Cinema e Argumento

49º Festival de Cinema de Gramado #6: “Carro Rei”, de Renata Pinheiro

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Com desempenho visceral, Matheus Nachtergaele é, em Carro Rei, a representação do que existe de melhor nesta fábula singular e provocadora sobre o caos do Brasil.

Confesso que nunca entendi muito bem a aversão de grande parte do público por filmes divisivos, polêmicos e que se situam bem fora da curva. Deve ser porque prefiro amar ou odiar ao extremo uma experiência cinematográfica do que ficar indiferente a ela. Filmes mornos não me interessam, e é por isso mesmo que defendo amplamente Carro Rei, um dos trabalhos mais inusitados e singulares do cinema brasileiro recente. Aturdido, terminei a sessão sem saber muito bem o que achei do filme, inclusive porque muitas referências e leituras me escaparam ao longo da projeção, mas, aos poucos, tudo foi crescendo comigo e logo constatei o porquê: em seu quarto trabalho como diretora de longas, Renata Pinheiro chuta o balde com gosto, sem se preocupar com classificações, expectativas ou pré-conceitos, entregando um trabalho que ressoa e se enriquece muito após a sessão. Tamanha falta de amarras com o convencional e com tudo de mais padronizado que aí está deve ser sempre motivo de celebração.

Do delírio ao techno-extravagante, para citar algumas das definições usadas por público e crítica em exibições internacionais e agora no 49º Festival de Cinema de Gramado, Carro Rei é um caldeirão de infinitas referências e gêneros. Há uma certa fábula em seus primeiros minutos (alguns dos personagens se chamam Uno, Zé Macaco ou Amora, fazendo referência a vários símbolos da trama). Gradativamente, ela abre espaço para alegorias de todos os tipos, além de ter um atmosfera muito presente de aventura e ficção científica. Ao fim, me pareceu mais um filme de terror. Nesta história sobre um menino que descobre ter o poder de se comunicar com carros, a crítica pode se esbaldar em seu hábito (vício?) de fazer associações temáticas com outras obras. As mais citadas até aqui são Christine, o Carro Assassino, de 1983, ou Crash – Estranhos Prazeres, dirigido por David Cronenberg em 1996. No meu caso, faço o diálogo com Holy Motors, aquela deliciosa alucinação de Leos Carax protagonizada por um impressionante Denis Lavant.

À parte as conexões cinematográficas, talvez o lado mais potente de Carro Rei seja aquele em que podemos enxergar todo o caos que o Brasil vem vivendo nos últimos anos, mas não com discursos prontos ou referências óbvias, como aconteceu, por exemplo, em Jesus Kid, outro filme em competição no Festival de Cinema de Gramado de 2021. Mesmo sequências um tanto explícitas, a exemplo daquela em que jovens de uniforme começam a se movimentar como robôs enquanto toca o hino nacional, são potentes por tudo o que significam. Considerando essa em específico, faço coro ao que Renata Pinheiro disse em uma bela entrevista ao portal Mulher no Cinema: por retratar uma juventude que começa a se robotizar e a ser instrumento do sistema ao som dos falsos ideários que tomaram conta da bandeira e do hino nacional, tudo se torna, de certa forma, inesperadamente triste.

Neste conto sobre o caos, conforme define a própria diretora, encontramos elementos que podem muito refletir a identidade brasileira, mas no sentido crítico. Além do fetiche louco por carros que costuma ser o modo com que homens provam seus altos níveis de testosterona, é estimulante ver a reflexão em cima do personagem Zé Macaco vivido por Matheus Nachtergaele em desempenho visceral e de notável harmonia entre um impressionante trabalho físico e o domínio das camadas emocionais de um personagem suscetível a caricaturas. Ele é a perfeita representação dessa população oprimida que, quando vê a oportunidade de deter certo poder e relevância, acaba justamente se tornando o opressor e um símbolo de perigo.  Também coloque na conta o renascimento de ideias totalitárias no Brasil contemporâneo e aquele que é o processo mais amedrontador de Carro Rei e que, em linhas gerais, termina por ser o fio condutor de todo o longa: a forma com que as máquinas evoluem na mesma medida em que os homens involuem ao acharem que estão conquistando o mundo ao aperfeiçoá-las.

Naturalmente, por tentar agrupar uma infinidade de leituras através de diversos gêneros e referências, Renata Pinheiro corre o risco de não alcançar a devida profundidade em certas discussões ou até mesmo de perder a mão frente a tantas ideias. E Carro Rei é mesmo um longa-metragem imperfeito, acertando em algumas reflexões (as citadas até aqui) e errando em outras (a mensagem ecológica previsível, a sensação de não captar tudo no ritmo propositalmente caótico), enquanto também tem suas limitações em outros aspectos, como no próprio elenco, que se engrandece mais pelo desempenho de Nachtergaele do que pelo conjunto de atores. Só que é difícil se ater a esses pormenores quando Renata emoldura o projeto com um trabalho técnico refinadíssimo, onde a trilha de DJ Dolores e o desenho de som assinado por Guile Martins se destacam por uma sinfonia imersiva que carrega o espectador ao longo do filme. Não se trata de uma experiência fácil. Será amada e odiada nas mesmas proporções. Terá suas variações entre o gosto particular de cada um. E sem dúvida oscilará entre o “genial” e o “ridículo” com o público. Uma coisa, no entanto, é certa: com Carro Rei, mais uma vez podemos afirmar que hoje o cinema brasileiro se renova e se reinventa graças ao talento potente dos pernambucanos.

