Cinema e Argumento

Rapidamente: “O Auto da Compadecida 2”, “Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra”, “Jurado Nº 2” e “Lee”

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O AUTO DA COMPADECIDA 2 (idem, 2024, de Guel Arraes e Flávia Lacerda): Na atrasada esteira em que o cinema brasileiro entrou de fazer continuações de produções célebres da sua filmografia, O Auto da Compadecida 2 é outro caso frequente de sequências que, nem de longe, conseguem fazer um raio cair duas vezes no mesmo lugar. Minha primeira grande decepção foi constatar que o filme abandona as locações paraibanas do original para ser rodado inteiramente em estúdio. Além de conferir uma estética muito superficial ao resultado, a opção apequena a mitologia em torno O Auto da Compadecida como um todo, seja ela a audiovisual ou a do espírito de Ariano Suassuna. Por sinal, as palavras do autor fazem falta. O que temos agora é a dupla Guel Arraes e João Falcão (com colaboração de Jorge Furtado e Adriana Falcão) criando algo original, em tom de reverência à obra do nordestino. Ainda que o esforço seja nobre, a continuação praticamente não avança em ideias e se limita à tentativa de recriar tipos e situações. Entretanto, Suassuna é Suassuna: único — e, portanto, impossível de ser emulado. Como João Grilo e Chicó, Matheus Nachtergaele e Selton Mello conseguem evocar a aura da produção anterior, que, no frigir dos ovos, parece revisitada como um especial de final de ano feito no Projac para exibição na TV, com, aliás, direito a merchandinsing do Chopp Brahma e tudo.

COMO GANHAR MILHÕES ANTES QUE A AVÓ MORRA (Lahn Mah, 2024, de Pat Boonnitipat): Quase caí para trás quando descobri que Usa Semkhum, matriarca-título de Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra, nunca atuou e é apenas uma dona-de-casa de 78 anos em seu primeiro papel. Essa tocante produção tailandesa conta a história de um jovem que vê a oportunidade de conquistar a preferência da avó doente e, assim, ficar no topo do testamento a ser deixado por ela. Cômico, gracioso e emocionante na mesma medida, o longa examina os diferentes prismas dos laços familiares e como a construção do afeto (ou a falta dela) se dá ao longo de uma vida. O diretor Pat Boonnitipat também faz sua estreia aqui – antes, ele havia dirigido apenas alguns episódios para três séries na Tailândia — e acerta especialmente no tratamento do (melo)drama dos personagens. Não deixa de ser uma tarefa complexa tanto porque a história poderia cair em lágrimas baratas quanto porque seria fácil ver o roteiro, escrito por Boonnitipat com Thodsapon Thiptinnakorn, destrinchando uma série de lições de moral. Em suma, Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra é um filme simples, de poucas ambições, mas genuíno em todo o seu DNA, o que torna certeiras as investidas diretas do filme para emocionar a plateia. Usa Semkhum brilha como a avó, transmitindo a graça, a delicadeza e as pequenas sabedorias de uma mulher nunca tratada de modo condescendente pelo texto. Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra se conectou tanto com o público que se tornou um verdadeiro hit nas bilheterias tailandesas, a ponto de conquistar o título de filme mais visto do ano no país. Aclamação merecida para uma obra irresistível e de grandes emoções.

JURADO Nº 2 (Juror #2, 2024, de Clint Eastwood): Aos 94 anos, Clint Eastwood pode muito bem ser o último cineasta veterano capaz de trabalhar uma narrativa clássica com vigor e rigor, oferecendo insights sobre temas importantes que apenas a experiência é capaz de produzir. Nem sempre Eastwood acerta — filmes como Sully, Sniper Americano, J. Edgar e Além da Vida, para citar alguns dos mais recentes, são medianos para baixo —, mas Jurado Nº 2, lançado diretamente em streaming aqui no Brasil e em circuito limitadíssimo nos Estados Unidos, mostra como ele segue perspicaz na escolha dos roteiros que deseja filmar. Dessa vez, seu interesse recai sobre a ética, a moralidade e a justiça, refletidas a partir de um ângulo instigante: o de quem somos quando ninguém está olhando ou percebendo. Para tanto, Jurado Nº 2 se vale da narrativa de tribunal, escrita, surpreendentemente, por Jonathan A. Abrams, um estreante. Eastwood não se preocupa em inventar a roda, mas, sim, em conduzir com maturidade uma trama cujos caminhos são difíceis de prever e que, a todo momento, colocam em xeque a crença de seus personagens, seja a do protagonista vivido por Nicholas Hoult ou a de coadjuvantes-chave, como a promotora de Toni Collette. O longa resiste a todas as tentações de sensacionalizar os temas em discussão, suprimindo o uso de qualquer ferramenta que possa interferir no posicionamento do espectador — a trilha sonora, por exemplo, é usada muito discretamente, bem como a exploração de detalhes envolvendo os bastidores de trabalho da acusação e da defesa. Com elegância, o conjunto de escolhas culmina em um desfecho maduro, sem discursos prontos e que convoca quem está assistindo a tirar suas próprias conclusões.

