Cinema e Argumento

Os vencedores do Emmy 2015

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“A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar o Emmy por papeis que simplesmente não existem”. Viola Davis é a primeira mulher negra na história do Emmy a vencer na categoria de melhor atriz em série dramática.

Parece inacreditável, mas em 67 anos de história o Emmy nunca havia premiado uma atriz negra como protagonista no segmento dramático. Isso é reflexo, claro, de uma indústria ainda racista, o que foi dito com todas as letras por Viola Davis em seu vitorioso discurso por How to Get Away With Murder. “A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar o Emmy por papeis que simplesmente não existem”, disse a atriz. É fácil encontrar quem torça o nariz para a série (que, apesar do delicioso guilty pleasure que é, tem sim grandes fragilidades, especialmente no elenco), mas é emblemático o que ela faz. How to Get Away With Murder, como bem apontou sua protagonista, redefine o que é beleza, sensualidade e, principalmente, o que é ser uma mulher negra e protagonista na TV estadunidense. Viola é superlativa na série – e ainda mais fora dela. É um grande ser humano que mereceu quebrar uma barreira até então silenciosa da premiação.

Começo falando sobre a vitória de Viola Davis porque este foi o grande momento do Emmy 2015. Frequentemente surpreendente, a premiação ontem decepcionou por ser a mais previsível em muitos anos. Vale lembrar que não dá para confundir previsibilidade com falta de merecimento, mas o resultado foi cercado de questionamentos, especialmente no que se refere à consagração de Game of Thrones. Indiscutível sucesso de público e crítica, o programa simplesmente não vive um momento unânime, já que sua quinta temporada foi basicamente “ame ou odeie”. Foi curioso ver tantas estatuetas entregues ao seriado quando ele divide tantas opiniões e quando, principalmente, outros programas entregaram uma estabilidade muito maior, como Mad MenHouse of Cards. Optaram por Game of Thrones em um acerto de contas aparentemente tardio e excessivo (ninguém entendeu muito bem o prêmio para Peter Dinklage como coadjuvante, por exemplo). Para Mad Men, sobrou apenas o prêmio de melhor ator para Jon Hamm, que felizmente não se juntou a Amy Poehler (Parks and Recreation), Frances Conroy (Six Feet Under), Hugh Laurie (House) e Steve Carell (The Office) como mais um ator indicado merecidamente centenas de vezes e nunca premiado.

Já entre as comédias a situação foi bem mais coerente com o que o binômio público/crítica vem celebrando nesta temporada. Assim como Game of Thrones, a ótima Veep só veio a ser consagrada agora, mas este está longe de ser um mero momento de compensação: o programa estrelado por Julia Louis-Dreyfus realmente está em uma fase brilhante, e o melhor: totalmente em sintonia com as inflamadas eleições que começam a tomar conta dos Estados Unidos. Tem quem reclame de um quarto prêmio consecutivo para Dreyfus como atriz ou de uma segunda vitória de Tony Hale como coadjuvante pela série, só que não há muito o que se discutir: ambos são atores sempre excelentes e que também submeteram episódios certeiros para avaliação. 

Veep, a primeira série de canal fechado a vencer a categoria principal de comédia desde Sex and the City, dividiu a atenção da noite com a igualmente ótima Transparent, que levou o prêmio de melhor ator para Jeffrey Tambor (possivelmente a consagração mais justa da noite) e de melhor direção para Jill Soloway. A noite para as comédias serviu ainda para fazer uma varredura completa em antigos vícios intermináveis do Emmy como Modern FamilyThe Big Bang Theory, séries que finalmente desapareceram da lista de vencedores. Enquanto isso, no segmento das minisséries, tivemos mais (justas) previsibilidades com o total domínio de Olive Kitteridge. Tenho problemas com as lembranças para Richard Jenkins e Bill Murray, dois grandes atores que só venceram por nome ou falta de opção, mas a verdade é que não havia muito a ser feito em suas listas. Confira abaixo os vencedores nas categorias de drama, comédia e minissérie/telefilme:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: Olive Kitteridge
MELHOR TELEFILME: Bessie
MELHOR DIREÇÃO DRAMA: David Nutter (Game of Thrones)
MELHOR DIREÇÃO COMÉDIA: Jill Solloway (Transparent)

MELHOR DIREÇÃO MINISSÉRIE/TELEFILME: Lisa Cholodenko (Olive Kitteridge)
MELHOR ROTEIRO DRAMA: David Benioff e D.B. Weiss (Game of Thrones)

