Cinema e Argumento

47º Festival de Cinema de Gramado #4: os vencedores da Mostra Gaúcha de Curtas

Time de vencedores do Prêmio Assembleia Legislativa. Foto: Edison Vara/Pressphoto.

Com protestos dentro e fora do cinema contra o desmonte cultural promovido pelo governo Bolsonaro, o Prêmio Assembleia Legislativa, honraria do Festival de Cinema de Gramado voltada à mais recente safra de curtas-metragens realizados no Rio Grande do Sul, encerrou sua maratona de 2019 consagrando a adorável e inteligente animação Só Sei Que Foi Assim, dirigida por Giovanna Muzel e produzida pela Universidade Federal de Pelotas, informação devidamente sublinhada pelo Júri da Crítica, que também escolheu o curta como o melhor da competição e fez questão de salientar a importância das universidades públicas do Brasil como espaços de formação para o cinema e para a sociedade.

Na equilibrada seleção de vencedores, o Prêmio Assembleia Legislativa também acertou em cheio ao premiar Janaina Kremer como melhor atriz pelo belo Sonata, que traz uma das interpretações mais marcantes dessa talentosa intérprete gaúcha. Já em outras categorias, o júri formado por Amaranta Cesar, Antonio Júnior, Carla Osório, Cintia Domit Bittar e Rodrigo Martins fez escolhas um tanto questionáveis (produção executiva e roteiro para Quero ir Para Los Angeles, direção para Dia de Mudança), mas sem perder de vista a chance de premiar o cinema de gênero e experimental, contemplado em dois prêmios técnicos para o ótimo terror Who’s That Man Inside My House?. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Só Sei Que Foi Assim
MELHOR DIREÇÃO: Boca Migotto (Dia de Mudança)

MELHOR ATRIZ: Janaina Kremer (Sonata)
MELHOR ATOR: Clemente Viscaíno (É Assim Que Você Parece)
MELHOR ROTEIRO: Quero ir Para Los Angeles
MELHOR FOTOGRAFIADia de Mudança
MELHOR MONTAGEM: Who’s That Man Inside My House?
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Who’s That Man Inside My House?
MELHOR MÚSICA: Kerexu
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Endotermia
MELHOR PRODUÇÃO EXECUTIVA: Quero ir Para Los Angeles
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Só Sei Que Foi Assim

47º Festival de Cinema de Gramado #3: “O Homem Cordial”, de Iberê Carvalho

Paulo Mikos em O Homem Cordial: ex-Titã tem no filme de Iberê Carvalho a melhor interpretação de sua

Se tomássemos como parâmetro somente o afetuoso O Último Cine Drive-In, seria um tanto difícil prever que o diretor Iberê Carvalho tivesse um repertório tão vertiginoso quanto o apresentado agora em O Homem Cordial, filme que faz sua estreia nacional na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado. À parte o problema do título, que causa imediata confusão com o recente O Animal Cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida, o novo longa-metragem de Iberê empurra arrasta o espectador noite adentro em uma odisseia que descortina nossas cicatrizes político-sociais e cria um verdadeiro redemoinho a partir de todas nossas intolerâncias, preconceitos e negligências. Como uma investigação sensorial desse cenário, O Homem Cordial é uma experiência angustiante que usa a trajetória pontual de um personagem para trazer uma perspectiva inevitavelmente pessimista do que temos nos tornado de uns anos para cá.

Como todo filme ambientado à noite, quase em tempo real e com um personagem enfrentando uma conturbada jornada pelas ruas de uma cidade, O Homem Cordial será eternamente associado a Depois de Horas, de Martin Scorsese. Entretanto, o filme de Iberê Carvalho diz muito mesmo sobre o Brasil, e essa sua especificidade lhe confere personalidade diante dos títulos que apenas tentam emular uma fórmula. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com o uruguaio Pablo Stoll, acompanha a noite de retorno aos palcos de uma famosa banda de rock do anos 80, quando viraliza na internet um vídeo que envolve Aurélio Sá (Paulo Miklos), vocalista e líder da banda, na morte de um policial militar. Miklos, que, de fato, foi vocalista de uma icônica banda de rock brasileira (os Titãs), tem trilhado carreira no cinema, e seu trabalho aqui talvez possa ser considerado o ponto alto dessa trajetória: com vitalidade e naturalidade, ele segura muito bem um protagonista que tem a câmera grudada em seu rosto praticamente a projeção inteira, o que é um desafio e tanto até para o melhor dos atores.

