Cinema e Argumento

“Homem com H” é celebração fiel e tocante à essência de Ney Matogrosso

O Ney é um grande artista.

Direção: Esmir Filho

Roteiro: Esmir Filho

Elenco: Jesuíta Barbosa, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Jullio Reis, Bruno Montaleone, Caroline Abras, Mauro Soares, Lara Tremouroux, André Dale, Bruno Parmera, Pedro Zurawski, Jeff Lyrio, Luiz Xavier

Brasil, 2025, Drama, 129 minutos

Sinopse: Dono de uma voz inconfundível e de performances memoráveis, Ney Matogrosso morava com os pais e irmãos na pequena cidade de Bela Vista (MS). Os embates com o pai, que insistia que o menino “virasse homem”, levaram Ney a se afastar da família, antes de enveredar para a vida artística. Anos depois de sair de casa, em São Paulo, estreou como vocalista dos Secos e Molhados, dando início às performances históricas que o definiram como um dos maiores artistas brasileiros da atualidade.

Quando anunciada, a escolha de Esmir Filho para dirigir a cinebiografia de Ney Matogrosso causou certa estranheza. Para além da admiração pelo cantor, por que um cineasta afeito ao cinema autoral (são seus filmes como Os Famosos e os Duendes da Morte e Verlust) de repente migraria para o tão saturado — e comercial — mercado das cinebiografias atuais? Das duas uma: ou Esmir estava disposto a se entregar às convenções do gênero para experimentar as glórias de um grande sucesso comercial ou havia fechado um acordo precioso para poder contar, com liberdade e autoralidade, a história de uma importante figura da cultura brasileira. Felizmente, estamos diante da segunda alternativa.

Homem com H, que, no título em, já dribla a saída fácil e preguiçosa de dar ao projeto o nome de seu biografado, é um mergulho muito pessoal e corajoso na vida de um cantor avesso a normas e padrões. Contar a vida de Ney Matogrosso sem as devidas doses de liberdades ou provocações seria um desrespeito com o público e, antes de tudo, com o próprio Ney, que acompanhou o desenvolvimento do projeto munido do mesmo comportamento admirável de Elton John em Rocketman: ambos contribuíram para os roteiros sem nunca censurar ideias ou amaciar momentos complicados de suas trajetórias.

É uma benção importante para Homem com H porque confere verdade a um filme formal em estrutura, mas genuíno em emoção, narrativa e interpretações. Esmir Filho não tem medo de comandar essa história sem revisitar as barreiras rompidas por Ney ao longo de uma carreira que tentavam a todo custo censurar, seja literalmente, durante os tempos em que a ditatura militar brasileira interferia até mesmo no número de rebolados que um homem poderia dar nos palcos, ou por uma sociedade conservadora e despreparada para uma figura tão descontruída quanto ele.

O roteiro escrito por Esmir adota a subversão de Ney Matogrosso como norte: carregado ora no drama, ora na comédia, o texto nos lembra que ser quem se é traz prazeres e desafios em dosagens parelhas. A difícil relação do protagonista com o pai, por exemplo, que agredia o filho por se negar a ter tanto um homem gay quanto um artista na família, é central na construção dramática, assim como os toques de humor garantem a irreverência necessária para ilustrar o relato de uma resistência que jamais se inclinou para a vitimização.

A subversão como fio condutor do roteiro é percebida ainda em como Homem com H aborda o repertório do cantor. Ao invés de ser um desleixado pout-pourri dos maiores sucessos de Ney para meramente ativar a memória afetiva do público, o filme toma cuidado para dar contexto à entrada das canções na vida de Ney ou como elas traduzem no palco aquilo que ele diz ser: alguém se definições, um bicho que incorpora comportamentos e expressões que o público tem dentro de si, mas morre de medo de externalizar.

Após ter visto o longa, Ney comentou que pode até não ter dito exatamente algumas das coisas que estão na tela — ainda assim, ele reconhece que, sim, não há dúvidas de que ele as poderia ter dito. Aí está a preciosidade de um trabalho como Homem com H: (re)conhecer a essência de seu personagem a ponto de, com notável naturalidade, saber como ele teria falado ou reagido fora dos holofotes da vida pública. É, ao meu ver, um dos maiores atestados de aprovação e admiração que Esmir poderia receber por sua visão artística para essa cinebiografia.