49º Festival de Cinema de Gramado #5: “O Novelo”, de Claudia Pinheiro

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Com elenco em estado de graça, O Novelo é um belo retrato familiar sobre abandono paterno e sobre a forma com que as pessoas lidam com um mesmo peso de diferentes modos.

Costumo dizer que, para mim, os filmes mais fascinantes são aqueles sobre pessoas comuns, rotinas identificáveis e sentimentos que, de uma forma ou de outra, marcam a nossa existência. Encontrar delicadeza e grandiosidade neste “gênero” é mais difícil do que se imagina e, por isso mesmo, filmes como O Novelo são tão especiais. Baseado no espetáculo homônimo lançado em 2010, o longa de Claudia Pinheiro convoca Nanna de Castro, autora do texto original, para também assinar o roteiro da versão cinematográfica. A dificuldade que muitos encontram de transpor seu próprio texto para o cinema, especialmente no que se refere à busca pelo ritmo e o estilo cinematográfico, não é um problema para Nanna. E para Claudia também não. Juntas, elas preservam traços da natureza teatral de O Novelo ao mesmo tempo em que conferem uma forma cinematográfica onde o afeto, a verossimilhança e a conexão com os personagens emolduram o resultado final.

O ponto de partida adotado por O Novelo já mostra o compromisso dos envolvidos em buscar a humanidade, o diferente e o lado simples das coisas. Em foco, estão cinco irmãos negros que, nunca marginalizados ou estereotipados, carregam um mesmo peso: o abandono do pai durante a infância. Já adultos, cada um seguiu seu rumo e lidou com a ausência paterna de maneiras diferentes, até o dia em que são confrontados com a notícia de que um homem hospitalizado pode ser o pai que eles nunca mais viram. O olhar feminino na direção e no roteiro confere a esse conflito uma delicadeza ímpar: do convívio entre os irmãos até a ideia de um possível acerto de contas com o pai, Cláudia e Nanna lançam um olhar questionador para a questão da masculinidade, mostrando-a por meio de diferentes prismas. Aqui, os homens choram, são inseguros, enfrentam problemas, carregam mágoas, lutam contra vícios e até mesmo têm sua heterossexualidade questionada sem que isso seja o fim do mundo. E por que não haveria de ser assim, já que são exemplos que, dadas as proporções e circunstância, realmente acontecem no íntimo de cada homem ao longo da vida?

Ainda no plano da desconstrução, é muito bonito como O Novelo ressignifica as narrativas negras ao colocar os personagens não em posição de vulnerabilidade social ou algo do gênero. As perspectivas viciadas e os estereótipos tão comuns, principalmente no que tange produções dirigidas por cineastas brancos que acreditam entender as dimensões da negritude, são recusadas pelo filme, que se concentra nas dinâmicas familiares sem que a raça carregue pré-conceitos. Isso é muito bonito porque O Novelo, apesar de ecoar os efeitos do abandono paterno, se debruça nas personalidades de cada um dos personagens e no momento em que eles se veem obrigados a encarar o passado e a compartilhar entre si o modo com que lidam com ele. Em complemento, é acertadíssima a estrutura de adotar um recorte específico para a trama, o que contribui diretamente para a construção da dinâmica dos personagens. Por acompanhá-los em um espaço de tempo específico, vamos pouco a pouco descobrindo suas identidades em cada detalhe do cotidiano, tornando nosso entendimento em relação a elas muito mais humano, orgânico e crível.

Por mais que, de início, seja complicado se situar entre tantos personagens e também entre as idades e vindas que o filme dá com eles — algumas muito bem sucedidas em função da nostalgia e da presença sempre marcante de Isabél Zuaa, outros nem tanto pela redundância —, é questão de tempo para estarmos familiarizados com todos. Além dos méritos de Claudia e Nanna, é fundamental reconhecer ainda o grande trabalho do elenco, onde cada ator, sem exceção, está muito bem em cena. A generosidade é tocante: jamais um tenta se sobressair mais do que o outro, por mais interessantes que determinados personagens possam ser, e isso endossa a generosidade ímpar de O Novelo e sua unidade dramatúrgica admirável. E como se não bastasse ser um pequeno grande filme, o roteiro também reserva uma excelente reflexão para o final — e que talvez até merecesse mais espaço no roteiro. Afinal quais são as ilusões que precisamos vender ou comprar para seguir em frente? Mentiras sinceras interessam? É um arremate interessantíssimo para um relato que, até ali, já era rico por si só ao ser tão prismático na costura feita de personagens múltiplos e circunscritos em um mesmo drama.

49º Festival de Cinema de Gramado #4: “Homem Onça”, de Vinícius Reis

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Desempenho de Chico Díaz é destaque de Homem Onça, filme sobre a era das privatizações.