Inclusive, a técnica de O Homem Cordial tem grande contribuição nos sentimentos claustrofóbicos e eletrizantes trazidos pelo filme. Dessa mistura, é possível tirar dois destaques: a fotografia de Pablo Baião e a montagem de Nina Galanternick, fundamentais para a construção da atmosfera de um filme praticamente todo ambientado à noite. A vertigem de violência, seja ela física, verbal ou emocional, combina com o tom soturno da obra, que, a partir da superexposição nas redes sociais e da compulsão de uma sociedade que precisa registrar e denunciar tudo pela câmera de um celular, fala sobre como muitas vezes ela acaba distorcendo situações e desviando as discussões que realmente importam. O mosaico é completo: racismo, política, abuso de poder, direitos humanos, violência policial, diferença de classes… Não há o que escape de O Homem Cordial em uma radiografia muitas vezes incômoda de se acompanhar e que é desenvolvida a cada esquina dobrada pelo protagonista.

A firmeza de Iberê em não deixar que O Homem Cordial se torne um filme disperso em tantas leituras é grande, ainda que isso não livre o resultado de certos prejuízos, especialmente estruturais: na medida em que abre demais o leque da jornada de seu protagonista, o longa de certa forma o perde de vista para se dedicar a cenas que pesam a mão mais no discurso do que propriamente na construção da história. Exemplo disso é a longa sequência envolvendo Aurélio e um grupo de policiais, onde o comandante da operação representa, com certa caricatura, toda a violência de um sistema preconceituoso, intolerante e racista que já estava sendo contemplado pontualmente por várias passagens do filme. O Homem Cordial retoma as rédeas perto de seu encerramento, quando retrocede para encenar um fato crucial da história, e aí sim volta a abraçar sua força maior de ver o mundo através de um recorte específico. Quando busca sua voz por esse meio, Iberê Carvalho sempre faz o seu filme subir um degrau, mexendo com o espectador sem recorrer à mera explanação.

47º Festival de Cinema de Gramado #2: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Os moradores de Bacurau: premiado em Cannes, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tem protagonismo coletivo.

Laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, Bacurau marca a volta do cinema brasileiro ao hall de vencedores do prestigiado evento francês, quebrando um jejum de 12 anos desde que Linha de Passe rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz na Croisette. Com estreia programada no circuito comercial para o dia 29 de agosto, o longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fez sua estreia nacional na noite de abertura do 47º Festival de Cinema de Gramado, fora de competição, e a reação do público, que aplaudiu o filme em cena aberta, reforça a tese de que toda a catarse trazida por momentos cruciais e impactantes da obra diz muito sobre um país que tem sofrido um tremendo desmonte cultural e que, cada vez mais, precisa ter a sua resiliência retratada e impulsionada nas telas.

Não à toa, Bacurau faz questão de registrar em seus créditos finais que é uma produção responsável por mais de 800 empregos diretos e indiretos e também o registro de um país e de sua identidade. Tematicamente, podemos associar o filme com Aquarius, longa anterior de Kleber, no sentido de que ambos são sobre o poder da resistência e sobre como de fato agimos ao invés de apenas levantar uma bandeira com discursos fáceis. Contudo, se Aquarius seguia a escala de O Som ao Redor ao fazer o Brasil se olhar no espelho por meio de um forte realismo social, Bacurau parte para o plano da mistura de gêneros, o que pode tanto deliciar quem gosta de mergulhar em suspense, sangue e mistério como metáfora da nossa realidade quanto incomodar aqueles que preferem um quadro muito mais claro e descritivo.

Já colocando uma pitada de suspense em sua abertura com o letreiro “daqui a alguns anos…”, sem identificar exatamente quando a história acontece, Bacurau é, em uma leitura mais simplista, um filme sobre o futuro, quando, na verdade, está intimamente ligado às mazelas políticas e sociais que já foram e ainda são vividas pelo povo brasileiro. Kleber e Juliano, também autores do roteiro, constroem toda atmosfera de Bacurau a partir de uma incômoda sensação de instabilidade social que, ao longo e ao final da obra, será responsável por um crescente quadro de selvageria. Há sangue, morte, tiros e outras barbáries no filme, o que, curiosamente, é capaz de misturar náusea e um macabro conforto no espectador: se a primeira reação é de baque com tamanha violência, logo ela é amortecida pela ideia de que, de alguma forma, ela evoca a força de um povo esquecido pelo mundo e maltratado pela vida, mas que decide assumir seu protagonismo em uma importante linha de batalha.