Tamanha compreensão do biografado catapulta a forte e tocante abordagem da expressão corporal e sexual de Ney Matogrosso. Aqui não me refiro ao trabalho técnico impressionante de Jesuíta Barbosa ou à reconstituição de marcantes aparições públicas do cantor — Homem com H é, na verdade, recheado de sensibilidade ao encapsular o corpo como elemento indissociável das dores e alegrias de seu protagonista e como instrumento de expressão e luta para toda uma geração que viu seu prazer se tornar risco de vida com a descoberta da AIDS.

Esmir filma o desejo com sensualidade rara, onde a nudez em si importa menos do que tudo aquilo que ela traduz para o personagem e para a história. Dessa forma, o êxito de Jesuíta Barbosa ultrapassa as fronteiras de um difícil trabalho técnico para ganhar verdadeira potência no modo como ele trabalha a relação entre o interno e externo de um homem que nunca se dobrou diante das inúmeras tentativas de lhe tolherem e que buscou viver, amar e performar do jeito que sempre quis.

Ademais, não poderia deixar de mencionar uma reparação cinematográfica importante feita em Homem com H envolvendo a relação entre Ney Matogrosso e Cazuza. Outrora solenemente ignorado em Cazuza – O Tempo Não Para, o caso de amor entre os dois ganha espaço merecido e considerável agora. Isso porque, além de relação bela e conturbada na vida de Ney, Cazuza representou uma série de outras coisas: ele era, enfim, uma paixão impossível, mas um semelhante em carreira, desejos e forma de se impor diante da sociedade. Ignorar o simbolismo de tamanho encontro foi uma grande mancada do longa de Walter Carvalho e Sandra Werneck que Esmir Filho corrige com elegância e comoção.

A participação do próprio Ney Matogrosso ao final de Homem com H, bem como cenas de sua mais recente turnê, Bloco na Rua, poderia ser, em outros casos, o cacoete fácil de uma cinebiografia que deseja encontrar atalhos óbvios para chegar ao coração de seu público, quase como um fan service mesmo. Contudo, frente a um projeto que abraça com tanta honestidade e carinho um personagem revolucionário do cenário musical brasileiro, o efeito acaba sendo o posto: é lindo ver Ney, hoje com 83 anos, ainda erguendo nos palcos, sem qualquer sinal de que vá parar, bandeiras que foram sempre tão suas e que, ao fim e ao cabo, deveriam ser de todos nós.

Melhores de 2024: “Todos Nós Desconhecidos” e “Pobres Criaturas” recebem o maior número de indicações

Um drama intimista e outro de grandes ambições estéticas e narrativas despontam como os títulos mais indicados da nossa lista de melhores filmes de 2024. Tanto Todos Nós Desconhecidos quanto Pobres Criaturas acompanham jornadas pessoais muito particulares, ambas emolduradas por admiráveis sofistificações técnicas e ideias fora da curva que se refletem em nada menos do que indicações em dez categorias para cada longa. Eles são seguidos de perto por Ainda Estou Aqui e O Aprendiz, lembrados em oito categorias. O Oscarizado longa-metragem de Walter Salles e cinebiografia de Donald Trump levam figuras da vida real para as telas com narrativas ímpares, conferindo marcante frescor para um gênero frequentemente preso a fórmulas.

