53º Festival de Cinema de Gramado #2: quando o Oscar contestou o Kikito

Quando ouvi essa história pela primeira vez, achei inusitada demais para ser verdade, mas ela realmente aconteceu: em 1986, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela entrega do Oscar, resolveu implicar com… o Kikito! Tudo começou em quando a Prefeitura de Gramado solicitou o registro do Kikito ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e se deparou com uma contestação da Academia, cuja argumentação era de que o formato da estatueta do Kikito apresentava semelhanças capazes de causar confusão com a estatueta do próprio Oscar. As informações e a pesquisa são do Museu do Festival de Cinema de Gramado e do Museu Municipal Professor Hugo Daros.
Na contestação, os norte-americanos alegavam que o design da estatueta do Oscar teria apenas sido “levemente modificado” para dar origem ao Kikito, caracterizando-o como uma “imitação infeliz”. A Academia ainda disse que tamanha similaridade poderia levar o público e os premiados a acreditarem, equivocadamente, que o renomado Oscar estaria sendo distribuído no Festival de Gramado. A instituição chegou a anexar imagens comparativas das duas estatuetas como parte de sua contestação, conforme abaixo:

Na oposição ao registro, a Academia ainda afirmou:

Em resposta, a Prefeitura de Gramado, então responsável pela realização do evento, fez uma manifestação de oposição contra as “hilariantes alegações”, defendendo o Kikito com argumentos válidos, como a sua história de criação, comparando as estatuetas na imagem a seguir:

Aqui, se faz um breve parênteses para recuperarmos a história da criação do próprio Kikito, a partir de cinco marcos definitivos:

Sede do Artesanato Gramadense.
1965 – Surge o Artesanato Gramadense, por Elisabeth Rosenfeld, que se tornaria a casa de arte mais importante da região nas duas décadas seguintes.

Retrato de Elisabeth Rosenfeld.
1966 – Elisabeth cria o primeiro Kikito, o batiza como o “Deus do Bom Humor”, na qual a ideia de um sol sorrindo, seria para inspirar os artesãos que trabalhavam com ela.
1972 – Romeu Dutra, Secretário de Turismo de Gramado leva de presente um exemplar da estatueta do Kikito para Ricardo Cravo Albin (então presidente do Instituto Nacional de Cinema), que sugere que a mesma se torne troféu máximo do Festival de Cinema.
1973 – Elisabeth Rosenfeld designa o artesão Xixo para esculpir o Kikito. O Kikito começa, então, a ser esculpido em Jacarandá da Bahia pelo artesão e torna-se o prêmio máximo do Festival, sendo oficializado como tal pela comissão de organização do evento.

Artesão Xixo e os Kikitos de madeira.
1988 – Xixo produz os últimos Kikitos em madeira, para o ano seguinte. A produção dos demais seria em bronze.
Voltando ao conflito com o Oscar, o martelo foi batido em 1988: após um parecer detalhado realizado pelo INPI a favor da Prefeitura de Gramado, ficou comprovado que o Kikito, com seu design em formato de sol, possui uma identidade única e distinta do glamour associado a Hollywood. E o INPI foi além, conforme podemos na manifestação a favor expedida em 12/07/1988:

Apesar da polêmica, o Kikito manteve sua autenticidade e se consolidou como um símbolo icônico do Festival de Cinema de Gramado e do cinema nacional. Afinal, não há outro troféu cujo nome seja mais conhecido no Brasil.
Sua influência é tanta que o formato da estatueta ainda foi oficialmente adaptado para outros formatos: em 2007, quando passou a ser fabricado também em Cristal para homenagens anuais no Festival de Cinema de Gramado; e em 2021, quando o “Kikito Holográfico” foi criado para a reinauguração do Museu do Festival de Cinema de Gramado, dessa vez, confeccionado em madeira, fazendo alusão ao primeiro modelo da estatueta e permanecendo como peça decorativa do espaço.

Kikito de Cristal e Kikito Holográfico.