Ambientado em um futuro próximo que não é exatamente especificado, Bacurau é, na verdade, sobre o nosso presente e o nosso futuro.

Garimpando referências, Kleber diz que é possível encontrar em Bacurau ecos de Sam Peckinpah e até de Alfred Hitchcock, mas que esse filme, na realidade, reflete sua paixão por um cinema brasileiro eternizado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros mestres, assim como a grande admiração que ele e Juliano nutrem pelo chamado cinema de gênero. Em sua passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, o diretor, por outro lado, salientou que refuta a ideia de referências como estandarte de um filme e que, apesar das críticas iniciais em Cannes terem gerado uma série de leituras em cima disso, ele dispensa a necessidade de ter que explicá-las ou iluminá-las. Nada mais justo, principalmente se tratando de um filme de difícil classificação e que precisa ser consumido pelo espectador com o mínimo possível de informações, de forma que cada um o preencha a partir de seu próprio repertório cinéfilo.

Como o próprio título já sugere, Bacurau é um longa sobre esse lugar específico e, por isso mesmo, é natural que Kleber e Juliano tenham tomado a decisão de não definir um protagonista específico para a trama. O coletivo é a força-motriz do longa, e a construção dos personagens é um mérito à parte, uma vez que o roteiro consegue nos apresentar cada um dos moradores do local sem pressa ou atropelo, além de atribuir a eles características e personalidades pontuais de maneira orgânica. “Quem nasce em Bacurau é o quê”, pergunta um forasteiro a certo ponto, recebendo uma resposta curta e simbólica: “É gente”. Tal momento retoma o posicionamento do filme de colocar diversos rostos do Brasil na tela, compondo um mosaico tanto de personagens interessantíssimos quanto de bons atores, onde até mesmo uma musa como Sonia Braga abraça com ferocidade e comprometimento um papel tão “pequeno” quanto o dos seus demais colegas.

Saindo das fronteiras que passamos a conhecer desse lugar chamado Bacurau, temos também um outro núcleo, encabeçado pelo ator alemão Udo Kier. Nele, o desenvolvimento dos personagens e das atuações soa mais superficial. Pode ser que essa seja uma escolha consciente de Bacurau: a de fazer dos estrangeiros figuras mais caricatas, de pouca identificação, algo que, entretanto, não diminui uma ligeira frustração com o distanciamento que temos com as motivações (ou ao menos o mistério) daqueles personagens. Também são pouco interessantes os discursos reiterativos que Bacurau toma em seu terço final, sublinhando, inclusive em diálogos, muitos pontos sobre a vilania ou sobre o desdobramento de certas figuras que, de um modo ou de outro, já estavam claros até ali. 

Em comparação aos outros dois longas assinados por Kleber, Bacurau é mais específico do que O Som ao Redor e Aquarius, mas isso não é motivo para alarde ou depreciação: ao longo de muitos anos o cineasta vem gestando esse projeto assumidamente de gênero com Juliano Dornelles e não aceitá-lo como tal é perder boa parte de sua essência e de tudo aquilo que a dupla diz com tanta propriedade. Criando um lugar onde a figura mais querida do local “gerou michê e puta, mas nenhum ladrão” e onde as pessoas buscam refúgio em escolas e museus para enfrentar ameaças mortais, Kleber e Juliano caminham por essa linha hoje tão tênue entre a ficção e a realidade para entregar o tipo de catarse que pode muito bem nos dar algum tipo de fôlego em meio à loucura e ao ódio que logo voltam a cair sobre as nossas cabeças quando voltamos à vida real após a sessão. 

47º Festival de Cinema de Gramado #1: conhecendo os filmes em competição e as homenagens de 2019

Com estreia programada inicialmente para agosto, Hebe – A Estrela do Brasil agora integra a competição do Festival de Cinema de Gramado e chegará às salas brasileiras no dia 23 de setembro.

Chegando aos 47 anos, o Festival de Cinema de Gramado anunciou hoje (09), em coletiva de imprensa realizada na Cinemateca Capitólio Petrobrás de Porto Alegre, os filmes que competem pelo Kikito e o quarteto de homenageados que receberá as cobiçadas distinções da mais nova edição do evento. Gramado, que vem de uma recente temporada de perdas (faleceram, desde 2018, o apresentador Leonardo Machado e os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho), segue levando para o Palácio dos Festivais uma competição formada inteiramente por títulos inéditos em território nacional. Segundo o curador Marcos Santuario, a seleção já havia sido bem desenhada ainda quando Rubens estava em atividade, o que significa que uma boa parcela dos longas escolhidos leva a chancela do saudoso crítico de cinema que perdemos no último mês de junho.

