Cinema e Argumento

O Oscar é de Eddie Redmayne

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Estrela em ascensão, prêmio de moda na GQ, ensaio na Vanity Fair e na Elle, entrevistado de vários programas de audiência e – o principal, claro – um papel infalível para conquistar prêmios. É possível alguém bater a campanha e todos os fatores a favor de Eddie Redmayne na corrida ao Oscar?

Lá no início de dezembro de 2014, escrevi um post sobre como Julianne Moore já podia, antes mesmo do início da temporada de premiações, ser considerada a franca favorita ao Oscar de melhor atriz. A teoria deve mesmo se concretizar, já que Moore conquistou todos os grandes prêmios até agora como o Cricits’ Choice, o Globo de Ouro e o Screen Actos Guild Awards. Ninguém está em seu caminho. E, ao que tudo indica, o mesmo está acontecendo com o jovem Eddie Redmayne. Sua interpretação em A Teoria de Tudo, assim como a de Moore em Para Sempre Alice, também já era comentada antes dos prêmios começarem, mas de forma muito mais tímida em função de Redmayne ser um ator relativamente desconhecido. Com uma significativa vitória no SAG recentemente, derrotando o até então franco favorito à estatueta Michael Keaton, o jovem britânico agora já é quase uma aposta certa para o Oscar – e por razões que vão muito além da mera matemática.

Não escondo meu apreço pelo desempenho de Redmayne em A Teoria de Tudo e por ele próprio, mas, de qualquer forma, excetuando minha simpatia pelo ator, os fatos estão a favor dele. Tudo começa já com o papel infalível: o de um garoto brilhante que descobre ter uma doença degenerativa incurável responsável por atrofiar todo o seu corpo enquanto a mente permanece intacta. De bônus, a trama é baseada em uma famosa figura mundial (o físico Stephen Hawking). Junte a deficiência, a biografia e uma boa interpretação e o resultado é muito claro: você tem a fórmula perfeita para qualquer ator vencer o Oscar. O que poderia trabalhar contra Redmayne é o fato de ele ser “novato”, mas basta olhar a carreira do ator e sua idade para ver que não é de hoje que ele passa pelos nossos olhos. Sem falar que já tem outros projetos de ouro para o futuro (The Danish Girl, conforme mencionei no meu texto de A Teoria de Tudo). Ou seja, estrela em ascensão. E isso é irresistível. Jennifer Lawrence deve concordar.

O mais importante de tudo, no entanto, e talvez o que menos é levado em consideração pela maioria na hora de analisar o cenário de possibilidades, é a chamada “campanha”. Pode parecer tolo, mas o fato de Redmayne estampar a capa da Elle britânica, ser eleito o homem mais bem vestido do ano pela GQ (e estar na capa de várias versões internacionais da revista), ter um ensaio na tradicional Hollywood Issue da Vanity Fair (ao lado de Benedict Cumberbatch, onde ambos são saudados como as estrelas das maiores biografias da temporada) e comparecer a vários programas de entrevista como o popular talkshow de Ellen DeGeneres para divulgar o filme é simplesmente fundamental para que ele dispare na corrida. Quem não é visto não é lembrado. E, dos atores indicados ao Oscar este ano, ele é o que mais está aproveitando o momento. Mesmo não sendo o tipo galã ou muito menos que aparentemente pode interpretar todos os tipos de papeis devido a idade (tem 33 anos, mas parece um adolescente), é bem provável que um nome promissor esteja nascendo. Um nome para se acompanhar de perto.