MELHOR ROTEIRO COMÉDIA: Armando Iannucci, Simon Blackwell e Tony Roche (Veep)
MELHOR ROTEIRO MINISSÉRIE/TELEFILME: Jane Anderson (Olive Kitteridge)
MELHOR ATOR DRAMA: Jon Hamm (Mad Men)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Richard Jenkins (Olive Kitteridge)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Viola Davis (How to Get Away With Murder)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep)
MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME: Frances McDormand (Olive Kitteridge)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Tony Hale (Veep)
MELHOR ATOR COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Bill Murray (Olive Kitteridge)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Uzo Aduba (Orange is the New Black)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (American Crime)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Allison Janney (Mom)

Quem serão os vencedores do Emmy 2015?

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Na sua quarta indicação consecutiva, Veep finalmente faturou o prêmio de melhor elenco cômico no Emmy. A vitória eleva as chances da série para a grande premiação do próximo domingo (20).

Sempre longe de ser previsível, o Emmy já trouxe algumas surpresas neste fim de semana, quando anunciou os vencedores do chamado Creative Arts, que lista os melhores entre categorias técnicas, atores convidados e elencos. Se Transparent parecia uma barbada entre as comédias (definição de gênero questionável, diga-se de passagem), sua soberania agora já pode ser contestada: pela primeira vez em quatro anos Veep faturou o prêmio de melhor elenco, reforçando a ideia de que a série é sim muito mais do que apenas a maravilhosa Julia Louis-Dreyfus – e não será surpresa alguma se Tony Hale e Anna Chlumsky se consagrarem como coadjuvantes na próxima semana também, quando os demais vencedores serão revelados, já que ambos submeteram episódios onde protagonizam cenas de absoluto brilho individual.

De qualquer forma, tanto Veep quanto Transparent são séries de alto nível. Pela definição de comédia e pela qualidade acentuada a cada temporada, seria mais justo Veep vencer, só que, pela relevância temática e por apontar para o caminho das novas plataformas de streaming, Transparent, que abriu os trabalhos da Amazon como produtora de conteúdo audiovisual, salta na frente. Ainda entre as comédias, Transparent levou um merecido prêmio de ator convidado para a sensível participação de Bradley Whitford no episódio Best New Girl (o melhor da temporada), trazendo mais uma derrota para Jon Hamm, que concorria por seu ótimo momento em Unbreakable Kimmy Schmidt. Já Joan Cusack foi a melhor atriz convidada por Shameless, derrotando candidatas de peso que estão com indicações duplas este ano, como Christine Baranski e Gaby Hoffman.

Nas categorias de drama, outras surpresas: Game of Thrones pela primeira vez faturou o prêmio de melhor elenco – e é no mínimo inusitada a vitória em um ano que o seriado dividiu opiniões e entregou aquela que é unanimemente a sua temporada menos interessante. A lembrança não é brincadeira: no ano em que Mad Men se despediu da TV e supostamente viria com força total para reinar novamente no Emmy, a derrota surge como um forte sinal para a grande premiação da semana que vem, especialmente quando Orange is the New Black vive um grande momento e outras séries veteranas e mais focadas em trabalhos de interpretação seguem sendo lembradas, como House of Cards, que faturou a categoria de melhor ator convidado para Reg E. Cathey. A sempre maravilhosa Margo Martindale foi a melhor interpretação feminina mo mesmo segmento por The Americans, desbancando a veterana Cicely Tyson (ótima como a mãe de Viola Davis em How to Get Away With Murder), que já havia perdido um Emmy no ano passado pelo telefilme O Regresso Para Bountiful.

Para o próximo domingo, apenas duas apostas parecem realmente fáceis: Jeffrey Tambor como melhor ator de comédia por seu sensível desempenho em Transparent e Viola Davis fazendo história como a primeira atriz negra a vencer na categoria por How to Get Away With Murder. Muitos querem crer que Jon Hamm (Mad Men) e Amy Poehler (Parks and Recreation) finalmente serão corados na premiação, mas vale lembrar que o Emmy não se comove com despedidas: Steve Carell (The Office), Hugh Laurie (House) e Frances Conroy (Six Feet Under) foram alguns dos atores indicados várias vezes – e reconhecidamente merecedores da estatueta – que nunca subiram ao palco para receber honrarias individuais.