Entre o popular e o autoral, os filmes selecionados representam cinco estados diferentes e reúnem novos nomes da produção recente, assim como cineastas já celebrados inclusive recentemente pelo evento serrano. Da cinebiografia Hebe – A Estrela do Brasil, passando pelo novo filme de Miguel Falabella (Veneza, com ninguém menos que Carmen Maura!), até o retorno de nomes como Iberê Carvalho (O Homem Cordial) e a dupla Andradina Azevedo e Dida Andrade (30 Anos Blues), o Festival peca, entretanto, ao não contemplar qualquer obra dirigida por mulheres, fazendo um amargo contraponto à edição de dois anos atrás, quando quatro dos sete títulos selecionados eram comandados por figuras femininas. Nunca se sabe o que chegou aos curadores, mas é um tanto implausível imaginar que nenhuma cineasta tenha realizado uma obra à altura do evento entre as 195 inscritas no segmento nacional.

Gramado também aposta no ineditismo em território brasileiro quando os títulos estrangeiros entram em pauta. Ainda assim, é uma mostra que segue à sombra dos tempos em que ela própria já premiou Pedro Almodóvar com De Salto Alto, Javier Bardem com Segunda-Feira ao Sol, César Charlone com O Banheiro do Papa e Gustavo Taretto com o irresistível Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, para citar um exemplo mais recente. São sete países contemplados, mas é consenso que, nos últimos anos, esta não tem sido a vocação cinematográfica mais expressiva do evento. Para completar, 34 curtas-metragens, entre produções gaúchas e nacionais, estão em competição. O filme que abre a maratona de projeções no Palácio dos Festivais em caráter hors-concours é o aguardadíssimo Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes.

Atração à parte para o público que lota o entorno do Tapete Vermelho na cidade gaúcha, as homenagens são possivelmente o ponto alto da edição deste ano, pois quebram uma questão cultural bastante antiquada e perpetuada por prêmios e festivais ao redor do mundo: a de que atores e cineastas só devem ter carreiras celebradas quando chegam à terceira idade. É saudável sim premiar gerações mais novas, inclusive porque elas estão aí trabalhando, muitas vezes no auge de suas respectivas carreiras. Homenagens não devem simbolizar o fim de uma trajetória ou o saudosismo por tempos que não voltam mais, mas sim o aplauso para carreiras exemplares, artistas inspiradores e contribuições que desde hoje já provam o seu lugar na indústria, independente da idade.

Dito isso, Gramado acerta em cheio ao entregar o Troféu Oscarito para Lázaro Ramos e o Kikito de Cristal para Leonardo Sbaraglia (visto recentemente como uma pulsante paixão de Antonio Banderas em Dor e Glória), atores com 40 e 49 anos, respectivamente. A diretora e atriz Carla Camurati, aos 58, receberá o Troféu Eduardo Abelin. O único ponto inexplicável das homenagens deste ano é Mauricio de Sousa: ainda que se reconheça o legado do cartunista e o fato do Troféu Cidade de Gramado ser um prêmio do município para figuras que contribuíram para a divulgação do evento e da cidade, não deixa de ser estranho ver alguém com laços cinematográficos quase inexistentes recebendo a mesma distinção que já foi parar nas mãos de nomes como Wagner Moura, Lima Duarte, Eva Wilma e Rodrigo Santoro.

O 47º Festival de Cinema de Gramado acontece entre os dias 16 e 24 de agosto de 2019. Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
30 Anos Blues (SP), de Andradina Azevedo e Dida Andrade
Hebe – A Estrela do Brasil (SP), de Maurício Farias

O Homem Cordial (DF), de Iberê Carvalho
Pacarrete (CE), de Allan Deberton
Raia 4 (RS), de Emiliano Cunha
Veneza (RJ), de Miguel Falabella
Vou Nadar Até Você (SP), de Klaus Mitteldorf e Luciano Patrick

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
A Son of Man – La Maldición del Tesoro de Atahualpa (Equador), de Jamaicanoproblem
Dos Fridas (México e Costa Rica), de Ishtar Yasin
El Despertar de las Hormigas (Costa Rica), de Antonella Sudasassi Furnis
En el Pozo (Uruguai), de Bernardo e Rafael Antonaccio
La Forma de las Horas (Argentina), de Paula de Luque
Muralla (Bolívia), de Rodrigo Alfredo Alejandro Patiño Sanjines
Perro Bomba (Chile), Juan Caceres