O ator mais jovem a ganhar o Oscar de protagonista foi Adrien Brody, aos 29 anos, em 2002 com O Pianista. Se Brody, na época, foi uma alternativa lógica para a batalha de gigantes entre Daniel Day-Lewis por Gangues de Nova York e Jack Nicholson por As Confissões de Schmidt, não parece existir uma situação parecida este ano. Após a vitória no SAG, fica claro o prestígio do protagonista de A Teoria de Tudo com os seus colegas de profissão (nos últimos 10 anos, os vencedores deste prêmio de melhor ator se repetiram no Oscar e é complicado esse colegiado, que vota em peso no prêmio da Academia, mudar de ideia). Em termos de concorrência, Michael Keaton parece repetir bastante da situação de Mickey Rourke com O Lutador. Mesmo não tendo uma carreira decadente como Rourke, a Academia não deve nada a Keaton: ele nunca foi grande ator e, mesmo que esteja fantástico em Birdman, um desempenho não fala por si só, como já apontou Meryl Streep em várias ocasiões (ela foi outra que só foi ganhar um novo Oscar fazendo forte campanha). A celebração de Keaton parou no Globo de Ouro (antes ele tinha vencido vários prêmios em associações de críticos – o que nada significa, já que os votantes dos grandes prêmios são outros), e não dá sinais de se reavivar: é óbvio que o BAFTA também celebrará Redmayne no próximo domingo (08). 

Recentemente, passou a se falar muito em uma possível vitória-surpresa de Bradley Cooper, mas como um ator venceria o Oscar sendo que a sua única indicação a qualquer prêmio na temporada foi… ao Oscar?! Isso já aconteceu com Marcia Gay Harden, em 2001, com Pollock, mas a situação era um tanto diferente pois aquela era uma fraude de categoria – e uma interpretação protagonista colocada em coadjuvante é sempre uma jogada esperta (Jennifer Connelly manda lembranças). E uma pergunta final: qual foi a última grande surpresa que vimos nas categorias de interpretação nos últimos anos? O Oscar não contraria mais a matemática (escrevi um pouco sobre isso tempos atrás para o blog Uma Dose de Cinema). Levando em consideração todos estes fatores, bem como os elencados para Julianne Moore, o Cinema e Argumento não tem maiores dúvidas: o Oscar já é de Eddie Redmayne.

Rapidamente

Com uma carreira cada vez melhor e mais prolífera, Jake Gyllenhaal tem um de seus melhores desempenhos em O Abutre

Jake Gyllenhaal pode até não ter conseguido uma indicação ao Oscar 2015 de melhor ator por O Abutre, mas, com esse filme, ele novamente reafirma a excelente fase que vive em uma carreira agora repleta de boas escolhas.

O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, de Dan Gilroy): Jake Gyllenhaal não conseguiu uma indicação ao Oscar 2015 por sua interpretação em O Abutre, mas quem perde mesmo é a Academia por não ter reconhecido este que é, provavelmente, o melhor momento da carreira do ator. Cada vez mais envolvido com projetos diferentes e autorais, Gyllenhaal tem se aperfeiçoado e, neste filme de Dan Gilroy (sim, o irmão do já conhecido Tony, diretor de Conduta de Risco), dá até para dizer que ele é o responsável por trazer à trama um mistério e uma força que o conjunto todo não tem. Se O Abutre é um longa bem conduzido em termos técnicos e de direção – em especial nas cenas em que o protagonista filma acidentes ou assassinatos para vender a um programa televisivo – o mesmo entusiasmo não é compartilhado pelo roteiro, que justamente perde tempo demais na caçada de Lou Bloom (Gylenhaal) a fatos extraordinários para ganhar dinheiro do que em seus visíveis e por vezes amedrontadores problemas mentais. Por isso, quando O Abutre se concentra na dinâmica de Bloom com os personagens coadjuvantes que percebem seus distúrbios (destaque para o jantar com Rene Russo), o filme ganha uma complexidade que, caso fosse o foco da história, tornaria O Abutre uma experiência mais intrigante.

O AMOR É ESTRANHO (Love is Strange, 2014, de Ira Sachs): É bem diferente do que pode parecer este filme que traz Alfred Molina e John Lithgow como dois homens que mantém um relacionamento de décadas e finalmente podem/decidem oficializar a relação legalmente. Diferente porque O Amor é Estranho não é sobre dois homens já beirando os 70 anos que compartilham uma vida juntos, mas sim sobre as dificuldades financeiras deles e como ela faz com que ambos percam o apartamento e tenham que ficar separados durante algum tempo morando de favor na casa de amigos e parentes. Ou seja, decepciona como o filme de Ira Sachs não se dá conta de que os melhores momentos da história que escreveu em parceria com Mauricio Zacharias são justamente aqueles em que Molina e Lithgow – ambos levando os papeis com bastante dignidade e humanidade – estão juntos em cena. Só que O Amor é Estranho insiste em narrar suas vidas separadamente e em nada a trama parece preocupada em abordar a distância como fator dramático para o recém firmado casamento. Do jeito que ficou, o filme é apenas sobre dois homens interferindo o dia a dia dos outros, observando o cotidiano corriqueiro dessas pessoas e eventualmente se tornando empecilhos para elas. Uma chance desperdiçada.

