Cinema e Argumento

Melhores de 2011 – Fotografia

Emmanuel Lubezki é um verdadeiro mestre. Indicado cinco vezes ao Oscar, já merecia ter pelo menos duas estatuetas (mas não tem uma sequer). A primeira deveria ter sido por seu magnífico trabalho no subestimado Filhos da Esperança. A segunda pela fotografia igualmente impactante de A Árvore da Vida. Junto com a belíssima trilha sonora de Alexandre Desplat, o trabalho de Lubezki é o grande responsável por tornar o filme de Terence Malick tão sensorial. A história pode dividir opiniões, mas a unanimidade em torno da estética é mais do que coerente. Fica clara a forte ligação da fotografia com o trabalho de direção de Malick, especialmente na forma como a ela serve com perfeição ao clima proposto pelo filme. A fotografia de Lubezki traz uma estética encantadora, onde o resultado nunca se sobrepõe a outros setores do filme. Um trabalho singular e que, certamente, está entre os mais interessantes dos últimos anos.

CISNE NEGRO

Todas as escolhas da fotografia de Matthew Libatique para Cisne Negro foram fundamentais para levar o espectador ao mundo de paranoia da protagonista Nina (Natalie Portman). Da escuridão dos momentos de suspense ao encantamento com o mundo do balé e suas coreografias, o trabalho de Libatique se ajustou perfeitamente ao mundo construído pelo diretor Darren Aronofsky – alcançando, junto com todo o filme, resultado mais do que singular nos minutos finais.

MELANCOLIA

Nos últimos anos, o diretor Lars Von Trier se renovou ao virar um mestre da estética. Não só em relação aos belíssimos prólogos idealizados por ele, mas também ao impecável modo como sabe selecionar profissionais para desenvolver a fotografia de seus filmes. Em Melancolia, Manuel Alberto Claro apresentou um contundente trabalho ao transmitir toda angústia, tristeza e apreensão dos personagens criador por Von Trier. Fotografia subestimada.

BRAVURA INDÔMITA

Elogiar Roger Deakins é cair no lugar-comum. Se John Williams já alcançou, há muito tempo, o status de hors-concours em trilhas, Deakins também pode receber esse título Constantemente brilhante nas fotografias que realiza, Deakins, mais uma vez, foi impecável – dessa vez, em outra parceria com os irmãos Coen, no faroeste Bravura Indômita. Presente e futuro, inverno e escuridão, cenários e paisagens. Em todas as circunstâncias o trabalho de Deakins se sai formidavelmente bem. Só poderia vir de alguém como ele…

Roger Deakins

UM SONHO DE AMOR

Francês responsável pela fotografia de filmes como Swimming Pool – À Beira da Piscina e O Amor em 5 Tempos, Yorick Le Saux apresenta, por exemplo, toda a beleza de locações italianas em um trabalho sublime para Um Sonho de Amor. A fotografia é essencial para a ambientação do espectador, especialmente em momentos onde as imagens valem mais do que palavras (a cena de amor em uma paisagem ensolarada é maravilhosa). Outro trabalho que merecia mais reconhecimento.

EM ANOS ANTERIORES: 2010Direito de Amar | 2009Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008Ensaio Sobre a Cegueira

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Escolha do público:

1. A Árvore da Vida (53,49%, 23 votos)

2. Melancolia (18,6%, 8 votos)

3. Cisne Negro (11,63%, 5 votos)

4. Bravura Indômita (11,63%, 5 votos)

5. Um Sonho de Amor (4,65%, 2 votos)

Melhores de 2011 – Figurino

Jenny Beaven é uma especialista em filmes de época. Figurinista de produções como Retorno a Howards EndRazão e Sensibilidade, a vencedora do Oscar por Uma Janela Para o Amor foi uma escolha certeira para O Discurso do Rei. Beaven, que nunca se rende a excessos ou a roupagens exageradas, foi extremamente sutil ao criar os figurinos do filme de Tom Hooper. Além de reproduzir com bastante fidelidade o mundo do rei George VI (Colin Firth), o trabalho de Beaven fala muito sobre os próprios personagens, desde tonalidades até desenhos cheios de elegância. É um exemplo de como figurinos de filmes desse gênero não precisam ser cheios de adereços, cores vibrantes ou alegorias. Menos é mais no guarda-roupa de O Discurso do Rei, especialmente quando ele dialoga diretamente com a também satisfatória direção de arte.

BURLESQUE

Se não fosse pelos figurinos e pela direção de arte, Burlesque seria ainda mais inexpressivo. Claro que muito do que se vê na tela é mera reprodução do que já vimos em outros filmes do gênero (mas, ora, até os números musicais da história são!), mas eles se encaixam com a proposta do longa. Figurinos satisfatórios e que, de certa forma, dão um pouco de vida para esse musical carente de diferenciais.

UM SONHO DE AMOR

Merecidamente indicado ao Oscar 2012, o trabalho de figurinos de Um Sonho de Amor é essencial para representar o mundo burguês da protagonista vivida por Tilda Swinton. A figurinista Antonella Cannarozzi alcança um resultado elegante, mas nunca caindo em exageros – o que por si só já justifica qualquer elogio para esse trabalho certeiro em sua contemporaneidade.

 

ÁGUA PARA ELEFANTES

Assim como a direção de arte, os figurinos de Água Para Elefantes são dignos de mais atenção. Se o filme estrelado por Robert Pattinson e Reese Witherspoon não é lá muito interessante, temos que reconhecer que, tecnicamente, tem seus atrativos. E os figurinos cumprem sua missão de reproduzir com realismo o mundo circense.

CISNE NEGRO

Se a trilha sonora de Clint Mansell e a precisa direção de Darren Aronofsky são fundamentais para ambientar o espectador no mundo do balé, tal missão também é cumprida com louvor pelos figurinos criados por Amy Wescott. A transformação de Nina (Natalie Portman) também é sentida através desse setor de Cisne Negro.

EM ANOS ANTERIORES: 2010 – A Jovem Rainha Victoria

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Escolha do público:

1. Cisne Negro (41,46%, 17 votos)

2. Um Sonho de Amor (26,83%, 11 votos)

3. O Discurso do Rei (19,51%, 8 votos)

4. Água Para Elefantes (7,32%, 3 votos)

5. Burlesque (4,88%, 2 votos)

Melhores de 2011 – Ator Coadjuvante

Alan Rickman sempre foi um dos grandes méritos da série Harry Potter. Alguns podem argumentar que isso se deve apenas ao ótimo personagem criado por J.K. Rowling. Errado. Rickman criou uma personificação tão impecável de Severo Snape que é impossível imaginar qualquer outro ator em seu lugar. Se em O Enigma do Príncipe o roteiro desperdiçou o personagem de uma maneira brutal (na obra original, era um dos principais momentos dele), tudo é recompensando em As Relíquias da Morte – Parte 2. Snape continua tendo poucas aparições se comparado aos personagens principais, mas, agora, ele assume uma importância fundamental na história. Ou seja, já não bastasse a excelente composição de Rickman, ainda somos brindados com resoluções que aproveitam de forma brilhante o personagem. E o ator aproveita cada segundo. Logo na primeira cena do filme, sem uma única palavra sequer, já conseguimos prever o ótimo trabalho que está por vir. Tudo confirmado ao longo de As Relíquias da Morte – Parte 2: o ator emociona e humaniza seu personagem com grande impacto em poucos minutos, tornando-se dono de vários dos melhores momentos do filme de David Yates. Por isso e por todo o seu trabalho na saga Harry Potter, Alan Rickman merece todos os reconhecimentos possíveis. Pena que o preconceito pela série o impediu de chegar entre os finalistas de qualquer premiação…

GEOFFREY RUSH (O Discurso do Rei)

Colin Firth não alcançaria o mesmo resultado em O Discurso do Rei sem o seu colega Geoffrey Rush. O filme de Tom Hooper, que vale essencialmente pelas atuações, acertou em cheio ao escolher o veterano ator para o papel do fonoaudiólogo que muda para sempre a vida do rei George VI. Com muito humor (sem ser forçado) e naturalidade, Rush brilha toda vez que aparece em cena e, junto com Firth, formou uma das grandes duplas do ano. Por seu desempenho, ganhou o BAFTA de ator coadjuvante e, sinceramente, não seria injusto se também tivesse levado o Oscar.

CHRISTIAN BALE (O Vencedor)

Rush não levou o Oscar, que foi parar nas mãos de um certo Christian Bale. Em O Vencedor, mais uma vez, o Batman de Christopher Nolan mostra a sua versatilidade. Sua atuação vai além da transformação física (até porque, antes, ele já tinha emagrecido de forma impressionante para O Operário): Bale rouba a cena e, toda vez que entra em cena, toma as rédeas que eram para ser do protagonista vivido por Mark Wahlberg. Apesar do papel não ser o mais simpático (é aquele tipo que não merece qualquer confiança), o ator conseguiu quebrar barreiras e se tornar um dos principais atrativos do filme. Reconhecimento merecido.

