Cinema e Argumento

Jornalismo em Convergência

No primeiro semestre de 2011, finalmente me deparei com um desafio que tanto esperava: a monografia. O tema, claro, era óbvio: crítica de cinema. Problema de pesquisa, hipótese e objetivos, por exemplo, ainda não eram claros para mim. Mas logo tudo foi se encaminhando e, no final do ano, tive a honra de receber o grau máximo pelo trabalho que desenvolvi em Jornalismo em Convergência: As diferentes linguagens a partir do trabalho da crítica de cinema Isabela Boscov.

Na monografia, que totalizou 58 páginas, um comparativo entre os trabalhos que a jornalista Isabela Boscov realiza para as versões impressa e online da revista VEJA. A pergunta era: afinal, em qual meio de comunicação ela consegue expressar melhor as suas opiniões? Resolvi publicar esse trabalho porque, ao longo do semestre em que realizei pesquisas, tive imensa dificuldade em encontrar referências sobre produção de conteúdo para a web (2.0, para ser mais exato) e, principalmente, sobre videocasts. Segue o resumo da monografia:

O presente estudo pretende identificar os elementos e recursos que a crítica de cinema da Revista VEJA, Isabela Boscov, utiliza para desenvolver o que pensa sobre determinado filme e, a partir daí, indicar em qual das mídias a opinião da jornalista está mais desenvolvida e com maior qualidade de comunicação: versão impressa ou eletrônica. Utilizamos como objeto os textos e videocasts sobre os filmes Amor Sem Escalas e 72 Horas, e, como metodologia, a Análise de Conteúdo. Nosso foco está no aspecto qualitativo, tendo como referencial a linguagem, o verbal e o não-verbal no que diz respeito à construção dos produtos publicados, seja na mídia impressa ou nos vídeos presentes na Web. A pesquisa aponta que Isabela Boscov desenvolve e consegue comunicar melhor sua visão dos filmes nas críticas que faz para a mídia impressa.

A parte de Jornalismo em Convergência relacionada ao mundo virtual foi construída a partir de artigos e pesquisas – a maioria encontrada em endereços eletrônicos. Portanto, a publicação desse estudo também tem como objetivo poder contribuir, de um jeito ou de outro, para futuros projetos sobre o tema. E, lembrando, a reprodução é autorizada, desde que citada a fonte. Clique aqui para ler.

“Pina” em imagens

Em Pina, Wim Wenders se interessa mais pelas imagens do que pelas palavras.

E ele está certo. Elas são certeiras para apresentar a carreira de Pina Bausch.

Por outro lado, é filme para um público específico:

Pina exige sensibilidade e, acima de tudo, amor pela arte.

Tempo e vento em nova forma

Foto: Jayme Monjardim

Porto Alegre, 1949. Pela primeira vez, O Continente, segmento inicial da trilogia O Tempo e o Vento, era publicado. Nas páginas do livro, a formação do Rio Grande do Sul, através das famílias Terra e Cambará. O ponto de partida está na história de Ana Terra, que, a contragosto do pai, tem um filho com o índio Pedro Missioneiro. A partir daí, seguem personagens e situações icônicas da literatura gaúcha. O cenário? Santa Fé, palco de dramas familiares, romances conturbados e conflitos históricos do Rio Grande do Sul. A obra escrita pelo gaúcho Erico Verissimo abrange a história do Estado de 1680 até 1945 (ano em que o Estado Novo chegou ao fim).

O Tempo e o Vento, estruturado em três partes (O Continente, O Retrato e O Arquipélago) é considerado, até hoje, um dos grandes marcos da literatura gaúcha. Seus sete livros são tratados por muitos como obras definitivas sobre o Estado. No entanto, foi O Continente, a parte mais rica em personagens e conflitos, que conseguiu maior reconhecimento. Em nível nacional, a primeira parte da trilogia chegou a ser adaptada para a TV: na minissérie exibida em 1985, o diretor Paulo José e os roteiristas Regina Braga e Doc Comparato condensaram o enredo em 25 capítulos, trazendo, no elenco, nomes como Glória Pires, Tarcísio Meira e Louise Cardoso.

Reprisada recentemente pelo canal Viva, O Tempo e o Vento também recebeu adaptações para o cinema que não chegaram a ser grande sucesso. Agora, a obra de Erico Verissimo volta a ter destaque. O infinito encanto da trilogia é tema do novo filme do diretor Jayme Monjardim que está sendo produzido, homônimo à obra de Erico. O próprio Monjardin, que, anteriormente, começou sua carreira no cinema com Olga, já entrou no clima gaúcho: a partir do dia 8 de março, ele se muda para o Rio Grande do Sul, de onde só sai quando as filmagens na região tiverem chegado ao fim. Apesar das cenas de estúdio serem feitas no Polo Cinematográfico de Paulínia, em São Paulo, outras tomadas serão feitas em Bagé, onde o trabalho para a escolha de figurantes já começou (mais de 600 candidatos em menos de 15 dias).

Os gaúchos, claro, não poderiam deixar de estar presentes na equipe do longa. O diretor-assistente, Federido Bonani, é de Santana de Livramento, e não esconde o contentamento com um trabalho sobre a sua terra: “Fui criado na fronteira e muito próximo dos costumes e do universo literário riograndense. Quando fui convidado pelo Jayme, há uns cinco anos, na hora pensei: ‘Não existe obra literária mais cinematográfica que O Tempo e o Vento. Depois deste filme posso pendurar as chuteiras’, pois já estaria satisfeito com as minhas participações em realizações cinematográficas”.