LEE (idem, 2024, de Ellen Kuras): Kate Winslet se jogou de corpo e alma em Lee, cinebiografia da fotojornalista de guerra Lee Miller, que, entre diversos cliques históricos, chegou a fazer um registro dentro da banheira de ninguém menos que Adolf Hitler! Sua atuação atrás das câmeras como produtora é um atestado: Winslet chegou a pagar semanas de trabalho da equipe com dinheiro do próprio bolso. Acontece que boas intenções não chegam a lugar algum se a direção não está à altura. Indicada ao Oscar de melhor documentário em 2009 com The Betrayal, Ellen Kuras fez uma prolífera carreira na TV após esse reconhecimento (Ozark, The Umbrella Academy e Inventing Anna estão entre alguns de seus trabalhos), e só agora volta a dirigir um longa-metragem, com resultados decepcionantes. Se o roteiro escrito a seis mãos por Liz Hannah, John Collee e Marion Hume abarca uma série de temas impactantes, como a violência contra mulheres, o pioneirismo de Miller no fotojornalismo e os próprios horrores inerentes à Segunda Guerra Mundial, Kuras, inexplicavelmente, não consegue traduzir a urgência ou sequer a emoção de cada um deles em imagens. Lee é um filme esvaziado e plano, em que o envolvimento com personagens e situações inexiste. A protagonista, uma figura deveras interessante, está limitada às formalidades desse tipo de filme — ou não é mais do que batido o formato em que alguém, já envelhecido, dá entrevista contando sobre a sua vida enquanto o filme ilustra a narrativa com idas e vindas no tempo? No entanto, talvez esse seja o menor dos problemas para um longa que insiste em desperdiçar as potencialidades da história de uma mulher cuja trajetória oferece, por si só, todas as cartas para um excelente relato.

Os indicados ao Globo de Ouro 2025

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Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, marca o retorno do cinema brasileiro ao Globo de Ouro.

Após um hiato de mais de 20 anos, o Brasil está de volta à disputa do Globo de Ouro, curiosamente, nas mesmas categorias de quando concorreu pela última vez. Ainda Estou Aqui e Fernanda Torres concorrem, respectivamente, a melhor atriz em filme de drama e filme internacional, extamente como aconteceu com Central do Brasil e Fernanda Montenegro. É um momento de glória para o cinema brasileiro, que, com o mais recente longa de Walter Salles, vem conquistando importantes espaços no cenário internacional, ao mesmo tempo em que ultrapassa mais de 2,5 milhões de espectadores no Brasil. A visibilidade do Globo de Ouro é particularmente especial porque Fernanda, por exemplo, se vê indicada no mesmo grupo que atrizes do calibre e do estrelado de Nicole Kidman, Tilda Swinton, Kate Winslet, Angelina Jolie e Pamela Anderson. Considerando as dimensões que o cinema brasileiro tem atualmente no mundo, a própria indicação já é uma vitória.

Feita essa observação celebrativa, vamos aos demais indicados e ao que essa lista – a primeira dos prêmios televisionados da temporada -, traz de indícios e tendências do que podemos esperar (ou não) de mais uma corrida pelo Oscar. Abaixo, fiz um compilado dos pontos que mais chamaram a minha atenção na seleção, além de alguns comentários e preferências:

– O hate de internet e do Letterboxd não teve vez: Emilia Pérez, de Jacques Audiard, recebeu dez indicações e, de quebra, tornou-se o filme mais indicado de todos os tempos no segmento de comédia ou musical. Conquista importante para a Netflix, já que esse é o carro-chefe do streaming em termos de campanha para o Oscar. Vale lembrar, no entanto, que o filme de Jacques Audiard não foi produzido pela Netflix, apenas teve sua distribuição adquirida por ela em Cannes;

– O recorde de Emilia Pérez é a sinalização de um ano forte para o segmento de comédia ou musical: além dele, títulos como Anora e A Substância trazem musculatura para uma competição que abrange desde musicais autorais e populares até bons filmes queridos por público e crítica;

– Ainda assim, Wicked, que chegou a vencer o prestigiado National Board of Review nas categorias de melhor filme e direção, performou abaixo do que as bolsas de apostas vinham projetando. Foram somente quatro indicações, menos da metade de Emilia Pérez, também um musical;

– As estatísticas de Duna 2 foram ainda piores, com menções apenas nas categorias de melhor filme de drama e melhor trilha sonora – que, aliás, já está desqualificada do Oscar em função do alto percentual de reutilização da trilha do longa anterior. A Academia deve dar mais atenção ao blockbuster de Denis Villeneuve em função das categorias técnicas, mas as expectativas agora são bem comedidas;