Foi apenas em 2022, no entanto, que o Kikito se tornou patrimônio cultural da cidade de Gramado em termos legais. A partir da exposição “Kikito em Cena”, o Museu do Festival de Cinema de Gramado propôs aos vereadores Daniel Koehler e Renan Sartori o projeto de lei para consolidação, que acabou sendo sancionada através da Lei n° 4.088/2022 e oficializando a estatueta como patrimônio cultural do município.
Reforço aqui o meu agradecimento ao Museu do Festival de Cinema de Gramado, do qual tenho a honra de ser um dos curadores de sua exposição permanente, e ao Museu Municipal Professor Hugo Daros, pela liberação das informações e imagens para essa matéria exclusiva aqui no blog.
53º Festival de Cinema de Gramado #1: disputa dos longas brasileiros é recheada de filmes a serem descobertos

Vencedora do Kikito de melhor atriz em 1999 com Por Trás do Pano, Denise Fraga volta a disputar o troféu com a dramédia Sonhar com Leões, de Paolo Marinou-Blanco.
Marcado para acontecer entre os dias 13 e 23 de agosto, com abertura oficial no dia 15, o Festival de Cinema de Gramado chega a sua 53ª edição trazendo 45 títulos em competição entre longas brasileiros, longas documentais, longas gaúchos, curtas brasileiros e curtas gaúchos. Já os grandes homenageados são Marcélia Cartaxo (Troféu Oscarito), Mariza Leão (Troféu Eduardo Abelin) e Rodrigo Santoro (Kikito de Cristal). Além da programação no Palácio dos Festivais, o evento também realiza uma programação inteiramente dedicada à discussão do mercado audiovisual com o Conexões Gramado Film Market, que já chega à nona edição. A programação completa pode ser conferida no site oficial do festival.
A competição principal de longas-metragens brasileiros chama atenção pela natureza menos midiática e mais autoral dos filmes, o que é excelente sinal para Gramado, uma vez que títulos como Noites Alienígenas, do Acre, Oeste Outra Vez, de Goiás, dois dos melhores vencedores recentes do evento, roubaram a cena como os estranhos no ninho de grandes concorrentes. Em 2025, Gramado apresenta títulos a serem descobertos, mesmo o de Miguel Falabella, agora filmando em preto e branco com uma história aparentemente mais intimista do que a de Veneza. Os curadores Caio Blat, Camila Morgado e Marcos Santuario oferecem uma competição instigante de obras inéditas e que, talvez, só falhe em não trazer mais uma vez uma produção gaúcha para o centro de um festival que representa tanto para o cinema brasileiro.
Antes da programação competitiva, Gramado apresenta, fora de competição, o aguardado O Último Azul, de Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata no último Festival de Berlim. A exibição marca a primeira apresentação pública do longa-metragem em território brasileiro. Nas sessões que antecedem a abertura oficial, ainda são exibidos no Palácio dos Festivais os filmes do Educavídeo, programa que oferece capacitação em linguagem audiovisual para estudantes da rede pública de Gramado. É do Educavídeo, inclusive, a iniciativa de promover no festival a 1ª Mostra Nacional de Cinema Estudantil do Educavídeo, que reúne filmes produzidos por escolas por alunos do ensino médio e fundamental de outras cidades do Brasil.