O JUIZ (The Judge, 2014, de David Dobkin): Considerando os filmes lançados em circuito comercial no Brasil em 2014, O Juiz é a experiência mais aborrecida do ano ao lado de A 100 Passos de Um Sonho. A construção dos personagens já seria suficiente para justificar toda a previsibilidade do filme, mas o diretor David Dobkin dá razões de sobra para que o resultado transborde obviedades em todos os setores. Robert Downey Jr. interpretando o seu papel habitual de homem ácido e sarcástico é o menor dos problemas em uma história repleta de escolhas fáceis. Não existe nada de novo no retorno do filho que há anos não fala com o pai mas se vê obrigado a conviver com ele após uma tragédia pessoal. Também não instiga o velho arco dramático do senhor rabugento e irredutível que, óbvio, em algum momento vai se humanizar com uma doença terminal. Além do desperdício de bons nomes no elenco de suporte (Billy Bob Thornton, Vera Farmiga), O Juiz tem uma duração exagerada para uma história que se sustenta no julgamento de um crime perfeitamente corriqueiro e nada aberto a complexidades. São 140 minutos arrastados que fazem questão de sempre adicionar pitadas de clichês – e até mesmo de cafonices – em uma trama que por si só já pede desesperadamente por novidades.

Grandes Olhos

Eyes are the windows to the soul.

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Direção: Tim Burton

Roteiro: Larry Karaszewski e Scott Alexander

Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Houston, Terence Stamp, Jon Polito, Elisabetta Fantone, James Saito, Guido Furlani, Delaney Raye, Madeleine Arthur

Big Eyes, EUA/Canadá, 2014, Drama, 106 minutos

Sinopse: O drama apresenta a história real da pintora Margaret Keane (Amy Adams), uma das artistas mais comercialmente rentáveis dos anos 1950 graças aos seus retratos de crianças com olhos grandes e assustadores. Defensora das causas feministas, ela teve que lutar contra o próprio marido no tribunal, já que o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz) afirmava ser o verdadeiro autor de suas obras. (Adoro Cinema)

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Tim Burton precisava de um filme como Grandes Olhos. Após fracassar em qualidade com dois filmes consecutivos em live action (Alice no País das MaravilhasSombras da Noite), seria saudável ele abandonar um pouco as fantasias que tanto lhe marcaram e fincar os pés no chão. Às vezes tomar certa distância traz uma nova perspectiva, e Grandes Olhos pode até não ser um filme que vá repaginar a carreira de Burton ou muito menos que tenha um estilo que o diretor queira reproduzir futuramente, mas funciona como um bom exercício para alguém que necessitava urgentemente pensar fora de suas já conhecidas fronteiras. Tim Burton aceitou o desafio, dispensou Johnny Depp e Helena Bonham Carter (este é o seu primeiro filme desde Marte Ataca! em 1996 que não conta com nenhum dos dois atores no elenco) e resolveu fazer uma produção mais comedida em conceitos e tamanho, mostrando que, ao contrário do que anunciaram seus últimos filmes, ele ainda sabe contar histórias de forma satisfatória.

É curioso, contudo, como Grandes Olhos é de certa forma um diferencial para a carreira de Tim Burton mas não para os seus protagonistas Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto o diretor explora outros terrenos ao conduzir com agradável convencionalidade a história da pintora Magaret Keane e o seu casamento com o impostor Walter, Adams e Waltz fazem o mesmo de sempre, expondo os dois maiores problemas do filme: a errada escalação de elenco e a indiferente direção de atores. Livres em cena e sem maiores orientações, a dupla não traz nada de novo para seus respectivos repertórios, o que impede o espectador de realmente ver os personagens. Quem está em cena é a repetição de Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto ela segue com sua expressão chorona de voz mansa e seu papel de mulher ingênua facilmente enganável, ele, frequentemente descontrolado, prova que realmente não funciona com ninguém além de Quentin Tarantino. O tipo sarcástico com um eterno sorriso debochado no rosto criado pelo ator é o que existe de mais incômodo em Grandes Olhos.

