Cinema e Argumento

43º Festival de Cinema de Gramado apresenta filmes concorrentes

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Depois de receber menção honrosa em Sundance por sua atuação, Regina Casé levará para casa o Kikito? Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, faz sua estreia nacional na competição do 43º Festival de Cinema de Gramado

O Festival de Cinema de Gramado, maior evento ininterrupto do gênero no Brasil, revelou na manhã desta terça-feira (30) as mostras competitivas de sua 43ª edição, que será realizada entre os dias 07 e 15 de agosto. É na cidade gaúcha – recentemente eleita o melhor destino turístico do Brasil segundo o TripAdvisor – que o longa Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, faz sua estreia nacional. Ainda inédito no Brasil, o filme estrelado por Regina Casé chegou a receber uma menção honrosa no Festival de Sundance pela atuação da atriz. No Festival de Berlim, a produção ganhou o prêmio da Confederação de Cinemas de Arte e Ensaio na seção Panorama. Muylaert tem trajetória especial com Gramado: Durval Discos, seu trabalho de estreia, foi o grande vencedor do Festival em 2002, com os Kikitos de melhor filme, direção e roteiro. Entre os longas brasileiros selecionados por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho, mais sete títulos disputam o Festival. 

Internacionalizado desde 1992, quando passou a promover uma mostra de filmes de língua latina (e o primeiro vencedor do Kikito de melhor direção foi ninguém menos que Pedro Almodóvar com De Salto Alto), o Festival de Cinema de Gramado só incluiu uma estrangeira em sua curadoria ano passado. A estreia da argentina Eva Piwowarski foi considerada um tanto decepcionante, visto que a mostra estrangeira apresentava um título a menos do que os habituais seis concorrentes. Este ano, não há o que se reclamar: são sete títulos selecionados, uma pluralidade admirável de países. Colômbia, México, Argentina, Equador, Costa Rica, Cuba e Uruguai estão representados na 43ª edição do evento. O recente vencedor do Oscar Alejandro González Iñárritu produz um dos filmes em competição: En La Estancia, dirigido por Carlos Armella. Além dos longas, o Festival também apresentou os concorrentes entre os curtas brasileiros e gaúchos.

O Troféu Oscarito, distinção do Festival destinada a grandes atores do cinema brasileiro, completa 25 anos em 2015. A simbólica data terá uma homenageada à altura do prêmio: Marília Pêra. Com 24 filmes no currículo, a atriz já foi consagrada duas vezes no Festival com o Kikito de melhor atriz: em 1987, com Anjos da Noite, e em 1983 com Bar Esperança – O Último Que Fecha. Em 2007, ela esteve na serra gaúcha ao lado do saudoso Eduardo Coutinho para encerrar o Festival com Jogo de Cena, considerada uma das obras-primas do diretor. Já o diretor Daniel Filho receberá o troféu Cidade de Gramado, um agradecimento especial da cidade a figuras do meio cinematográfico. As outras homenagens (Kikito de Cristal, para personalidade latina, e Eduardo Abelin, para cineastas) serão divulgadas posteriormente. Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados para o 43º Festival de Cinema de Gramado:

LONGAS BRASILEIROS
Ausência, de Chico Teixeira (SP)
Introdução à Música do Sangue, de Luiz Carlos Lacerda (RJ)
O Fim e os Meios, de Murilo Salles (RJ)
O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum (DF)
O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho (DF)
Ponto Zero, de José Pedro Goulart (RS)
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (SP)
Um Homem Só, de Cláudia Jouvin (RJ)

LONGAS ESTRANGEIROS
Ella, de Libia Stella Gómez (Colômbia)
En La Estancia, de Carlos Armella (México)
La Salada, de Juan Martin Hsu (Argentina)
Ochentaisiete, de Anahi Hoeneisen e Daniel Andrade (Equador)
Presos, de Esteban Ramírez Jímenez (Costa Rica)
Venecia, de Kiki Alvarez (Cuba)
Zanahoria, de Enrique Buchichio (Uruguai)