Confira abaixo todos os títulos em competição no 53º Festival de Cinema de Gramado:
LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
A Natureza das Coisas Invisíveis (DF), de Rafaela Camelo
Cinco Tipos de Medo (MT), de Bruno Bini
Nó (PR), de Laís Melo
Papagaios (RJ), de Douglas Soares
Querido Mundo (RJ), de Miguel Falabella
Sonhar com Leões (SP), de Paolo Marinou-Blanco
LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS
Até Onde a Vista Alcança” (SP), de Alice Villela e Hidalgo Romero
Lendo o Mundo (RN), de Catherine Murphy
Os Avós (AM), de Ana Ligia Pimentel
Para Vigo Me Voy! (RJ), de Lírio Ferreira e Karen Harley
MOSTRA SEDAC/IECINE DE LONGAS GAÚCHOS
Bicho Monstro (Porto Alegre), de Germano de Oliveira
Passaporte Memória (Porto Alegre), de Decio Antunes
Quando a Gente Menina Cresce (Santa Maria), de Neli Mombelli
Rua do Pescador Nº 6 (Porto Alegre), de Bárbara Paz
Uma em Mil (Canoas), de Jonatas e Tiago Rubert
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Aconteceu a Luz da Lua (RS), de Crystom Afronário
Boiuna (PA), de Adriana de Faria
Cabeça de Boi (MG), de Lucas Zacarias
FrutaFizz (SP), de Kauan Okuma Bueno
Jacaré (BA), de Victor Quintanilha
Jeguatá Xirê (RS), de Alan Alves-Brito, Ana Moura e Marcelo Freire
O Mapa Em Que Estão Meus Pés (AL), de Luciano Pedro Jr.
Na Volta Eu Te Encontro (BA), de Urânia Munzanzu
As Musas (PE), de Rosa Fernan
Quando Eu For Grande (PR), de Mano Cappu
Réquiem Para Moïse (RJ), de Caio Barretto Briso e Susanna Lira
Samba Infinito (RJ), de Leonardo Martinelli
PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA – MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS
Bom Dia, Maika! (Caxias do Sul/Santa Cruz do Sul), de Eddy Ramos
O Correspondente (Santo Antônio da Patrulha), de Thali Bartikoski e Bruno Barcelos
E Depois de Fevereiro (São Leopoldo), de Crystom Afronário
Enfim S.O.S. (Porto Alegre), de Zaracla
Estudos Sobre a Vida em Rede (Lajeado), de Tuane Eggers
Fuá – O Sonho (Canela), de Viviane Jag Fej Farias e Amallia Brandolff
Gambá (Teutônia), de Maciel Fischer
Imigrante/Habitante (Porto Alegre), de Cassio Tolpolar
O Jogo (Pelotas), de Alexandre Mattos Meireles e Chico Maximila
Mãe da Manhã (Porto Alegre), de Clara Trevisan
Nhemongarai (Porto Alegre), de Jorge Morinico e Hopi Chapman
Perro! (São Leopoldo), de Aleksia Dias e João Pedro Fiuza
O Pintor (Santa Cruz do Sul), de Victor Castilhos
Quando Começa a Chover o Coração Bate Mais Forte (Porto Alegre), de Mirian Fichtner
Roxo Lilás Violeta (Porto Alegre), de Theo Tajes
Safira, o Mar e a Vida (Porto Alegre), de Luiz Fonseca
A Sinaleira Amarela (Porto Alegre), de Guilherme Carravetta De Carli
Trapo (Uruguaiana), de João Chimendes
TIFF 2024, #11: “Bird”, “Flow”, “Nightbitch” e “Queer”

BIRD (idem, 2024, de Andrea Arnold): É o tipo de história que me comove e que a diretora Andrea Arnold (Cow, Docinho da América) aborda com melancolia e esperança: a de pessoas comuns sufocadas pelas dificuldades e pelo abandono da vida, mas que, mesmo assim, seguem em frente, quem sabe encontrando algum tipo de pertencimento. Neste caso, a protagonista Bailey (Nykiya Adams, uma revelação) procura, em outros lugares, a atenção que não recebe em casa do pai e do irmão. Lá pelas tantas, encontra Bird (Franz Rogowski), que também vive solitário em uma busca pessoal. Não demora para que Bailey e Bird passem a se reconhecer em suas ausências e lacunas, algo que Arnold explora com muita delicadeza. Por vezes, o longa tateia várias questões e tons sem necessariamente conseguir abordar todos com a devida unidade, mas Arnold conhece bem seus personagens e dilemas, tornando tocante os momentos mais simples, como aquele em que em que um grupo de homens embriagados canta Yellow, do Coldplay. Entre estranhezas e sinceridades, Bird é maduro na sua análise da juventude colidindo com a vida adulta. Contudo, tem seus melhores contornos quando adentra a generosidade entre Bailey e Bird. O próprio surrealismo empregado à maneira como a primeira eventualmente enxerga o segundo se constrói em cima de pura compaixão e esperança. Não por acaso, o filme termina com um otimismo agridoce que está, sim, impresso em palavras, mas que, em última instância, emociona mesmo é no silêncio e no quanto uma certa alegoria expõe um florescimento conquistado em cima de pequenas grandes batalhas.
