Cinema e Argumento

A Chegada

If you could see your life from start to finish, would you change things?

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Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Eric Heisserer, baseado no conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang

Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Jadyn Malone, Abigail Pniowsky, Tzi Ma, Julia Scarlett Dan, Anana Rydvald, Russell Yuen

Arrival, EUA, 2016, Ficção Científica, 116 minutos

Sinopse: Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade. (Adoro Cinema)

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Não há diretor mais interessante para se acompanhar atualmente do que o canadense Denis Villeneuve. Após repercussão internacional com o ótimo Incêndios, em 2010, ele conseguiu um feito raro: se lançou em Hollywood com personalidade e provocação, o que obviamente lhe trouxe admiradores e detratores na mesma proporção. Por outro lado, é curioso perceber como o diretor, ao contrário de Christopher Nolan, por exemplo, amplia suas ambições em forma e conteúdo sem se perder na pretensão. Basta olhar em retrospecto: o magnífico Os Suspeitos, de 2013, hoje soa quase simples nas questões que suscita se comparado a O Homem Duplicado, Sicario: Terra de Ninguém e, agora, A Chegada, longas consideravelmente mais complexos, mas jamais eruditos. Villeneuve veio para Hollywood querendo mexer com zonas de conforto, o que ganha novas dimensões nessa nova obra assinada por ele e estrelada pela pentacampeã em indicações ao Oscar Amy Adams. A diferença é que agora, o cineasta chega à ficção científica, um terreno infinitamente mais popular e consequentemente mais suscetível a polêmicas junto às plateias

Vendido de forma oportunista por trailers equivocados, A Chegada, desde os primeiros segundos de abertura com os acordes de On the Nature of Daylight, composição do grande Max Richter cedida para o filme, já renega o convencional ao abraçar uma profunda melancolia para introduzir sua heroína, uma linguista que guarda uma história pessoal calejada e despedaçada. É simbólico o filme começar tão próximo da intimidade de Louise Banks (Adams) porque todo o restante da trama se desenvolverá a partir do seu olhar particular, quebrando a expectativa de espectadores sedentos por pirotecnias e espetáculos visuais imediatos. As lembranças da protagonista permearão toda sua jornada como a profissional designada a compreender o idioma de alienígenas que estacionaram no planeta Terra sem motivo aparente, e é importante se atentar a elas não como meros relatos para dar algum embasamento dramático à personagem, mas sim como importantes ferramentas narrativas e imersivas. Compreender que a trajetória de Louise é tão grande quanto a da humanidade frente ao desconhecido é fator-chave para absorver o real sentido de A Chegada.  

Preferindo o silêncio à qualquer hipérbole audiovisual para criar o fascínio do suspense envolvendo o pouso dos alienígenas na Terra, Villeneuve sabe que é importante entregar uma ficção com uma pegada de reflexões em tempos que produções megalomaníacas na técnica, mas rasteiras no conteúdo chegam aos cinemas em grande quantidade. Ao conjugar com precisão todas as ferramentas audiovisuais a sua disposição, o cineasta também exige o mesmo tino para o diferente de cada um dos profissionais envolvidos no projeto em suas respectivas áreas – e é impossível não destacar a trilha eficiente e frequentemente perturbadora do islandês Jóhann Jóhannsson e a fotografia assinada por Bradford Young, que é capaz de explorar a beleza e o horror das situações vividas por Louise. Por abandonar muitos dos vícios do gênero, seja na estética mais refinada ou na história mais contemplativa, a sensação é de estranhamento ou pelo menos de readaptação a um nível de sofisticação que não encontramos nesse tipo de cinema com muita frequência. Entretanto, a partir do momento em que se compra a proposta de A Chegada, o estado pode muito bem ser de maravilhamento, especialmente quando as peças finalmente se encaixam nos momentos derradeiros.

A ficção, que tem se beneficiado e dado sorte com protagonistas femininas (Gravidade e Mad Max: Estrada da Fúria arrasaram como unanimidade entre crítica e público), novamente aposta em uma mulher como estrela de uma trama. Com uma vida vazia e aparentemente dedicada apenas à profissão, Louise Banks hesita, tem pesadelos e às vezes não é levada a sério, mas tem conhecimento e principalmente sensibilidade de sobra para mostrar que o diálogo e o estudo da comunicação são ferramentas tão complexas quanto subestimadas – e é na provocação dessa necessária reflexão que reside sua vitória como heroína. Conduzindo o roteiro de Eric Heisserer, que adapta o conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang, o diretor, portanto, tem também a delicada missão de fazer com que discussões humanas dialoguem com elementos fantásticos da ficção. Nesse sentido, A Chegada apresenta lá seus tropeços, pois o estofo sci-fi vem mais pelo bom uso dos elementos técnicos do que pela concepção visual do universo em si (tanto as naves quanto os alienígenas não chegam a ser imponentes ou criativos aos olhos), além da parte dramática discutir de forma óbvia questões como a intolerância e a agressividade humana em situações de ameaça.

