Cinema e Argumento

Melhores de 2015 – Montagem

Melhor Montagem - Whiplash

Foi um excelente ano para a categoria de montagem, mas o filme que teve o trabalho mais exemplar neste setor ainda é do início de 2015: Whiplash: Em Busca da Perfeição. Peça-chave para que o filme de Damien Chazelle seja um arraso em sua cena final, a montagem de Tom Cross é exemplar ao acompanhar toda a dinâmica de uma trama ágil, concisa e cheia de intensidade. Surpreende, particularmente, como Tom Cross é criativo e firme em seu trabalho, visto que suas experiências em nada assinalavam a previsão de um resultado grandioso como esse (antes ele havia apenas trabalhado como assistente de montagem de filmes de terror como Pânico na FlorestaTuristas, além de ter assinado a montagem de obras de pouca repercussão ou mais tradicionais como Coração Louco). Ainda que Cross já tivesse como base o seu trabalho no curta homônimo que originou Whiplash, nada parece repetição ou muito menos maneirismo.  Ainda disputavam a categoria: Cássia EllerLivreMad Max: Estrada da FúriaSicario: Terra de Ninguém.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

O Quarto de Jack

– You’re gonna love it.
– What?
– The world.

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Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donoghue, baseado no livro “Room”, de autoria própria

Elenco: Jacob Tremblay, Brie Larson, Joan Allen, Sean Bridgers, Matt Gordon, William H. Macy, Randal Edwards, Wendy Crewson, Sandy McMaster, Amanda Brugel, Joe Pingue, Cas Anvar

Room, Irlanda/Canadá, 2015, Drama, 118 minutos

Sinopse: Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick (Sean Bridgers), que os mantém em cativeiro. Joy faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade. (Adoro Cinema)

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Presidindo o júri do Festival de Berlim em 2016, Meryl Streep recomendou aos seus colegas avaliadores que fossem de peito aberto às sessões ao adotar a seguinte tática: embarcar em cada um dos filmes concorrentes sabendo o mínimo possível sobre as suas histórias e evitando até mesmo entrar em contato com o catálogo oficial do evento. É uma missão árdua quando a internet nos introduz informações mesmo quando não estamos atrás delas. Não estamos no Festival de Berlim, mas, no caso específico de O Quarto de Jack, faz toda a diferença adotar o conceito da presidente Meryl Streep e assistir ao filme completamente no escuro. No entanto, isso não se relaciona em nada com o fato da obra assinada por Lenny Abrahamson ser repleta de reviravoltas. O que acontece é que o drama da jovem Joy (Brie Larson, vencedora do Oscar 2016 de melhor atriz por seu desempenho aqui) se torna muito mais imersivo quando nos coloca na pele do pequeno Jack (Jacob Tremblay). Afinal, O Quarto de Jack se engrandece toda vez que vemos o mundo com os mesmos sentimentos de surpresa do garoto que dá título ao filme.

Não é de hoje que narrar uma tragédia ou dramas complexos a partir do ponto de vista da inocência pode resultar em experiências para lá de emocionantes. Lembram da difícil infância dos quatro garotinhos de Em Busca da Terra do Nunca que ganha um novo sentido quando J.M. Barrie (Johnny Depp) entra em suas vidas com o poder transformador da literatura? Pois a situação de O Quarto de Jack é muito mais delicada, e por isso é tão importante você acompanhar, junto ao personagem do título, cada informação que Abrahamson, em parceria com a roteirista e escritora do livro original Emma Donoghue, lança para que possamos reinterpretar todos os significados de um ambiente inicialmente inidentificável. Sabemos logo de cara, claro, que O Quarto de Jack é uma ode ao amor materno, mas é questão de tempo para que ele também se revele – e de forma ainda mais tocante – como a afirmação da ideia de que filhos podem ser uma força de amor e segurança igualmente poderosa para qualquer mãe. Nesse sentido, o roteiro de Donoghue é perfeito ao não depender da revelação sobre o que realmente é o tal quarto de Jack para que o espectador consiga se conectar emocionalmente com os personagens desde o princípio.

Outro ótimo exemplar do cinema independente, O Quarto de Jack não tropeça nos obstáculos de ter que encenar praticamente metade de sua história em um único ambiente. A mise-en-scène e o próprio design de produção colaboram para que nos tornemos íntimos dos protagonistas e para que o filme de Lenny Abrahamson se torne um mistério até mesmo nos detalhes. Não deixem de se atentar para como a decoração de set e até mesmo as vestimentas dos personagens nunca acusam nem mesmo o tempo ou o espaço em que O Quarto de Jack se passa: assim como Joy e seu filho podem estar em um espaço urbano contemporâneo, não deixa de ser aceitável a ideia de ambos estarem em um ambiente subterrâneo durante uma guerra. Obviamente todo esse contexto é um belo presente para qualquer ator brilhar, e a dupla formada por Brie Larson e Jacob Tremblay pega o espectador de jeito. Ele, em especial, é quem detém o brilho do filme por ser um excelente ator e principalmente por ter a seu favor uma história que depende inteiramente de seu personagem. Não há qualquer construção dramática que Brie Larson faça que não seja consequência direta do que Tremblay faz em cena, e por isso é um crime ela ter faturado todos os prêmios da temporada enquanto o pequeno tenha precisado se contentar apenas com uma indicação de melhor ator coadjuvante (?!) ao Screen Actors Guild Awards.