FLOW (idem, 2024, de Gints Zilbalodis): Enquanto o duo Disney-Pixar continua obcecado em produzir live actions e sequências de seus filmes mais queridos, uma produção independente como Flow é um verdaeiro frescor. Vinda da Letônia, a animação se concentra na jornada de um gato solitário em meio a uma grande inundação de traços pós-apocalípticos. Para sobreviver, ele precisa conviver com outras espécies, desafiando sua convivência com as diferenças em todos os sentidos. De visuais que a revista Rolling Stone categorizou como muito semelhantes a de jogos de videogame como Zelda, Flow encontra beleza ao fugir do hiper-realismo cada vez mais desejado por grandes estúdios em suas técnicas de animação. O diretor Gints Zilbalodis prioriza outras que fazem toda a diferença, como a de não antropomorfizar os personagens. Gatos são apenas gatos. Cachorros são apenas cachorros. E eles se comportam como tais. Sem diálogos, Flow, portanto, explora a dinâmica dos animais a partir de suas características específicas, o que torna tudo instigante, principalmente porque gatos são seres tão curiosos quanto desconfiados, receita perfeita para esse mundo desconhecido em que o filme se passa. Zilbalodis, que escreve o roteiro ao lado de Matiss Kaza, proporciona sequências sublimes e divertidas, a partir de uma trama que deixa de lado grandes aventuras para se focar em aspectos básicos de uma luta por sobrevivência. Sempre é possível contar uma mesma história a partir de outras perspectivas. Merecidamente, Flow teve sua estreia mundial na prestigiada mostra Un Certain Regard do último Festival de Cannes.
NIGHTBITCH (idem, 2024, de Marielle Heller): Menos “estranho” do que o esperado, Nightbitch traz Amy Adams em um tipo de papel que, por diversas vezes, me remedeu a Tully, de Jason Reitman, o que, no meu caso, é excelente sinal. Dando vida a uma mãe sem nome, Adams parte da perspectiva muito realista de que a maternidade está longe de ser um mar de rosas — na verdade, é um dos períodos mais desafiadores da vida de qualquer mulher. Só que Nightbitch trabalha essa temática com outros contornos na medida em que a personagem abraça gradativamente o comportamento instintivo e, vez ou outra, selvagem enraizado na maternidade, considerando a ideia de que talvez esteja se transformando em um cão. Com isso, claro, o longa começa a ganhar traços mais surrealistas, algo bem dosado pela diretora e roteirista Marielle Heller (Poderia Me Perdoar?, Um Lindo Dia na Vizinhança). O fato de Nightbitch ser um bom entretenimento com uma proposta, digamos, atípica é importante porque mostra como Heller tem grande habilidade ao não deixar que o filme se torne inconvincente nos paralelos traçados entre a maternidade e os instintos caninos, muito menos que exponha os envolvidos a representações constrangedoras. Ao mesmo tempo, por justamente não se arriscar tanto nas possibilidades mais fantasiosas da transformação da personagem, o resultado perde a oportunidade de alçar certos voos. A verve que, de certo modo, falta ao filme pelo menos é equilibrada pela presença de Amy Adams, que se diverte e aproveita um frescor que não tem sido lhe oferecido muita frequência em trabalhos recentes.