O caminho a passos lentos é constante em A Chegada, e a boa notícia é que a resolução compensa tanto o miolo por vezes repetitivo quanto as falhas nas relações que tenta estabelecer de forma mais prática entre o plano humano e fantástico. São poucos os filmes que, em uma resolução criativa, colocam automaticamente todo o filme em retrospectiva na cabeça do espectador para iluminar detalhes que até então pareciam aleatórios ou desconexos. A Chegada é exatamente assim, alcançando ainda níveis emocionantes quando, ao final, se propõe a versar sobre as escolhas que sabe fazemos ao longo da nossa existência e o quanto presumir ou saber os desfechos dela não anulam tudo o que pode existir de fascinante nesse caminho. Verdade seja dita que não são poucos os rodeios que o filme dá para dar simetria total a seu ciclo e chegar a toda emoção de seu terço derradeiro, mas a precisão a partir daí é admirável e o que vem a partir dela é muito íntimo. A Chegada reverbera muito além da sessão. Sorte de quem consegue perceber essa beleza.

Três atores, três filmes… com Eduardo Fernando Gomes Filho

eduardotresDebater cinema com quem gosta de filmes é uma coisa. Já falar sobre o assunto com quem está ligado na indústria, em prêmios e nos bastidores dessa arte é uma história bem diferente. De Woody Allen a Catherine Deneuve, o meu amigo Eduardo Fernando Gomes Filho se encaixa no segundo grupo, e por isso é tão entusiasmante tê-lo por perto (mesmo que virtualmente). É do tipo de pessoa que me lembra que gostar tanto de cinema não é coisa tão louca. Pois a participação dele aqui no blog reflete justamente essa pluralidade que é realmente curtir de verdade a sétima arte: escolhendo três atrizes emblemáticas e de estilos de interpretação diferentes, o Eduardo, claro, destacou a sua predileção por desempenhos femininos, mas também fez uma seleção de filmes que são simplesmente indispensáveis. Ah, e não deixem de dar uma conferida no trabalho que ele faz como editor lá do Cine Eterno!

Faye Dunaway (Rede de Intrigas)
O longa de Sidney Lumet é quase que premonitório na questão de degradação constante da imprensa. Uma obra-prima completa no qual é difícil escolher um único atributo que torna Rede de Intrigas tão memorável. Num elenco estrelado, aquela que mais me marcou foi justamente Faye Dunaway, que faz a chefe de uma emissora em busca de audiência. Ela encarna com voracidade a síntese da argumentação, não cai no maniqueísmo tolo e apresenta camadas que tornam sua personagem Diane incrivelmente vasta. Em dado momento, inclusive, um personagem diz a ela “Você é a televisão encarnada Diane: indiferente ao sofrimento, insensível à alegria. Sua vida se resume a banalidade da vida”. O trabalho de Dunaway merece não só aplausos, como muitas discussões. É difícil ficar indiferente ao filme e sobretudo a sua personagem, até porque há muitas “Dianes” no nosso cotidiano.

Catherine Deneuve (Os Guarda-Chuvas do Amor)
Sou grande fã da maravilhosa Catherine Deneuve, musa do cinema francês. Já não bastasse sua beleza encantadora, ela se mostrou uma atriz poderosa desde seu primeiro trabalho. Em Os Guardas Chuvas do Amor, um filme todo musical do diretor Jacques Demy, há um teatralismo que torna o longa uma experimentação única: uma trágica ópera sobre o fatalismo do ato de amar. Cantada com maestria por Deneuve que consegue em um olhar nos desarmar, passar a sensação de plenitude ao mesmo tempo que desespero. É uma performance sensível e bela, com canções compostas por ninguém mesmo que Michel Legrand, cantadas na voz de Deneuve. Impossível não se apaixonar.