Confira abaixo a lista completa de indicados, cujo recorte se dá a partir dos filmes lançados comercialmente no Brasil ao longo do ano, seja nas salas de cinema ou em streaming:

MELHOR FILME
Ainda Estou Aqui
Anatomia de Uma Queda
O Aprendiz
Jurado Nº 2
Pobres Criaturas
Saudade Fez Morada Aqui Dentro
A Substância
Todos Nós Desconhecidos
Vidas Passadas
Zona de Interesse

MELHOR DIREÇÃO
Andrew Haigh (Todos Nós Desconhecidos)
Coralie Fargeat (A Substância)
Jonathan Glazer (Zona de Interesse)
Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)
Walter Salles (Ainda Estou Aqui)

MELHOR ELENCO
Ainda Estou Aqui
Ficção Americana
Pobres Criaturas
As Três Filhas
Todos Nós Desconhecidos

MELHOR ATRIZ
Demi Moore (A Substância)
Emma Stone (Pobres Criaturas)
Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
Natalie Portman (Segredos de Um Escândalo)
Sandra Hüller (Anatomia de Uma Queda)

MELHOR ATOR
Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)
Bruno Jeferson (Saudade Fez Morada Aqui Dentro)
Jeffrey Wright (Ficção Americana)
Kōji Yakusho (Dias Perfeitos)
Sebastian Stan (O Aprendiz)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Claire Foy (Todos Nós Desconhecidos)
Julianne Moore (Segredos de Um Escândalo)
Maria Bakalova (O Aprendiz)
Penélope Cruz (Ferrari)
Toni Collette (Jurado Nº 2)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jamie Bell (Todos Nós Desconhecidos)
Jeremy Strong (O Aprendiz)
Milo Machado Graner (Anatomia de Uma Queda)
Paul Mescal (Todos Nós Desconhecidos)
Selton Mello (Ainda Estou Aqui)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Anatomia de Uma Queda
Jurado Nº 2
Segredos de Um Escândalo
A Substância
Vidas Passadas

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ainda Estou Aqui
Ficção Americana
Pobres Criaturas
Todos Nós Desconhecidos
Zona de Interesse

MELHOR MONTAGEM
Ainda Estou Aqui
Anatomia de Uma Queda
O Aprendiz
Rivais
Todos Nós Desconhecidos

MELHOR FOTOGRAFIA
O Aprendiz
Pobres Criaturas
O Sabor da Vida
Todos Nós Desconhecidos
Zona de Interesse

MELHOR TRILHA SONORA
O Aprendiz
Pobres Criaturas
O Quarto ao Lado
Rivais
A Substância

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Ainda Estou Aqui
Estômago 2: O Poderoso Chef
Pobres Criaturas
Zona de Interesse
Wicked

MELHOR FIGURINO
Furiosa: Uma Saga Mad Max
Pobres Criaturas
Priscilla
O Quarto ao Lado
Wicked

MELHOR SOM
Alien: Romulus
Furiosa: Uma Saga Mad Max
Um Lugar Silencioso: Dia Um
A Substância
Zona de Interesse

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Compress/Repress” (Rivais)
“Folie à Deux” (Coringa: Delírio a Dois)
“Never Too Late” (Elton John: Never Too Late)
“Quiet Eyes” (Vidas Passadas)
“Vaster Than Empires” (“Queer”)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Alien: Romulus
Furiosa: Uma Saga Mad Max
Guerra Civil
Um Lugar Silencioso: Dia Um
O Mal Que Nos Habita

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Aprendiz
Um Homem Diferente
Pobres Criaturas
A Sociedade da Neve
A Substância

“Beleza Fatal” é realmente o novelão de que o Brasil estava precisando?

A última novela que acompanhei com absoluta devoção foi Avenida Brasil, lá em 2012, quando consumíamos audiovisual de maneira bem diferente. Desde então, nos últimos anos — e, especialmente, nas produções pós-pandemia —, não embarquei mais neste formato que tanto define o público brasileiro. Minha impressão é que não há espaço para contemplação: hoje, tramas precisam estar sempre recheadas de ganchos e reviravoltas, mesmo em detrimento do compromisso com a realidade e com a própria lógica interna de suas dramaturgias. É crime pra cá, trapaça pra lá, traição no meio, planos mirabolantes e um punhado de malabarismos só para manter uma história indo em frente, custe o que custar, naquilo que produtores e roteiristas acreditam ser a solução para prender a atenção de plateias dispersas diante da hiper conexão.