QUEER (idem, 2024, de Luca Guadagnino): O público que conhece apenas o Luca Guadagnino em função do hype de Me Chame Pelo Seu Nome e Rivais certamente sairá frustrado de Queer, o mais novo longa-metragem do diretor centrado em uma história de amor gay. Ambientado na Cidade do México dos anos 1940, o filme acompanha um expatriado americano que se apaixona por um homem muito mais jovem, embarcando em uma jornada de desejos reprimidos, vícios e a incomunicabilidade do amor. Queer, entretanto, é um dos trabalhos menos impactantes de Guadagnino, mesmo com uma performance marcante da carreira de Daniel Craig. O roteiro escrito por Justin Kuritzkes, com base no romônimo de William S. Burroughs, vai muito bem na primeira metade, quando se debruça em um minucioso estudo de protagonista e em como ele tem sua vida transformada pelo jovem Eugene (Drew Starkey). Inexplicavelmente, tudo vai por água abaixo a partir do momento em que Queer leva os personagens para a América do Sul em busca de ayahuasca. A viagem tira o filme de todos os eixos, inclusive do erotismo maduro e orgânico contruído até ali, pois Guadagnino entra demais nos efeitos alucinógenos e na loucura do vício. É uma estranheza que não tem efeito de imersão e que esvazia tudo o que Queer tinha de melhor, além de cometer o crime de desperdiçar uma grande atriz como Lesley Manville, ainda que ela, em um primeiro momento, reafirme a sua inegável versatilidade. Depois do empolgante Rivais, Guadagnino decepciona vertiginosamente.
TIFF 2024, #8: “Saturday Night”, de Jason Reitman

Saturday Night não tem a intenção de ser um filme sobre o programa Saturday Night Live propriamente dito. Para o diretor e roteirista Jason Reitman (Juno, Obrigado Por Fumar, Amor Sem Escalas), o objetivo sempre foi lançar um olhar sobre a efervescência de ideias e imprevistos que antecederam os minutos da estreia desse clássico da televisão norte-americana. E haja efervescência nisso: em quase duas horas de duração, Saturday Night traz incontáveis personagens, situações e dilemas para remontar o nascimento de um programa que, de 1975 até os dias de hoje, molda boa parte da forma como o público estadunidense enxerga o humor e o entretenimento.
Roteirista de mão cheia, Reitman encena o caos, mas não o controla. Tudo em Saturday Night é hiperbólico, com uma enxurrada de referências e piadas que parecem não caber em um roteiro já verborrágico por natureza. Muito se deve ao fato de que o filme tenta emular a essência do programa, o que não chega a ser uma justificativa. O grande empecilho está no quanto ele é autocentrado, fascinado consigo mesmo. Reitman quer impressionar a todo custo como diretor, seja com as longas sequências pensadas para explorar a esmerada reconstituição de época e cenários ou com o infinito desfile de personagens que entram e saem de cena. Tudo em alta velocidade, ao mesmo tempo.
O desejo de deslumbrar o espectador é tanto que Saturday Night torna excessivo até mesmo o uso da ótima trilha sonora de Jean Batiste, que improvisou seu trabalho in loco, fazendo as composições conforme as filmagens se desenrolavam. A mesmíssima lógica se aplica ao elenco, pois, não bastasse o extenso número de personagens em cena, Reitman ainda garante que haja a maior quantidade possível de rostos famosos os interpretando, mesmo em papéis minúsculos. Com isso, nomes como Willem Dafoe, J.K. Simmons, Rachel Sennott, Matthew Rhys, Nicholas Braun (com dois papéis!), Dylan O’Brien, Tracy Letts e Cooper Hoffman se transformam em praticamente distrações revezadas.
Imagino que, para os familiarizados com os bastidores do Saturday Night Live, a experiência é das mais divertidas, já que o longa se apropria bem do formato do programa para traduzi-lo em personagens e na imaginação do que teria acontecido naqueles momentos antes de uma estreia histórica. Um dos acertos do longa, aliás, é conseguir emular a urgência e o suspense que acometeram a equipe através de uma narrativa quase em tempo real, mérito mais do formato do que do roteiro em si. Em contraponto, para os leigos como eu, acredito que Saturday Night é pouco interessante e orgânico, quando não aborrecido mesmo.