CURTAS BRASILEIROS
, de Leandro Tadashi (SP)
Como São Cruéis os Pássaros da Alvorada, de João Toledo (MG)
Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano (SP)
Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, de Felipe Arrojo Poroger (SP)
Haram, de Max Gaggino (BA)
Heroi, de Pedro Figueiredo (SP)
Macapá, de Marcos Ponts (MA)
Miss & Grubs, de Camila Kamimura e Jonas Brandão (SP)
Muro, de Eliane Scardovelli (SP)
O Corpo, de Lucas Cassales (RS)
O Teto Sobre Nós, de Bruno Carboni (RS)
Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, de Tiago Vieira (SP/GO)
S2, de Bruno Bini (MT)
Sêo Inácio (ou O Cinema Imaginário), de Helio Ronyvon (RN)
Virgindade, de Chico Lacerda (PE)

PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA – MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS
Arte da Loucura, de Karine Emerich e Mirela Kruel
Atrás da Sombra, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes
Bruxa de Fábrica, de Jonas Costa
Consertam-se Gaitas, de Ana Cris Paulus, Boca Migotto e Felipe Gue Martini
Da Vida Só Espero a Morte, de Júlia Ramos
De Que Lado Me Olhas, de Carolina de Azevedo e Elena Sassi
– Entre Nós, de Maciel Fischer
Ferro, de Giordano Gio

Kaali, de Gabriel Motta Ferreira
Liga-Pontos, de Teresa Assis Brasil
Madrepérola, de Deise Hauenstein
O Movimento do Escuro, de Alexandre Rossi

Nes Pas Projeter, de Cristian Verardi
O Corpo, de Lucas Cassales
O Sonho, o Limiar e a Porta que Metamorfoseia, de Gustavo Spolidoro
Pele de Concreto, de Daniel de Bem
Plano, de Virginia Simone, Carlos Dias e Matheus Walter
Quanto Mais Suicida, Menos Suicida, de Maurício Canterle Gonçalves
Rito Sumário, de Alexandre Derlam

Os curtas brasileiros em competição no 43º Festival de Cinema de Gramado

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Para chegar aos 15 curtas-metragens brasileiros selecionados para a mostra competitiva do 43º Festival de Cinema de Gramado, a comissão de seleção assistiu a mais de 500 produções de todo o Brasil. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O Festival de Cinema de Gramado começou 2015 se adiantando e na manhã desta terça-feira (16) divulgou a lista dos curtas brasileiros em competição da sua 43ª edição, marcada para acontecer entre os dias 07 e 15 de agosto. A seleção traz 15 filmes, onde São Paulo lidera com oito títulos. A comissão de seleção foi novamente coordenada pela jornalista e crítica Ivonete Pinto, que, dessa vez, teve a companhia dos seguintes profissionais para formar a mostra competitiva: Andrea Gloria, produtora; Leonardo Garcia, roteirista; Marcos Petrucelli, jornalista e crítico; Rodrigo Grota, diretor; e Sandra Dani, atriz. O grupo assistiu a um universo de 567 filmes. As 15 produções selecionadas vocês encontram abaixo. Mais informações no site http://www.festivaldegramado.net.

, de Leandro Tadashi (SP)
Como São Cruéis os Pássaros da Alvorada, de João Toledo (SP)
Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano (SP)
Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, de Felipe Arrojo Poroger (SP)
Haram, de Max Gaggino (BA)
Herói, de Pedro Figueiredo (SP)
Macapá, de Marcos Ponts (MA)
Miss & Grubs, de Camila Kamimura e Jonas Brandão (SP)
Muro, de Eliane Scardovelli (SP)
O Corpo, de Lucas Cassales (RS)
O Teto Sobre Nós, de Bruno Carboni (RS)
Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, de Tiago Vieira (SP)
S2, de Bruno Bini (MT)
Sêo Inácio (ou O Cinema Imaginário), de Helio Ronyvon (RN)
Virgindade, de Chico Lacerda (PE)

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #5: “Winter Sleep” e “À Procura”

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Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Vem da Turquia o filme mais longo a vencer a Palma de Ouro em Cannes. São nada menos que 196 minutos dirigidos por Nuri Bilge Ceylan, que, na realidade, finalizou sua primeira versão com 4h30, para depois reduzir à duração atual. Anos atrás, Ceylan já havia sido celebrado em Cannes com o prêmio do júri para o seu Era Uma Vez na Anatólia, mas só agora alcançou a honraria máxima – que, muitos dizem, veio para um menos interessante do que seu longa anterior. Não conferi Anatólia, então, este Winter Sleep foi uma experiência completamente inédita para mim, até porque tenho conhecimento quase zero sobre o cinema turco.