Com uma boa fotografia de Bruno Delbonell e uma nova e interessante parceria com Danny Elfman na trilha sonora, Grandes Olhos é um filme linear conduzido sem maiores ousadias. O que torna a experiência agradável, por outro lado, é que essa previsibilidade do roteiro escrito pela dupla Larry Karaszewski e Scott Alexander não subestima a paciência do espectador. É um filme simples e ponto. E tem consciência disso. O que não permite que o filme de Tim Burton seja mais interessante, além da dupla protagonista em eterna repetição, é o fato da história se ater mais ao carisma (?) do marido pilantra que seduz a esposa a abandonar a autoria de seus quadros do que justamente às razões que fizeram Margaret comprar a proposta enganadora do marido. Ela era simplesmente tola? Para uma mulher divorciada nos anos 1950, não parecia ser. Mas infelizmente Grandes Olhos prefere ficar mais com a teatralidade cômica da interpretação de Christoph Waltz.

Em meio à convencionalidade, Tim Burton encontra espaço para aplicar controladamente algumas de suas referências sem que pareçam avulsas. O ponto alto é a ótima cena em que a protagonista vai ao supermercado e imagina todas as pessoas com os famosos grandes olhos que tanto pinta secretamente em suas telas. Assim, é correto dizer que este filme marca mais como uma oxigenação para a carreira até então em franca derrocada de Tim Burton do que propriamente como uma biografia linear e agradável. Em ambos os casos, entretanto, a interessante história de Margaret Keane é minada por seus atores. Bem como Adams e Waltz, volto a me repetir ao afirmar que Grandes Olhos, uma produção com basicamente tudo no lugar no que se refere a biografias convencionais mas satisfatórias, já ganharia uma roupagem completamente diferente com atores mais versáteis. Adams, que chegou a absurdamente vencer o Globo de Ouro 2015 de melhor atriz em comédia/musical quando concorria com uma impressionante Julianne Moore em Mapa Para as Estrelas, já provou em outros filmes que consegue se reinventar. O oposto acontece com Waltz, que, após ganhar dois Oscars (ambos justamente por filmes de Tarantino), tem se revelado, assim como o seu exagerado Walter Keane, uma verdadeira enganação.

Na coleção… Harry Potter e o Enigma do Príncipe

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O Enigma do Príncipe marcou a primeira repetição de um diretor na série Harry Potter desde que Chris Columbus deixou o cargo com A Câmara Secreta. Se em A Ordem da Fênix o britânico David Yates teve, logo em sua estreia, muitos méritos ao transpor para as telas o livro frágil e quase desinteressante de J.K. Rowling, particularmente já não consigo dizer que O Enigma do Príncipe goza das mesmas qualidades – o que é bastante decepcionante, pois o material original é um dos mais empolgantes escritos por Rowling. Da forma como foi adaptado novamente por Steve Cloves e dirigido por Yates, Harry Potter e o Enigma do Príncipe resultou desestimulante, um tanto cansativo e até mesmo frequentemente bobo.

O que mais incomoda nesse sexto filme em que o jovem bruxo Harry (Daniel Radcliffe) precisa lidar com as ameaças do consumado retorno de lorde Voldemort (Ralph Fiennes) é o tom insistentemente piadista da trama. Se em O Cálice de Fogo as descobertas adolescentes dos personagens eram tratadas de forma natural e genuinamente bem humoradas, aqui já soam forçadas, como se precisassem existir apenas para fazer dar um alívio à dramaticidade cada vez mais adulta e perigosa da saga. Com isso, sai perdendo Rupert Grint, por exemplo, que interpreta um Rony Weasley sem qualquer profundidade, já que este parece eternamente reduzido ao papel de bobo da corte. O novo coadjuvante Jim Broadbent também não tem muito o que fazer como o professor maluquinho e descabelado de poções que, apesar de ter uma função importante no filme, é outra extensão da tal insistência cômica.