SATURDAY NIGHT REVIEW
Saturday Night doesn’t aim to be a movie about Saturday Night Live itself. For director and screenwriter Jason Reitman (Juno, Thank You for Smoking, Up in the Air), the goal was always to take a look at the whirlwind of ideas and unpredictability that preceded the minutes before the premiere of this classic American TV show. And there’s a lot of whirlwind: in almost two hours, Saturday Night brings countless characters, situations, and dilemmas to recreate the show that, from 1975 until today, has shaped much of how the American public views humor and entertainment.
A skilled screenwriter, Reitman stages the chaos but doesn’t control it. Everything in Saturday Night is hyperbolic, with a flood of references and jokes that seem too much for an already verbose script. This is partly due to the fact that the film tries to emulate the essence of the show, which isn’t quite a justification. The major obstacle is how self-centered it is, fascinated with itself. Reitman is eager to impress as a director at any cost, whether through the long sequences designed to explore the painstaking period reconstruction and sets, or through the endless parade of characters entering and exiting scenes. Everything happens at high speed, all at once.
The desire to dazzle the viewer is so overwhelming that Saturday Night even makes excessive use of Jean Batiste’s excellent soundtrack, which was improvised on-site, with compositions created as the filming unfolded. The same logic applies to the cast; despite the already large number of characters on screen, Reitman still ensures that as many famous faces as possible portray them, even in minor roles. As a result, actors like Willem Dafoe, J.K. Simmons, Rachel Sennott, Matthew Rhys, Nicholas Braun (in two roles!), Dylan O’Brien, Tracy Letts, and Cooper Hoffman become practically rotating distractions.
I imagine that for those familiar with the behind-the-scenes of Saturday Night Live, the experience is highly enjoyable, as the film effectively captures the format of the show to translate it into characters and the imagination of what might have happened in those moments before a historic premiere. One of the film’s strengths, in fact, is its ability to emulate the urgency and suspense that gripped the crew through an almost real-time narrative, a credit more to the format than the script itself. On the other hand, for outsiders like me, I believe Saturday Night is less interesting and organic, if not downright boring at times.
TIFF 2024, #7: “Emilia Pérez”, de Jacques Audiard

E se um diretor francês resolvesse misturar, em um musical ambientado no México, diferentes histórias envolvendo dramas familiares, crimes de cartel, dilemas da transgeneridade e reflexões sobre a avassaladora mutilação causada pela banalização da criminalidade em uma sociedade? E se ele resolvesse também colocar quatro atrizes, entre elas uma jovem estrela da música pop e uma atriz trans sem experiência musical, para soltarem a voz em espanhol nos cenários mais inusitados, como em um consultório médico ou em cima das mesas de um luxuoso jantar de gala? Como bem costuma acontecer, a mistura de tantas ideias e tantos pontos fora da curva poderia resultar em um filme esquizofrênico, fora do tom e que, ao tentar ser muitas coisas, acaba não sendo coisa alguma. É uma estatística que não se aplica a Emilia Pérez, um verdadeiro acontecimento por escapar habilidosamente de todos os riscos que assumiu e por trazer um diretor já consagrado — Jacques Audiard, de O Profeta, Ferrugem e Osso e Dheepan: O Refúgio — brilhando no tipo de reinvenção que marca uma carreira.