Não foi uma jornada fácil, o que não significa que tenha algo a ver com a duração (lembram que Azul é a Cor Mais Quente, vencedor da Palma de Ouro ano passado, tinha 180 minutos de duração que passavam voando?). O difícil mesmo foi o ritmo do filme, que, quase sem trilha sonora, é incrivelmente silencioso e calmo na forma como desenvolve situações e personagens. Não existe, em Winter Sleep, personagens sequer falando alto ou reviravoltas. Este é puramente um filme de diálogos e reflexões, com cenas que, sem exageros, chegam a durar 15 ou 20 minutos.

O roteiro, escrito por Nuri Bilge, em parceria com Ebru Ceylan, é baseado em pequenos contos de Anton Chekhov e mostra o dia a dia de Aydin (Haluk Bilginer), que administra um pequeno hotel na Anatólia, focando-se especialmente no conturbado relacionamento que ele tem com sua jovem esposa Nihal (Melisa Sözen) e nas conversas com sua irmã Necla (Demet Akbag), recentemente divorciada. É a partir destes encontros que ele tem com as figuras femininas que Winter Sleep ganha seus melhores momentos, em especial todos aqueles com Necla.

Todo o elenco de Winter Sleep é excelente, algo que fica ainda mais evidente nas longas tomadas em que o diretor faz com que os personagens divaguem não apenas sobre suas próprias vidas mas também sobre várias questões existenciais. Aliás, o filme de Nuri Bilge Ceylan, além de exigente em termos de duração, também pede ao espectador que embarque em várias discussões complexas e filosóficas sobre a vida. Nada pretensioso, mas esmiuçado lentamente, o que deve afastar milhares de plateias pelo mundo. Particularmente, não embarquei com entusiasmo na obra, e certamente preferia outros títulos de Cannes neste ano.

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À Procura, de Atom Egoyam

Logo quando começou À Procura, já bateu o cansaço: mais um filme sobre crianças desaparecidas. Tudo bem que Os SuspeitosO Lobo Atrás da Porta foram excepcionais na construção desses mistérios, mas o novo longa de Atom Egoyan não foi bem recebido em Cannes ou em qualquer outra parte. E, de fato, nem bem o filme chega na metade e já há diversos motivos bem justificáveis para a má receptividade. Em sua essência, À Procura é sobre um casal que perdeu o filho, mas, na tentativa de trazer resoluções e estruturas diferentes para uma história como essa, termina sendo tudo menos envolvente – tanto em efeitos dramáticos quanto policiais.

Indo e voltando no tempo sem qualquer trabalho de maquiagem ou transição decente que insinue o jogo temporal, À Procura já começa errado na escalação do elenco. Ryan Reynolds nunca foi bom ator, Rosario Dawson não poderia estar mais apática e Kevin Durand só é caricatura – este último por sinal, é o mais ineficiente de todos, fazendo um desserviço à trama como o vilão maluco que gosta de ópera e é abarrotado de bizarrices. Por isso, se a trama por si só já é perdida, o fraquíssimo elenco só amplia a sensação de que não devemos nos importar mesmo com as figuras que aparecem na tela.

É errada a escolha do egípcio Egoyan de nos mostrar onde está a garota desaparecida logo nos primeiros minutos de filme, tentando trabalhar, desta forma, a angústia por meio de como os pais e a polícia se aproximam ou não da rede criminosa. Só que o suspense é tolo, os personagens não sustentam a dramaticidade da história e algumas situações beiram os mais tolos dos clichês, como a ajudante de peruca que se infiltra em uma festa para colocar um Boa Noite Cinderela no copo da policial sem que ela perceba. Igualmente ridícula é, ainda nesta cena, a naturalidade com que Nicole (Dawson) conta basicamente todos os detalhes do caso que está investigando para uma mesa de estranhos em uma festa (e que, claro, é onde se encontra secretamente um dos criminosos). Quanta esperteza para uma policial consagrada em desvendar casos envolvendo crimes contra crianças!