Ao menos para mim, ver novelas virou sinônimo de um constante exercício de suspensão de crença, o que até acho tolerável, desde que a recompensa seja muito boa, o que não tem sido o caso na grande maioria das produções recentes. Se os folhetins televisivos se veem em completa crise, seja ela criativa ou comercial, agora eles também precisam lidar com uma importante novidade: os streamings passaram a desbravar o mercado das novelas, e Beleza Fatal, a produção original Max que exibiu seu capítulo derradeiro nesta última sexta-feira (21), acaba sendo um marco em uma discussão acalorada em meio à crise catastrófica de, por exemplo, Mania de Você, que registrou há poucas semanas a pior audiência de uma novela das nove para a Rede Globo, desbancando Travessia, de Glória Perez, não por acaso, outra produção bastante recente.

Beleza Fatal mexe em muitos calos porque mobilizou o público: nas mídias sociais, foi comentada, virou meme, revigorou o embalo do ritual coletivo de se assistir semanalmente a um programa e, com mais liberdade para tratar de temas considerados espinhosos pela TV aberta, tocou em questões que refletem os dias atuais. Trata-se de uma novela que, assim como a ótima Pedaço de Mim, da Netflix, repensa formatos tradicionais, a começar pela existência de núcleos mais enxutos e um número menor de episódios. É fácil e divertido acompanhar Beleza Fatal, pois, com economia, pouco sobra em cena e todos os personagens criados pelo roteirista Raphael Montes estão ali para, de um jeito ou de outro, colaborar para que a história avance.

Há outro aspecto ao mesmo tempo importante e desafiador: no formato de streaming, a resposta do público não influencia no andamento da história, como acontece na TV aberta. Tudo já está escrito e filmado, e isso pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição. Sem o termômetro do público, é impossível dosar mais ou menos os personagens e até mesmo repensar os rumos de uma trama a partir dos índices de audiência. Em suma, se a proposta de uma determinada novela pega, o sucesso, em tese, está garantido até o fim. Por outro lado, se não engrena, é impossível colocar mudar a rota. Felizmente, Beleza Fatal acerta a mão e mantém um fôlego admirável ao longo de suas dezenas de episódios, convicta de seu estilo e de sua proposta.

A minha relação conflituosa com a novela de estreia da Max reside na ideia de que ela, apesar dos inegáveis acertos, ainda carrega muitos vícios da TV aberta, mas falemos sobre isso daqui a pouco. De forma resumida, Beleza Fatal explora a linha tênue entre justiça e vingança, com foco no plano traçado por Sofia (Camila Queiroz) para derrubar Lola (Camila Pitanga), responsável por colocar sua mãe injustamente na prisão e, depois, mandar assassiná-la. Sofia vive com a família Paixão, também assombrada por uma tragédia pessoal: a morte da filha Rebeca (Fernanda Marques) pelas mãos de Rog (Marcelo Serrado) e Benjamin (Caio Blat) durante uma cirurgia plástica. E é claro: Lola não poderia deixar de estar envolvida com esse núcleo, liderado pela poderosa família Argento.

Metade do êxito de Beleza Fatal está na concepção dos personagens. Se Lola cumpre com folga o papel de uma vilã clássica, inescrupulosa e que adoramos odiar, o texto de Raphael Montes busca também conferir uma fragilidade imensa ao também vilão Benjamin ou, então, doçura e cumplicidade ao casal Elvira (Giovanna Antonelli) e Lino (Augusto Madeira). A escrita faz a trama partir de dilemas já consagrados — no caso, a eterna (e nada sutil) luta entre o bem e o mal — coexistir com perspectivas contemporâneas, entre elas, a naturalidade com que são discutidas questões sobre sexualidade identidade e sexualidade de gênero, seja com personagens abordados causas mais, digamos, panfletárias, ou com outros que se apresentam bissexuais sem que isso seja uma questão para os outros.

Muito do envolvimento despertado pelos personagens se deve à ótima escalação do elenco principal. Enquanto Camila Pitanga se diverte horrores na composição de Lola (e Beleza Fatal não poupa esforços para torná-la uma personagem marcante com bordões, desfile de figurinos e todo tipo de maldade), Caio Blat acerta em cheio na inegável mediocridade de seu Benjamin, um quase-homem com grandes aspirações, mas sem nenuma vocação para um dia minimamente alcançá-las. Outro que se diverte é Marcelo Serrado, muito feliz na caricatura das toscas facetas de um personagem detestável, bem como Giovanna Antonelli e Augusto Madeira, que esbanjam química e carisma como um casal humilde, apaixonado e pelo qual é fácil torcer.