A atenção excessiva ao humor parece incongruente porque os acontecimentos de Harry Potter e o Enigma do Príncipe estão em outra batida. Tudo é muito urgente e quase desesperançoso. O reflexo disso está no próprio visual da série, cada vez mais desprovido de cores – e a bela fotografia de Bruno Delbonnel indicada ao Oscar é peça fundamental para que possamos compreender, já em um primeiro contato, que o universo do jovem Harry é bem diferente daquele apresentado por Columbus em 2001. A trilha de Nicholas Hooper ainda completa essa sensação, com melodias que raramente evocam a magia de John Williams e que constroem uma nova identidade para esse universo em constante redefinição.

Narrativamente, ainda existem muitos aspectos que não engatam em O Enigma do Príncipe. Os flashbacks, concebidos com impecável apuro visual, começam interessantes, mas aos poucos se banalizam e não têm o devido impacto – até porque, sem querer, surgem meio avulsos em um cotidiano humorístico e de paixonites adolescentes. Infelizmente, não surtem o efeito que tinham na obra original, que ainda revelava com grande emoção a identidade do tal príncipe do título, enquanto, no filme, o momento é encenado sem qualquer invenção, com direito ao personagem tendo que bradar, em uma luta, “eu sou o príncipe mestiço!” como se estivesse tirando revelando a identidade de um fora da lei após arrancar sua máscara para uma multidão como nos velhos tempos do desenho Scooby Doo. Isso acontece logo após a morte de um importante personagem, que, aí sim, reforça com boa intensidade o novo tom urgente de Harry Potter que não deveria ser distraído por firulas de romances colegiais.

Confira também:

– Harry Potter e a Pedra Filosofal

– Harry Potter e a Câmara Secreta

– Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

– Harry Potter e o Cálice de Fogo

– Harry Potter e a Ordem da Fênix

O desabafo de Dianne Wiest (e o meu também)

Meryl Streep e Dianne Wiest em "Amor à Primeira Vista": envelhecer em Hollywood não é fácil. Por que uma já chega à 19ª indicação ao Oscar como um caso isolado e a segunda, a exemplo de tantas outras atrizes, não recebe nem papeis interessantes que possam pagar o aluguel?

Meryl Streep e Dianne Wiest em Amor à Primeira Vista: envelhecer em Hollywood não é nada fácil. Enquanto uma já comemora 19 indicações ao Oscar como um caso isolado, a outra, a exemplo de tantas atrizes, não recebe sequer papeis interessantes para pagar o aluguel.

Ontem circulou uma notícia envolvendo uma suposta crise financeira na vida da veterana Dianne Wiest. Vencedora de dois Oscars de atriz coadjuvante (um por Hannah e Suas Irmãs em 1987 e outro por Tiros na Broadway em 1994), Wiest revelou que tem problemas em pagar o aluguel de seu apartamento em Nova York e que em breve terá que se mudar dele. Como ela chegou até aqui ainda tendo que pagar aluguel e sem um apartamento em seu nome depois de uma carreira prolífera em década passadas  é um mistério, mas, brincadeiras à parte, a declaração da atriz evidencia algo muito sério. Algo que, inclusive, já foi constantemente evidenciado por Meryl Streep em várias entrevistas ao longo de sua carreira: envelhecer em Hollywood não é nada fácil para as mulheres. Na realidade, envelhecer não é fácil para qualquer pessoa nessa indústria.