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Amor aos Vinte Anos (SP), de Felipe Arrojo Poroger e Toti Loureiro
Apneia (PR), de Carol Sakura e Walkir Fernandes
O Balido Interno (PE), de Eder Deó
E o Que a Gente Faz Agora? (BA), de Marina Pontes
A Ética das Hienas (PB), de Rodolpho de Barros
Invasão Espacial (DF), de Thiago Foresti
Marie (PE), de Leo Tabosa
Menino Pássaro (SP), de Diogo Leite
A Mulher Que Sou (PR), de Nathália Tereza
A Pedra (RS), de Iuli Gerbase
Sangro (SP), de Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR
Um Tempo Só (SP), de Lane Alves
Teoria Sobre um Planeta Estranho (MG), de Marco Antônio Pereira
O Véu de Amani (DF), de Renata Diniz

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Budapest_v4_final2 (Porto Alegre), de Gabriel Motta
buitenlanders/estrangeiros (Porto Alegre), de Cassio Tolpolar
O Carnaval de Gregor (Caxias do Sul), de Kiwi Bertola
Dia de Mudança (Porto Alegre), de Boca Migotto
É Assim que Você Parece (São Leopoldo), de Pedro Valadão
Êles (Porto Alegre), de Roberto Burd
Endotermia (Porto Alegre), de Emiliano Cunha
Kerexu (Porto Alegre), de Denis Rodriguez e Leonardo Remor
Linha Travessão (Porto Alegre), de Douglas Roehrs
A Maior Locadora do Mundo (Porto Alegre), de Matheus Mombelli
O Menino da Terra do Sol (Bento Gonçalves), de Michel Marchetti
A Pedra (Porto Alegre), de Iuli Gerbase
Quero ir para Los Angeles (Porto Alegre), de Juh Balhego
Só Sei Que Foi Assim (Pelotas), de Giovanna Muzel
Sonata (Porto Alegre), de Felipe Diniz
Stardust (Porto Alegre), de P.Zaracla
Tempestade e a Janela de Papel (Porto Alegre), de Viviane Locatelli
Tesourinho (Pelotas), de Bruna Dreyer Nery
Veraneio (Porto Alegre), de Nelson Diniz
Who’s That Man Inside My House? (Sapucaia do Sul), de Lucas Reis

46º Festival de Cinema de Gramado #8: balanço geral da premiação

Ferrugem, de Aly Muritiba, é o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Com uma cerimônia efervescente do ponto de vista político, o Festival de Cinema de Gramado encerrou a sua 46º edição no último sábado, 26 de agosto. O filme escolhido pelo júri oficial como o melhor da equilibrada seleção de longas-metragens brasileiros foi o drama Ferrugem, de Aly Muritiba, que já tem estreia prevista no circuito brasileiro para o dia 30 de agosto. Acompanhando os desdobramentos trazidos pelo vazamento de um vídeo íntimo na internet, o longa também faturou os Kikitos de melhor roteiro e melhor desenho de som. Ferrugem, no entanto, não foi o grande vencedor da noite: Benzinho, de Gustavo Pizzi, a grande unanimidade desta edição, levou para casa os prêmios de atriz para Karine Teles e atriz coadjuvante para Adriana Esteves, além dos Kikitos de melhor filme pelo júri popular e pelo júri da crítica. É no mínimo estranho Benzinho não ter encantado o júri oficial, especialmente quando público e crítica concordam que este era o melhor filme em competição. Não que Ferrugem não tenha méritos, mas Benzinho é o tipo de filme que será lembrado como uma indiscutível pérola do cinema nacional recente (e é bem provável que, com razão, ainda seja escolhido como o representante do Brasil para tentar uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro).

No geral, a lista contemplou a grande pluralidade da seleção deste ano, deixando apenas dois filmes sem prêmios: O Avental Rosa, de Jayme Monjardim, e Mormaço, de Marina Meliande. O primeiro, definido por Monjardim como um trabalho muito pessoal e autoral, realmente merecia passar despercebido por sua linguagem altamente televisiva e melodramática, mas o segundo ter saído de mãos abanando é um pequeno crime, pois é contundente a análise sócio-política que a diretora faz de um Brasil em franca transformação urbana e que, durante esse processo, oprime os menos favorecidos. Também é um pouco surpreendente a vitória de André Ristum como melhor diretor por A Voz do Silêncio: seu amadurecimento como realizador desde O Outro Lado do Paraíso se traduz na tela, mas, particularmente, acredito que os trabalhos de Gustavo Pizzi e Marina Meliande sejam mais complexos e inovadores. 