Já não é de hoje que Egoyan faz este cinema irregular de Super Cine. Pelo menos duas de suas obras anteriores desempenham este papel: Verdade NuaO Preço da Traição. Só que se, nesses casos, existiam atores como Julianne Moore e Colin Firth para salvar ou pelo menos dar algum tipo de credibilidade às histórias mal conduzidas, não é o que ocorre com À Procura. Misteriosamente selecionado para a mostra competitiva de Cannes deste ano, o filme falha em todas as suas tentativas, sendo pífio no suspense policial e carente de emoções na parte dramática. Uma verdadeira bagunça.

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #3: “Livre” e “Acima das Nuvens”

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Livre, de Jean-Marc Vallée

Desde quando o trailer foi lançado já era possível deduzir que Livre seria uma versão 2.0 (no sentido negativo) do inspirador Na Natureza Selvagem. A impressão se confirma mesmo com o filme, que, apesar de comandado por um competente diretor, nunca chega a ter reflexões tão interessantes quanto as da história contada por Sean Penn em 2007. Serve mais, no final das contas, para reposicionar Reese Witherspoon como uma atriz a ser apreciada além de suas comédias românticas – o que só aconteceu anos atrás com Johnny & June, que, inclusive, chegou a lhe render um injusto Oscar de melhor atriz. E, mesmo assim, nada de tão espetacular ou muito desafiador a ponto de Reese já ser cotada para novas estatuetas.

Não que Livre seja um filme desinteressante, mas sempre tem um sabor requentado em praticamente todas as instâncias. O que existe de diferente neste novo trabalho do canadense Jean-Marc Vallée é o fato de ele ser protagonizado por uma mulher – algo que, inclusive, é acertadamente explorado pelo roteiro de Nick Hornby, baseado no livro homônimo da própria protagonista Cheryl Strayed, que sempre coloca no caminho da aventureira pessoas que duvidam de sua capacidade de cair sozinha na estrada ou que questionam o fato de ela andar por tantas cidades sem um homem ao seu lado. É uma reflexão sempre pertinente sobre a igualdade de todo e qualquer ser humano que o filme pontua de forma eficiente.

Cheryl (Witherspoon) já começa Livre em uma paisagem inóspita e, ao longo de sua jornada, vamos conhecendo, por meio de flashbacks, as razões para ela ter colocado uma gigantesca mochila nas costas e saído a pé sozinha para percorrer centenas de quilômetros. Curiosamente, porém, é no passado da protagonista que se concentram os melhores momentos do filme de Vallée. Se a princípio a escolha parece quase manjada, aos poucos se revela um grande acerto, já que a parte de sobrevivência de Livre está sempre no lugar-comum. Enquanto em Na Natureza Selvagem Christopher McCandless (Emile Hirsch) encontrava pessoas fundamentais para sua mudança ao longo de sua jornada, em Livre  os dias da protagonista na estrada são completamente lineares e sem grande consistência dramática.

Não só Reese Witherspoon tem mais desafios como o próprio filme envolve mais o espectador nas partes encenadas no passado. O casamento repleto de traições, o envolvimento com as drogas e  a relação com a mãe (Laura Dern, aproveitando cada minuto), além de, claro, serem fundamentais para explicar a atual situação de Cheryl, se sustentam perfeitamente bem sozinhos. Mas o que falta mesmo em Livre é alguma inovação – o que deve ser resultado da carreira corrida que Jean-Marc Vallée parece estar disposto a abraçar após o Oscarizado Clube de Compras Dallas. Com Demolition, marcado para ser lançado ano que vem, o diretor chega a uma média de um filme por ano. Vamos ver se lá a teoria de que seu talento se diluiu em projetos tão rápidos se confirma.

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Acima das Nuvens, de Oliver Assayas

Foi a própria Juliette Binoche que propôs a história de Acima das Nuvens para o diretor Oliver Assayas. Ele comprou a ideia, escreveu o roteiro, escalou Binoche e o filme chegou a concorrer este ano em Cannes. Gosto muito de Julianne Moore em Mapa Para as Estrelas, mas confesso que não teria ficado nada chateado se Binoche tivesse levado mais uma vez o prêmio de interpretação feminina (ela ganhou merecidamente pela primeira vez em 2010 com Cópia Fiel) por sua composição de Maria Enders, uma atriz que é convidada a participar do remake de um espetáculo que a revelou anos atrás – só que, dessa vez, no papel da mulher madura que é manipulada por garota mais jovem (esta segunda representada por Enders originalmente).