Dianne Wiest (Hannah e suas Irmãs)
Woody Allen é um diretor que sabe dirigir atrizes. Na vastidão de sua carreira, ele consagrou várias “divas”, e é difícil escolher a que mais me marcou, principalmente por carregá-las muito delas em mim. Porém, o trabalho de Dianne Wiest em Hannah e suas Irmãs, como a insegura Holy, é um dos trabalhos que mais me identifico. Wiest é uma atriz encantadora que sabe gerar empatia fazendo muito pouco, mas, com um roteiro afiado, ela abraça a personagem e a torna encantadora ao mesmo tempo que questionável. Holy é sonhadora, folgada, transloucada, insegura, humana. Gente como a gente. E é isso que torna sua personagem e sua atuação tão marcante pra mim. Inclusive, saudades de Dianne Wiest, que já denunciou a dificuldade de papeis desafiadores para atrizes mais velhas, uma injustiça gigantesca se tratando de uma atriz tão gabaritada assim.

Elle

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Direção: Paul Verhoeven

Roteiro: David Birke, baseado no livro “Oh…”, de Philippe Djian

Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira, Judith Magre, Christian Berkel, Jonas Bloquet, Alice Isaaz, Vimala Pons, Raphaël Lenglet, Arthur Mazet 

França/Alemanha/Bélgica, 2016, Drama/Suspense, 130 minutos

Sinopse: Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela. (Adoro Cinema)

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O plano inicial era ambientar Elle nos Estados Unidos com os personagens, claro, falando inglês. No entanto, o diretor Paul Verhoeven sofreu para encontrar uma protagonista que topasse embarcar no projeto. E isso não é exagero: você consegue imaginar um filme recusado por Julianne Moore, Nicole Kidman e Kate Winslet, atrizes reconhecidas por eventuais papeis despidos de vaidade e atraídas por projetos transgressores? Segundo Verhoeven, que, junto aos produtores, ainda abordou nomes como Cate Blanchett e Sharon Stone, a situação que se repetia na maioria dos casos era a seguinte: as atrizes recusavam o roteiro já em uma primeira leitura ao invés de, como é de praxe, esperar alguns dias para dar um retorno negativo.

Com tantas recusas, Elle foi transferido para a França, onde finalmente encontrou Isabelle Huppert, atriz que, antes mesmo de chegar ao roteiro, havia lido a obra original (o romance “Oh…”, escrito por Philippe Djian) e acreditava que aquele era um papel que precisava interpretar. Pode ser que outras atrizes tenham rejeitado o projeto simplesmente por questão de agenda (o que seria uma coincidência tremenda, dada a declaração de Verhoeven sobre o roteiro ser muitas vezes descartado já em um primeiro contato), mas o nome de Huppert aponta para uma tese clara: talvez somente ela, a atriz mais corajosa da Europa, teria mesmo aceitado personificar Michèle Leblanc, a protagonista incrivelmente desafiadora de Elle.

Ironicamente, no final das contas, Elle é um trabalho de pegada muito mais européia do que norte-americana, começando pela ideia de que, como define a própria Huppert, o filme se apoia não em uma história, mas em uma personagem, traço muito característico do cinema europeu. Essa categorização é fundamental para compreender que, antes do thriller que estabelece envolvendo a desconhecida identidade de um estuprador, Elle é sobre as múltiplas e contraditórias facetas de uma mulher que já é um mistério por si só: deixando de lado a necessidade de causar simpatia no espectador para apostar nas imperfeições do realismo (e não é aí que residem os grandes papeis?), Michèle Leblanc se apresenta como uma pessoa que, ao reagir de forma inesperada após um ato de violência, é imprevisível em atos e pensamentos, desde a convivência com seus funcionários no trabalho até os julgamentos que faz acerca da vida sexual da mãe.

Sem nunca utilizar o estupro como ferramenta de vitimização para uma personagem de conduta frequentemente questionável, Elle se engrandece menos quando quer fazer mistério sobre o ato de violência em questão e mais quando documenta os dias de uma mulher que vive a partir de suas próprias regras. Um exemplo disso é como a agressão pode ser vista sob a luz do próprio passado da protagonista, que esconde um grande trauma envolvendo o pai ausente. Não seria a atípica reação de Michèle ao estupro uma forma de ela também tentar entender a conturbada índole de seu progenitor? A violência está frequentemente em pauta no roteiro de David Birke, e ela funciona melhor como uma forma de enriquecer as complexidades de uma mulher madura e solitária cujos ímpetos sexuais ainda são decisivos em suas atitudes (algo que raramente o cinema gosta de discutir em personagens como essa). 

Só que Michèle Leblanc é uma figura que, na vida real, causaria aversão em quase todos nós. Ao passo em que é vitoriosa na vida profissional como a prestigiada executiva-chefe de uma empresa de videogames  (o que não a livra de ter que às vezes levantar a voz para lembrar seus funcionários sobre quem manda no recinto, iluminando a questão de gênero no ambiente de trabalho), a protagonista encara as relações humanas a partir de um modelo próprio e que julga ser o ideal. Intolerante, não economiza ironias para desprezar as decisões do filho, abre mão de cerimônias e pesos de consciência para admitir erros e traições e diz qualquer coisa que venha à cabeça, o que a torna uma figura bela (e quem sabe evoluída) pela inabalável franqueza ou profundamente desumana por não considerar outros sentimentos que não sejam os dela.

Não há redenção para a protagonista de Elle – nem mesmo com a questão do estupro vindo à tona -, o que torna a missão de interpretá-la um desafio dos mais complexos. E Isabelle Huppert, atriz especialista em personificar tipos “difíceis” (definição que ela rejeita) como esse, sabe transformar Michèle Leblanc em uma mulher fascinante do ponto de vista dramático (e até cômico, já que o longa também é munido de um humor muito peculiar) ao invés de simplesmente reduzi-la ao status de ser humano desprezível por suas atitudes desregradas. Hoje é difícil imaginar qualquer atriz em seu lugar, pois o trabalho realizado aqui é de quinta grandeza e principalmente de total imersão em uma personagem que nunca é (e nem precisa ser) justificada ou redimida pelo roteiro. Huppert, que nunca busca tornar sua personagem palatável ao público, traz uma belíssima adição ao rol de papeis femininos fortes de 2016. Não à toa, ela e Sonia Braga (Aquarius) foram as divas mais aplaudidas no último Festival de Cannes por suas atuações.

Em um filme onde o fascínio se encontra no mundo feminino (todos os homens são fracos ou medíocres), outra qualidade se sobressai na construção dramática de Elle: a do diretor Paul Verhoeven em nunca armar um circo a partir dos inúmeros acontecimentos propostos pelo roteiro. São várias as tragédias pessoais vividas pela protagonista, o que felizmente não torna o conjunto implausível ou inverossímil. Pelo contrário: tudo serve para complementar as complexidades de um relato que, assim como o recente O Silêncio do Céu, parte de um estupro, mas nunca se torna necessariamente um filme sobre estupro. Experiência bastante desafiadora para a plateia, Elle, no entanto, é plenamente recompensador para quem aceita ser provocado. Se esse for o seu caso, pode acreditar: teremos longas e instigantes conversas sobre a obra durante um bom tempo.

Na coleção… Longe do Paraíso

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Julianne Moore vivia a era de ouro de sua carreira com Longe do Paraíso, filme que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza e uma indicação ao Oscar de protagonista no mesmo ano em que concorria como coadjuvante por As Horas.

Hoje é impossível voltar no tempo para revisitar Longe do Paraíso sem vê-lo como o irmão primogênito de Carol. Em ambos os filmes, o diretor Todd Haynes coloca os anos 1950 de forma romantizada na tela para falar sobre preconceitos, mas com uma diferença fundamental para distinguir as duas obras na forma: enquanto o filme protagonizado por Cate Blanchett e Rooney Mara lançado este ano nos cinemas brasileiros evidencia o preconceito com a homossexualidade a partir de uma história de amor muito íntima e pessoal, o drama estrelado por Julianne Moore em 2003 opta pelo olhar mais amplo da sociedade, onde a protagonista, uma dona-de-casa que estampa colunas sociais por sua devoção ao lar e à família, é julgada pela opinião alheia e vê sua vida ser desconstruída quando descobre a verdadeira natureza sexual do marido ao mesmo tempo em que passa a se relacionar de forma “questionável” para os padrões da época com o seu jardineiro negro.

No centro de Longe do Paraíso estão os preconceitos e as contradições de uma conservadora população norte-americana (e por que não mundial?) dos anos 1950. Que sentido existe no posicionamento dos estadunidenses que abandonam uma piscina após a entrada de um negro na água, mas não hesitam em comer uma refeição preparada pela empregada negra uniformizada? E qual a real carga de preconceito existente no comentário aparentemente corriqueiro da melhor amiga que diz respeitar homossexuais, mas preferir “homens que são homens”? Nada panfletário ou gratuito ao abordar esses temas, Haynes acerta mesmo quando resolve ser mais expositivo, compensando a simplicidade do roteiro escrito por ele com uma direção que, cheia de estilo, engrandece o seu próprio texto. 

Frequentemente criticado por romantizar e florear demais a década de 1950 (e que mal há nisso?), o californiano usa estilo com inteligência – e, francamente, só implica mesmo quem quer: se Carol embeleza todo e qualquer frame, é porque faz todo sentido, já que estamos acompanhando o nascimento de uma paixão através dos olhos de uma jovem em plena descoberta amorosa; já em Longe do Paraíso, ele faz uma carta de amor ao cinema da década em questão, compondo o visual da obra com todas as características de uma produção daquela época. É como se a história realmente se teletransportasse para o passado tamanha a fidelidade estética, contemplando desde a perfeita estilização dos créditos iniciais à linda fotografia de Edward Lachman trabalhada toda a partir de equipamentos, lentes e técnicas características do fazer cinematográfico dos anos 1950. Novamente, toda a estilização está a serviço de uma inteligência muito maior. 

Contudo, seria fácil reduzir Longe do Paraíso a um filme meramente estético (os figurinos de Sandy Powell e a trilha de Elmer Bernstein também são fantásticos), pois toda essa romantização, além de servir como homenagem cinematográfica, age como um grande complemento narrativo para a vida cercada de aparências da protagonista. É notável a trajetória da Cathy Whitaker de Julianne Moore (o papel foi escrito especialmente para a atriz), que começa o filme perturbada com a descoberta da homossexualidade do marido e aos poucos percebe que a melhor saída para a sua vida é deixar de ser apenas “a grande mulher por trás de um grande homem”.

Interpretada magistralmente por Moore, que vivia a era de ouro de sua carreira (naquela temporada, conquistava Veneza por Longe do Paraíso e Berlim por As Horas), Cathy se descobre uma mulher à frente do seu tempo, o que, assim como em Carol, revela-se dolorosamente trágico. Não é fácil se apresentar ao mundo como realmente somos, e não há romantização que possa amortecer essa tristeza ainda tão presente nos dias de hoje, quando a paixão e a sexualidade alheia ainda são misteriosamente julgadas pela sociedade. Homossexual assumido, Todd Haynes sempre soube dessa batalha. E ele tem toda razão em tornar uma realidade triste por si em algo mais bonito, palatável e, por que não, idealizado. Afinal, às vezes, relatos como o de Longe do Paraíso precisam realmente de algum tipo de alento frente à dura realidade, seja ela a dos anos 1950 ou a de agora.

Doutor Estranho

We never lose our demons. We only learn to live above them.

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Direção: Scott Derrickson

Roteiro: C. Robert Cargill, Jon Spaihts e Scott Derrickson, baseado nos quadrinhos de Steve Ditko

Elenco: Benedict Cumberbatch, Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Benjamin Bratt, Michael Stuhlbarg, Scott Adkins, Alaa Safi, Katrina Durden, Topo Wresniwiro

Doctor Strange, EUA, 2016, Aventura, 115 minutos

Sinopse: Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) leva uma vida bem sucedida como neurocirurgião. Sua vida muda completamente quando sofre um acidente de carro e fica com as mãos debilitadas. Devido a falhas da medicina tradicional, ele parte para um lugar inesperado em busca de cura e esperança, um misterioso enclave chamado Kamar-Taj, localizado em Katmandu. Lá descobre que o local não é apenas um centro medicinal, mas também a linha de frente contra forças malignas místicas que desejam destruir nossa realidade. Ele passa a treinar e adquire poderes mágicos, mas precisa decidir se vai voltar para sua vida comum ou defender o mundo. (Adoro Cinema)

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Vem de longa data a minha rejeição aos filmes baseados em histórias de quadrinhos, e isso não tem nada a ver com qualquer aversão aos personagens em si ou ao fato de que as adaptações dão origem, em sua quase totalidade, a blockbusters meramente descompromissados. Não há problema algum em abraçar a diversão pela diversão. Minha rejeição vem pela constante redundância dessas obras. Mercadologicamente, é inevitável que cada vez mais tenhamos aventuras derivadas de HQ’s e que todas elas, apesar de seus universos e heróis distintos, assemelhem-se em estrutura porque o alto investimento dos estúdios precisa ter resultados financeiros – e é fácil reconhecer a fórmula que o público gosta para mantê-la em looping. Já artisticamente, o cansaço também é compreensível: como não ser um geek e ainda ter expectativas ou até mesmo paciência com filmes que apenas se encaixam dentro de uma mesma cartilha repetida há anos? Pois Doutor Estranho invade os cinemas provando que não é necessário fazer escolhas tão diferentes para entregar uma experiência indiscutivelmente acima da média para o gênero.

O que pode parecer apenas um detalhe se revela um acerto fundamental na mistura diferenciada do filme dirigido por Scott Derrickson: o elenco. Habitualmente estreladas por atores reconhecidos mais pela beleza ou pela famosidade do que propriamente pela excelência em atuação (Chris Hemsworth, Ryan Reynolds, Henry Cavill, Chris Evans), as adaptações de quadrinhos raramente ganham pontos nesse quesito. Pode ser que Robert Downey Jr. tenha carisma como o Homem de Ferro ou que Hugh Jackman já tenha criado suas marcas como Wolverine. No entanto, são raros os casos como o de Doutor Estranho, onde todos os atores do elenco vêm de uma boa trajetória no cinema ou na TV e conferem uma verossimilhança significativa aos seus personagens ao invés de apenas ligarem o piloto-automático no meio de tantos uniformes e efeitos especiais. O resultado é visto na prática, em especial nas figuras de Benedict Cumberbatch, que é ótimo ao dar visceralidade a um personagem que carrega o arco dramático clichê do homem arrogante que precisa passar por uma tragédia para se transformar, e de Tilda Swinton, sempre distribuindo versatilidade (e dubiedade, quando preciso) para até mesmo emocionar em sua cena derradeira. Inclua ainda nomes Rachel McAdams, Mads Mikkelsen e Chiwetel Ejiofor na mistura e encontre um elenco seguro, consistente e realmente diferenciado.

Dos tradicionais cenários estadunidenses que são destruídos a cada lançamento, vamos para o Nepal (e um pouco mais além para Hong Kong), onde a geografia asiática se torna a circunstância perfeita para uma trama que não se origina a partir de experimentos tecnológicos e muito menos evolui em função de vilões com planos hiperbólicos: Doutor Estranho é sobre um neurocirurgião que, ao sofrer um grave acidentes nas mãos, viaja o mundo para corrigir sua nova incapacidade física com a ajuda de um misterioso grupo que está muito mais para o plano espiritual do que para o prático – e é por causa dessa abordagem que a experiência se torna, na medida do possível, uma aventura muito mais identificável a todos nós, pois, assim como Stephen Strange (Cumberbatch), embarcamos na jornada realmente nos questionando sobre tudo aquilo que não sabemos e que supostamente sempre subestimamos ser possível. O desconhecimento desse mundo de explicações menos racionais é a porta de entrada para uma ação mitológica em que personagens passam a adquirir poderes imprevisíveis: ao mesmo em que um portal para o outro lado do planeta pode se abrir com um simples movimentos das mãos, toda uma cidade fica literalmente de ponta-cabeça quando esses poderes se aperfeiçoam com a prática. Tal imprevisibilidade encanta em termos de adrenalina porque tudo pode acontecer na luta entre dois personagens que conseguem tornar realidade basicamente tudo aquilo que é imaginação.

Com uma carreira que evidencia seu talento para contar histórias focadas mais em pessoas do que em artificialidades (enquanto o remake da ficção O Dia em Que a Terra Parou é uma tremenda decepção, O Exorcismo de Emily Rose é uma marco por ter uma pegada até mais dramática do que de terror), Scott Derrickson nunca cria um filme esteticamente fake mesmo com a obrigatoriedade do espetáculo visual: as cenas em que os cenários se deslocam como em A Origem, de Christopher Nolan, são realmente impressionantes, mas todas as outras também são bem executadas, o que é reflexo de uma parte técnica frequentemente criativa (nesse aspecto podemos citar ainda a ótima trilha sonora assinada por Michael Giacchino). Derrickson orquestra tudo com competência – inclusive o elenco, já que, vale lembrar, nada adianta um casting incrível se um diretor que não sabe conduzi-los, como no desastroso Esquadrão Suicida –, e o resultado se reflete muito além das bilheterias: até a data de publicação desse texto, Doutor Estranho alcança a marca de 90% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes em um universo de mais de 250 avaliações. Reconhecimento merecido e diversão mais do que garantida para você que, assim como eu, precisa de muita boa vontade para conferir um filme de super herói.