– No entanto, poucos saíram perdendo tanto com essa lista quanto Saturday Night e Saoirse Ronan. O primeiro é o mais recente longa de Jason Reitman. A homenagem ao programa Saturday Night Live parece não ter entusiasmado sequer os estadunidenses, e acabou ficando apenas com a indicação de melhor ator para Gabriel LaBelle. Já Ronan, cotada para atriz e atriz coadjuvante por The Outrun e Blitz, não emplacou nenhuma das possibilidades, saindo enfraquecida para as demais premiações;

– Sebastian Stan, por outro lado, foi agraciado merecidamente com indicação dupla: uma em melhor ator de drama por O Aprendiz e outro em melhor ator de comédia por Um Homem Diferente. São trabalhos distintos e muito bem defendidos pelo ator, que, com eles, inaugura uma nova fase na carreira;

– Entre as ausências, impossível deixar de citar Marianne Jean-Baptiste, fenomenal em Hard Truths e que vem fazendo excelente circuito com os críticos; e Danielle Deadwyller, destaque do mediano Piano de Família e, anos atrás, já esnobada por se grande trabalho em Till. 

– Ariana Grande (Wicked), Margaret Qualley (A Substância) e Zoe Saldaña (Emilia Pérez) também foram reconhecidas por suas ótimas interpretações, mas a um custo que não me agrada: o de serem indicadas como coadjuvantes quando, na verdade, são co-protagonistas de seus respectivos filmes;

– Grata surpresa da lista, a dupla aparição feminina entre os indicados de melhor direção mostra que o Globo de Ouro tem mudado para melhor. Isso porque a francesa Coralie Fargeat (A Substância) e a indiana Payal Kapadia (Tudo Que Imaginamos Como Luz) estavam longe de serem consideradas para a categoria, além de dirigirem filmes provocadores e de língua não-inglesa, respectivamente, ambos obstáculos para reconhecimento no circuito.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA
O Brutalista
Um Completo Desonhecido
Conclave
Duna 2
Nickel Boys
September 5

MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Anora
Emilia Pérez
Rivais
A Substância
A Verdadeira Dor
Wicked

MELHOR DIREÇÃO
Brady Corbet (O Brutalista)
Coralie Fargeat (A Substância)
Edward Berger (Conclave)
Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Payal Kapadia (Tudo Que Imaginamos Como Luz)
Sean Baker (Anora)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA
Angelina Jolie (Maria)
Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
Kate Winslet (Lee)
Nicole Kidman (Babygirl)
Pamela Anderson (The Last Showgirl)
Tilda Swinton (O Quarto ao Lado)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Amy Adams (Canina)
Cynthia Erivo (Wicked)
Demi Moore (A Substância)
Karla Sofía Gascón (Emilia Pérez)
Mikey Madison (Anora)
Zendaya (Rivais)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA
Adrien Brody (O Brutalista)
Colman Domingo (Sing Sing)
Daniel Craig (Queer)
Ralph Fiennes (Conclave)
Sebastian Stan (O Aprendiz)
Timothée Chalamet (Um Completo Desonhecido)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Gabriel LaBelle (Saturday Naight – A Noite Que Mudou a Comédia)
Glen Powell (Assassino Por Acaso)
Hugh Grant (Herege)
Jesse Eisenberg (A Verdadeira Dor)
Jesse Plemons (Tipos de Gentileza)
Sebastian Stan (Um Homem Diferente)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked)
Felicity Jones (O Brutalista)
Isabella Rossellini (Conclave)
Margaret Qualley (A Substância)
Selena Gomez (Emilia Pérez)
Zoe Saldaña (Emilia Pérez)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Denzel Washington (Gladiador 2)
Edward Norton (Um Completo Desconhecido)
Guy Pearce (O Brutalista)
Jeremy Strong (O Aprendiz)
Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
Yura Borisov (Anora)

MELHOR ROTEIRO
Brady Corbet e Mona Fastvold (O Brutalista)
Coralie Fargeat (A Substância)
Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Jesse Eisenberg (A Verdadeira Dor)
Peter Straughan (Conclave)
Sean Baker (Anora)

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
Ainda Estou Aqui (Brasil)
Emilia Pérez
(França)

A Garota da Agulha (Dinamarca)
A Semente da Figueira Sagrada (Alemanha)
Tudo Que Imaginamos Como Luz (Índia)
Vermiglio (Itália)

MELHOR ANIMAÇÃO
Divertida Mente 2
Flow
Memórias de Um Caracol
Moana 2
Robô Selvagem
Wallace & Gromit: Avengança

MELHOR TRILHA SONORA
O Brutalista
Conclave
Duna 2
Emilia Pérez
Robô Selvagem
Rivais