Ao contrário de Cópia Fiel, um filme excessivamente dialogado, teatral e quase pretensioso, este Acima das Nuvens é amplamente bem sucedido em todos os seus aspectos cinematográficos. É de tirar o chapeu como o francês Assayas fala praticamente o tempo inteiro sobre interpretação, escolha de papeis e preparação de elenco sem nunca entregar o seu filme à teatralidade. As longas cenas de ensaios e bastidores entre as personagem de Binoche e Kristen Stewart são bastante envolventes porque, além de filmadas com bastante fluidez, discorrem dinamicamente sobre outros temas pertinentes às figuras em cena e também ao mundo artístico no geral, como o conflito de gerações, os limites de envolvimento de um ator com um papel e os caminhos cada vez mais distorcidos da relação entre obra e público.

Acima das Nuvens já sai na frente porque a Maria Enders de Binoche é uma figura incrivelmente rica e aberta a interpretações. Ela conquista não só porque Assayas consegue de fato convencer o espectador de que Maria é uma estrela de quinta grandeza (e Binoche só se torna mais linda com a idade, principalmente quando tem joias, maquiagens e roupas da Chanel a sua disposição como aqui), mas porque sua profundidade no filme está longe de se resumir a questões profissionais: ela é envolvente em toda sua personalidade. Binoche, claro, tem sua grande parcela de contribuição, entregando mais uma performance intensa e completa. Quem não fica atrás é a também interessante Valentine de Kristen Stewart, aqui surpreendendo ao provar que, quando bem dirigida, responde à altura e pode ser um grande ponto positivo. Com Binoche, forma uma das melhores duplas do ano.

Aspectos pontuais de Acima das Nuvens estendem o filme além do necessário. É tardia, por exemplo, a entrada de Chloe Grace Moretz na trama, especialmente depois de tanto tempo sendo mencionada ao longo da história. Ela também não é necessariamente bem aproveitada, uma vez que o contraste de sua personagem com a de Binoche poderia ter rendido bem mais do que apenas uma ou duas cenas no terço final do filme. Mesmo com este desfecho um tanto arrastado, Acima das Nuvens não chega a se abalar como uma obra complexa e que, sem dúvida, deve melhorar em futuras revisões.

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #2: “Foxcatcher” e “Infância”

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Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo, de Bennett Miller

Com Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo (esta vai ser a primeira e a última vez que citarei este subtítulo brasileiro horroroso), o diretor Bennett Miller volta ao que sabe fazer de melhor. Depois de O Homem Que Mudou o Jogo, um filme que me parece, de certa forma, um desvio temático de sua carreira, Miller retoma o estilo que lhe consagrou com o ótimo Capote. Tanto o filme que impulsionou de vez a carreira de Philip Seymour Hoffman quanto Foxcatcher são sobre homicídios reais, mas obras infinitamente mais preocupadas em esmiuçar as conexões psicológicas que desencadeiam ou sucedem tais crimes. Para quem está embarcando no universo de Miller pela primeira vez, vale o aviso: o ritmo é pausado e bastante sóbrio, sendo o assassinato em questão apenas um detalhe – e não algo a ser esperado ou adivinhado.

Toda esta fórmula diferente e imersiva se repete em Foxcatcher. Protagonizado por Channing Tatum e Steve Carell, o longa acompanha os meses em que o lutador profissional Mark Schultz (Tatum) entrega sua carreira ao rico treinador John Du Pont (Carell). O que de início era apenas uma parceria profissional aos poucos se torna uma relação dependente, invasiva e, como a própria sinopse já anuncia, responsável por eventuais tragédias. Esta dinâmica tão suscetível a tons mais elevados é conduzida com plena sobriedade por Miller que, mesmo nos mínimos detalhes, age discretamente para envolver o espectador, como no espetacular uso da trilha sonora de Rob Simonsen. Isto não anula, entretanto, a tensão que existe no ar: sempre algo parece prestes a explodir – o que é mérito justamente do diretor de nunca pesar a mão nas cenas. O descontrole e os erros dos personagens não são projetáveis, e é aí que reside o suspense intrínseco de Foxcatcher.

Dentro das lutas olímpicas, os personagens medem forças e controle – inclusive o próprio Du Pont de Carell, que chega a entrar em uma competição para tentar provar algo para sua mãe (Vanessa Redgrave, em uma ponta de luxo) -, mas a verdadeira queda de braço está fora dos ringues. Disfarçada e praticamente silenciosa, mas está lá. Ciente disso, Miller concentra pouco de seu filme nas lutas e, quando as encena, coloca toda sua verdadeira ação nos olhos de quem está de fora ou de quem está dentro do ringue tentando comunicar algo para quem observa. Não é um filme de esporte, portanto, o que se revela um grande acerto também do roteiro escrito pela dupla E. Max Frye e Dan Futterman.

Praticamente irreconhecível como Du Pont, Carell consegue se esquivar de qualquer efeito colateral de sua marcante carreira cômica no cinema e na TV. Ele está realmente submerso neste personagem imprevisível e de poucas palavras, onde a maquiagem, aliada ao excelente trabalho corporal do ator, constrói uma figura impossível de ser lida. Ponto para a angústia. Bem escalados também estão os outros atores, em especial – e por incrível que pareça – Channing Tatum. Normalmente inexpressivo, o ator aqui, além da aptidão física que atende com naturalidade as exigências do papel, consegue direcionar com segurança seu personagem calado e eventualmente impulsivo, mas sem nunca transformá-lo em um tolo brutamonte. Desde já cotado para o próximo Oscar, Foxcatcher é um legítimo Bennett Miller (vale lembrar que o diretor chegou a ganhar prêmio em Cannes de direção por seu trabalho aqui) e, caso realmente chegue nas premiações, será uma conquista das mais merecidas da temporada.

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Infância, de Domingos Oliveira

Já não é novidade para ninguém que Domingos Oliveira há anos não realiza um filme realmente relevante. Hoje, o veterano parece cada vez mais apegado a uma fórmula e a antigos maneirismos. Era quase desesperançoso o último filme dele: Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, reciclagem realizada na casa de sua amiga Maitê Proença. Por isso, quando surgiu a notícia de Infância, as atenções eram todas voltadas para Fernanda Montenegro vivendo a matriarca desta história sobre uma nobre família carioca nos anos 1950. Existem pelo menos duas boas notícias: Fernanda, claro, atende todas as expectativas e o filme em si até que chega a ser inspirado para o padrão quase preguiçoso estabelecido por Domingos em seus últimos trabalhos.

O início não é lá muito atraente, pois o diretor continua querendo aparecer demais, com a insistência em narrar seus filmes (o que, com todo respeito, é incômodo, já que Domingos, com a idade, não está com a melhor das dicções) e em sempre dar um jeito de estar em cena. Mas aqui não é tão grave e o diretor está particularmente inspirado no trabalho com os atores. Se Fernanda não deve precisar de maiores orientações, grande parte dos atores se mostra bem conduzida por seu Domingos.

Eles dão o tom para toda a bem humorada comédia de Infância, estruturada pelo roteiro como um clássico relato familiar comum a todos nós. Aqui, encontramos a matriarca que acha que tem o direito de se intrometer na vida de todos, a filha que sempre quer agradá-la, o genro um tanto trambiqueiro e a criança prodígia. Não deixam de ser figuras estereotipadas, mas Domingos sabe administrá-las com leveza e descontração – o que faz toda a diferença para que os atores se sintam à vontade em cena. O resultado é percebido, pois Infância tem na dinâmica de seus intérpretes um de seus pontos mais interessantes.

Para quem não gosta de filmes com veia teatral, é bom, portanto, não ir com muitas expectativas. Não tenho maiores restrições ao estilo (quando não é extremado, claro, como no destrambelhado Deus da Carnificina), mas os leigos devem se preparar para uma longa cena na mesa de jantar e várias outras centradas exclusivamente no texto e nas atuações. Muitas vezes, Infância, por não querer desenvolver muito além do mero relato cotidiano de uma família, soa sem assunto e repetitivo, mas é difícil se importar com isso quando a grande Fernanda Montenegro ganha um destaque à altura e nos lembra – mais uma vez – o porquê de ser merecidamente considerada a melhor atriz do Brasil.

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