Homem Onça faz a sua primeira exibição em um momento muito propício. Ainda que ambientado no final dos anos 1990, o filme de Vinícius Reis mostra um Brasil facilmente identificável em 2021: esse que adora a ideia de privatizações e que joga para o ralo o valor da carreira, da camaradagem e de incontáveis carreiras dedicadas ao progresso de um país. Quando o lucro de grandes corporações está acima de qualquer coisa, principalmente quando almejado por autoridades engravatadas dos Estados Unidos, muito se perde e pessoas se corrompem, acarretando profundas mudanças nos aspectos sociais e políticos de um país. O fato de o Brasil discutir, em pleno 2021, a privatização dos Correios, por exemplo, reacende a triste constatação de que pouco mudou e de que vivemos em um país cuja filmografia já lançou luz sobre muitos de seus aspectos político-sociais, mas que talvez nunca tenha olhado de maneira tão específica para os dilemas das privatizações como em Homem Onça.

A ideia do projeto partiu de uma experiência muito pessoal do diretor Vinícius Reis, uma vez que seu próprio pai, funcionário da Vale do Rio Doce à época da privatização da mesma, precisou reconstruir a vida após anos dedicados à estatal. A onça que é referenciada no título do filme também é uma lembrança de seu pai e que, na versão cinematográfica, foi traduzida como uma metáfora dessa transformação. Vinícius, no entanto, não faz um filme biográfico, e sim uma ficcionalização de fatos e lembranças que lhe são muito próximas, conferindo a Homem Onça um retrato íntimo desse protagonista tão brasileiro e interpretado com a excelência habitual do grande Chico Díaz. Em suma, estamos diante de um protagonista que se move a partir de estímulos externos e desconhecidos para ele próprio até então, o que o coloca em situações tanto extremamente desconfortáveis, como aquela em que é acusado de não ter lutado pela permanência de uma pessoa de sua equipe, quanto de certa libertação, a exemplo das noitadas regadas a incontáveis garrafas de vinho e cantorias após o seu desligamento.

Por querer fazer um paralelo entre a vida do protagonista antes e depois das privatização, Homem Onça estrutura a trama a partir de duas linhas temporais que correm paralelamente ao longo do filme. Não acho que seja uma escolha das mais acertadas, principalmente no que se refere à parte em que o Pedro de Chico Díaz, ainda trabalhando na fictícia Gás do Brasil, começa a perceber o movimento gradual do processo de privatização da empresa. A dedicação em dar tanta atenção a esse recorte específico enfraquece o resultado por dois motivos. Primeiro é por de levar tanto tempo — praticamente uma hora, arrisco dizer — para tomar rumos muito claros desde o início e desenhados sem surpresas pelo roteiro também escrito por Vinícius Reis. E o segundo é por preterir maiores reflexões de natureza histórica-sociológica, abandonando, por sinal, a força das imagens reais de protestos contra as privatizações que abrem o filme. Um engajamento mais complexo e menos dramatizado dos fatos talvez pudesse minimizar um pouco a impressão novelesca que fica da parcela dedicada a todo o processo de desligamento profissional do protagonista.

Além de trazer um descompasso de ritmo e interesse a Homem Onça, a divisão em duas linhas temporais também não deixa de truncar a nossa conexão com as transformações internas do personagem vivido por Chico Díaz. As cenas em que ele contracena com a ótima Bianca Byington são luminosas porque nelas percebemos um novo homem imergindo em suas angústias e êxtases. Aprendendo (ou não) a lidar com o vazio trazido pela sensação de ter vivido uma vida de certa forma desperdiçada, Pedro gradativamente se entrelaça, do ponto de vista metafórico, com a onça que habita as redondezas de sua casa no meio do mato. Mais do que associá-lo ao animal, a doença que também passa a acometer o protagonista pode ser interpretada de modo similar ao que vimos em Mormaço: mesmo que seja essencialmente física, ela expressa uma série de conflitos emocionais transferidos para sinais do próprio corpo, como se Pedro não pudesse esconder o que passa dentro de si. É exatamente esse o tipo de discussão que me interessa em Homem Onça e que, em grande parte, está traduzida menos no filme como um todo e mais no excelente desempenho de Chico Díaz, um ator de imenso repertório.

49º Festival de Cinema de Gramado #1: apresentação dos filmes concorrentes

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Roger Lerina e Marla Martins foram os responsáveis pela apresentação da coletiva que anunciou as novidades do evento. Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto.

Uma definição clássica acerca do Festival de Cinema de Gramado é a de que ele simboliza uma histórica resistência, seja ela da cidade, do evento e do cinema brasileiro. Às vésperas de completar 50 anos, o Festival mais uma vez não deixa de acontecer, mesmo em um ano que segue enfrentando a pandemia do Coronavírus. Para tanto, a acertada estratégia de ter suas mostras competitivas em formato híbrido (Canal Brasil e streaming) é repetida, levando produções tradicionalmente circunscritas apenas ao Palácio dos Festivais para todos os cantos do país. O único porém envolvendo essa decisão é que as exibições foram movidas para às 21h30, o que levará os espectadores para perto da madrugada.