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Beautiful That Way” (The Last Showgirl)
“Compress/Repress” (Rivais)
“El Mal” (Emilia Pérez)
“Forbidden Road” (Better Man – A História de Robbie Williams)
“Kiss the Sky” (Robô Selvagem)
 “Mi Camino” (Emilia Pérez)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA
Alien: Romolus
Deadpool & Wolverine
Divertida Mente 2
Os Fantasmas Ainda se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice
Gladiador 2
Robô Selvagem
Twisters
Wicked

SÉRIES, MINISSÉRIES, TELEFILMES E ANTOLOGIAS

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
O Dia do Chacal
A Diplomata
Round 6
Slow Horses
Sr. e Sra. Smith
Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL
Abbott Elementary
The Bear
The Gentlemen
Hacks
Nobody Wants This
Only Murders in the Building

MELHOR MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME
Bebê Rena
Difamação
Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais
Pinguim 
Ripley
True Detective: Terra Noturna

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Emma D’Arcy (A Casa do Dragão)
Kathy Bates (Matlock)
Keira Knightley (Black Doves)
Keri Russell (A Diplomata)
Maya Erskine (Sr. e Sra. Smith)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL
Ayo Edebiri (The Bear)
Jean Smart (Hacks)
Kathryn Hahn (Agatha Desde Sempre)
Kristen Bell (Nobody Wants This)
Quinta Brunson (Abbott Elementary)
Selena Gomez (Only Murders in the Building)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME
Cate Blanchett (Difamação)
Cristin Milioti (Pinguim)
Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna)
Kate Winslet (O Regime)
Naomi Watts (Feud: Capote vs. The Swans)
Sofía Vergara (Griselda)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Bob Thornton (Landman)
Donald Glover (Sr. e Sra. Smith)
Eddie Redmayne (O Dia do Chacal)
Gary Oldman (Slow Horses)
Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Jake Gyllenhaal (Acima de Qualquer Suspeita)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL
Adam Brody (Nobody Wants This)
Jason Segel (Shrinking)
Jeremy Allen White (The Bear)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Steve Martin (Only Murders in the Building)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME
Andrew Scott (Ripley)
Colin Farrell (Pinguim)
Cooper Koch (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais)
Ewan McGregor (Um Cavalheiro em Moscou)
Kevin Kline (Difamação)
Richard Gadd (Bebê Rena)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney (A Diplomata)
Dakota Fanning (Ripley)
Hannah Einbinder (Hacks)
Jessica Gunning (Bebê Rena)
Kali Reis (True Detective: Terra Noturna)
Liza Colón-Zayas (The Bear)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Diego Luna (La Máquina)
Ebon Moss-Bachrach (The Bear)
Harrison Ford (Shrinking)
Jack Lowden (Slow Horses)
Javier Bardem (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais)
Tadanobu Asano (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)

MELHOR PERFORMANCE DE COMÉDIA STAND-UP
Adam Sandler (Love You)
Ali Wong (Single Lady)
Jamie Foxx (What Had Happened Was)
Nikki Glaser (Someday You’ll Die)
Ramy Youssef (More Feelings)
Seth Meyers (Dad Man Walking)

Três atores, três filmes… com Ann-Chloé Mentor

tresannchloeUma das minhas melhores experiências durante o Festival Internacional de Cinema de Toronto, evendo do qual participei pela primeira vez em setembro deste ano, foi poder conhecer pessoas de diversos lugares do mundo, sejam elas de grande veículos ou de atuação independente, como eu. No caso da Ann-Chloé Mentor, fomos colegas na Media Inclusion Initiative do festival, projeto que busca levar ao TIFF um perfil mais diverso de críticos de cinema. Natural do Canadá, ela percebeu que estava interessada em comunicação e mídia depois de ingressar na Leeds Student Television durante seu semestre no exterior na Universidade de Leeds, Reino Unido. Quando pedi que escrevesse uma breve introdução sua aqui para coluna, Ann-Chloé logo revelou que toda sua personalidade foi formada pela trilogia High School Musical e por Bratz, e que inveja quem ama filmes de terror ou de “arte”, pois se considera alguém “muito simples” quanto aos filmes que gosta, algo que, segundo ela, está refletido na lista de performances escolhidas abaixo. Many thanks, dear Ann-Chloé!