Ainda assim, meu grande destaque vai para uma coadjuvante: Júlia Stockler como Gisela. Ela dá humanidade, camada e complexidade a uma personagem suscetível a um vitimismo piegas e sem muito alcance dramático. Sua jornada de autoconhecimento e de luta contra um relacionamento grotesco de tão abusivo é das mais bonitas da novela, tornando fácil a missão de solidarizarmos com uma personagem que, desde sempre sabemos, não merece passar por tamanho sofrimento pelas mãos do marido e de uma família a qual claramente não pertence. Stockler trata com delicadeza as fraquezas de uma mulher inerte diante do que lhe cerca e a gradativa força que ela adquire conforme abre os olhos para a realidade.

Não compartilho do mesmo entusiasmo pelo encadeamento da dramaturgia, cuja embalagem pop e camp se traduz melhor na direção geral de Maria de Médicis, profissional com vasta trajetória televisiva desde o início dos 2000, tendo já dirigido títulos como as minisséries JK e Queridos Amigos e novelas como Paraíso Tropical e Cheias de Charme. Em termos de roteiro, Beleza Fatal exige desprendimento integral da realidade por parte do espectador. Sobram conveniências em todas as storylines, que, caso fossem submetidas ao filtro do bom senso, jamais passariam da primeira leva de episódios. E aí mora a minha relação conflituosa com a novela: ela segue presa a saídas fáceis, exageros e suspensões de crença que, em grande parte, minaram a credibilidade do formato na TV aberta em anos recentes.

O formato condensado de episódios — Beleza Fatal se resolve em 40, contra as muitas vezes tradicionais centenas do gênero — ameniza o problema porque o investimento de tempo de quem assiste acaba sendo menor, porém, um comprometimento maior com a lógica cairia bem. O policial que não resolve absolutamente nada vivido por Enzo Romani é o menor dos problemas: do início ao fim, há um infinito entra e sai da delegacia e da prisão, como se as pessoas estivessem lá a passeio, advogados e investigadores mudando de lado conforme necessidade da trama para surpreender, incriminações repletas de furos e uma facilidade tremenda na execução de qualquer plano, sejam eles invasões a bancos, hackeamento de câmeras ou “simples” assassinatos. Se a consequência existe apenas diante de eventuais vontades do roteiro, como é possível levar a sério os perigos e as ameaças da história? 

Há parte do público que celebra a “inspiração” e a “referência”, mas Beleza Fatal não é exatamente original ao fazer uma colagem de outros formatos e conflitos bem sucedidos na TV e no cinema. São um tanto excessivas as semelhanças com a premissa de Avenida Brasil, por exemplo, que ganhou o Brasil ao mostrar a história de, vejam só, a história de uma jovem que, ao longo de uma vida, traça um plano de vingança contra quem destruiu sua infância. Lá pelas tantas, Beleza Fatal também se move à la Parasita, o Oscarizado drama do sul-coreano Bong Joon-Ho sobre uma família pobre infiltrada no dia a dia de uma família rica. E o que dizer dos inegáveis toques de Succession na construção de Benjamin, o primogênito errático, fraco e mimado que tenta a todo custo conquistar a aprovação do pai e provar que merece estar na linha sucessória dos negócios da família?

O último capítulo, exibido de forma isolada pela Max, ao contrário dos outros, liberados a cada semana em blocos de cinco pelo streaming, colocou no liquidificador outros elementos de natureza novelesca, a exemplo do clássico “quem matou?”. Casamentos, julgamentos e viagens de última hora para o exterior também não faltaram. No entanto, Beleza Fatal acabou menos pulsante do que o esperado e amarrou às pressas o grande ponto de inflexão da novela: o de como a mocinha Sofia acabou embebedada pela vingança e se enraizou na mulher que sempre desejou destruir. Ótima provocação, inclusive bem defendida pela interpretação de Camila Queiroz. Já a execução… Nem tanto.

