Tempo e vento em nova forma

Foto: Jayme Monjardim

Porto Alegre, 1949. Pela primeira vez, O Continente, segmento inicial da trilogia O Tempo e o Vento, era publicado. Nas páginas do livro, a formação do Rio Grande do Sul, através das famílias Terra e Cambará. O ponto de partida está na história de Ana Terra, que, a contragosto do pai, tem um filho com o índio Pedro Missioneiro. A partir daí, seguem personagens e situações icônicas da literatura gaúcha. O cenário? Santa Fé, palco de dramas familiares, romances conturbados e conflitos históricos do Rio Grande do Sul. A obra escrita pelo gaúcho Erico Verissimo abrange a história do Estado de 1680 até 1945 (ano em que o Estado Novo chegou ao fim).

O Tempo e o Vento, estruturado em três partes (O Continente, O Retrato e O Arquipélago) é considerado, até hoje, um dos grandes marcos da literatura gaúcha. Seus sete livros são tratados por muitos como obras definitivas sobre o Estado. No entanto, foi O Continente, a parte mais rica em personagens e conflitos, que conseguiu maior reconhecimento. Em nível nacional, a primeira parte da trilogia chegou a ser adaptada para a TV: na minissérie exibida em 1985, o diretor Paulo José e os roteiristas Regina Braga e Doc Comparato condensaram o enredo em 25 capítulos, trazendo, no elenco, nomes como Glória Pires, Tarcísio Meira e Louise Cardoso.

Reprisada recentemente pelo canal Viva, O Tempo e o Vento também recebeu adaptações para o cinema que não chegaram a ser grande sucesso. Agora, a obra de Erico Verissimo volta a ter destaque. O infinito encanto da trilogia é tema do novo filme do diretor Jayme Monjardim que está sendo produzido, homônimo à obra de Erico. O próprio Monjardin, que, anteriormente, começou sua carreira no cinema com Olga, já entrou no clima gaúcho: a partir do dia 8 de março, ele se muda para o Rio Grande do Sul, de onde só sai quando as filmagens na região tiverem chegado ao fim. Apesar das cenas de estúdio serem feitas no Polo Cinematográfico de Paulínia, em São Paulo, outras tomadas serão feitas em Bagé, onde o trabalho para a escolha de figurantes já começou (mais de 600 candidatos em menos de 15 dias).

Os gaúchos, claro, não poderiam deixar de estar presentes na equipe do longa. O diretor-assistente, Federido Bonani, é de Santana de Livramento, e não esconde o contentamento com um trabalho sobre a sua terra: “Fui criado na fronteira e muito próximo dos costumes e do universo literário riograndense. Quando fui convidado pelo Jayme, há uns cinco anos, na hora pensei: ‘Não existe obra literária mais cinematográfica que O Tempo e o Vento. Depois deste filme posso pendurar as chuteiras’, pois já estaria satisfeito com as minhas participações em realizações cinematográficas”.

Bonani, que trabalha frequentemente como diretor e também como assistente, já havia participado de uma importante produção gaúcha, Netto Perde Sua Alma. Para ele, muito mudou desde esse trabalho. Além de um impulso em sua carreira, representou um voto de confiança que até hoje tem resultados: “O Tabajara Ruas e o Beto Souza confiaram em mim para a direção das cenas de batalha e, até hoje, colho os frutos daquela sequência de guerra. Há pouco tempo fui chamado para batalha do início da novela Cordel Encantado, e já dirigi cenas de guerra e cenas de ação em A Casa das Sete Mulheres, Olga, Um Só Coração, América, Eterna Magia, Sítio do Pica-pau Amarelo, entre outras”.

Mais especificamente sobre O Tempo e o Vento, o diretor-assistente acredita que a experiência será imensurável, principalmente no que se refere à equipe reunida. “Só tem gente experiente!”, exclama. Monjardin trouxe para o filme nomes como Affonso Beato, que já fez a fotografia de trabalhos internacionais como A Rainha, Tudo Sobre Minha Mãe e O Amor Nos Tempos do Cólera. O roteiro ficou a cargo de Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas, que têm a missão de capturar os 150 anos que são retratados pelo filme, basicamente centrado na primeira parte da trilogia, O Continente.

O filme, atualmente, encontra-se na conclusão de elenco e cenários para, em breve, entrar na etapa de leituras, ensaios e preparação de atores. Sem falar, claro, nas visitas às locações com o fotógrafo e sua equipe. “Muitas providências serão tomadas nas semanas que faltam”, comenta Bonani, que ainda destaca alguns desafios da produção, como a complexidade da estrutura do roteiro, a constante evolução da cidade de Santa Fé e dos personagens ao longo dos 150 anos retratados pelo longa, o trabalho com os índios e as cenas de guerra.

A diretora de arte, Tiza Oliveira, aponta que a maior responsabilidade de fazer um filme como O Tempo e o Vento é fazer algo à altura do povo gaúcho, que conhece perfeitamente sua história e que tem “um cunho patriota raro de se ver”. Para isso, Tiza está entrando de cabeça na história gaúcha, não só fazendo pesquisas baseadas em referências iconográficas de pintores da época retratada pela produção, mestrados e doutorados sobre a obra de Erico, mas também participando de encontros com grandes nomes da cultura riograndense, como Paixão Côrtes e Telmo de Lima Freitas. “A produção é trabalhosa, pois os objetos daquela época são raros, difíceis de achar, então há que produzi-los – desde baralhos, passando por jornais, rocas de fiar, carros de boi, gado e armas de época, e por aí vai”, comenta.

Tiza, assim como Bonani, já havia trabalhado com cinema anteriormente. Ela fez a direção de arte do filme Olga. O processo para O Tempo e o Vento, no entanto, é completamente oposto. Ao passo que Olga era uma produção urbana feita em locações que precisavam diferenciar Rúsia, Alemanha e Brasil, o novo filme de Jayme Monjardim exige algo diferente: marcar a passagem do tempo. “Temos construções de sets de gravação de épocas distantes, desde as Missões, em 1747, passando pelo rancho de Ana Terra, ainda no século 18, até chegarmos à cidade cenográfica de Santa Fé, cuja história dura todo o século 19”, aponta.

O Tempo e o Vento, além da equipe experiente, já conseguiu importantes nomes para o elenco. Thiago Lacerda será Capitão Rodrigo, enquanto Fernanda Montenegro dará vida à Bibiana em seus últimos anos de vida. Recentemente, Marjorie Estiano e Rafael Cardoso também foram integrados ao grupo que já reúne outros atores como Leonardo Machado, Luiz Carlos Vasconcelos e Leonardo Medeiros.

A obra de Erico Verissimo parece ser suficientemente inspiradora para que as diferenças culturais não sejam mais obstáculos. Paulista, Tiza de Oliveira reconhece toda a importância da trilogia gaúcha: “Conheço desde sempre a obra de Erico, que considero obrigatória, não só pelo valor literário, como pela história. Não há quem leia essa obra sem se sentir realmente nos pampas, acompanhando essa saga, sentindo o Minuano nos ossos e se orgulhando de seu país”.

Federico Bonani não esconde suas expectativas com o filme: “Que o filme seja lindo e bom, que o público assista ao filme e perceba que adaptamos a obra com o maior respeito, e a nossa narrativa seja fluente e traga uma boa experiência ao espectador. E o mundo conheça um pouco mais da história da nossa gente”. O Tempo e o Vento, portanto, mostra que, apesar de contar uma história tradicionalista, não se restrige à terra dos gaúchos. É, antes de mais nada, um registro histórico e humano. Que o filme consiga passar essa mesma sensação. O Tempo e o Vento tem estreia prevista para o final de 2012.

(matéria produzida originalmente para o site Cultnews).

5 comentários em “Tempo e vento em nova forma

  1. Kamila, comprei a minissérie para rever… Assisti anos atrás, mas lembro de ter adorado!

    Maria de Lourdes, também estou muito ansioso com essa refilmagem!

    Gustavo, obrigado! Torço para que vocês alcancem um grande resultado!

  2. Nossa, essa matéria é muito fiel a tudo o que está acontecendo conosco aqui em Bagé e com o que toda a equipe do filme está pensando. Parabéns!!! Estamos trabalhando muito para esse filme acontecer.

  3. Maria de Lourdes Mello da Cunha. Apelido luluca

    Tenho relido O Continente desde que minha irmã Tiza de Oliveira, produtora de arte passou a fazer parte da tribo de trabalhadores deste filme, em especial. Tenho grande admiração pelo seu trabalho que considero impecável.
    E minha expectativa sobre a excelência do trabalho aumenta quando revejo a dupla Tiza- Jayme (Olga, Maysa,), atuando juntos. São profissionais cuja competência não precisa mais ser comprovada.. Minha ansiedade agora é ver como o excelente elenco vai usar seu talento à tona para trazer à tona,personagens como, Pedro missioneiro, Maneco Terra, Henriqueta Terra, a estupenda Ana Terra, Bibiana, e tantos outros.
    Parabéns à equipe e boa sorte para todos!

  4. Eu assisti “O Tempo e o Vento” quando a minissérie passou na Rede Globo. Eu era criança nessa época e não compreendia a complexidade que era adaptar uma obra tão densa, extensa e rica. Com certeza, esse é o maior desafio dessa equipe que irá participar da adaptação do livro do Érico Veríssimo. Ainda mais para vocês, gaúchos, já que a história retratada na obra fala tanto sobre vocês e sua história.

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