Renée Zellweger (O Diário de Bridget Jones)
O Diário de Bridget Jones é meu filme favorito de todos os tempos e a minha primeira escolha no top 4 do Letterboxd. Como uma romântica incurável, só faz sentido para mim escolher pelo menos uma comédia romântica para esta lista. Uma das melhores partes da atuação de Renée, com a qual acho que a maioria concorda, é como ela conseguiu dominar o sotaque britânico. É um dos raros casos em que se pode dizer com segurança que um americano testou com sucesso um sotaque britânico. Minha parte favorita de Bridget é como ela é estranha e identificável. Também é péssima para falar em público e não pensa antes de falar, o que faz parte de seu charme (Mark parece concordar, pois gosta dela do jeito que ela é). Mesmo que ela planeje tomar decisões melhores na vida, Bridget admite ser estranha e alguém que, às vezes, faz uma sopa azul. Essa personagem significa muito para mim porque, pessoalmente, às vezes me sinto um pouco estranha e gosto da ideia de ter pessoas ao redor que gostam de você exatamente do jeito que você é, com estranhezas e tudo mais.

Dominic Sessa (Os Rejeitados)
Desde os primeiros segundos, eu sabia que iria gostar de Os Rejeitados. Muitos filmes que acontecem no passado às vezes tiram você da história por causa do quão moderna nossa tecnologia se tornou e da alta qualidade das câmeras. Nesse caso, a granulação deu ao filme uma sensação muito autêntica para mim. Dominic Sessa teve uma atuação fantástica, e o que mais me chocou foi o fato de esta ser sua estreia. Ele estava no lugar certo na hora certa. É fácil associar grandes nomes a um projeto porque você sabe que ele venderá; no entanto, penso que este Os Rejeitados realmente mostra que deveríamos dar mais oportunidades aos “ninguéns”. Trata-se de um longa que definitivamente fará parte dos meus feriados de agora em diante, e estou animada para ver o que o futuro reserva para Dominic Sessa.

Jacob Elordi (Saltburn)
Jacob Elordi é cool (e lindo) sem precisar se esforçar neste filme. Seu personagem, Felix, vem de uma família com MUITO dinheiro e sempre teve tudo o que poderia desejar. É alguém muito atraente e seguro de si. Você quer ser ele ou estar com ele, e Jacob Elordi personificou perfeitamente esse tipo de personagem. O papel reforçou sua posição de “menino branco do mês” e deu origem a edições do TikTok que ficaram gravadas em minha mente. Há muitoa discussão em torno do filme, seja pelas cenas chocantes ou pelo discurso em torno de classes, mas uma coisa que você não pode negar é o quão lindo o resultado é. Não só isso, mas também é divertido e dá vontade de festejar (e acho que todos nós merecemos um pouco de diversão agora).

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“O Aprendiz” é recorte muito bem calibrado de como Donald Trump moldou sua maneira de agir no mundo

 Admit nothing, deny everything.

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Direção: Ali Abbasi

Roteiro: Gabriel Sherman

Elenco: Sebastian Stan, Jeremy Strong, Maria Bakalova, Martin Donovan, Catherine McNally, Charlie Carrick, Ben Sullivan, Mark Rendall, Joe Pingue, Ron Lea, Edie Inksetter, Matt Baram, Moni Ogunsuyi

The Apprentice, Canadá/Dinamarca/Irlanda, 2024, Drama, 122 minutos

Sinopse: O jovem Donald Trump (Sebastian Stan), ansioso para fazer seu nome como o ambicioso segundo filho de uma família rica na Nova York dos anos 1970, cai sob o feitiço do implacável advogado Roy Cohn (Jeremy Strong).

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Donald Trump (Sebastian Stan) se orgulha de, em certa medida, ter domado Ivana (Maria Bakalova), sua esposa que, durante muito tempo, antes do matrimônio, resistiu às insistentes investidas do hoje ex-presidente dos Estados Unidos. Ainda que tenha preservado boa parte de sua forte personalidade após o matrimônio, ela acaba se tornando, como tudo na vida do empresário, uma mera conquista. “Ao menos consegui que ela colocasse silicone”, diz ele, quando perguntado sobre sua relação com Ivana. Silicone esse que, tempos depois, em outra cena, ele desprezaria, dizendo que não sente mais atração pela esposa, inclusive por seus “seios de plástico”.

A relação específica entre os dois é a perfeita representação de como Trump encara o mundo: tudo e qualquer coisa são apenas uma conquista, um jogo, uma queda de braço. E O Aprendiz, do diretor iraniano Ali Abbasi, incorpora sua perspectiva torpe e egocêntrica diante do mundo para narrar a sua ascensão no mercado imobiliário de Nova York em meados dos anos 1970, começando pela construção da ambiciosa Trump Tower até os vários cassinos inaugurados por ele após uma série de sucessivas conquistas. Não se trata de um longa sobre o corrompimento de um iniciante ou da tentativa de humanização de um homem conhecido por seus absurdos, mas pura e simplesmente de imaginar a vida de Trump a partir da sua própria maneira de ver as coisas.