Ainda que semelhante à edição do ano passado, há de se notar que o Festival de Cinema de Gramado apresenta uma edição mais comedida, com a mostra competitiva de longas estrangeiros reduzida a quatro títulos e a de longas-metragens gaúchos sintetizada em três títulos. O segundo caso carrega certa dúvida: em um ano em que a organização divulgou o recorde de inscrições na categoria (24 títulos ao todo), só teríamos três títulos à altura de serem selecionados? Na linha dos filmes selecionados, estranho a escolha de Fourth Grade, de Marcelo Galvão, como filme de encerramento. OK, o diretor é brasileiro e se trata de uma refilmagem de um longa brasileiro do próprio Galvão, mas encerrar um festival brasileiro e latino com um filme produzido nos Estados Unidos e falado em inglês? Soa estranho.

Outro atrativo, especialmente midiático do evento, foi configurado de modo diferente. Tradicionalmente dividida em quatro troféus, as homenagens desse ano estarão representadas em uma só, celebrando todos os profissionais do cinema à frente ou atrás das telas que tiveram a missão de resistir e se reinventar em um momento tão delicado para o segmento. Se o evento não terá o glamour e o apelo de seus tradicionais homenageados, certamente o faz por uma belíssima e importante causa, principalmente quando nos encontramos diante de um governo que tanto vilipendia a categoria.

Chegando aos filmes propriamente ditos, destaque absoluto para a mostra de longas-metragens brasileiros, talvez pela primeira vez em dez anos sem cinebiografias, documentários musicais ou títulos mais “comerciais”, se pudermos dizer assim. Não há nada de errado com o comercial, mas é interessante estarmos diante de uma lista que nos instiga a desbravar cada um dos títulos, investigando a carreira dos envolvidos e criando expectativas pelas sinopses de projetos que novamente são inéditos em território nacional. Minha curiosidades específicas ficam com A Primeira Morte de Joana, com enredo muito interessante, e Homem Onça, que, desde já fazendo um palpite às escuras, deve render o Kikito de melhor ator ao grande Chico Díaz.

Reservo a conclusão dessa breve análise para dar uma palavrinha para a mostra de curtas-metragens brasileiros, sempre uma das mais instigantes do Festival por revelar novos talentos e já dar palco para os realizadores de longas-metragens de amanhã. Neste ano, tive o prazer e a imensa responsabilidade de assinar a seleção dos curtas, ao lado de Jaqueline Beltrame, Milena Moura e Thaís Cabral. Foram mais de 500 filmes inscritos, e tivemos que chegar a uma lista com 14. Trabalho árduo e que, a partir do nosso olhar, acabou por representar uma mostra onde o Brasil se (re)conhecerá em muitas de suas facetas. Mas discutiremos esse assunto logo mais em detalhes, antes da realização do próprio evento, que acontece entre os dias 13 e 21 de agosto.

Confira abaixo a lista de filmes selecionados:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Álbum em Família (RJ), de Daniel Belmonte
Carro Rei (PE), de Renata Pinheiro
Homem Onça (RJ), de Vinícius Reis
Jesus Kid (PR), de Aly Muritiba
O Novelo (SP), de Claudia Pinheiro
A Primeira Morte de Joana (RS), de Cristiane Oliveira
A Suspeita (RJ), de Pedro Peregrino

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Gran Avenida (Chile), de Moises Sepulveda
La Teoría de los Vidrios Rotos (Uruguai/Brasil/Argentina), de Diego Fernández Pujol
Planta Permanente (Argentina/Uruguai),de Ezequiel Radusky
Pseudo (Bolívia), de Gory Patiño e Luis Reneo

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
A Colmeia (Porto Alegre), de Gilson Vargas

Cavalo de Santo (Porto Alegre), de Mirian Fichtner e Carlos Caramez
Extermínio (Cachoeira do Sul), de Mirela Kruel

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
A Beleza de Rose (CE), de Natal Portela

A Fome de Lázaro (PB), de Diego Benevides
Animais na Pista (PB), de Otto Cabral
Aonde Vão os Pés (PR), de Débora Zanatta
Da Janela Vejo o Mundo (PR), de Ana Catarina Lugarini
Desvirtude (RS), de Gautier Lee
Entre Nós e o Mundo (SP), de Fabio Rodrigo
Eu Não Sou Um Robô (RS), de Gabriela Lamas
Fotos Privadas (RJ), de Marcelo Grabowsky
Memória de Quem (Não) Fui (RJ), de Thiago Kistenmacker
O Que Há em Ti (SP), de Carlos Adriano
Per Capita (PE), de Lia Leticia
Quanto Pesa (MA),de Breno Nina
Stone Heart (AM), de Humberto Rodrigues