Entre as surpresas possíveis, não subestimar a sexta indicação consecutiva de Christine Baranski como atriz coadjuvante em drama por The Good Wife (a série sempre teve uma de suas atrizes premiadas a cada temporada e ela é a única que não passou um ano sem ser lembrada), Niecy Nash entre as atrizes coadjuvantes de comédia por Getting On (seria uma daquelas pequenas surpresas da categoria ao estilo Kristin Chenoweth por Pushing Daisies e Merritt Wever por Nurse Jackie) e Ben Mendelsohn, ótimo em Bloodline e favorecido por uma fraude de categoria (ele é obviamente protagonista ao lado de Kyle Chandler e não coadjuvante como o programa vendeu e o Emmy comprou). E o que mais vai acontecer na grande noite de premiação do Emmy? Abaixo as nossas apostas:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Mad Men / alt: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Transparent / alt: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: Olive Kitteridge / alt: American Horror Story: Freak Show

MELHOR ATOR DRAMA: Kevin Spacey (House of Cards) / alt: Jon Hamm (Mad Men)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent) / alt: William H. Macy (Shameless)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: David Oyelowo (Nightingale) / alt: Adrien Brody (Houdini)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Viola Davis (How to Get Away With Murder) / alt: Taraji P. Henson (Empire)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Amy Poehler (Parks and Recreation)
MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME: Frances McDormand (Olive Kitteridge) / alt: Queen Latifah (Bessie)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: Ben Mendelsohn (Bloodline) / alt: Jonathan Banks (Better Call Saul)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt) / alt: Tony Hale (Veep)
MELHOR ATOR COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Bill Murray (Olive Kitteridge) / alt: Michael Kenneth Williams (Bessie)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Christine Baranski (The Good Wife) / alt: Uzo Aduba (Orange is the New Black)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Sarah Paulson (American Horror Story: Freak Show) / alt: Mo’Nique (Bessie)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Niecy Nash (Getting On) / alt: Anna Chlumsky (Veep)

Os indicados ao Emmy 2015

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A lista do Emmy 2015 reflete a imensa diversidade temática e narrativa que a TV e as plataformas on demand vêm oferecendo. Das discussões envolvendo identidade e gênero em Transparent ao retorno da recentemente esquecida Mad Men, os indicados deste ano, com algumas ressalvas, reforçam a ideia de que nunca vivemos tempos tão ricos e democráticos no mundo dos seriados. É bem verdade que em alguns pontos não dá para levar o Emmy a sério – oito indicadas em atriz coadjuvante de comédia?! -, mas é sempre irresistível acompanhar premiações, não é mesmo? Abaixo, nossos breves comentários sobre os indicados, cuja lista completa está disponível no site oficial do Emmy.

– Mad Men precisou se despedir da TV para voltar a concorrer ao Emmy (ano passado o programa não teve uma indicação sequer), com direito a lembranças para Jon Hamm, Christina Hendricks e Elisabeth Moss. No entanto, a série deve seguir os passos de Six Feet Under: ter seu unanime elenco se despedindo da premiação sem ter conquistado prêmios individuais ao longo dos anos;

– Homeland, que anos atrás chegou a ganhar como melhor série dramática, volta ao páreo na categoria. Dizem que o programa está em uma boa fase, mas quase ninguém fala mais nele. Inclusão no mínimo inesperada;

– Better Call Saul também não foi lá muito popular ou sequer discutida com entusiasmo pela crítica, mas o prestígio de Vince Gilligan conseguiu surpreendentemente levar a série para a categoria principal;

– Entre as comédias, Modern Family parece finalmente ter seus dias contados, já que não conseguiu indicações a roteiro e direção e ainda teve lembranças apenas para Ty Burell e Julie Bowen na lista de coadjuvantes. Enquanto isso, The Big Bang Theory passou em branco e nem Jim Parsons chegou entre os finalistas. Já estava na hora, né?;

– Apesar da novidade que é Unbreakable Kimmy Schmidt, a série é muito específica e deve ter sorte apenas entre os coadjuvantes, em especial com o impagável Tituss Burgess. A disputa está merecidamente entre Veep, que chega ao quarto ano com o mesmo e justificado prestígio de sempre, e a inspiradora e delicada Transparent, já vencedora do Globo de Ouro;

– Kyle Chandler como protagonista em drama e Ben Mendehlson como coadjuvante em drama foram as duas únicas lembranças de Bloodline, que, mesmo com criadores celebrados e elenco de qualidade, não vingou entre os votantes. O hit Empire também performou abaixo do esperado, conseguindo uma única e merecida indicação de melhor atriz para Taraji P. Henson;