É importante ressaltar isso porque ao menos metade de O Aprendiz, assim como o seu próprio título, reside no período em que o personagem se vê às voltas com Roy Cohn (Jeremy Strong), polêmico advogado que apadrinhou Trump e lhe mostrou todos os caminhos vis e escusos para se vencer na vida. O jovem protagonista aprende com Cohn, entre outras coisas, que nunca se deve admitir derrota e que parte da vitória está no ato de intimidar e ameaçar, sem se importar com que os outros pensam. Ajustados ou não para fins dramáticos, conforme os letreiros iniciais anunciam, todos os momentos são fidelíssimos a Trump como viemos a conhecê-lo na vida pública.

Sua essência está inteirinha ali, e não é difícil imaginar que ele realmente teria certas reações na vida privada, como quando, discutindo com Ivana, ele perde por completo o controle ao ouvir da esposa que seus cabelos estão caindo. O Aprendiz mostra que, para Trump, tudo é sobre Trump — seu nome está no ambicioso hotel a ser construído ou, então, nas abotoaduras de diamantes presenteadas a Roy Cohn — e que nunca há palavra mais importante que sua, inclusive diante de decisões médicas. Trata-se de uma realidade alternativa, onde, para ele, a verdade se torna flexível. É uma escalada que o filme delineia com habilidade, tornando perfeitamente compreensível o engrandecimento do aprendiz para cima de Cohn, criador que acaba engolido por sua própria criação.

O roteiro de Gabriel Sherman cerca o personagem de pessoas que testemunham essa transformação e, em situações mais críticas, contrapõem-se ao seu comportamento, o que é importante para que O Aprendiz não perca de vista os desvios de um homem desde cedo tomado pelo ego e pela ideia de que não existem leis, mas sim negociações para qualquer assunto ou problema. Mesmo a difícil relação com o pai não cai em estereótipos, pois Trump jamais sucumbe ou se vitimiza diante da figura do pai — pelo contrário, quase faz coisas como se quisesse dar um troco em seu progenitor e mostrar como suas escolhas são melhores que a dele.

Abbasi compõe uma estética eficiente para emoldurar O Aprendiz. Além da atmosfera setentista e granulada, a câmera captura tudo com um tom documental, como se estivesse ali de forma intrusiva, lançando luz sobre reações que não veríamos em um registro tradicional, bem ao estilo do seriado Sucession. Isso é prato cheio, claro, para as performances. Na pele de Trump, Sebastian Stan alcança um equilíbrio raro, emulando tiques e trejeitos (vale reparar nos movimentos da boca, iguais ao do biografado) sem deixar o mimetismo se tornar uma muleta de interpretação. Pelo contrário: sua versão do ex-presidente é crível e instigante. Tão bom quanto é o trabalho de Jeremy Strong como Roy Cohn, que cria uma figura incômoda em diversas frentes, da índole predadora ao desmoronamento físico e emocional (e a cena de seu último aniversário é uma das melhores do filme).

Na sequência final, encontramos o protagonista concedendo um depoimento ao jornalista que está prestes a escrever sua biografia. Trump, por estar pagando a realização do projeto, escolhe o que omitir ou priorizar. Para tanto, destila posicionamentos, um deles, curiosamente, sendo o de que governar é para perdedores e de que, mesmo amando negociar, jamais entraria na política. Entre as contradições e as ambições expostas ali, O Aprendiz termina com esse homem em pé, do alto do seu escritório envidraçado, olhando para uma bandeira dos Estados Unidos no horizonte. Não há mais nada a ser contado — sabemos muito bem, a partir dali, mais do que o futuro reservava à Trump. Sabemos, acima de tudo, o que o mundo, dividido, acompanharia com doses esquizofrênicas de horror ou idolatria.

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Destes filmes não se leva nada: “Silvio” e “Maníaco do Parque” são duas das piores experiências do ano

É triste afirmar, mas dois dos piores filmes de 2024 são oriundos do cinema brasileiro. Silvio, de Marcelo Antunez, e Maníaco do Parque, de Maurício Eça, não apenas fazem má dramatização de personagens e circunstâncias — na verdade, ambos já começam errando na própria concepção de ideias e nos pontos de vista adotados para suas histórias. Curiosamente, também são obras frouxas — para se dizer o mínimo — na parte técnica, com menção honrosa para Silvio, que nem de longe parece ter custado quase sete milhões de reais para ser produzido. Mas vou me debruçar sobre os dois longas para dar uma dimensão maior do acúmulo de problemas. 

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“Silvio”, de Marcelo Antunez

Começo pela cinebiografia de Silvio Santos por questão cronológica. O filme chegou aos cinemas brasileiros no último dia 12 de setembro, pouco menos de um mês após a morte do comunicador, reconhecidamente o mais célebre e reverenciado a já ter passado pela TV do nosso país. Contudo, nem mesmo a comoção nacional com a despedida de Silvio despertou interesse pelo filme, que fez sua estreia na oitava posição semanal das bilheterias brasileiras, vendendo míseros 51,3 mil ingressos. A tragédia era anunciada: não só o próprio SBT rejeitou qualquer chancela para o projeto (o nome da emissora sequer é citado ou ilustrado no longa) como tudo já havia virado piada logo no lançamento do primeiro trailer.