Somando acertos e fragilidades, a primeira novela da Max termina, sim, no saldo positivo — e o melhor de tudo: com o aval do público. Não chega a ser o novelão que o Brasil estava precisando como se chegou a anunciar pelas mídias sociais porque, apesar de conseguir perfilar bem o consumidor dos dias de hoje, ainda não dá um salto em termos de dramaturgia, preservando, repito, muitos vícios da TV aberta recente, tão ávida a priorizar a atenção em termos de números de audiência e não necessariamente em fidelização do público através de uma robustez dramática. Para uma estreia ambiciosa, no entanto, a Max sai ganhando — e, diante do sucesso, não faltará tema de casa e trabalho aos envolvidos.

 

Os vencedores do Oscar 2025 (e o Brasil orgulhosamente leva o dourado para casa!)

O diretor Walter Salles recebe o Oscar de melhor filme internacional para Ainda Estou Aqui.

O Brasil finalmente tem um Oscar de melhor filme internacional em casa, e não há melhor notícia para resumir o Oscar 2025. A conquista por si só é gloriosa, uma vez que Ainda Estou Aqui chegou lá com uma trajetória das mais bonitas, começando pela grande estratégia de lançamento e campanha promovida pela Sony Pictures Classics nos Estados Unidos. Fernanda Torres, protagonista do filme, também foi fundamental na estratégia de divulgação do longa: incansável, a atriz tomou frente em todas as aparições na imprensa e se tornou um fenômeno também em terras estrangeiras. Tão impressionante quanto a visibilidade alcançada por Ainda Estou Aqui foi a circunstância: o filme de Walter Salles derrotou nada menos do que Emilia Pérez, filme que, sim, teve sua trajetória implodida pela protagonista Karla Sofía Gascón, mas que, ainda assim, tinha 13 indicações ao Oscar, mais do que qualquer outro filme em língua não-inglesa em quase 100 anos da premiação. Ou seja, tudo envolvendo o reconhecimento brasileiro é repleto de triunfos e significados.

Indicada a melhor atriz, Fernanda Torres exerceu papel fundamental na campanha de Ainda Estou Aqui.

Nas categorias principais, a Academia realmente caiu de amores por Anora, concedendo ao filme de Sean Baker um reconhecimento raro, afinal, poucos são os trabalhos que saem da cerimônia levando para casa as estatuetas de melhor filme, direção, atriz, roteiro e montagem. Se Anora não é nem mesmo o trabalho mais interessante da carreira de Baker (isso sim é frequente no Oscar: realizadores sendo reconhecidos por suas obras menos marcantes), a notícia não poderia ser melhor para o cinema independente, reconhecido ainda em outras categorias como melhor animação (Flow) e melhor documentário (Sem Chão). Até mesmo O Brutalista pode se encaixar nessa lógica: mesmo que tenha ares de uma grande produção, o longa de Brady Corbet custou apenas 10 milhões de dólares e, para fins de categorização, chegou, inclusive, a concorrer ao Independent Spirit Awards de melhor direção. Qualquer reconhecimento ao cinema que foge do mainstream e do padrão blockbuster é sempre bem-vindo.

Mikey Madison com o Oscar de melhor atriz por Anora.

A parcela de gosto amargo que o Oscar 2025 deixa reside na escolha de Mikey Madison em melhor atriz por Anora. Como a vitória de Fernanda Torres era mais um wishful thinking do que exatamente um favorotismo real, a injustiça acabou recaindo sobre Demi Moore (A Substância), que, indiscutivelmente, encabeçava as apostas após vitórias no Globo de Ouro e no Screen Actors Guild Awards. Protagonista de um filme que, entre outras críticas, lança luz sobre a cruel maneira com que a indústria do entretenimento é intolerante ao envelhecimento e não pensa duas vezes antes de jogar alguém no lixo para dar lugar ao frescor da juventude, Demi viu o Oscar, em uma indigesta coincidência, fazer justamente aquilo que o seu filme tanto critica. Mikey, que tem apenas 25 anos, não era, ao meu ver, uma das melhores da categoria, e certamente terá um punhado de outras chances para ganhar prêmios na vida, enquanto Demi, uma popcorn actress segundo sua própria definição, está no auge de sua carreira em A Substância. Mais do que uma injustiça, tenho a impressão de que a vitória de Mikey Madison foi prematura e possível apenas pelo grande impulso tomado por Anora nas demais categorias.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Anora
MELHOR DIREÇÃO: Sean Baker (Anora)