Ao chegar em sua metade, O Quarto de Jack dá uma completa guinada, tornando-se bastante diferente em comparação ao que vinha construindo. Apesar das necessárias discussões propostas, não deixa de ser um tanto frustrante constatar que, ao perder a circunstância do quarto em questão, o longa passa a ser apenas um (bom) drama sobre a reconstrução de duas vidas. Ao transferir sua geografia, O Quarto de Jack não deixa de se fragilizar, o que fica evidente em descuidos um tanto imperdoáveis, como a entrada do personagem de William H. Macy. Bom ator que é, ele não precisava estar aqui com um papel tão esquecível, pouco aproveitado e que quase não acrescenta nada à história. Em contrapartida, é bom ter uma Joan Allen eficiente e afetuosa em cena. Se o último terço do filme dá mais chances a Brie Larson, é Jacob Tremblay quem continua sendo mesmo a força do todo, compensando eventuais deslizes ou obviedades do roteiro. Por sua ótima atuação e por seu personagem plenamente compreendido pela equipe como o norte da produção, Tremblay merece todos os aplausos – e olha que não é missão fácil brilhar em um filme que já tem a emoção como uma grande marca.

Melhores de 2015 – Canção Original

Melhor Cancao - Glory

A apresentação de “Glory” na cerimônia do Oscar 2015 está entre os momentos mais memoráveis do prêmio nos últimos anos. Boa parte deste impacto, claro, está na relevância da música e do filme em tempos que o Oscar reflete o racismo na indústria cinematográfica. Entretanto, a canção é mesmo emocionante e totalmente condizente com a mensagem de Selma: Uma Luta Pela Igualdade. Escrita por John Legend e Common, ela fala sobre esperança e os sonhos de vencer uma batalha que todos nós sabemos qual é. Relevante e narrativa, “Glory” é, disparada, a melhor canção feita para o cinema em 2015. Ainda disputavam a categoria: “Big Eyes” (Grandes Olhos), “Cold One” (Ricki and the Flash: De Volta Pra Casa), “Love Me Like You Do” (Cinquenta Tons de Cinza) e “Opportunity” (Annie).

EM ANOS ANTERIORES: 2014 “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante) | 2013 – “Last Mile Home” (Álbum de Família) | 2012 – “Skyfall” (007 – Operação Skyfall| 2011 – “Life’s a Happy Song” (Os Muppets| 2010 – “Better Days” (Comer Rezar Amar| 2009 – “By the Boab Tree” (Austrália| 2008 – “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)

Melhores de 2015 – Roteiro Original

Melhor Roteiro Original - Que Horas Ela Volta

Registro histórico em forma de cinema, Que Horas Ela Volta? mostra o dia a dia de um Brasil em plena transformação sócio-econômica. Não há crise ou escândalo que possa diminuir a vitória que é a ascensão de classes menos favorecidas no nosso país ao longo dos últimos anos, e a diretora e roteirista Anna Muylaert, no auge de seu talento como contadora de histórias, encena tal movimento com um roteiro que vem para marcar época no cinema brasileiro contemporâneo. Os personagens realistas criados por Muylaert são fundamentais para todo o carisma que tornou Que Horas Ela Volta? um sucesso de público e crítica, mas as impactantes e incômodas situações vividas por eles são o que fazem do filme uma reflexiva experiência sobre nossos conceitos e preconceitos. De inesquecíveis diálogos repletos de humor a cenas de partir o coração (como lembrar da Val de Regina Casé na piscina e não se arrepiar?), Que Horas Ela Volta? tem o pacote completo para agradar a todos sem nunca perder a inteligência. Ainda disputavam a categoria: Acima das NuvensAusênciaBirdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)Divertida Mente.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 Relatos Selvagens |  2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

Brooklin

There’s nothing you can do about it apart from endure it.