Durante a cerimônia do Screen Actors Guild Awards no último domingo, debatia esse mesmo o assunto com um amigo, particularmente quando Debbie Reynolds recebia uma homenagem por sua carreira. Existe todo um respeito e carinho por atores em momentos como esse, mas, parando para pensar, é de certa forma triste ver tributo a determinados intérpretes. A homenagem por si só já significa algo próximo do fim de uma carreira (o que apenas o Globo de Ouro desmistificou lindamente anos atrás com o Cecil B. Demille para Jodie Foster), mas aí surgem os vídeos de retrospectiva e um lastimável fato se evidencia: aquelas são pessoas que vivem apenas de passado. A glória delas está lá. Não agora. Inexistem chances dignas para atrizes como Debbie Reynolds em Hollywood. E isso é revoltante. Não consigo imaginar experiência mais gratificante do que poder ver grandes e veteranas atrizes com papeis à altura. O que é o show de Judi Dench no recente Philomena, por exemplo? Ou a aula de sutilezas de Julie Christie em Longe Dela? Mas atrizes como elas, Maggie Smith, Helen Mirren ou Meryl Streep parecem casos raros e isolados nos dias de hoje. E mais: muitas delas são britânicas, significando que a Europa valoriza muito mais atrizes que envelheceram do que os Estados Unidos.

Voltando à situação de Wiest, ela afirmou, em entrevista ao The New York Times, que quase não recebe mais oportunidades no cinema e que é chamada para apenas um tipo de papel: o da mãe agradável. “E é isso, é tudo o que vem”, diz a atriz. Difícil saber o que é pior: a falta de papeis ou os personagens estereotipados e quase ofensivos oferecidas a grandes talentos (que, por diversas razões, compram as oportunidades). É infinita a lista de atrizes que mereciam muito mais do que recebem. Susan Sarandon virou a mãe dos protagonistas de comédias bobocas, Diane Keaton se firmou como a engraçadinha descolada de meia-idade também em filmes de gosto duvidoso, Vanessa Redgrave ruma em direção aos papeis figurantes que poderiam ser interpretados por qualquer outra pessoa de menor calibre (Foxcatcher, O Mordomo da Casa Branca), e por aí vai… Quando, claro, algumas simplesmente somem do mapa, aparecendo apenas eventualmente com pequenas participações em seriados ou filmes independentes lançados diretamente em home video. Nessa lista, podemos incluir Michelle Pfeiffer e Meg Ryan, por exemplo.

Esse assunto, no entanto, é apenas detalhe de uma crise muito maior enraizada em Hollywood. Observemos a temporada de premiações desse ano, onde a tensão está evidente e escancarada: das 20 interpretações indicadas ao Oscar, nenhuma vem de um ator negro. Dos 10 roteiros também indicados ao prêmio, nenhum é escrito por uma mulher. Quando resolvem compensar a situação, indicam Selma a melhor filme sendo que o longa só tem uma outra indicação de canção. Faz algum sentido além do cumprimento formal da culpa social? Não. O que dizer, então, das mulheres negras que já ganharam Oscar? Todas por papeis de escravas, empregadas, mães abusivas ou caricaturas. E o primeiro Oscar de direção entregue a uma mulher? Foi para Kathryn Bigelow, que realizou um filme de guerra essencialmente político e masculino. Uma Jane Campion ou uma Sofia Coppola da vida nunca ganhariam essa honraria.

Claro que as premiações são apenas reflexos de uma indústria que, muito mais do que estar despreocupada com o protagonismo de negros e mulheres, não se empenha em dar atenção para atores que envelhecem e que contribuíram tanto para o cinema. São problemas já de décadas em Hollywood e não é à toa que todos estão debandando para o mundo dos seriados, que hoje estuda a família moderna (não aquele clichê de Modern Family, mas  sim a moderna mesmo, composta por um pai travesti e uma filha lésbica, como vemos em Transparent), que dá uma luz no fim do túnel para atores esquecidos pelo cinema (mais anteriormente vimos Glenn Close em Damages e Sally Field em Brothers & Sisters) e que traz negras como protagonistas em papeis atípicos (a advogada sexualizada, forte e misteriosa de Viola Davis em How to Get Away With Murder). Se na TV sobra espaço para gays, mulheres e negros, comprovando a total superioridade deste formato em relação ao cinema, na tela grande falta vergonhosamente. Mas, para além de igualdade, está faltando respeito em Hollywood. Intérpretes de pura excelência como Dianne Wiest não devem ficar sem dinheiro para o aluguel. E muito menos sem trabalhos dignos.