Nem bem Silvio começa e tudo vem a se confirmar, da incompreensível escalação de Rodrigo Faro para interpretar Silvio Santos ao paupérrimo trabalho de maquiagem. Ainda assim, a mais grave das falhas é anterior, no caso, o roteiro escrito pela dupla Anderson Almeida e Newton Cannito, que adotou como ponto de partida o famoso sequestro do apresentador em 30 de agosto de 2001. É sob a ameaça do revólver do sequestrador que o protagonista, então, relembra momentos cruciais da sua vida, o que, por si só, já é de péssimo gosto — afinal, como alguém pode ter cogitado, entre tantos momentos emblemáticos da carreira de Silvio, que esse seria o recorte mais interessante para reverenciar as lembranças do comunicador?

Estruturalmente, a escolha também é problemática, pois falta verossimilhança às passagens em que Silvio Santos rememora sua vida. Elas são introduzidas por meio de discursos prontos, quando o protagonista, agindo como se fosse um coach, tenta colocar algum juízo na cabeça do sequestrador ou se aproxima dele buscando o ser humano por trás daquela situação crítica. Tudo é motivo para Silvio interromper a conversa e contar histórias em tom autoindulgente, com flashbacks que não revelam nada que já não tenhamos visto em incontáveis reportagens e especiais sobre o apresentador. Além disso, as voltas no tempo são pueris, empenhadas demais em edificar qualidades e acentuar problemas para trazer complexidade a um protagonista unidimensional mesmo.

Nada se vê do processo criativo de Silvio Santos como gestor de um veículo de comunicação ou de sua verdadeira influência como um grande nome da TV — os flashbacks de Silvio em frente às câmeras nada mais são do que passagens rapidíssimas com Rodrigo Faro jogando sozinho aviõezinhos de dinheiro para o nada ou revelando a resposta certa de alguma charada a ser desvendada pelos telespectadores.  É curioso como o longa deixa de lado as proezas de Silvio como apresentador para, no final, valer-se justamente dessas conquistas nos créditos finais, quando menciona o ano em que, pela primeira vez, o SBT ultrapassou a Rede Globo no ibope com os programas Casa dos Artistas e Show do Milhão. 

O caos fica ainda mais tumultuado quando Silvio se propõe a ser um filme policial. Paralelo às lições de vida que o personagem tenta entubar em seu sequestrador, vemos toda a mobilização da polícia e das autoridades de São Paulo para resolver um problema de dimensão nacional. Do sniper que deseja a todo custo abater o homem que tem Silvio Santos como refém ao próprio governador em conflito sobre até que ponto se envolver na operação, vemos todas as engrenagens se movimentando para criar uma atmosfera de tensão, mas falta urgência, verdade e verossimilhança. Principalmente porque, podem ter certeza, o que menos quero ver em um filme sobre Silvio Santos é dramatização policial, seja em diálogos ou em cena mal coreografada de perseguição e tiroteio.

E há tudo aquilo que fez Silvio virar uma piada desde o seu primeiro trailer. Poucos mistérios são tão intrigantes quanto a escalação de Rodrigo Faro para interpretar o eterno Senor Abravanel. Faro não só nunca foi referência alguma em atuação (e, para um papel dessa magnitude, o mínimo que poderíamos esperar era alguém à altura do desafio) como já estava afastado do ofício há mais de 15 anos, o que está evidente em cena, uma vez que ele não consegue encontrar o equilíbrio entre reproduzir os trejeitos do apresentador e se esquivar de muletas óbvias para construir o papel. Sua personificação de Silvio Santos é inócua, apática e com problemas potencializados pela maquiagem amadora e pouco elaborada, para não nos prolongarmos mais no tópico.

Originalmente intitulado Silvio Santos – O Sequestro, o longa já estava pronto desde 2019 e foi várias vezes adiado, incluindo um longo período de anos sem qualquer novidade sobre sua distribuição. O silêncio se quebrou em abril deste ano, com o lançamento do trailer. É claro que há muitos fatores que definem o adiamento de um filme, ainda mais quando vivemos em um país com problemas crônicos neste no mercado e em um mundo que ficou de pernas para o ar com a pandemia da Covid-19. Entretanto, neste caso, gosto de acreditar que, secretamente, os envolvidos nunca souberam mesmo o que fazer com o filme, como se estivessem envergonhados desde o primeiro momento em conferiram o resultado final. Ainda bem que Silvio Santos não viveu para ver.