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Direção: John Crowley

Roteiro: Nick Hornby, baseado no livro “Brooklyn”, de Colm Tóibín

Elenco: Saoirse Ronan, Julie Walters, Jim Broadbent, Domhnall Gleeson, Maeve McGrath, Brid Brennan, Eileen O’Higgins, Jane Brennan,  Eileen O’Higgins, Peter Campion, Eva Birthistle,  Emily Bett Rickards,  Eve Macklin,  Nora-Jane Noone, Samantha Munro

Brooklyn, Irlanda/Reino Unido/Canadá, 2015, Drama, 111 minutos

Sinopse: A jovem irlandesa Eilis Lacey (Saoirse Ronan) se muda de sua terra natal e vai morar em Brooklyn para tentar realizar seus sonhos. No ínicio de sua jornada nos Estados Unidos, ela sente falta de sua casa, mas ela vai tentando se ajustar aos poucos até que conhece e se apaixona por Tony (Emory Cohen), um bombeiro italiano. Logo, ela se encontra dividida entre dois países, entre o amor e o dever. (Adoro Cinema)

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Viver a turbulência e as eventuais dores da transição para vida adulta é uma difícil missão dada a todos nós. Por outro lado, acompanhar os momentos de amadurecimento que fazem parte dessa fase da vida tem sido motivo de prazerosas experiências no cinema. Cito particularmente o que os britânicos realizam em torno do assunto, uma vez que é fácil conferir este recente Brooklin (ainda é inexplicável a tradução brasileira que trocou o y do título original por i) e imediatamente lembrar de outro título igualmente elegante e delicado realizado no Reino Unido: Educação, longa indicado ao Oscar de melhor filme e responsável por revelar Carey Mulligan. Os dois trabalhos falam sobre duas garotas que vivem o momento crucial em que é necessário abandonar a inocência para adentrar a vida adulta. Porém, por mais semelhantes que possam ser em suas temáticas, as duas obras trilham caminhos distintos: enquanto a Jenny de Educação se reconfigura a partir da (re)construção amorosa, a Eilis de Brooklin acha um novo sentido para sua vida quando busca em terras estrangeiras um lugar que realmente possa chamar de lar.

Com muita graça e sutileza, o diretor John Crawley conduz a protagonista Saoirse Ronan por uma história de raízes incrivelmente novelescas, mas nunca permite que o filme como um todo se contamine com o sentido pejorativo dessa definição. É certo que Brooklin, com exceção de seu desfecho, se estrutura a partir de infinitas previsibilidades (as mais evidentes são aquelas que colocam a nossa heroína em uma saia justa sobre qual terra ela realmente deve chamar de sua), o que não impede que Crowley dê um toque envolvente e encantador para o roteiro escrito pelo sempre carismático Nick Hornby. Brooklin resgata a inocência e a fé nas relações humanas, proporcionando ao espectador um certo alento em tempos que nossas interações se tornam cada vez mais superficiais e distantes com o advento da internet e seus aplicativos de relacionamentos. Crawley e Hornby conseguem fazer uma novela clássica sem testar a paciência do espectador, que, em questão de minutos, certamente se pegará torcendo pela protagonista. Isso também não deixa de ser mérito de uma maravilhosa Saoirse Ronan, que já era um arraso em Desejo e Reparação e agora vem para quebrar a regra de que crianças celebradas não voltam a arrebatar depois de adultas.

A parte técnica de Brooklin ajuda a conduzir o espectador pelas transformações da jovem Eilis, menos pela suposta investida do diretor em filmar a história com três diferentes movimentos de cores e mais por elementos discretamente eficientes, como os belíssimos figurinos desenhados por Odile Dicks-Mireaux (o mesmo de Educação!) que se destacam não somente pela beleza, mas por seguirem a lógica de que figurinos também precisam ser ferramentas narrativas. Todo esse apanhado de acertos, entretanto, não funciona de imediato: em seu primeiro ato, Brooklin é um filme apressado, quase bagunçado, e ainda um tanto perdido nos seus tons novelescos (a trilha de Michael Brook, por exemplo é frequentemente invasiva). Por sorte, pouco a pouco, o diretor coloca o filme nos trilhos e passa a apostar mais na delicadeza e no carisma, até porque a entrada do italiano Tony Fiorello (o adorável Emory Cohen) dá uma dimensão muito mais carinhosa para a nova vida da irlandesa Eilis nos Estados Unidos.

Inicialmente pré-produzido com Rooney Mara como protagonista (Saoirse Ronan foi a primeira escolha, mas era jovem demais para o papel, até Mara desistir do projeto), Brooklin não é um filme de grandes engenhosidades, o que não anula aquele que é o seu maior mérito: o de transformar uma história absurdamente simples em algo prazeroso. Se o diretor John Crowley realmente não faz coisas grandiosas com o texto de Nick Hornby, por outro lado é errado dizer que seu trabalho no longa é desprovido de personalidade. Afinal, não é qualquer profissional que consegue capitanear a ideia de algo tão simples quanto Brooklin e ainda assim fazer funcionar. É preciso sensibilidade para enxergar tudo isso e, principalmente, se despir do errado conceito de que no previsível não pode existir algo vivo e pulsante. Um belo momento do longa que coloca essa ideia abaixo é a cena final, que, com uma linda narração sobre como o sofrimento é etapa indesviável rumo a superação das adversidades da vida, tem tudo para fisgar o coração até dos mais céticos. Brooklin tem a pegada clássica de simplicidade e emoção que os britânicos nunca deixam morrer – e com toda razão.