Cinema e Argumento

45º Festival de Cinema de Gramado #7: A busca de Laís Bodanzky pelo mais simples do ser humano

A cineasta Laís Bodanzky concorre ao Kikito no 45º Festival de Cinema de Gramado com o drama Como Nossos Pais. Foto: Diego Vara/Pressphoto

A diretora Laís Bodanzky conhece a vida de seu público. Isso, no entanto, não se restringe ao fato de ela produzir filmes como As Melhores Coisas do Mundo, Chega de Saudade e o célebre Bicho de Sete Cabeças, que falam justamente sobre pessoas comuns, “gente como a gente”. Na verdade, é o que a própria Bodanzky diz ouvir da plateia quando sai, por exemplo, de uma sessão de Como Nossos Pais, seu mais novo longa-metragem que fez estreia em território nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado. “O encontro com o público validou e completou tudo o que eu pensava sobre esse trabalho. A maneira como as pessoas levantam questões vem no mesmo tom que o filme. Elas dizem ‘como você conhece a minha vida!’, quase como se estivessem em uma terapia”, conta a diretora.

Narrando o dia a dia de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher que busca ser perfeita em todas suas obrigações como profissional, mãe, filha, esposa e amante, Bodanzky lança novamente um olhar humano e contemporâneo para o tipo de história que marcou a sua trajetória até aqui. Mais do que isso, Como Nossos Pais vem da necessidade da diretora de falar sobre uma questão efervescente: a representação feminina, o que ela garante ter sido o “tema de redação” de seu longa já há muitos anos. Evocando a clássica música de Belchior eternizada na voz de Elis Regina, o universo feminino é visto pela cineasta sob a luz das relações familiares, especialmente das trocas promovidas entre diferentes gerações: “Eu queria falar sobre o que a gente pega e transforma de uma geração e entrega para a próxima, o que a gente ensina para nossos pais e sobre quando começa essa inversão de papeis”.

A mistura, claro, leva tons autobiográficos – e Bondazky diz que não poderia ser de outra maneira se tratando de cinema -, mas a provocação também deu uma importante tônica ao roteiro. “A mãe vivida pela Clarisse Abujamra é uma mulher da geração intelectual dos anos 1960, que viveu a contracultura com certa entrega e liberdade. Já Rosa, a filha, é careta. E isso acho bonito: ao mesmo tempo em que critica os pais, Rosa ganha de presente uma mãe que a ensina a ser muito mais libertária, muito mais livre, a correr riscos, transgredir. É no conflito que vem o aprendizado.”, reflete a diretora.

Antes de exibir Como Nossos Pais, seu primeiro longa-metragem em competição no Festival de Cinema de Gramado, Bondanzky só havia visitado o evento na década de 1990, quando exibiu o média-metragem Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil no Palácio dos Festivais em 1999. O retorno ao Festival traz muitas alegrias para a diretora, entre elas perceber como o evento se transformou ao longo dos anos. “Agora é outra coisa, até porque o próprio cinema brasileiro é outro. De qualquer forma, a curadoria é fina e me chamou muito a atenção porque reflete o cinema que vivemos hoje e porque está atenta a essa necessidade de fazer um contraste entre novos cineastas e nomes já consolidados”, avalia. O charme do evento também não passa despercebido por ela, que reforça a ideia de que o glamour característico do Festival aliado ao requinte cinematográfico trazido pela curadoria promove “um encontro atômico para o cinema brasileiro”.

Pela frente, Bodanzky tem como objetivo seguir na mesma linha de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano, mas, segundo ela, novamente com certa provocação: “Pedro” contará a história de Dom Pedro I, sob o viés de… Pedro, a pessoa. Não o Dom. É mais um capítulo a ser escrito em uma carreira que a diretora assume ser propositalmente sobre nós mesmos.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #6: “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais: ambas são excelentes em mais um filme onde a diretora Laís Bodanzky faz o naturalismo brilhar.

Lá se vão 16 anos desde que a diretora paulista Laís Bodanzky estreou na produção de longas de ficção com o poderoso Bicho de Sete Cabeças. Suas obras posteriores podem não ter causado o mesmo alvoroço do que o filme estrelado por Rodrigo Santoro, que rendeu a Bodanzky uma série de prêmios nacionalmente, mas consolidaram a identidade perfeitamente clara da diretora. Falando sobre a relação entre pais e filhos adolescentes em As Melhores Coisas do Mundo, sobre as dores e alegrias do envelhecimento em Chega de Saudade e sobre a (falta de) inclusão das mulheres no mundo esportivo em Mulheres Olímpicas, Bodanzky sempre procurou radiografar histórias de pessoas como eu e você. Mais especial ainda é a forma como ela lança esse olhar: sem jamais criar tramas mirabolantes ou preocupadas em surpreender, ela relata histórias muito cotidianas, conferindo uma bem-vinda verossimilhança a todos os roteiros que escreve. Não é diferente com o drama Como Nossos Pais, que, após elogiada sessão na mostra Panorama do Festival de Berlim deste ano, integra agora a competição do 45º Festival de Cinema de Gramado e finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 31 de agosto.