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Brecha
(Pelotas), de Helena Thofehrn Lessa
Cacicus (Santa Cruz do Sul), de Bruno Cabral e Gabriela Dullius
Comboio Pra Lua (Pelotas), de Rebeca Francoff
Depois da Meia-Noite (Caxias do Sul), de Mirela Kruel
Desvirtude (Porto Alegre), de Gautier Lee
Um Dia de Primavera (Porto Alegre), de Lisi Kieling
Era Uma Vez… Uma Princesa (Porto Alegre), de Lisiane Cohen
Eu Não Sou Um Robô (Porto Alegre), de Gabriela Lamas
(Porto Alegre), de Thais Fernandes
Hora Feliz (Porto Alegre), de Alex Sernambi
Isso Me Faz Pensar (Porto Alegre), de Hopi Chapman
Jardim das Horas (Porto Alegre), de Matheus Piccoli
Love do Amor (Restinga Sêca), de Fabrício Koltermann
Não Sou Eu (Porto Alegre), de Theo Tajes
Nave Mãe (Sapucaia do Sul), de Gisa Galaverna e Wagner Costa
Nilson, Filho do Campeão (Santa Cruz do Sul), de Diego Tafarel
Noite Macabra (Canoas), de Felipe Iesbick
Para Colorir (Porto Alegre), de Juliana Costa
Rota (São Leopoldo), de Mariani Ferreira
Rufus (São Leopoldo), de Eduardo Reis
Solilóquio (Porto Alegre), de Marcelo Stifelman
Tom (Porto Alegre), de Felippe Steffens
Tormenta (Porto Alegre), de Emiliano Cunha e Vado Vergara
Trem do Tempo (Pelotas), de Vitor Rezende Mendonça

48º Festival de Cinema de Gramado #5: um balanço geral das mostras competitivas

 

27 filmes concorreram ao Kikito em 2020. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O Festival de Cinema de Gramado foi o primeiro grande evento do gênero a não se contentar somente com exibições virtuais e a transferir toda a sua programação presencial para um formato inteiramente novo. A decisão de exibir os filmes em plataformas online sempre foi uma excelente tática dos festivais como um todo desde que a pandemia impossibilitou eventos presenciais, mas Gramado foi além: não só disponibilizou parte da programação no streaming do Canal Brasil como colocou as mostras competitivas de longas e curtas-metragens, bem como as suas tradicionais homenagens, diretamente no horário nobre da emissora com transmissão pela TV para todo o Brasil. Sendo assim, Gramado, antes um evento restrito ao Palácio dos Festivais na Serra Gaúcha, tornou-se possível para qualquer pessoa que tivesse assinatura do pacote básico de uma TV por assinatura. O acerto pôde ser constatado nas redes sociais: do Twitter ao Letterboxd, cinéfilos de diferentes pontos do Brasil acompanhavam a programação e opinavam sobre os filmes exibidos diariamente. Ponto para o Festival.

No entanto, já tendo trabalhado nos bastidores do evento e conhecendo as dinâmicas que envolvem a submissão de filmes para uma possível seleção, deduzo que muitos títulos devem ter pulado fora do barco quando Gramado anunciou, após o período de inscrições, que as mostras competitivas seriam exibidas pela TV. E aí não é uma questão de conservadorismo ou preciosismo: disponibilizar um filme para a TV, ainda que em exibição única, não deixa de ser uma maneira de queimar futuras janelas de exibição e até mesmo de correr o grande risco de que os filmes sejam pirateados, distribuídos na internet ilegalmente ou algo semelhante. Há de se entender quem possivelmente optou por dispensar Gramado, mas também é preciso admirar quem apostou no evento em um ano tão complicado e incerto, colocando suas fichas no prestígio que o festival gaúcho acumulou em 48 anos de trajetória e também na proposta de, através da parceria com o Canal Brasil, ter um público muito mais amplo, plural e talvez nunca antes alcançado nessas circunstâncias.

Em tese, a complexa equação foi bem resolvida, já que Gramado conseguiu reunir títulos aguardados, como Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, que havia sido exibido no início deste ano no Festival de Berlim, e os novos trabalhos de diretores como Felipe Bragança (Um Animal Amarelo), Ruy Guerra (Aos Pedaços) e Camilo Cavalcante (King Kong en Asunción). Contudo, o assunto foi diferente na prática, e só o tempo dirá se a safra não colaborou, se a nova curadoria formada por Marcos Santuario, Pedro Bial e Soledad Villamil foi vítima das circunstâncias já citadas e dos tempos exceções que vivemos ou se de fato o Festival realmente errou nessa nova composição de curadores, visto que, mesmo Bial e Soledad tendo um filme aqui e outro ali no currículo, ambos são reconhecidos primordialmente por atividades em outras áreas profissionais, como o jornalismo e a música. Para um evento de cinema que, em suas últimas edições, chegou a ter o ator José Wilker, o crítico Rubens Ewald Filho e a produtora argentina Eva Piwowarski na curadoria, eis um ponto a ser debatido.

Levanto tal questionamento pois a competição do 48º Festival de Cinema de Gramado foi a mais fraca em, pelo menos, dez anos, tempo em que passei a acompanhar religiosamente a programação do evento. E a irregularidade não ficou restrita aos longas, uma vez que os próprios curtas-metragens, escolhidos por uma comissão à parte, também pouco entusiasmaram. Por fim, para dimensionar melhor as razões que me levam a ter encerrado a 48ª edição do evento com frustração, faço abaixo um balanço mais amplo das mostras.