Osmar Prado e o seu Kikito de melhor ator por 10 Segundos Para Vencer. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Entre as categorias técnicas, foram acertados os três Kikitos para Simonal e a menção honrosa para a animação A Cidade dos Piratas, do veterano Otto Guerra, lembrada, segundo o júri, por seu “humor não domesticado”. Contudo, nenhum momento foi tão emblemático ou comovente quanto a vitória de Osmar Prado por 10 Segundos Para Vencer, a sua primeira por um papel como protagonista em cinema ao longo de 60 anos de carreira. Pelo desempenho em si, a consagração já seria comovente (e sua emoção era genuína), mas, ao defender o ex-presidente Lula, hoje “injustamente trancafiado nas masmorras de Curitiba”, mobilizou vaias e aplausos no cinema. Para os contrários, disse “pode vaiar”. Para os que compartilhavam do sentimento, ergueu o Kikito com orgulho. Certamente, um dos momentos mais memoráveis do Festival de Cinema de Gramado nos últimos anos, fazendo jus ao engajamento e  à resistência que fizeram do Palácio dos Festivais um templo do cinema brasileiro. Ainda no plano nacional, foram bem divididas as consagrações entre os curtas-metragens. Assim como nos longas, a escolha do júri oficial (a animação Guaxuma) não coincidiu com o queridinho da crítica e do público (a também animação Torre). Felizmente, a discordância não é grave: tanto Guaxuma quanto Torre são, ao mesmo tempo, filmes pessoais e universais, além claro, de serem animações, gênero que cresce cada vez mais no cenário audiovisual brasileiro. Se há alguma ressalva na lista, essa é a do pouco caso com Nova Iorque, comovente produção estrelada por Hermila Guedes e pelo pequeno Juan Calado, que saiu de Gramado somente com o Kikito de melhor fotografia e com o prêmio do Canal Brasil para curtas. Chegando aos longas estrangeiros, “somente” não se aplica aos oito prêmios recebidos por As Herdeiras, sendo três para as atrizes Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova. Dirigido por Marcelo Martinessi, o filme foi considerado pela crítica como o franco favorito para fazer o Paraguai estrear na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro.

Confira abaixo lista completa de vencedores da 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado:
_

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Ferrugem, de Aly Muritiba
MELHOR DIREÇÃO: André Ristum (A Voz do Silêncio)
MELHOR ATRIZ: Karine Teles (Benzinho)
MELHOR ATOR: Osmar Prado (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Adriana Esteves (Benzinho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ricardo Gelli (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ROTEIRO: Jessica Candal e Aly Muritiba (Ferrugem)
MELHOR DESENHO DE SOM: Alexandre Rogoski (Ferrugem)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Max de Castro e Wilson Simoninha (Simonal)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Yurika Yamazaki (Simonal)
MELHOR MONTAGEM: Gustavo Giani (A Voz do Silêncio)
MELHOR FOTOGRAFIA: Pablo Baião (Simonal)
MENÇÃO HONROSA: A Cidade dos Piratas, de Otto Guerra
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Benzinho, de Gustavo Pizzi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Benzinho, de Gustavo Pizzi

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR DIREÇÃO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR ATRIZ: Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova (As Herdeiras)
MELHOR ATOR: Nestor Guzzini (Mi Mundial)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR FOTOGRAFIA: Nelson Waisntein (Averno)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Averno, de Marcos Loayza
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Guaxuma, de Nara Normande
MELHOR DIREÇÃO: Fábio Rodrigo (Kairo)
MELHOR ATRIZ: Maria Tugira Cardoso, por Catadora de Gente
MELHOR ATOR: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)

MELHOR ROTEIRO: Marco Antônio Pereira (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DESENHO DE SOM: Fábio Carneiro Leão (Aquarela)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Pedro Franz e Rafael Coutinho (Torre)
MELHOR MONTAGEM: Thiago Kistenmacker (Aquarela)
MELHOR FOTOGRAFIA: Beto Martins (Nova Iorque)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Estamos Todos Aqui, de Chico Santos e Rafael Mellim
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS: Nova Iorque, de Leo Tabosa
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Torre, de Nádia Mangolini
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Torre, de Nádia Mangolini

%d blogueiros gostam disto: