Melhores de 2016 – Maquiagem e Penteados

Se como um todo Ave, César! divide opiniões, não há como negar a excelência da reconstituição de época que o filme faz da Hollywood dos anos 1950. E o trabalho técnico se torna ainda mais interessante porque a história captura os bastidores da indústria cinematográfica, o que abre um extenso leque de criação para segmentos como o de maquiagem e penteados, por exemplo. O trabalho da dupla Cydney Cornell e Jean Black para recriar o visual da época nesse sentido é fruto de uma grande temporada de pesquisa que abrange desde filmes como Quo Vadis ao visual de estrelas como Esther Williams e Roy Rogers. Na maquiagem e nos penteados, Cornell e Black realmente imergem astros como Channing Tatum e Scarlett Johansson na era de ouro do cinema da década de 1950, fazendo com que eles pareçam teletransportados diretamente de lá. E se a dupla ainda teve o desafio de trabalhar Tilda Swinton no papel de irmãs gêmeas com personalidades distintas, é importante valorizar outras grandes dimensões quantidade: Ave, César, por registrar os bastidores de um épico, conta com uma grande quantidade de figurantes, exigindo da maquiagem uma infinidade de borrifadas de spray para garantir um bronzeamento coletivo e convincente. Ainda disputavam a categoria: Florence: Quem é Essa Mulher? e A Garota Dinamarquesa.
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – A Morte do Demônio | 2012 – A Dama de Ferro (primeiro ano da categoria)
Melhores de 2016 – Efeitos Visuais

Doutor Estranho é um sopro de criatividade na fatigada lista de adaptações de quadrinhos para o cinema. Bem humorado e eficiente, o filme de Scott Derrickson também surpreende pela parte técnica, que dá vida a um universo muito particular de forma completamente instigante. Os efeitos visuais têm missão fundamental nessa jornada, pois nunca soam artificiais mesmo quando o longa precisar tomar escalas mais impressionantes: as cenas em que os protagonistas embaralham cidades ao brincar com suas dimensões são de tirar o fôlego pelo requinte técnico e pela originalidade. Não é sempre que heróis e vilões travam combates tão interessantes esteticamente, e Doutor Estranho, a partir da criatividade de seus efeitos, consegue se destacar nesse marasmo de filmes de quadrinhos que parecem todos iguais. Ainda disputavam a categoria: Animais Fantásticos e Onde Habitam e Deadpool.
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Planeta dos Macacos: O Confronto | 2013 – Gravidade | 2012 – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar (primeiro ano da categoria)
Melhores de 2016 – Atriz Coadjuvante

Não é por abandonar qualquer glamour que enalteça sua beleza já natural que Juliana Paes é uma grande revelação em A Despedida. Carismática atriz ela sempre foi, mas aqui encontra o trabalho mais íntimo de sua carreira, construindo uma personagem cuja dramaticidade vem quase inteiramente de dentro para fora. É lançando um olhar carinhoso sem que isso se confunda com piedade ou arquitetando secretamente momentos de generosidade para que Almirante (Nelson Xavier), seu amante 55 anos mais velho, não se sinta enfraquecido e até mesmo inválido que Juliana Paes constrói uma personagem fascinante: apesar de nova, sua Fátima é uma mulher visivelmente calejada e triste que se ilumina por completo com a mais atípica das paixões. Ao contrário do que se poderia esperar, principalmente pela disparidade de idade, não há um momento sequer de A Despedida em que o espectador duvide de sua paixão por Almirante. Afinal, para ela, hombridade não está na idade – e sim na retidão de caráter, no carinho, na integridade. E bastam cerca de meros vinte minutos (no belíssimo ato final do filme) para que ela permaneça na memória tanto quanto o protagonista. Ainda disputavam a categoria: Anya Taylor-Joy (A Bruxa), Jane Fonda (A Juventude), Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados) e Kate Winslet (Steve Jobs).
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Kristen Stewart (Acima das Nuvens) | 2014 – Lesley Manville (Mais Um Ano) | 2013 – Helen Hunt (As Sessões) | 2012 – Viola Davis (Histórias Cruzadas)| 2011 – Amy Adams (O Vencedor) | 2010 – Marion Cotillard (Nine) | 2009 – Kate Winslet (O Leitor) | 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro) | 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)
Melhores de 2016: indicados

Lembrado em oito categorias, o drama Carol é o líder de indicações da lista de melhores do ano do Cinema e Argumento em 2016. As produções A Bruxa, A Juventude, Aquarius e Ponto Zero aparecem em segundo lugar com cinco indicações cada.
Essa é uma lista de escolhas guiadas basicamente pelo coração. Também é uma lista que tenta, na medida do possível, conciliar os filmes de viagens profundamente pessoais com aqueles que, aqui ou ali, conquistaram nossa admiração cinematográfica em determinados aspectos. Quando se pensa prioritariamente com o coração, muita coisa legal pode ficar de fora (Boi Neon, por exemplo, que é um ótimo filme), mas nada é melhor do que a autenticidade em um momento como esse. Liderando a nossa seleção de melhores filmes de 2016, o drama Carol concorre em oito categorias (filme, direção, atriz para Cate Blanchett e Rooney Mara, roteiro adaptado, trilha sonora, design de produção e figurino), seguido de perto pelos brasileiros Aquarius e Ponto Zero, representando o ano marcante para produções realizadas no nosso país (De Onde Eu Te Vejo, A Despedida, Sinfonia da Necrópole ainda são lembradas em categorias pontuais) e por A Bruxa e A Juventude, todos com cinco indicações cada. Os vencedores serão divulgados nos próximos posts aqui do blog. Enquanto isso, não deixe de conferir na aba melhores do ano os nossos vencedores desde 2007.
MELHOR FILME
Aquarius
Carol
Elle
A Juventude
Ponto Zero
MELHOR DIREÇÃO
José Pedro Goulart (Ponto Zero)
Kleber Mendonça Filho (Aquarius)
Paul Verhoeven (Elle)
Robert Eggers (A Bruxa)
Todd Haynes (Carol)
MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett (Carol)
Denise Fraga (De Onde Eu Te Vejo)
Isabelle Huppert (Elle)
Rooney Mara (Carol)
Sonia Braga (Aquarius)
MELHOR ATOR
Domingos Montagner (De Onde Eu Te Vejo)
Hugh Grant (Florence: Quem é Essa Mulher?)
Jacob Tremblay (O Quarto de Jack)
Michael Fasbender (Steve Jobs)
Nelson Xavier (A Despedida)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anya Taylor-Joy (A Bruxa)
Jane Fonda (A Juventude)
Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
Juliana Paes (A Despedida)
Kate Winslet (Steve Jobs)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos)
Humberto Carrão (Aquarius)
Michael Shannon (Animais Noturnos)
Steve Carell (A Grande Aposta)
Tom Hardy (O Regresso)
MELHOR ELENCO
A Juventude
Animais Noturnos
Aquarius
De Onde Eu Te Vejo
Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Aquarius
De Onde Eu Te Vejo
A Juventude
Sinfonia da Necrópole
Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Carol
A Chegada
Elle
Steve Jobs
O Quarto de Jack
MELHOR MONTAGEM
O Contador
A Grande Aposta
Ponto Zero
Spotlight – Segredos Revelados
Steve Jobs
MELHOR FOTOGRAFIA
A Bruxa
A Chegada
Fogo no Mar
Ponto Zero
O Regresso
MELHOR TRILHA SONORA
A Bruxa
A Chegada
Carol
Ponto Zero
O Regresso
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Ave, César!
A Bruxa
Carol
O Roubo da Taça
MELHOR FIGURINO
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Animais Noturnos
Brooklin
Carol
A Garota Dinamarquesa
MELHOR SOM
A Chegada
O Contador
Ponto Zero
O Regresso
O Silêncio do Céu
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Canção da Metrópole” (Sinfonia da Necrópole)
“None of Them Are You” (Anomalisa)
“Simple Song #3” (A Juventude)
“Still Falling for You” (O Bebê de Bridget Jones)
“Try Everything” (Zootopia – Essa Cidade é o Bicho)
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Deadpool
Doutor Estranho
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Ave, César!
Florence: Quem é Essa Mulher?
A Garota Dinamarquesa
Adeus, 2016! (e as melhores cenas do ano)
Tem virado rotina: ao final de cada ano, encerro os trabalhos do blog dizendo que vi menos filmes do que gostaria (o que se reflete, claro, na quantidade de textos que publiquei aqui). Não foi diferente em 2016, que foi, como muitos já disseram, um período difícil para praticamente todo mundo. No entanto, se não assisti a tantos filmes quanto planejava, pelo menos estar no escuro do cinema me trouxe momentos altamente recompensadores. Poucas foram as vezes em que conferi uma quantidade tão restrita de produções, mas que me comovi tanto com a maioria delas. Gosto de acreditar que também vem um pouco da experiência: com o passar dos anos, dispensei filmes em que era fácil identificar, pelo trailer ou pelo que era repercutido do projeto, o gosto duvidoso ou a péssima qualidade das obras em questão. Tentando regular a falta de tempo com o que poderia ver de melhor, fui bastante arrebatado e tento sintetizar na lista abaixo, os momentos que mais ficaram comigo ao longo de 2016. As minhas cenas favoritas do ano estão elencadas por ordem de preferência, e espero que vocês gostem da seleção. Em 2017, quero continuar contando com a melhor companhia para curtir o cinema: vocês. Feliz ano novo e até lá!

#1 – Um sorriso na multidão (Carol)
Filmes como O Segredo de Brokeback Mountain e Azul é a Cor Mais Quente, citando obras mais célebres do universo LGBT, são sempre bem-vindos, mas também precisamos de mais experiências como a de Carol, onde o romance se sobrepõe ao drama. O filme de Todd Haynes não se exime de discutir questões importantíssimas do ponto de vista dramático, porém, o foco aqui é outro. No maravilhamento de descobrir o amor e na felicidade de finalmente realizá-lo, a história de Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara) encanta do início ao seu emblemático fim, que é o nosso momento favorito do cinema em 2016. É reconfortante, esperançoso e até mesmo de tirar o fôlego, seja por aquilo que comunica ou por sua concepção estética (como esquecer a trilha de Carter Burwell?). Impecável.

#2 – Os astronautas e a piscina (Ponto Zero)
Destaque no grupo de filmes que mexeram intimamente comigo em 2016, Ponto Zero não poderia deixar de estar presente nessa lista, tanto pelo fator emoção quanto pelo apuro técnico. Não é preciso pensar duas vezes: a cena que abre o filme – e depois se repete ao final dele com importantes complementos narrativos – impacta sensorialmente (reforço aqui meu apreço pela trilha sonora assinada por Leo Henkin) e deixa o recado: certas distâncias são dolorosas, mas somente nós podemos suportar os nossos próprios pesos e juntar forças para jogá-los ao alto. Aos olhos, esse momento de Ponto Zero é puro encantamento. Ao coração, será sempre uma forma de remontar nossos pedaços.

#3 – Clara (Sonia Braga) diz a Diego (Humberto Carrão) que só sairá morta de seu apartamento (Aquarius)
Há quem prefira a cena final (também maravilhosa), mas possivelmente não exista sequência que sintetize com tanta maestria as discussões de Aquarius do que essa em que Clara chega no limite de sua paciência com Diego e afirma categoricamente que só sairá morta de seu apartamento. No tenso encontro (conduzido de forma extremamente simples no texto e na direção, o que só amplia sua veracidade), o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filha dá um tapa de luva em muita gente, em especial nas pessoas que, como bem diz a protagonista, acham que dinheiro define caráter. Sem qualquer proselitismo, a cena mexe em muitas feridas de um Brasil contemporâneo – e, de quebra, entrega o melhor momento de Sonia Braga em toda a projeção.

#4 – “Você pediria em casamento a pessoa que eu sou hoje?” (De Onde Eu Te Vejo)
Distribuindo sensibilidade em cada uma de suas cenas, De Onde Eu Te Vejo alcança um novo patamar nos seus minutos derradeiros quando une dois momentos de forma impecável. Primeiro, a viagem de Fábio (Domingos Montagner) por lugares de São Paulo que marcaram seu relacionamento com Ana (Denise Fraga) a partir de uma carta em forma de gravação escrita por ela. Segundo, o emocionante encontro da dupla, quando, em poucas palavras, ambos reconhecem a beleza de uma história de amor e também da maturidade em reconhecer o fim dela. Tanto Denise quanto Domingos combinam perfeitamente e são fundamentais para a emoção que uma cena como essa é capaz de transmitir.

#5 – “Simple Song #3” (A Juventude)
Como conferir as duas horas de A Juventude sem criar expectativas pela execução da canção “Simple Song #3”? E não é apenas pela beleza musical de uma ópera que o momento emociona, mas principalmente porque muito da história do maestro Fred Ballinger (Michael Caine) se ilumina a partir dele. A soprana sul-corena Sumi Jo é um arraso ao interpretar a canção, ampliando de forma natural a dramaticidade de uma cena que, assim como tantas outras do longa dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, comove tanto pela emoção propriamente dita quanto pela beleza com que é capturada.

#6 – Encontro com o céu (O Quarto de Jack)
A primeira metade de O Quarto de Jack dá um baile na segunda, e é a transição entre elas que reserva o momento mais emblemático do filme. Elogiar o garotinho Jacob Tremblay é chover no molhado, mas não custa reforçar: seu trabalho aqui é coisa de gente grande (e de deixar a celebrada Brie Larson muitas vezes em segundo plano), especialmente nessa cena que, muitíssimo bem dirigida por Lenny Abrahamson, pula de uma crescente tensão para uma inegável beleza dramática em questão de segundos. Presenciar Jack (Tremblay) contemplando um céu limpíssimo com olhos de puro encantamento é de arrepiar.

#7 – “Não há nada que você possa fazer além de resistir” (Brooklin)
Carinhoso drama de forma clássica, Brooklin carrega boa parte de seu charme na ótima interpretação de Saoirse Ronan ao mesmo tempo em que a direção de John Crowley extrai elegância e delicadeza de situações que, analisadas essencialmente pelo texto, poderiam muito bem descambar para o clichê. Um reencontro da protagonista nos minutos finais da projeção comprovam essa tese. É impossível não se emocionar com o que é visto na tela, mesmo que o espectador já tenha deduzido minutos antes o que estava prestes a acontecer. A narração é sincera, o tom é sutil e a emoção surge irresistível.

#8 – “Girls Just Wanna Have Fun” (Anomalisa)
Anomalisa é uma experiência emocionalmente marcante. Com uma excepcional dublagem onde se destaca o delicado trabalho de Jennifer Jason Leigh, o filme da dupla Charlie Kaufman e Duke Johnson transforma uma divertida canção como Girls Just Wanna Have Fun em algo profundamente tocante. O momento em que a música de Cindy Lauper ganha vida sintetiza toda a maturidade e a delicadeza dessa obra que discute, com muito talento, questões íntimas que volta e meia soam até superficiais em inúmeros dramas com pessoas de carne e osso.

#9 – Mesa para dois? (Animais Noturnos)
Filme que divide opiniões, Animais Noturnos tem muitos momentos que só poderiam levar a assinatura do estilista e cineasta Tom Ford. O meu favorito, no entanto, tem menos a ver com apuro estético e mais com apuro emocional. Lindamente vestida (óbvio) para um aguardando encontro, Susan (Amy Adams) chega a um restaurante, pede uma bebida e… aguarda. Ford captura com maestria o que acontece nessa espera, e a trilha de Abel Korzeniowski só engrandece tudo o que se passa internamente com a protagonista em um momento aparentemente corriqueiro mas interminável. Um deslumbre de dramaticidade!

#10 – Almirante (Nelson Xavier) acorda (A Despedida)
São simplesmente arrebatadores os primeiros minutos de A Despedida, onde o veterano Nelson Xavier se despe (literalmente) de qualquer vaidade para mostrar a via crucis enfrentada por seu personagem para simplesmente levantar da cama, escovar os dentes e se vestir. O trabalho físico do ator é irretocável, mas também existe muito vindo de dentro para fora. Mais do que isso, a sequência de abertura impressiona pela ousadia de sua condução (são longos minutos que transcorrem sem pressa alguma) e pelo apuro dos sentidos (o trabalho de som é fantástico e fundamental para a imersão do espectador). Uma bela abertura para um grande filme.