MELHOR ATRIZ: Mikey Madison (Anora)
MELHOR ATOR: Adrien Brody (O Brutalista)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Zoe Saldaña (Emilia Pérez)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Anora
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Conclave

MELHOR FILME INTERNACIONAL: Ainda Estou Aqui (Brasil)
MELHOR ANIMAÇÃO: Flow
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Sem Chão
MELHOR MONTAGEM: Anora
MELHOR FOTOGRAFIA: O Brutalista
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Wicked
MELHOR FIGURINO: Wicked
MELHOR TRILHA SONORA: O Brutalista
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “El Mal” (Emilia Pérez)

MELHOR SOM: Duna: Parte 2
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Duna: Parte 2
MELHOR MAQUIAGEM E CABELOS: A Substância

MELHOR CURTA-METRAGEM: I’m Not a Robot
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: In the Shadows of the Cypress
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: The Only Girl in the Orchestra

Apostas para o Oscar 2025

Muitas dúvidas e poucas certezas gravitam a cerimônia do Oscar 2025, que acontece hoje (02), a partir das 21h (horário de Brasília). Se, no ano passado, Oppenheimer vinha com diversas estatuetas embaixo do Oscar já antes mesmo da premiação começar, agora é difícil cravar, por exemplo, se Sean Baker e seu Anora triunfarão, se Adrien Brody (O Brutalista) leva um segundo Oscar para casa ou se o Brasil fatura pelo menos uma das três estatuetas as quais concorre com Ainda Estou Aqui. Dá Flow ou Robô Selvagem em melhor animação? Emilia Pérez sai de mãos vazias? Fernanda Torres tem chances em melhor atriz? Sem mais delongas, deixo com vocês as minhas apostas para uma cerimônia que, para nós, brasileiros, já é histórica:

MELHOR FILME: Conclave / alt: Anora
MELHOR DIREÇÃO: Brady Cobert (O Brutalista) / alt: Sean Baker (Anora)

MELHOR ATRIZ: Demi Moore (A Substância) / alt: Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
MELHOR ATOR: Adrien Brody (O Brutalista) / alt: Timothée Chalamet (Um Completo Desconhecido)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Zoe Saldaña (Emilia Pérez) / alt: Isabella Rossellini (Conclave)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kieran Culkin (A Verdadeira Dor) / alt: Yura Borisov (Anora)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: A Verdadeira Dor / alt: Anora
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Conclave / alt: O Reformatório Nickel

MELHOR FILME INTERNACIONAL: Ainda Estou Aqui (Brasil) / alt: Emilia Pérez (França)
MELHOR ANIMAÇÃO: Flow / alt: Robô Selvagem
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Sem Chão / alt: Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado
MELHOR MONTAGEM: Conclave / alt: Anora
MELHOR FOTOGRAFIA: O Brutalista / alt: Nosferatu
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Wicked / alt: O Brutalista
MELHOR FIGURINO: Wicked / alt: Conclave
MELHOR TRILHA SONORA: O Brutalista / alt: Conclave
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “El Mal” (Emilia Pérez) / alt: “The Journey” (The Six Triple Eight)

MELHOR SOM: Duna: Parte 2 / alt: Um Completo Desonhecido
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Duna: Parte 2 / alt: Better Man
MELHOR CABELO E MAQUIAGEM: A Substância / alt: Emilia Pérez
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Man Who Could Not Remain Silent / alt: Anuja
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: Wander to Wonder / alt: Beautiful Men
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: The Only Girl in the Orchestra / alt: I Am Ready, Warden