ela comece a trabalhar para Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente que está desesperada para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado por sua mãe, décadas atrás. Paralelamente, o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) enfrenta problemas ao lidar com seu novo colega de elenco, já que é a estrela principal de uma série de TV de relativo sucesso. Entretanto, como esteve internado recentemente, está sob a atenção especial de sua mãe (Olivia Williams) e dos produtores da série, que temem um escândalo.

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Recentemente exibido no Festival do Rio, Mapas Para as Estrelas começou sua repercussão ainda lá na metade do ano, em Cannes, quando ganhou o prêmio de interpretação feminina para Julianne Moore. Mas caso você tenha a chance de conferi-lo, não pense duas vezes, pois, pelo menos nos Estados Unidos, este novo filme de David Cronenberg será lançado somente em 2015 – e possivelmente apenas em home video. Já aqui no Brasil, ainda não existe nem previsão de seu lançamento comercial. É no mínimo estranha a decisão da Focus Features em escantear o longa, já que este é o trabalho mais irônico, ácido e crítico de Cronenberg em anos – e também o mais acessível (o que está longe de ser um demérito).

Bastante polêmico como sempre, o diretor, com Mapas Para as Estrelas, fez um filme realmente envolvente, distanciando-se bastante da proposta do esquisito – e quase pretensioso – Cosmópolis, estrelado por Robert Pattinson. O jovem ator, aliás, repete a parceria com Cronenberg agora, mas em um papel bem menor, como o motorista de uma limusine (claramente uma referência ao seu trabalho anterior com o diretor). Só que é todo o restante do elenco que brilha por completo, deixando difícil que ele tenha algo a fazer aqui tanto em termos de interpretação quanto em relação a seu limitado papel.

Mapas Para as Estrelas encontra em seu elenco uma de suas maiores forças, mas vai muito além desta mera definição: tudo está bem posto e desenvolvido aqui e o que obviamente chama mais a atenção tematicamente é a questão dos complicados cotidianos de pessoas que tiveram suas personalidades construídas a partir de uma vida repleta de fama – seja uma atriz veterana que está vendo sua carreira despencar ou um jovem, que, aos 13 anos, já administra uma fortuna de milhões. São obviamente relatos e críticas pertinentes em tempos que o cinema é cada vez mais voltado para o público jovem e onde grandes talentos que fizeram história se vêem sem papeis e reduzidos a chances bobocas em comédias até mesmo grosseiras.

É genial este contraste proposto por Cronenberg porque ele foge de panoramas fáceis. Outro diretor mais simplista certamente faria a cronologia óbvia de celebridades que descobrem a fama e são corrompidas por ela. O que Mapas Para as Estrelas mostra é bem diferente: figuras que já provaram da fama e que hoje enfrentam vários problemas por causa dela. São todos personagens que não sabem muito bem o que fazer para seguir em diante. A Havana de Julianne Moore, por exemplo, faz de tudo para conquistar um desejado papel e vive sob a sombra da falecida mãe, indicada ao Oscar e que agora terá este seu consagrado papel refilmado – e ela precisa lidar com o fato de que, mesmo sendo uma famosa atriz, não é a mais cotada para incorporar o papel da sua própria finada matriarca.

É interessante também a vida desestruturada do jovem Benjie (Evan Bird). Ele foi criado em um ambiente problemático, onde a irmã – descobre-se pouco a pouco – ateou fogo na casa da família, o pai desde sempre viveu no mundo artístico administrando a carreira de estrelas e o próprio Benjie, hoje estrelando uma série de TV, já teve que passar por um processo de desintoxicação envolvendo uso abusivo de drogas antes dos 13 anos. Porém, na realidade, a questão da fama aqui é mero detalhe para que o filme destrinche grandes problemas familiares e psicológicos em pessoa ricas em conflitos dramáticos.

O elenco segue tudo com total entrega e intensidade. Se Bird tem força e desenvoltura de sobra para dar vida a Benjie (um personagem difícil e intenso para alguém de sua idade), Julianne Moore dá um verdadeiro show como a ensandecida Havana, nunca tornando-a histérica ou caricata – o que seria fácil demais, visto que sua personagem é descontrolada e frequentemente vítima de azar e injustiças. E quanto à desenvoltura, naturalidade e capacidade de se transformar… Bom, neste sentido, Moore dispensa comentários. Mia Wasikowska também tem seus momentos como a garota que volta a Hollywood e vira assistente de Moore, até mesmo se distanciando de um certo tipo de garota difícil que tanto lhe marcou.

Obviamente, porém, Mapas Para as Estrelas não é para qualquer um. Além do final que transborda pessimismo, este é um longa de personagens difíceis inseridos em situações e vidas sufocantes. Assombrados por expectativas e alucinações, tentam colocar suas vidas nos trilhos. Mas tudo isso não impede que o resultado seja uma viagem gratificante, reflexiva e subversiva. Mais do que isso, uma investida bastante completa, como há tempos Cronenberg não fazia. Os ares estadunidenses (esta foi a primeira filmagem do diretor nos EUA em quase 50 anos de carreira) parecem ter feito muito bem ao autor.

Rio, Eu Te Amo

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Direção: Vicente Amorim, Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Sang-Soo Im, Nadine Labaki, Fernando Meirelles, José Padilha, Carlos Saldanha, Paolo Sorrentino, John Turturro, Andrucha Waddington e César Charlone

Roteiro: Andrucha Waddington, Mauricio Zacharias, Paolo Sorrentino, Antonio Prata, Chico Mattoso, Stephan Elliott, John Turturro, Guillermo Arriaga, Sang-soo Im, Elena Soarez, Otavio Leonidio, Nadine Labaki, Rodney El Haddad, Khaled Mouzannar, Fellipe Barbosa

Elenco: Fernanda Montenegro, Eduardo Sterblitch, Emily Mortimer, Basil Hoffman, Vincent Cassel, Ryan Kwanten, Marcelo Serrado, John Turturro, Vanessa Paradis, Jason Isaacs, Laura Neiva, Rodrigo Santoro, Tonico Pereira, Wagner Moura, Bruna Linzmeyer, Cláudia Abreu, Cleo Pires, Harvey Keitel

Brasil/EUA, 2014, Drama/Comédia, 110 minutos

Sinopse: Novo episódio da série de filmes Cidades do Amor, Rio, Eu Te Amo reúne dez curtas de dez diretores brasileiros e internacionais. Cada uma das histórias revela um bairro e uma característica marcante da cidade maravilhosa. (Adoro Cinema)

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De todos os curta-metragens realizados para a série Cities of Love, o que melhor sintetiza a proposta desta iniciativa cinematográfica que homenageia cidades apaixonantes do mundo é aquele de Alexander Payne para Paris, Te Amo. Em 14e Arrondissement, ele dirige Margo Martindale como uma solitária turista que, ao visitar Paris, encontra nas belas paisagens, monumentos e arquiteturas da cidade uma inspiração para esquecer sua solidão e voltar a amar a vida. Além do belo desempenho de Margo, o que mais encanta neste curta é justamente a sua capacidade de conectar a personagem à cidade e usar a geografia como fator fundamental para falar sobre sentimentos e descobertas.

É óbvio que, em um longa que reúne diversos curtas dos mais variados diretores, a falta de harmonia entre cada um deles seja o principal defeito. É difícil manter o nível. Mesmo Paris, o mais bem sucedido da série, tinha curtas bobos e irregulares, mas também os mais belos vistos até agora. Na sequência, veio a versão de Nova York, que conseguiu transformar a capital estadunidense em um completo tédio. Agora nós brasileiros temos o orgulho de ver nossa mais emblemática cidade turística ganhando o protagonismo deste projeto internacional.