Longa de Bodanzky mais centrado no universo feminino, Como Nossos Pais parte de uma transgressão na vida de sua protagonista: exausta de tentar manter o papel da super mulher que dá conta da casa, dos filhos, da família e da carreira, Rosa (Maria Ribeiro) abandona as aparências ao descobrir que, na verdade, é fruto de um passageiro caso extraconjugal vivido por sua mãe em uma viagem internacional. Em crise no trabalho, também já não consegue mais dar conta das filhas, que chegam à pré-adolescência com o típico temperamento dos jovens dessa idade. Para completar o caótico cenário, a mãe de Rosa anuncia a descoberta de um câncer, o que faz com ela passe a refletir sobre a finitude da vida e, claro, das relações familiares. Na teoria, não deixa de ser novelesca a decisão do roteiro de fazer com que a protagonista passe por todo tipo de provação para que Como Nossos Pais se movimente dramaticamente. Já na prática, o filme nunca descamba para o dramalhão porque Bodanzky, como sempre, puxa todo conflito para o plano naturalismo, o que é consequência direta do fato de ela própria também escrever o roteiro (ao lado de Luiz Bolognesi). Qualquer acúmulo de dramas não se apresenta como uma mera apelação para causar impacto dramático, mas sim para refletir a vida como ela simplesmente é (afinal, é difícil encontrar alguém que não tenha vivido fases onde simplesmente tudo parece dar errado).

Ainda que lhe falte certa intensidade ou o frescor dos espirituosos Chega de Saudade e As Melhores Coisas do Mundo, Como Nossos Pais opta pela sobriedade mesmo nos discursos prontos ou nas discussões expositivas. Um perfeito exemplo dessa compensação é como o filme constrói Clarice, matriarca da família que passa a agir com notável franqueza após a descoberta de um câncer. Além de não tratar a questão da enfermidade como muleta dramática, Clarisse Abujamra, a atriz, não torna o pragmatismo de sua personagem em uma simples antipatia: aliás, é justamente por agir de forma tão diferente do esperado para a situação que ela se torna a figura mais fascinante da história. E Abujamra, ótima intérprete que é, faz uma composição impecável de uma mulher que, lá no fundo, de um jeito bem diferente, também vive suas angústias e deseja deixar algum tipo de legado emocional para a filha com quem tem uma relação frequentemente distante e conturbada. A Rosa de Maria Ribeiro não fica muito atrás: naquele que é provavelmente o papel de maior destaque de sua carreira, a atriz confere naturalidade e verossimilhança a uma jovem personagem que sente na pele todas as obrigações impostas pela vida e pela sociedade, especialmente para as mulheres.

Falando nelas, é importante que Como Nossos Pais seja dirigido e roteirizado também por uma mulher no sentido de trabalhar, com economia e sutileza, discussões essencialmente panfletárias ou estereotipadas em mãos masculinas. Por mais que o longa não esteja livre de abordagens, digamos, rasas (a paranoia da protagonista em descobrir qualquer tipo de traição do marido é um conflito que anda em círculos), o resultado é envolvente ao radiografar uma sociedade contemporânea, urbana e em constante transformação, aqui retratada sob a luz das relações que se estabelecem entre diferentes gerações. Ao se manter fiel ao tipo de cinema que sempre gostou de fazer, a diretora estabelece a sua vocação temática não como a descoberta de uma fórmula que deve sempre ser mantida, mas sim como uma maneira de, a cada filme, exercitá-la nos mais variados tipos de histórias e personagens.

45º Festival de Cinema de Gramado #5: “O Matador”, de Marcelo Galvão

O Matador é o primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil. Foto: Pedro Saad/Netflix

Vá entender o porquê de tanta gente – público e crítica – ter inventando a tal polêmica em Cannes que discutia o valor de um filme a partir do fato de ele estrear ou não em uma sala de cinema. Curto e grosso, saio em defesa da plataforma ao dizer o seguinte: prefiro mil vezes assistir a um filme que está na tela (seja ela qual for) exatamente da mesma forma que foi pensado em sua fase embrionária do que me deparar com uma obra que passou por dezenas de produtores, sendo mutilada a cada decisão estritamente comercial com fins de distribuição só para chegar na tela grande. Esse, afinal, é o principal cerne da questão: a preferência pelo valor artístico, pela visão de um criador. Isso deve ser soberano, sempre. E a Netflix tem plena consciência disso.

Antes, em Cannes, Okja e The Meyerowitz Stories. Agora, em Gramado, O Matador, que faz sua primeira exibição nos 45 anos do festival serrano, mas sem reproduzir – com toda razão – as “polêmicas” que tomaram o célebre evento francês na edição deste ano. E o caso é novamente de acerto: em escala de produção e em construção de gênero (no caso, o faroeste), Marcelo Galvão, um habitué de Gramado com vitórias recentes pela comédia Colegas e pelo belíssimo drama A Despedida, faz de O Matador um divertido e competente western brasileiro. E isso se distancia do mero impacto de dimensões que o filme tem – o esmero técnico aqui é realmente de tirar o chapéu, da trilha super funcional assinada por Ed Côrtes ao design de produção de Zenor Ribas -, alcançando o plano do próprio conceito da história, uma vez que Galvão, também autor do roteiro, cria tramas e personagens muito particulares sem jamais trair o que o filme delimitou como crível e possível para aquele universo. Não há artificialidades aqui e muito menos o estofo raso de técnica e dramaturgia tão comum em longas que tentam emular gêneros bastante específicos.

Em termos estruturais, pontos para a acertada decisão de misturar elementos clássicos do gênero – as heranças malditas, as sucessões familiares, a morte como solução fácil – e ao mesmo tempo brincar, por exemplo, com os pontos de vista da trama, como na boa parcela do filme que se distancia do protagonista Cabeleira (Diogo Morgado) para contar outras histórias. Há ainda algumas surpresas divertidas, como um pequeno número musical com a portuguesa Maria de Medeiros. Primeiro longa Original Netflix produzido no Brasil, O Matador cimenta a impressão já sugerida anteriormente de que Galvão é um cineasta que, apesar de não ter a chamada “assinatura” que a crítica tanto adora tornar obrigatória na carreira de cineastas, encontra sua assinatura, justamente, na falta de assinatura. Transitar por todos os gêneros e mesmo assim manter uma boa média de qualidade exige talento, e é um feito alcançado por poucos. Galvão sai ganhando. E a Netflix também por ter a visão de apostar no projeto, que muito provavelmente não chegaria aos cinemas. Muito menos em um número digno de salas.

45º Festival de Cinema de Gramado #4: mostras competitivas começam nesta sexta-feira (18)

Ele pesa 3,5 kg e mede 28 cm, além de ser esculpido em bronze e não em ouro, ao contrário do que muita gente imagina. Ícone do Festival de Cinema de Gramado, a estatueta de cinema mais cobiçada do Brasil, o Kikito, está de aniversário junto ao seu evento: enquanto o Festival chega aos 45 anos, o Kikito comemora 50. E, a partir de hoje, sexta-feira (18), diversos cineastas do Brasil e da América Latina estarão na Serra Gaúcha para exibir seus filmes e, quem sabe, levá-lo para casa.

Ao que tudo indica, a disputa será de alto nível, com produções inteiramente inéditas no Brasil, algumas no mundo. Tem também a primeira produção original Netflix, sem falar de filmes que viajaram de Berlim a Locarno. E o que dizer da representatividade? Quatro dos sete longas brasileiros em competição levam a assinatura de cineastas mulheres. Entre as homenagens, Gramado ainda celebra um animador (Otto Guerra), uma “cantriz” argentina (Soledad Villamil) e dois atores amplamente reconhecidos por suas trajetórias no cinema brasileiro: Dira Paes e Antonio Pitanga.

O 45º Festival de Cinema de Gramado vem aí, e nós acompanharemos tudo diretamente da Serra Gaúcha. Não deixem de visitar o blog, pois contaremos tudo por aqui!

O Filme da Minha Vida

É hora de encontrar o mundo.