CHRISTOPHER PLUMMER (Toda Forma de Amor)

Talvez nem chegue a ser uma grande atuação, mas existe algo de muito afetivo no trabalho que Christopher Plummer fez para Toda Forma de Amor. O personagem é um achado, principalmente por ser tratado com muita sensibilidade – tanto pelo ator quanto pelo filme. Se o modo como ele aparece é um tanto discutível (flashbacks curtíssimos que atrapalham um pouco o aprofundamento do personagem), Plummer não sei deixa abalar por isso. Em cada momento, gestos e olhares dele sempre significam algo. Uma simplicidade que marca. E devemos também aplaudir a total falta de preconceito do ator. Afinal, qual veterano de 82 anos toparia interpretar um homossexual e ainda beijar outro homem para um filme sem grandes pretensões?

JEREMY IRONS (Margin Call – O Dia Antes do Fim)

Dá gosto de ver Jeremy Irons em Margin Call – O Dia Antes do Fim. É um exemplo atuação onde fica evidente o talento de um ator. Com muita desenvoltura, Irons, nas poucas cenas que tem, consegue ser superior a qualquer outro ator do elenco estrelar do filme. Impressiona pela facilidade com que lida com as palavras e pela facilidade em criar um personagem cheio de personalidade sem nunca parecer forçado. Ou seja, é um papel que só poderia ser destinado a um ator com boa trajetória e de muito talento. Irons, claro, é um deles. E cumpriu sua missão com louvor.

EM ANOS ANTERIORES: 2010 – Michael Douglas (Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme) | 2009 – Christoph Waltz (Bastados Inglórios) | 2008 – Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez) | 2007 – Casey Affleck (O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford)

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Escolha do público:

1. Alan Rickman, por Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (41,18%, 21 votos)

2. Christian Bale, por O Vencedor (25,49%, 13 votos)

3. Geoffrey Rush, por O Discurso do Rei (15,69%, 8 votos)

4. Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor (11,76%, 6 votos)

5. Jeremy Irons, por Margin Call – O Dia Antes do Fim (5,88%, 3 votos)

Melhores de 2011 – Direção de Arte

Ao longo de oito filmes, a direção de arte da saga Harry Potter sempre foi impecável. O resultado, no entanto, é diferenciado em As Relíquias da Morte – Parte 2. Ao mostrar a escola de Hogwarts em ruínas ou, então, os detalhes do banco de Gringottes em uma invasão dos protagonistas, o trabalho encerrou sua jornada em grande estilo. A direção de arte também serve para mostrar toda a falta de esperança não só dos personagens, mas dos próprios lugares de Harry Potter que, nos longas iniciais de Chris Columbus, foram palcos de total encantamento. Além de acima dos padrões para um blockbuster, esse setor de Harry Potter também deve comemorar por ter sobrevivido de forma impecável ao longo dos anos, sempre mantendo-se fiel ao que cada diretor propôs na série. E a forma como a direção de arte dialoga com o estilo de David Yates, em As Relíquias da Morte – Parte 2, merece reconhecimento.

O DISCURSO DO REI

Oscar à parte, temos de reconhecer a boa direção de arte de O Discurso do Rei. Eve Stewart, junto com a decoração de set de Judy Farr, conseguiu captar com o devido requinte o mundo do rei George VI. Da residência do protagonista até os detalhes dos artefatos que decoram as sessões em que ele treina a voz, O Discurso do Rei foi bem sucedido nesse setor. Impressionante? Não. Mas nem por isso abaixo da média.

O PALHAÇO

A segunda incursão de Selton Mello atrás das câmeras mostra um profissional também muito atento à linguagem visual de seu filme. O Palhaço não seria o mesmo sem a ótima direção de arte que mostra desde o encantamento dos circos até a visível melancolia dos personagens. Ou seja, é um trabalho completo que serve para reproduzir ambientes e também para falar muito sobre as figuras da história.

BRAVURA INDÔMITA

Nancy Haigh e Jess Gonchor colocaram a parte técnica de Bravura Indômita em um outro patamar. Escapando das obviedades esperadas para um faroeste, a direção de arte e a decoração de set conseguiram traduzir o espírito proposto pelos irmãos Coen. Os momentos finais do filme são um belo exemplo de como Bravura Indômita acertou em cheio nesse segmento, já que o espectador, também através da direção de arte, consegue se sentir parte da história de Mattie Ross (Hailee Steinfeld).

ÁGUA PARA ELEFANTES

A direção de arte de Água Para Elefantes está longe de ser extraordinária como a de, por exemplo, Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas. Mas o mundo circense foi capturado em um nível bem satisfatório no filme estrelado por Robert Pattinson e Reese Witherspoon. Assim como em O Palhaço, a direção de arte também se presta a retratar a decadência e desesperança de alguns personagens, condizendo com o que o filme deseja passar em sua história.

EM ANOS ANTERIORES: 2010O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009O Curioso Caso de Benjamin Button

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Escolha do público:

1. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (58,82%, 20 votos)

2. O Palhaço (17,65%, 6 votos)

3. O Discurso do Rei (11,76%, 4 votos)

4. Bravura Indômita (8,82%, 3 votos)

5. Água Para Elefantes (2,94%, 1 voto)

Melhores de 2011 – Trilha Sonora

A Última Estação chegou ao Brasil com mais de um ano de atraso. O tempo, no entanto, não conseguiu diminuir o brilho do russo Sergey Yevtushenko na trilha sonora. Esse é o primeiro filme mais relevante em que ele está envolvido, mas é bom ficar de olho no nome, uma vez que o resultado alcançado é de impressionar. A trilha de A Última Estação, em vários momentos, parece inspirada no que Claude Debussy fez em Clair de Lune – e isso, na realidade, é um grande elogio. Melancólica, a trilha claramente presta tal homenagem, em especial na composição Morning Song. Só que existem outras passagens muito interessantes, como a própria The Last Station, que faz um belíssimo uso de violino e piano em um nível simplesmente arrebatador. Yevtushenko, infelizmente, não teve o reconhecimento que merecia, recebendo apenas uma indicação ao World Soundtrack Award como revelação do ano. Um trabalho eficiente dentro do filme e ainda mais interessante fora dele. Como disse o pianista Jean-Yves Thibauted, as trilhas sonoras são as óperas dos dias de hoje. Então, a de A Última Estação, em quesito de beleza e despertar sentimentos, pode muito bem se encaixar nessa definição.

CISNE NEGRO (Clint Mansell)

Existe essa polêmica de que a trilha de Clint Mansell não deve ser considerada por ser baseada no trabalho de Tchaikovsky. Mas, ora, se Mansell trabalhou com esse material e desenvolveu uma nova abordagem dele para Cisne Negro, não seria o suficiente para merecer reconhecimento? Difícil ignorar um trabalho tão contundente e tão essencial para a narrativa proposta pelo diretor Darren Aronosfky. Outro grande momento de Clint Mansell, que, em momentos como Perfection, alcança, sem trocadilhos, a perfeição.

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE – PARTE 2 (Alexandre Desplat)

Depois do decepcionante resultado na primeira parte de As Relíquias da Morte, Alexandre Desplat se reergueu e apresentou outro excelente momento no último filme da saga Harry Potter. O que mais conta aqui é a sutileza, uma vez que o francês não precisou criar composições exageradas para detalhar a grandiosidade do filme de David Yates. Faixas como StatuesSeverus and Lily são (de novo) provas da versatilidade do compositor. Trabalho digno para os padrões da saga e do próprio Desplat.

A PELE QUE HABITO (Alberto Iglesias)

Colaborador fiel de Pedro Almodóvar, Alberto Iglesias nunca foi tão bem sucedido em uma parceria com o diretor espanhol como em A Pele Que Habito. Os violinos nervosos de Iglesias situam com precisão o espectador na angústia emocional e no suspense do filme. Sem dúvida, A Pele Que Habito não seria o mesmo filme sem o trabalho do compositor – que deveria ter sido lembrado no Oscar por essa trilha, e não por aquela que realizou para O Espião Que Sabia Demais.

A ÁRVORE DA VIDA (Alexandre Desplat)

Desplat, de novo. Alguns dizem que ele está ficando sem personalidade ou que os milhares de trabalhos por ano diluem o seu talento. Bobagem. A Árvore da Vida é uma prova disso. Realizada no mesmo ano de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, consegue demonstrar o trabalho camaleônico de Desplat. A trilha que ele fez para o filme de Terrence Malick é cheia de minúcias que coincidem completamente com a proposta do diretor. Belo resultado.

EM ANOS ANTERIORES: 2010 – Abel Korzeniowski (Direito de Amar) | 2009 – Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button) | 2008 – Dario Marianelli (Desejo e Reparação) | 2007 – Alexandre Desplat (A Rainha)

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Escolha do público:

1. Cisne Negro (40,91%, 18 votos)

2. A Pele Que Habito (22,73%, 10 votos)

3. A Árvore da Vida (20,45%, 9 votos)

4. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (13,64%, 6 votos)

5. A Última Estação (2,27%, 1 voto)