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“Maníaco do Parque”, de Mauricio Eça

Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, foi condenado, no início dos anos 2000, a mais de 280 anos de prisão pelo assassinato de 11 mulheres em São Paulo, ainda que tenha respondido judicialmente por apenas sete. Deve ser solto em agosto de 2028, pois, à época, apesar da sentença, o tempo máximo de cumprimento de pena no Brasil é de 30 anos. A lembrança dos horrores cometidos por ele volta à tona agora com Maníaco do Parque, uma produção original do Prime Video lançada no dia 18 de outubro e que, assim como Silvio, comete todos os deslizes possíveis, dessa vez com o agravante de ter uma história cercada por temas delicados em inúmeras frentes.

A direção de Maníaco do Parque fica a cargo de Mauricio Eça, um cineasta cujas credenciais não inspiram confiança — são seus os três filmes fraquíssimos e questionáveis sobre Suzane Von Richtofen, também originais Prime Video. Eça parece querer fazer carreira contando a história de assassinos brasileiros, ideia interessante caso a concepção de seus projetos não fossem tão amadoras ou rasteiras em cada leitura proposta. Se os longas sobre Richtofen já eram duvidosos na forma como radiografavam as camadas em torno de um célebre crime, Maníaco do Parque desce vários degraus e chega ao patamar do mau gosto.

O único aspecto nobre do filme é o desejo de não voltar a dar protagonismo ao personagem-título, perspectiva que vem senddo discutida nos últimos anos com o lançamento de produções como a minissérie Dahmer: Um Canibal Americano, realizada por Ryan Murphy para a Netflix. A decisão pode ser acertada, mas o roteiro escrito por L.G. Bayão adota uma manobra que funciona melhor na teoria do que na prática: a de ter como protagonista uma fictícia responsável por concentrar diversas discussões sociais, ideológicas e éticas envolvendo os crimes, a investigação e as abordagens envolvendo os crimes cometidos pelo Maníaco do Parque.

Acontece que a execução é medíocre. Pior: dá a sensação de que foi pensada para, antes do que qualquer coisa, lacrar em suas afirmações sobre feminicídio, sensacionalismo da imprensa e inércia da polícia. Falta o básico de dramaturgia no texto de Bayão, construído em cima de todas as caricaturas imagináveis. Constrange como Maníaco do Parque olha para os assassinatos a partir da ótica jornalística, conduzida pela personagem Helena (Giovanna Grigio), uma profissional fictícia do ramo e que, sem naturalidade nenhuma, encapsula dilemas com discursos prontos.

Tudo em volta da jornalista é puro estereótipo. Há, por exemplo,o colega mais experiente e egocêntrico vivido por Bruno Garcia que não aceita ser ofuscado pela nova colega. Ambos respondem a um chefe de redação (Marco Pigossi) que adora notícias “fortes” e polêmicas, visando o lucro do jornal. Também existe a irmã psiquiatra (Mel Lisboa) que surge para explicar com explícito didatismo, palavra por palavra, como funciona a mente de um psicopata, da neurofisiologia até o padrão dos comportamentos em sociedade. Para dar um toque pessoal, Bayão, por fim, coloca uma questão mal resolvida da protagonista com o pai recém-falecido, algo dispensável em um primeiríssimo tratamento de roteiro.

Além dessa essência afogada em traços televisivos (no pior sentido dessa comparação) e da péssima representação de dramas estereotipados, o roteiro acaba se afundando mesmo é na mentira. Uma coisa é você adotar liberdades criativas preservando a essência dos fatos, outra é fazer o que bem entender com uma realidade posta. Maníaco do Parque coloca nas mãos de Helena, uma personagem fictícia todo o desenrolar dos fatos e da investigação, como se ninguém mais tivesse cumprido papel algum na captura do serial killer. E, em nome da “atualização”, o filme dá à Helena a chance de estar frente a frente com o Maníaco, chamando-o de lixo e outras tantas coisas para deixar as intenções do projeto bem explícitas. Nada disso existiu, muito menos da maneira representada — e, ao meu ver, tanta imaginação acaba sendo, sim, sinônimo de mentira.

Criticando um sensacionalismo que ele próprio pratica, Maníaco do Parque se revela risível tanto no conteúdo quanto na forma. Caso pudéssemos, em uma realidade alternativa, relevar o roteiro e sua série de furos e fatos mal explicados, não haveria atenuante algum na imaginação de Maurício Eça como diretor. O longa inteiro é acima do tom, caricato, clichê e histriônico. A trilha sonora, seja a instrumental ou o compilado de canções, é um caso à parte: incessante, mal inserida e invasiva. O conjunto final se precariza a ponto de inclusive tolher um ótimo ator como Silvero Pereira, reduzido a maquiagem e a um personagem reativo, sem vida própria, muito menos bem contextualizado. Nessa atrasada onda de true crimes que tem tomado conta do audiovisual brasileiro, é bem provável que Maníaco do Parque seja o maior dos constrangimentos.

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