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Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

A competição de longas-metragens brasileiros abriu com Por Que Você Não Chora?, trabalho da diretora Cibele Amaral que coloca em pauta o delicado tema do suicídio, alertando para o fato de que, a cada 40 minutos, uma pessoa tira a sua própria vida no Brasil. Cibele traz para o projeto toda a sua experiência como psicóloga e estagiária do Instituto de Saúde Mental do Distrito Federal, deixando muito clara a sua assumida vontade de versar sobre o assunto. Acontece que, como diretora e roteirista deste projeto tão pessoal, ela é muito mais didática do que cinematográfica, o que se reflete em problemas básicos, como a presença de personagens que só estão em cena para contextualizar o espectador em conceitos e padrões da psicologia a partir de diálogos expositivos, quando não artificiais. Ou seja, Por Que Você Não Chora? é um filme bastante informativo e feito sob medida para ser usado em sessões temáticas seguidas de debate, mas de pouquíssima consistência quando se elimina a relevância das discussões propostas para se avaliar o filme como um todo.

Ainda na linha de longas que priorizam seus objetos de estudo em detrimento do protagonismo de uma linguagem cinematográfica, foram exibidos dois documentários sobre figuras musicais na competição: O Samba é Primo do Jazz, que tem como figura central a cantora Alcione, e Me Chama Que Eu Vou, sobre a vida e a obra do cantor Sidney Magal. Ambos são televisivos no sentido negativo dessa comparação (Angela Zoé, diretora de O Samba é Primo do Jazz, chegou a comentar no debate sobre o filme de que, inclusive, foi inicialmente convidada a fazer um especial para a TV, e somente depois surgiu a ideia de fazer um longa-metragem), mas com uma diferença crucial entre eles: a entrega entre cada um dos seus personagens. Enquanto Sidney Magal abre até o seu guarda-roupa para o público e ressignifica seus próprios fracassos em Me Chama Que Eu Vou, Alcione parece tomar certa distância de O Samba é Primo do Jazz, dando depoimentos eventualmente divertidos, ainda que reservados entre um ensaio ou outro, deixando inclusive lacunas como a de sua intocável afetiva (em nenhum momento sabemos se ela sequer namorou, casou ou teve alguma grande paixão). Esse distanciamento facilita o veredito: pelo carisma e pela entrega, sou muito mais Magal. De qualquer forma, ambos não são filmes com a estatura e relevância dignas de um grande festival de cinema.

E param por aí a formalidade, a panfletagem ou as convencionalidades da seleção de longas brasileiros do 48º Festival Cinema de Gramado, pois demais títulos exibidos se arriscam muito mais na forma e nas discussões. O meu favorito é Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança, que venceu o júri da crítica, do qual fiz parte, por unanimidade. Espécie de fábula tragicômica e ambiciosa rapsódia sobre ruínas do nosso passado e heranças coloniais indigestas, o filme acompanha a jornada de um cineasta brasileiro falido de 33 anos em busca do passado violento de seu avô. Bragança, que nega qualquer teor autobiográfico, é preciso ao entender seu lugar de fala: aqui, o homem branco e heterossexual não é vangloriado, mas sim até mesmo ridicularizado em suas fraquezas e visões de mundo. A mistura de gêneros também é muito bem harmonizada para que o diretor construa uma estrutura caleidoscópica, tendo como base importantes críticas sociais e históricas sobre como nossas colonizações ainda definem as organizações identitárias e afetivas de toda uma geração. Além disso, a narração de Isabél Zuaa, ainda que por vezes excessiva, ajuda a ampliar as percepções sobre um protagonista que carrega memórias sem saber ao certo como organizá-las. É um trabalho com estilo de superprodução e que dá conta de suas ambições.

Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, conversa diretamente com Um Animal Amarelo ao materializar os fantasmas da herança escravocrata. Ao mesmo tempo em que desenha a origem da mentalidade reacionária moderna, o filme quebra estereótipos e preconceitos na construção de seu discurso, reafirmando uma característica muito própria do cinema de Marco e Caetano: em Todos os Mortos, a branquitude, por exemplo, é vista como uma elite falida e que se vê completamente perdida sem os negros, enquanto estes estes passam a reivindicar algum tipo de voz, independência e identidade (a trama se passa na São Paulo de 1899, poucos anos depois da abolição da escravatura). O olhar diferenciado dos diretores continua na ideia do longa ser essencialmente centrado em figuras femininas, sem que necessariamente haja protagonistas bem definidas em um verdadeiro filme-elenco. O cuidado minimalista da excelente trilha sonora assinada por Salloma Salomão também fala muito sobre a preservação da identidade negra, solidificando as escolhas sofisticadas de Todos os Mortos. Contudo, falta ao resultado um ritmo mais digerível, sem essa sensação de que tudo é prolongado demais, o que não deixa de ser consequência de uma narrativa tão fragmentada entre uma quantidade considerável de personagens, alguns mais interessantes e complexos do que outros. 