Como um representante do gênero musical, o longa é uma verdadeira oxigenação, a começar pelo fato de ser ambientado totalmente fora do eixo Hollywoodiano, indústria onde o gênero se popularizou por excelência. Por melhores que sejam, nem juntos e somados os musicais norte-americanos mais recentes se aproximam do esmero estético e narrativo de Emilia Pérez. A partir das canções compostas pela dupla Camille Dalmais e Clémont Ducol (ela, aliás, escreveu e deu voz à bela Le Festin, de Ratatouille), Jacques Audiard é ambicioso ao criar os números musicais do filme, que acontecem em situações aparentemente inusitadas, mas logo cobertas de sentido. Não lhe falta assertividade para incorporar esses momentos à trama de maneira orgânica, sem que eles pareçam clipes avulsos na trama. As músicas de Emilia Pérez, todas afeitas à narrativa e não às meras rimas chicletes, dizem muito sobre suas personagens, ao mesmo tempo em que lançam a história para frente com ritmo, interesse e deslumbre técnico. Dirigir musicais não é pra qualquer um e, às vezes, nem para os mais talentosos, o que só aumenta os méritos de Audiard nessa complexa costura.
Escrito pelo próprio diretor, o longa começa de um jeito, modifica-se nas subtramas e se ramifica em várias personagens, mas encontra mesmo o seu cerne afetivo e dramático na figura, claro, da protagonista, vivida por Karla Sofia Gascón. O tocante do roteiro está em como Audiard não faz da transgeneridade de Emilia uma curiosidade ou a única razão do filme existir. Se, por um lado, inevitavelmente, há todo o processo da personagem transicionando para sua nova identidade, por outro, Emilia Pérez se utiliza dessa jornada particular para contar uma história de redenção, tanto da personagem com ela própria quanto dela perante seus incontáveis erros do passado que destruíram vidas e mais vidas. Não se trata de uma visão idealizada ou poliana de recomeço: Audiard constrói uma personagem com camadas conflitantes e, através delas, promove um olhar específico sobre o próprio México, terra em que o tráfico deixa incontáveis mães sem a possibilidade de encontrar os corpos de seus filhos desaparecidos. É uma dignidade que Emilia Pérez traz, em grande escala, para um tema pouco visibilizado mundialmente.
Inclusive, Gascón é maravilhosa como a personagem-título, do deslumbre causado por sua inegável presença até as próprias variações de uma mulher às voltas com uma nova vida ainda muito conectada ao passado. Com outras três atrizes do filme, ela venceu um prêmio merecidíssimo de interpretação feminina no último Festival de Cannes. Dividiram a láurea: Zoe Saldaña, que, dona dos melhores números musicais, apresenta uma vitalidade e uma versatilidade talvez nunca antes vistas em sua filmografia; Selena Gomez, cada vez mais comprometida como atriz e excelente ao nunca tornar sua personagem o clichê da garota aparentemente frágil, mas com outras facetas a serem descobertas; e Adriana Paz, que, com tempo consideravelmente menor em cena, chega no terço final da trama trazendo uma sensibilidade muito bonita para a jornada da protagonista. As quatro, com diferentes estilos de interpretação e instintos complementares para a questão musical, solidificam todas as qualidades da produção.
Emilia Pérez desenha um grande novelão mexicano — aliás, franco-mexicano — no melhor sentido dessa comparação. O terço final, especificamente, leva todas as personagens às últimas consequências após uma série de erros, mentiras, traições e disputas de poder. Não teria como ser diferente. Pelo menos não no universo de Emilia Pérez. E isso está longe de ser um problema porque o filme tem, repito, um notável domínio das tantas coisas que poderiam sair do controle, inclusive do ponto de vista musical, como privilegiar Selena Gomez, a cantora pop do elenco, no número de canções, o que definitivamente não acontece. Com orçamento e escalas maiores do que as de qualquer outro título de sua carreira, Audiard não sucumbe à avidez para impressionar. Trata-se do oposto: Emilia Pérez impressiona, justamente, por ter um diretor que compreende como criatividade, foco e rigor, quando combinados, nunca estarão a mercê de qualquer outra distração ou vaidade que o cinema possa oferecer pelo caminho.
EMILIA PÉREZ REVIEW
What if a French director decided to mix, in a musical set in Mexico, different stories involving family dramas, cartel crimes, transgender dilemmas, and reflections on the overwhelming mutilation caused by the trivialization of criminality in society? And what if he also chose to have four actresses, including a young pop star and a trans actress with no musical experience, sing in Spanish in the most unexpected settings, like in a doctor’s office or on top of tables at a lavish gala dinner? As often happens, the blend of so many ideas and such out-of-the-box elements could result in a schizophrenic, off-key film that, in trying to be many things, ends up being nothing at all. However, this is a statistic that does not apply to Emilia Pérez, a true cinematic event for skillfully escaping all the risks it took, and for showcasing an already established director – Jacques Audiard, of A Prophet, Rust and Bone, and Dheepan – shining through the kind of reinvention that defines a career.
As a representative of the musical genre, the film is a breath of fresh air, starting with the fact that it is entirely set outside the Hollywood axis, the industry where the genre gained its excellence. As good as they are, even combined, recent North American musicals don’t come close to the aesthetic and narrative refinement of Emilia Pérez. With songs composed by the duo Camille Dalmais and Clément Ducol (she, by the way, wrote and voiced the beautiful “Le Festin” from Ratatouille), Jacques Audiard ambitiously creates the film’s musical numbers, which occur in seemingly unusual situations but soon become full of meaning. He deftly incorporates these moments into the plot in an organic way, ensuring they don’t feel like random music videos within the narrative. The songs in Emilia Pérez, all tied to the story rather than catchy rhymes, speak volumes about the characters, while also driving the plot forward with rhythm, intrigue, and technical brilliance. Directing musicals isn’t for everyone, and sometimes not even for the most talented, which only heightens Audiard’s merits in this complex craft.
Written by the director himself, the film starts in one way, shifts with subplots, and branches out into various characters, but ultimately finds its emotional and dramatic core in the figure of the protagonist, of course, played by Karla Sofia Gascón. The touching aspect of the script lies in how Audiard does not make Emilia’s transgender journey a mere curiosity or the sole reason for the film’s existence. While, on one hand, there is inevitably the process of the character transitioning to her new identity, Emilia Pérez uses this personal journey to tell a broader story of redemption – both of the character with herself and of her reconciling with the countless mistakes of her past that destroyed lives. This is not an idealized or naive vision of starting over: Audiard constructs a layered character, and through her, offers a specific perspective on Mexico itself, a land where trafficking leaves countless mothers without the possibility of finding the bodies of their missing children. Emilia Pérez brings dignity, on a grand scale, to a topic that is largely underrepresented globally.
Gascón, by the way, is wonderful as the title character, from the awe inspired by her undeniable presence to the personal struggles of a woman entangled in a new life still very connected to the past. Alongside the film’s other three actresses, she won a well-deserved Best Actress award at the last Cannes Film Festival. Sharing the prize were: Zoe Saldaña, who, with the best musical numbers, shows a vitality and versatility perhaps never before seen in her career; Selena Gomez, increasingly committed as an actress and excellent at never turning her character into the cliché of the seemingly fragile girl with hidden facets waiting to be discovered; and Adriana Paz, who, with considerably less screen time, arrives in the final third of the film bringing a beautiful sensitivity to the protagonist’s journey. The four actresses, with different acting styles and complementary instincts for the musical elements, solidify all the strengths of the production.
Emilia Pérez paints a grand Mexican – or rather, Franco-Mexican – melodrama, in the best sense of the comparison. The final third, in particular, drives all the characters to the ultimate consequences after a series of mistakes, lies, betrayals, and power struggles. It couldn’t be any other way. At least not in the world of Emilia Pérez. And this is far from being a problem because the film, as mentioned before, has a remarkable command of all the elements that could have spiraled out of control, including the musical aspect, such as favoring Selena Gomez, the pop singer in the cast, with more songs, which definitely does not happen. With a larger budget and scope than any other film in his career, Audiard does not succumb to the temptation to impress. Quite the opposite: Emilia Pérez impresses precisely because it has a director who understands how creativity, focus, and precision, when combined, are never at the mercy of any other distractions or vanities that cinema might offer along the way.