– Surpreendente a inclusão de Lily Tomlin como melhor atriz de comédia por Grance and Frankie enquanto sua colega de cena Jane Fonda amarga o esquecimento. Uma pergunta para quem assiste a série: esse não é um trabalho de dupla? E, por ter Oscar em casa, era esperado que Fonda fosse lembrada caso optassem apenas por uma;

– Vencedora do Emmy de melhor atriz dramática ano passado, Julianna Margulies não foi lembrada pelo sexto ano da sempre ótima The Good Wife. Na realidade, a categoria deixou de indicar vários nomes há anos fixados na lista ou então dados como certos: Ruth Wilson, vencedora do Globo de Ouro por The Affair, Michelle Dockery por Downton Abbey e Kerry Washington por Scandal. Quem sai ganhando é Tatiana Maslany, por The Orphan Black, considerada uma das boas surpresas;

– Oito indicadas em atriz coadjuvante de comédia? A indecisão foi tanta assim? De qualquer forma, não dá para reclamar quando tem Niecy Nash lembrada por Getting On (a melhor série de comédia que ninguém vê) e Jane Krakowski por Unbreakable Kimmy Schmidt. A disputa é acirrada, já que Allison Janey (Mom) é queridinha dos votantes e Anna Chlumsky (Veep) parece ter o episódio perfeito para uma vitória;

– No mais, fica registrada aqui a nossa torcida para que Christine Baranski finalmente ganhe como melhor atriz coadjuvante em drama. Uma curiosidade: The Good Wife sempre teve uma mulher premiada por temporada no Emmy. Em ordem cronológica: Archie Panjabi (injustamente esquecida este ano), Margulies, Martha Plimpton, Carrie Preston e Margulies de novo. Que a a estatística siga vencedora em 2015!

Na TV… a lenta linhagem familiar de “Bloodline”

O filho problemático volta ao lar: “Bloodline”, nova série produzida Netflix, só é verdadeiramente envolvente quando se foca nos meandros de antigas feridas familiares.

Mesmo com uma boa equipe, Bloodline foi um dos lançamentos de menor repercussão da prolífera Netflix. A criação do seriado ficou por conta do trio Glenn Kessler, Todd A. Kessler e Daniel Zelman, os mesmos responsáveis por Damages, celebrado drama jurídico que trouxe uma nova era de ouro para a carreira de Glenn Close em 2007. No elenco ainda estão nomes como Kyle Chandler, protagonista da queridinha Friday Night Lights, e Sissy Spacek, vencedora do Oscar que dispensa apresentações. Mas a estreia do programa foi tímida e seu esquecimento em tempos tão movimentados no mundo das séries é compreensível: ao longo de 13 episódios, não há dúvidas de que este é um drama convencional em todos os sentidos – e que ainda comete o erro de prolongar excessivamente os seus lugares comuns.

Os irmãos Kessler em parceria com Daniel Zelman idealizaram Bloodline com a mesma lógica estrutural de Damages: um futuro bombástico é pincelado por flashforwards, e cabe ao espectador tentar adivinhar quais fatos do presente acarretarão eventos tão surpreendentes. Se o seriado estrelado por Glenn Close foi de certa forma pioneiro nesse tipo de narrativa na TV, hoje a escolha já se mostra ultrapassada. Isso porque são incontáveis os programas que utilizam tal estrutura para prender o espectador (How to Get Away With Murder True Detective são alguns dos exemplares mais recentes). O que se revela problemático, entretanto, é que, em tramas como as dos seriados citados, o vai e vem da história é perfeitamente compreensível dada a natureza de suspense dos conflitos. Já em Bloodline a escolha é ineficiente, pois este é um drama que não é necessariamente misterioso em sua essência. 

Neste caso, revelar cedo demais um importante fato do futuro estraga o impacto que ele teria com uma narrativa linear. Prometer demais nunca é bom, pois pode ser que o desenvolvimento até lá não seja necessariamente engenhoso. É o que acontece com Bloodline que, ao invés de construir uma trama complexa como Damages ou True Detective, apenas se prolonga em fatos e situações comuns desnecessariamente. Além disso, reúne diversos estereótipos de um relato familiar, como o filho rejeitado que foi embora e agora está de volta, a mãe que nunca teve personalidade frente ao marido e o primogênito responsável que é o porto seguro do clã. Só quem tem paciência sobrevive aos longos episódios (seja pela duração de uma hora ou pela própria condução), e é difícil chegar ao fim de uma série que não surpreende dramaticamente. São muitos rodeios para, no final das contas, descobrirmos o que já facilmente deduzíamos.

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Enquanto Ben Mendehlson toma a série inteira para si, Kyle Chandler e Linda Cardellini só se destacam de fato nos momentos derradeiros da primeira temporada.

No ritmo arrastado de Bloodline, pouco se desenvolve de precioso sobre a personalidade dos personagens – todos bem definidos já em poucos episódios. Por outro lado, um deles se mantem intacto ao longo de toda a temporada: o misterioso Danny, vivido com grande talento por Ben Mendehlson. A série sabe conduzir toda a dubiedade do rejeitado caçula, um sujeito que frequentemente desorienta nosso senso de confiança: ele vai de alguém digno de segunda chance a homem detestável em questão de minutos. Mendehlson é tudo o que Damian Lewis, por exemplo, não era em Homeland. Ou seja, um ator sutil e eficiente ao seduzir o espectador para minutos depois também afastá-lo. Assim, não é à toa que os melhores episódios da temporada são as partes 11 e 12, onde todos os acontecimentos e questionamentos são movidos em função quase exclusivamente dele. Todos são críveis no elenco de Bloodline, mas Mendehlson é indiscutivelmente o mais beneficiado.

Tudo o que envolve o ator representa o que existe de melhor no seriado, especialmente as discussões envolvendo mágoas familiares guardadas por anos. Essa abordagem não é novidade, mas sempre que são despertados antigos problemas entre o clã dos Rayburn, Bloodline dá chances maiores aos seus atores e ganha novo fôlego. Quando o Danny de Mendehlson, então, é o catalisador de todos os conflitos, a série chega a quase compensar toda a inércia de suas partes arrastadas. Neste primeiro ano um ciclo é completado e pouco existe em vista para uma já confirmada segunda temporada. Sempre considero um problema quando um programa encerra basicamente toda a sua premissa logo de cara, deixando apenas cliffhangers até mesmo forçados para que a história continue rendendo posteriormente (aqui temos a velha jogada de um personagem cuja existência nos era desconhecida aparece de surpresa na última cena) e, dado o fato de que neste primeiro ano de Bloodline, a história em si já não era rica para tantos prolongamentos, o futuro não deslumbra momentos mais especiais para o programa. Tomara que provem o contrário.

Na TV… o som e a fúria de “Empire”

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Batendo recordes de audiência e chegando ao primeiro lugar da Billboard com sua trilha sonora, Empire é o grande hit da TV em 2015

Empire é o grande blockbuster televisivo de 2015 até aqui – e não chega a ser um exagero afirmar que será difícil algum outro programa tirar esse título da nova série lançada pela Fox em janeiro. De acordo com a Rolling Stone, é simplesmente impossível parar o programa, que, ao longo de sua primeira temporada, teve os números a seu favor: desde a estreia, Empire registrou aumento de audiência durante oito semanas consecutivas. O feito é histórico, já que foi somente em 1992 que a TV viu um seriado (no caso, a sitcom Roseanne) conquistar progressivamente novos telespectadores durante cinco semanas. Empire chegou a oito e de quebra não fez feio com a crítica. Claro que os tempos são outros e que hoje a chance de um programa estourar é ainda maior do que na década de 1990, mas essa envolvente novela do hip hop tem méritos de sobra para justificar o alarde.

Vindo de uma carreira em franca derrocada em termos de qualidade no cinema, Lee Daniels, conhecido por Preciosa – Uma História de Esperança, se juntou a Danny Strong, seu amigo roteirista no péssimo O Mordomo da Casa Branca (mas também autor do impecável Virada no Jogo), para criar a história da família Lyon, em especial do patriarca Lucious (Terrence Howard, indicado ao Oscar 2006 por Ritmo de Um Sonho), um homem que, após uma vida pobre marginalizada, prospera no mundo da música e se torna o todo poderoso da Empire, gravadora milionária que hoje é o selo de artistas mundialmente famosos. A situação de Lucious muda, entretanto, quando ele é diagnosticado com ELA. Ao perceber que seus três filhos não têm perfil para dar continuado a seu legado na presidência, resolve semear uma disputa entre eles, anunciando que em breve escolherá apenas um para treinar propriamente e transferir seu extenso legado.

Apesar da condição de Lucious e da disputa iniciada entre os três filhos, Empire tem uma estrela com nome e sobre nome: Cookie Lyon (Taraji P. Henson). Além de ser a personagem de personalidade mais forte da trama, Cookie é a que possui a melhor storyline. Ela, na realidade, lançou Lucious ao estrelato, mas, após entrar no tráfico para poder bancar o primeiro álbum do marido, foi presa e passou 17 anos na cadeia longe dos filhos – e o pior: esquecida pelo marido, que deixou de visitá-la e já casado com uma outra mulher. É quando Cookie sai da prisão e resolve reivindicar o que é seu por direito que a trama de Empire pulsa, especialmente porque ela, chamativa por si só com seus figurinos extravagantes e postura e dicção exploradas com perfeição por Henson, não teme ninguém e, com seu vocabulário desbocado, coloca todas as cartas na mesa, doa a quem doer. Basicamente apresentada com um viés cômico extremamente funcional que lhe proporciona roubar a cena a todo minuto, Cookie felizmente não se resume a isso: suas motivações são as mais humanas e sinceras, ao passo que seu passado dá conta de abordar sua faceta dramática.

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Enquanto Terrence Howard sofre com o insuportável protagonista Lucious Hunt, Taraji P. Henson rouba a cena como Cookie Lyon e é a grande estrela de Empire

A sinopse já indica que Empire é uma grande novela, e a sensação se confirma ao longos dos doze episódios desta primeira temporada. Fora a doença terminal e o retorno de uma personagem há tempos distante, existe ainda o caçula irresponsável, o filho gay no armário,  um amor “entre tapas e beijos”, um personagem bipolar desistindo de tomar remédios e, claro, um assassinato sigiloso logo no início da história para ser trabalhado ao longo da temporada. Tudo isso está na velha fórmula da TV aberta, com vários conflitos que não duram mais de dois episódios, revelações surpreendentes mas por vezes repentinas e uma trilha sonora instrumental excessivamente explicativa nos momentos dramáticos ou de suspense. Porém, assim como a recente How to Get Away With Murder (as duas séries se assemelham ao dar holofotes aos negros em tempos que o cinema sofre uma crise com este público), Empire consegue ser maior que tais detalhes e entrega sim uma novela, mas bem contada e suficientemente envolvente para justificar o sucesso com o público.

É importante mencionar que uma ferramenta fundamental de Empire funciona com pleno êxito: as canções, cuidadosamente escritas e supervisionadas por ninguém menos que Timbaland, o responsável por produzir álbuns e escrever canções para artistas como Justin Timberlake, Rihanna, Jay-Z, Usher e Björk. Seu debut na televisão, considerado por ele mesmo como o primeiro passo de uma reinvenção em sua carreira, não poderia ser mais certeiro: Timbaland alcança o feito de tornar o hip hop palatável para quem não curte o gênero e é fácil se pegar com os refrões de várias músicas na cabeça após o fim de um episódio. Inclusive, muito do sucesso de Empire se deve justamente à música, uma vez que o universo deste estilo específico é pouco explorado no audiovisual. O que dizer, então, quando ele é televisionado por uma boa equipe e pensado por alguém que sabe o que o público quer ouvir? Inclusive, a trilha tem seu recorde individual: lançada no dia 10 de março, estreou em primeiro lugar na Billboard, superando até mesmo o igualmente recente Rebel Heart, novo álbum da icônica Madonna.

Se existe uma pedra no sapato de Empire essa é o protagonista Lucious Hunt. Inicialmente apresentado sem maiores diferenciais, Lucious aos poucos se torna um dos personagens mais insuportáveis dos últimos anos. Homofóbico, ganancioso e sem escrúpulos, deixou a esposa devota apodrecendo na prisão sem sequer visitá-la. Também maltrata e ignora o filho gay desde a infância e usa as pessoas como bem entende com uma regra muito clara: se alguém está ao seu lado, faz de tudo para agradar, caso contrário, faz questão de boicotar. A TV já nos ensinou que um ser humano desprezível pode ser fascinante (Walter White de Breaking Bad manda lembranças), mas Empire, pela sua natureza popular, não é uma série de grandes delicadezas, o que torna a escalada de mau caratismo do personagem nada envolvente – e já que Terrence Howard não é um ator versátil, fica ainda mais difícil enxergar um personagem rico em Lucious Hunt. Ele é apenas detestável. Ainda assim, é difícil resistir a este sucesso que tem uma legião de atores e cantores em participações especiais, como Snoop Dog, Courtney Love, Naomi Campbell, Gladys Knight, Cuba Gooding Jr., Jennifer Hudson e Rita Ora. Merece ser conferida. Afinal, não é comum ver séries realmente merecedoras de seu sucesso como Empire.