Na linha tênue entre o inventivo e o hermético, o veterano Ruy Guerra apresentou Aos Pedaços, onde o protagonista Eurico (Emilio de Mello) recebe um bilhete anunciando a sua morte e começa a embaralhar internamente espaços, personagens, paixões extremas, ódios, amores e suspeitas em na tentativa de compreender quem poderia ter lhe enviado a fatídica mensagem. É inegável o impacto técnico da obra, com destaque para belíssima fotografia em preto e branco assinada por Pablo Baião que faz poderosos contrastes entre luz e sombra evocando traços de clássicos noir, mas o texto excessivamente teatral e a escolha por rodar o filme em espaços limitadíssimos fazem de Aos Pedaços uma experiência erudita demais, esvaziando a interessante proposta de ser um drama de paranoia kafkiano com toques de horror existencialista onde amor e morte são faces da mesma moeda. O clima, que começa funcionando, termina dissipado em um longa que anda em círculos e que parece apenas interessado em elaborar monólogos e mais monólogos com frases bonitas jogadas ao ar. Foi certamente uma das sessões mais difíceis do evento.

E o que dizer do grande vencedor da competição, King Kong en Asunción, último filme a ser exibido na programação? O que imediatamente me vem à cabeça ao pensar nele é o grande desempenho de Andrade Júnior, falecido em maio de 2019 e que sequer chegou o projeto finalizado. Não tenho dúvidas de que o filme é todo dele: delicado e profundo, Andrade carrega no corpo e na alma as melancólicas nuances de um matador de aluguel que, já na terceira idade, realiza seu último trabalho e parte em busca da filha que nunca conheceu. É curioso, entretanto, como essa mesma melancolia não chega a ter a mesma potência no filme como um todo, que é reiterativo nas longas caminhadas feitas pelo protagonista em sua viagem e nos inúmeros silêncios que costumam ser interrompidos apenas pela peculiar narração em Guaraní que busca dar mais camadas ao protagonista. Há sequências muito belas, como a que abre o filme ou aquela com o choro frente ao espelho, onde King Kong en Asunción entrega seus melhores momentos. Entretanto, não é o bastante para disfarçar conhecida sensação de que a história, tão esticada aqui, poderia render, na verdade, um belíssimo curta-metragem.

El Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

Não é de hoje que a mostra estrangeira do Festival de Cinema de Gramado vem perdendo a sua expressividade e relevância. Na última década, aliás, talvez somente As Herdeiras tenha sido o trabalho verdadeiramente marcante exibido na Serra Gaúcha, o que é uma constatação frustrante quando lembramos que, desde a sua criação nos anos 1990, a mostra já premiou nomes como Pedro Almodóvar, Javier Bardem, Alberto Iglesias, Marisa Paredes e exibiu títulos como O Banheiro do PapaO Filho da Noiva e Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Pois a nova curadoria não dá sinais de mudar esse cenário: em 2020, os títulos estrangeiros de Gramado foram menos irregulares do que os brasileiros, mas novamente ficaram distantes de deixar alguma grande lembrança para a posteridade. O que segue valendo mesmo é a possibilidade de navegar pela cinematografia de diferentes lugares. Nesse casos, de seis países contemplados na competição: Argentina, Chile, Colômbia, México, Paraguai e Uruguai.

Começo falando sobre aquele que mais me instigou: o documentário uruguaio El Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles, premiado como melhor filme pelo júri popular e pelo júri da crítica. Viñoles usa o tempo documental com sabedoria neste relato sobre a adaptação de duas famílias sírias que, tendo deixado suas terras e tradições para trás, começam uma nova vida no Uruguai. É com calma e com o mínimo de interferência que ela registra a desconstrução de um sonho: ao chegar no Uruguai, as famílias se deparam não com o país idealizado que tinham em mente, mas sim com uma realidade de pouca assistência e com prazo de validade para amparos sociais e financeiros. Sem papas na língua, os sírios se mostram frustrados e indignados com o país governado à época por Pepe Mujica, trazendo reflexões e críticas muito pertinentes para o endeusamento que, inclusive nós brasileiros, costumamos fazer, para o bem e para o mal, de figuras e regimes políticos de nosso país e também de países vizinhos. Contemporâneo e multifacetado, El Gran Viaje al País Pequeño instiga ao entregar a voz para personagens que reagem com pensamentos distintos e inclusive polêmicos frente à situação, fazendo desse um documentário que não prefere o calorzinho do conforto.

Na relação entre dois países também se desenvolve o colombiano La Frontera. Dessa vez, mais especificamente, em um certo limbo da fronteira entre Colômbia e Venezuela, onde uma jovem indígena vive com seu marido e seu irmão, roubando viajantes que seguem por trilhas, até o destino transformar as condições de sobrevivência dessa personagem. O diretor David David faz, em La Frontera, uma bonita homenagem à resiliência feminina, munido de uma protagonista que já enfrenta tragédias, abandonos e desamparos desde muito cedo. Ao contrário do que se pode imaginar, não é um filme necessariamente político, e sim mais humano, focado na luta diária e silenciosa de uma mulher para sobreviver em um cenário de completa miséria. E nada é apelativo ou exagerado, pois David David escolhe acompanhar a protagonista quase em tom documental, deixando para que as próprias paisagens e precaridades de uma paupérrima moradia falem por si só. Da metade em diante, o longa também surpreende com a entrada de outra figura feminina, muito oposta à protagonista, mas equivalente em solidariedade e companheirismo para vencer as mazelas de um cotidiano tão duro. O júri oficial de Gramado considerou La Frontera o melhor longa-metragem estrangeiro deste ano, e o prêmio ficou em boas mãos.