Direção: Selton Mello

Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello, baseado no livro “Um Pai de Cinema”, de Antonio Skármeta

Elenco: Johnny Massaro, Vincent Cassel, Selton Mello, Bruna Linzmeyer, Beatriz Arantes, Martha Nowill, Erika Januza, João Prates, Rolando Boldrin, Antonio Skármeta

Brasil, 2017, Drama, 113 minutos

Sinopse: O jovem Tony (Johnny Massaro) decide retornar a Remanso, Serra Gaúcha, sua cidade natal. Ao chegar, ele descobre que Nicolas (Vincent Cassel), seu pai, voltou para França alegando sentir falta dos amigos e do país de origem. Tony acaba tornando-se professor, e vê-se em meio aos conflitos e inexperiências juvenis. (Adoro Cinema)

Todo mundo já esteve lá, e é bem provável que a sensação tenha sido a mesma: adentrar a vida adulta é mais doloroso do que esperávamos, mas também mais gratificante do que se poderia imaginar. Ainda que carregue o cinema no título e seja repercutido como uma obra sobre as rupturas de relações entre pais e filhos, O Filme da Minha Vida se debruça, na verdade, sobre esse rito de passagem que historicamente ganha traços tão nostálgicos, agridoces e delicados no cinema, seja antes ou agora (Educação e Brooklin, dois filmes com interpretações femininas ímpares, são ótimas referências entre as produções contemporâneas nesse sentido). E Selton Mello, que chega ao seu terceiro longa-metragem como diretor depois dos sucessos de crítica de Feliz Natal e O Palhaço, deixa agora a sua bela contribuição para uma temática que, mesmo depois de tanto tempo e tantos filmes, continua forte e universal, especialmente por causa da contribuição de obras como a dele.

Rodado em belos cenários da Serra Gaúcha, O Filme da Minha Vida consolida, em forma e conteúdo, toda a graça e o talento de Selton como diretor. A graça se dá pela segurança com que ele regula os mais diversos tons da história que conta, seja na doçura com que captura o encantamento de uma marcante paixão da adolescência ou nas pitadas de humor que poderiam resultar forçadas e dispensáveis em outros longas, mas que aqui são um alento muito bem-vindo a um relato centrado especialmente no abandono e no importante momento em que percebemos que o mais sensato é vencer determinadas dores e finalmente encarar o mundo como ele é. Já o talento está na consciência de que magia, ingenuidade e leveza não devem ser confundidas com mero exercício de estilo. Com isso, Selton entrega um filme quase lúdico, mas que sempre carrega um propósito e, principalmente, uma função dentro das discussões levantadas.

A técnica assina embaixo disso tudo, com destaque para a fotografia do mestre Walter Carvalho. Já são mais de 100 produções assinadas por ele, mas realmente impressiona como, mesmo depois de tanto tempo e tanto trabalho, Carvalho segue encantando com criações que unem uma estética irrepreensível a leituras que só um profissional talentoso como ele poderia fazer. Igualmente presente e fundamental para O Filme da Minha Vida é a trilha sonora de Plínio Profeta, que quebra aqui a maldição do cinema brasileiro de não conseguir fazer trilhas com melodias marcantes ou que sejam elementos narrativos em uma história. Faz até certo sentido o longa parecer por vezes bonito demais porque toda sua estética traz um tom afetuoso e que beira o imaginativo, como se procurasse idealizar uma fase da vida que, na realidade, é bastante difícil. E o contraponto fascina, já que nem toda história calcada no drama precisa ser capturada com escuridão ou pessimismo. Às vezes, filmar a tristeza com beleza tem um efeito ainda mais potente (Tom Ford soube fazer isso como ninguém em Direito de Amar).

O Filme da Minha Vida é, enfim, recompensador por entender, com base no livro Um Pai de Cinema, de Antonio Skármeta, a importância de transformar dores e frustrações em amadurecimento. Dessa forma, é especial que a missão de protagonista da história tenho ficado a cargo de Johnny Massaro, um ator que está distante dos estereótipos de galã e que por isso mesmo se torna tão mais próximo do espectador, fazendo com que seu Tony Terranova seja um personagem crível, identificável. Com pleno carisma, Massaro demonstra todo o talento que, apesar de exercitado em papeis muito distintos ao longo de sua carreira, talvez tenha ficado escanteado em papeis coadjuvantes de telenovelas globais como a juvenil Malhação. Ele é um protagonista à altura de um elenco muito bem escolhido, de Vincent Cassel a Martha Nowill, onde apenas quem não surpreende é o próprio Selton, interpretando novamente a si mesmo, sem variações. Entre tantos acertos, a situação é levemente desregulada pelo final, quando O Filme da Minha da Vida trata com significativa pressa uma conclusão que merecia uma dimensão muito maior. De resto, é uma obra que, como o próprio Selton diz, vem a calhar em tempos tão difíceis.