Só que o orgulho, infelizmente, não se estende ao que é de fato visto na tela. Rio, Eu Te Amo é, sem dúvida, melhor que a versão novaiorquina, mas está longe de ter um curta sequer que se equipare ao que Alexander Payne ou até mesmo o Isabel Coixet fizeram no universo parisiense. E o exemplar brasileiro até que começa de forma respeitosa, trazendo a grande Fernanda Montenegro como uma moradora de rua que resolveu viver sem lar, contas e obrigações familiares – o que, segundo ela, é libertador. E a cena final dela com o filho é, sem dúvida, o momento mais bonito de Rio, Eu Te Amo.

Aos poucos, no entanto, o formato começa a cansar e, apesar das válidas e novas tentativas (como a de não mostrar os curtas de forma independente e sim adiantar a aparição de alguns personagens nas transições), Rio, Eu Te Amo se torna mais do mesmo e ainda comete o pecado de não explorar devidamente as paisagens e encantamentos da cidade-título. Frustra, por exemplo, ver o excesso de efeitos visuais para colocar Wagner Moura perto do Cristo Redentor no curta de José Padilha ou, então, a cafonice estética do momento em que Ryan Kwanten e Marcelo Serrado chegam encantados ao topo do Pão de Açúcar em determinado segmento.

Só que a relação dos personagens com o Rio de Janeiro se estabelece única e exclusivamente a partir de fracas tomadas que os colocam em cenários emblemáticos da cidade, e não a partir de sentimentos ou situações especiais na cidade. Outros elementos de ambientação como a trilha sonora também surgem óbvios e sem invenção. Por isto, é no mínimo bonita a cena em que Cláudia Abreu (a única que não tem um curta propriamente dito, mas que aparece em diferentes pontos do longa) reencontra um antigo amor ao som de um empolgante samba na lapa carioca. Ali, está a conexão como ela genuinamente deve ser: simples, sincera e relacionada com o clima da cidade.

Se for para destacar um curta especial, este certamente seria o dirigido por Nadine Labaki, que mostra como um casal, ao encontrar um menino morador de rua, resolve realizar um grande sonho do jovem. Texto, empatia dos atores (o garotinho é sensacional!) e a mensagem desta passagem revelam um carinho muito grande que falta ao filme como um todo. Preferindo esquecer completas bobagens como o curta protagonizado por Tonico Pereira ou o irritante texto comandado por John Turturro, saí da sessão com a impressão que vi apenas um conjunto de curtas genéricos sobre pessoas e circunstâncias – e não uma homenagem a uma cidade. Tomara que a próxima parada (Xangai) seja mais inspirada.

Três atores, três filmes… com Raquel Cirne

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Exatamente 10 anos atrás, na oitava série do ensino fundamental, eu conhecia a Raquel, que, pela primeira vez, seria minha professora de História. O convívio acadêmico durou apenas um ano letivo, mas acho que posso dizer que a conexão que estabelecemos lá atrás como aluno e mestra continua até os dias de hoje. Tradutora, professora e escritora do blog El Tesoro de Palabras, dedicado aos idiomas, a Raquel também dança, faz artesanato e, como ela mesma define, é uma sonhadora profissional. A participação dela aqui nesta seção é muito especial não só pelo fato de que a Raquel foi uma das professoras mais especiais que encontrei ao longo da minha vida acadêmica mas também porque ela, com sua habitual criatividade, resolveu quebrar os protocolos do blog (o que muito me animou!). Além de fazer uma introdução sobre o ofício do ator, ela resolveu escolher três interpretações de uma única atriz. E logo abaixo vocês vão descobrir o porquê de eu ter gostado tanto das escolhas da Raquel. Ah, e para quem quiser conferir o blog dela, aí vai o link: http://www.eltesorodepalabras.blogspot.com.es. Boa leitura a todos!

O que é uma atriz? É uma profissional que, através da expressão corporal, da técnica vocal e da interpretação, dá vida a outras vidas. O que é uma boa atriz? É uma profissional que realmente trabalha esses pilares da arte dramática, deixando de lado a si mesma. O que é uma excelente atriz? Meryl Streep. Assim, ao pensar nas minhas escolhas para esta seção, recordava imediatamente as atuações dela, que é uma atriz diferente em cada filme. Rica ou pobre, vilã ou mocinha, conservadora ou moderna, sempre convence, nunca se repete, e não se limita à fama como fator suficiente para manter uma história. Por isso ela é uma verdadeira atriz profissional, e não somente uma “estrela”.