Para completar a trilogia dos filmes que considerei os melhores da mostra latina de 2020, cito o chileno Los Fuertes, de Omar Zúñiga. No centro da história, temos uma paixão entre Lucas (Samuel González), que viaja para visitar sua irmã em uma cidade remota no sul do Chile, e Antonio (Antonio Altamirano), um contramestre de um barco de pesca local. Não se trata de um grande filme, muito menos de um muito inventivo, o que não tira o mérito da sobriedade e da delicadeza impressas por Omar Zúñiga na direção e no roteiro. Mesmo que o entorno dos personagens traga certas adversidades e que tenhamos novamente personagens gays enfrentando a impossibilidade de um amor minado pelas distâncias impostas pela vida, Los Fuertes não trata tudo isso com desespero ou melodrama. Zúñiga prefere, na realidade, se debruçar sobre o tempo em que esses personagens vivem juntos e sobre a construção de afeto que se dá entre eles, conferindo doses extras de realismo na bonita entrega dos atores, ambos despidos de vaidades ou cerimônias para dar vida ao carinho e ao sexo de dois personagens gays sem qualquer distanciamento.

Completaram a seleção de estrangeiros: o argentino El Silencio del Cazador, o mexicano Dias de Invierno e o paraguaio Matar a un Merto. Para fins comparativos, são longas bastante inferiores quando colocados lado a lado com os outros citados até aqui. El Silencio del Cazador até tem bons ideias ao explorar a perigosa rivalidade entre dois homens de personalidades opostas, mas cede a um desenrolar muito convencional, com escolhas e reviravoltas esperadas para os conflitos apresentados. Já Dias de Invierno é o oposto de Los Fuertes: ao invés de ser um mérito, seu intimismo leva o filme para a inexpressividade, onde os dramas familiares são todos mornos e com pouco a revelar sobre personagens defendidos por um elenco irregular. Enquanto isso, o paraguaio Matar un Muerto segue a linha de um certo marasmo, ainda que conte a seu favor a direção climática de Hugo Giménez para falar sobre assombros da ditadura paraguaia e a boa performance de Aníbal Ortiz, premiada com o Kikito de melhor ator.

Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

Entre os curtas, 14 produções estiveram na disputa pelo Kikito, em uma seleção cujo perfil chamou a atenção pelo grande número de documentários. Foram seis ao total, quase metade da seleção: Dominique, Extratos, Atordoado, Eu Permaneço Atento, Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé e Wander Vi. Meu destaque fica com Atordoado, Eu Permaneço Atento, que redimensiona o formato de monólogo de um personagem para transformá-lo em uma análise muito mais ampla e necessária sobre como o Brasil vem alimentando o retorno de práticas da ditadura. Também vale o destaque para Dominique, que, ao acompanhar o retorno de uma transexual para a cidade de sua mãe, aos poucos se apresenta como uma bonita homenagem ao amor materno. Nesse caso, o de uma mulher por suas três filhas transexuais, representadas no documentário pela figura de Dominique, uma personagem cativante. De resto, temos documentários protocolares, válidos mais pelo tema levantado do que pela execução.

Nos outros títulos, é fácil perceber a tendência de obras sobre a realidade brasileira atual. Há, por exemplo, 4 Bilhões de Infinitos, sobre duas crianças que sonham com dias mais esperançosos em uma casa com a luz cortada no interior; Subsolo, divertida animação gaúcha de Erica Maradona e Otto Guerra sobre a obsessão pela busca de corpos perfeitos em academias; Tricheira, de Alagoas, onde um garoto que vive em um aterro de lixo encontra uma realidade alternativa na sua própria imaginação; e, claro, O Barco e o Rio, grande vencedor do júri oficial e popular, que acompanha os dias de uma mulher religiosa que cuida de uma embarcação no porto de Manaus e que precisa lidar com uma irmã que diverge em relação a como lidar com o barco e com a própria vida (o curta marca a primeira vitória de uma produção de Amazonas no Festival de Cinema de Gramado).

Porém, nenhum deles me conquistou tanto quando Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho. No júri da crítica, premiamos o curta “pela forma delicada como corporifica a protagonista ausente, trazendo elementos fantásticos para descrever um estado de invisibilidade e dar sentido a uma vivência da transgeneridade”. Falar mais do que isso é possivelmente estragar a boa surpresa desse filme que tem uma excelente performance central de Luciana Souza e que constrói uma atmosfera angustiante e realista ao mesmo tempo em que se utiliza de pitadas fantásticas para falar sobre um mundo (ou, mais especificamente, um Brasil) que já não é mais possível para parcelas da população tão discriminadas e invisibilizadas pela sociedade. É um belo exemplo sobre como tratar sobre temas sociais importantes sem panfletagem, mas sim de maneira muito cinematográfica e atmosférica.

Até a próxima, Gramado!

 

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