Meryl Streep (Mamma Mia!)
Haja fôlego! Corre, dança, grita, sobe no telhado e cai da janela, pula no mar, ri, chora… E canta – com a própria voz… E em muitos momentos, faz tudo isso ao mesmo tempo, e com uma idade que até poderia ser “considerável”… É um trabalho muito completo, no qual se vê realmente uma grande expressão corporal, uma grande expressão vocal e uma interpretação sensível, passando por emoções diferentes, até mesmo opostas, e em todo o momento verdadeiras. Para ter valor, nem sempre um filme precisa ser questionador, ou enigmático, ou difícil de entender. Também ter que ter música luminosa, leveza, beleza, como aquela linda celebração do casamento com velas penduradas nas árvores… Cinema é magia, e deve ter a função de inspirar, de estimular os sonhos, de colorir a vida – vide o final escandalosamente colorido e alegre. Esta obra é uma fábula, e as fábulas têm finais felizes, mesmo que demorem para chegar. E é justamente a falta de cor na vida, e o costume a isto, que me leva à escolha do segundo filme. Sonhos são necessários, mesmo que nem sempre se possa realizá-los. Mas sem eles, não se vive.

Meryl Streep (As Pontes de Madison)
Nenhum efeito especial, poucos atores e poucos ambientes constroem um filme bastante complexo, que nos mostra o outro lado da moeda: nem sempre a felicidade é possível. A dona de casa invisível aos olhos da família que vê seus sonhos morrerem pouco a pouco até transformar-se em uma sombra que quase não sente nada, vive uma relação passageira, porém eterna, com um fotógrafo viajante. Nesse curto período, o coração dela bateu, ela sentiu paixão, ciúme, medo… sentiu emoções, esteve presente na própria vida. Porém, tanto se escolhesse ficar com ou sem ele, seria infeliz, devido a um grande controle social que afetaria toda a sua família. Podemos pensar que a história se passava nos anos 60, em uma cidade do interior, nas quais qualquer comportamento diferente era condenado e expulso… Mas sabemos que continua sendo atual. As revistas de fofocas não só sobrevivem como se expandem no infinito mundo virtual, pois a vida alheia ainda parece interessar mais do que a própria. Penso que o desafio de Meryl foi dar vida a uma personagem sem vida que, por um curto momento, passa a estar cheia de vida. Não conseguiu realizar seus sonhos, mas foi um breve encontro com um deles que possibilitou que continuasse. Simples assim, que continuasse.

Meryl Streep (A Escolha de Sofia)
Não poderia e nem tenho a pretensão de comentar sobre a densidade deste filme, que certamente está na lista dos melhores de toda a História, em tão poucas linhas. Acredito que muito já foi analisado tanto sobre o roteiro adaptado quanto sobre a extraordinária e profunda interpretação de Meryl, de modo que eu gostaria de destacar o trabalho dela ao ter que falar em três idiomas: alemão, polonês e inglês. O que para nós pode ser visto como um ponto forte, que mereceria um grande elogio, para ela, foi simplesmente sua obrigação, pois certa vez comentou que reproduzir sotaques faz parte do trabalho de qualquer atriz. E é esse tipo de postura que a faz única, irrepetível. Mas na linha dos dois outros filmes, também reflito sobre a “possibilidade” das escolhas. Ela foi obrigada a escolher qual filho deveria morrer, e poderíamos dizer que somente no nazismo se encontrariam tais atrocidades… Mas não. A pobreza e a fome, vergonhosamente presentes em uma época privilegiada de recursos, informação, circulação de ideias e pessoas, ainda obriga a muitas mães à mesma “escolha”. Como disse Nietzsche, “a arte existe para que a realidade não nos destrua”. Por isso precisamos das fábulas, dos sonhos, das cores e de Meryl Streep.