Bonani, que trabalha frequentemente como diretor e também como assistente, já havia participado de uma importante produção gaúcha, Netto Perde Sua Alma. Para ele, muito mudou desde esse trabalho. Além de um impulso em sua carreira, representou um voto de confiança que até hoje tem resultados: “O Tabajara Ruas e o Beto Souza confiaram em mim para a direção das cenas de batalha e, até hoje, colho os frutos daquela sequência de guerra. Há pouco tempo fui chamado para batalha do início da novela Cordel Encantado, e já dirigi cenas de guerra e cenas de ação em A Casa das Sete Mulheres, Olga, Um Só Coração, América, Eterna Magia, Sítio do Pica-pau Amarelo, entre outras”.

Mais especificamente sobre O Tempo e o Vento, o diretor-assistente acredita que a experiência será imensurável, principalmente no que se refere à equipe reunida. “Só tem gente experiente!”, exclama. Monjardin trouxe para o filme nomes como Affonso Beato, que já fez a fotografia de trabalhos internacionais como A Rainha, Tudo Sobre Minha Mãe e O Amor Nos Tempos do Cólera. O roteiro ficou a cargo de Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas, que têm a missão de capturar os 150 anos que são retratados pelo filme, basicamente centrado na primeira parte da trilogia, O Continente.

O filme, atualmente, encontra-se na conclusão de elenco e cenários para, em breve, entrar na etapa de leituras, ensaios e preparação de atores. Sem falar, claro, nas visitas às locações com o fotógrafo e sua equipe. “Muitas providências serão tomadas nas semanas que faltam”, comenta Bonani, que ainda destaca alguns desafios da produção, como a complexidade da estrutura do roteiro, a constante evolução da cidade de Santa Fé e dos personagens ao longo dos 150 anos retratados pelo longa, o trabalho com os índios e as cenas de guerra.

A diretora de arte, Tiza Oliveira, aponta que a maior responsabilidade de fazer um filme como O Tempo e o Vento é fazer algo à altura do povo gaúcho, que conhece perfeitamente sua história e que tem “um cunho patriota raro de se ver”. Para isso, Tiza está entrando de cabeça na história gaúcha, não só fazendo pesquisas baseadas em referências iconográficas de pintores da época retratada pela produção, mestrados e doutorados sobre a obra de Erico, mas também participando de encontros com grandes nomes da cultura riograndense, como Paixão Côrtes e Telmo de Lima Freitas. “A produção é trabalhosa, pois os objetos daquela época são raros, difíceis de achar, então há que produzi-los – desde baralhos, passando por jornais, rocas de fiar, carros de boi, gado e armas de época, e por aí vai”, comenta.

Tiza, assim como Bonani, já havia trabalhado com cinema anteriormente. Ela fez a direção de arte do filme Olga. O processo para O Tempo e o Vento, no entanto, é completamente oposto. Ao passo que Olga era uma produção urbana feita em locações que precisavam diferenciar Rúsia, Alemanha e Brasil, o novo filme de Jayme Monjardim exige algo diferente: marcar a passagem do tempo. “Temos construções de sets de gravação de épocas distantes, desde as Missões, em 1747, passando pelo rancho de Ana Terra, ainda no século 18, até chegarmos à cidade cenográfica de Santa Fé, cuja história dura todo o século 19”, aponta.

O Tempo e o Vento, além da equipe experiente, já conseguiu importantes nomes para o elenco. Thiago Lacerda será Capitão Rodrigo, enquanto Fernanda Montenegro dará vida à Bibiana em seus últimos anos de vida. Recentemente, Marjorie Estiano e Rafael Cardoso também foram integrados ao grupo que já reúne outros atores como Leonardo Machado, Luiz Carlos Vasconcelos e Leonardo Medeiros.

A obra de Erico Verissimo parece ser suficientemente inspiradora para que as diferenças culturais não sejam mais obstáculos. Paulista, Tiza de Oliveira reconhece toda a importância da trilogia gaúcha: “Conheço desde sempre a obra de Erico, que considero obrigatória, não só pelo valor literário, como pela história. Não há quem leia essa obra sem se sentir realmente nos pampas, acompanhando essa saga, sentindo o Minuano nos ossos e se orgulhando de seu país”.

Federico Bonani não esconde suas expectativas com o filme: “Que o filme seja lindo e bom, que o público assista ao filme e perceba que adaptamos a obra com o maior respeito, e a nossa narrativa seja fluente e traga uma boa experiência ao espectador. E o mundo conheça um pouco mais da história da nossa gente”. O Tempo e o Vento, portanto, mostra que, apesar de contar uma história tradicionalista, não se restrige à terra dos gaúchos. É, antes de mais nada, um registro histórico e humano. Que o filme consiga passar essa mesma sensação. O Tempo e o Vento tem estreia prevista para o final de 2012.

(matéria produzida originalmente para o site Cultnews).

As indicações ao Oscar de… Alexandre Desplat

Hoje, todo cinéfilo conhece o francês Alexandre Desplat. Entretanto, até cinco anos atrás, poucos sabiam de sua existência. Indicado para quatro Oscars, esse francês de 50 anos é o compositor que mais trabalha atualmente, além de ser extremamente eclético, fazendo trilha para blockbusters, dramas, animações e suspenses. O melhor de Desplat é que ele nunca perde o ritmo e, mesmo que, de vez em quando, apresente trabalhos reciclados, está sempre dando provas de originalidade. Confira, abaixo, breves análises das quatro vezes em que o compositor foi indicado ao Oscar:

2007 – Melhor Trilha Sonora

Javier Navarrete (O Labirinto do Fauno)

Philip Glass (Notas Sobre Um Escândalo)

Alexandre Desplat (A Rainha)

Gustavo Santaolalla (Babel)

Thomas Newman (O Segredo de Berlim)

Pouco interessa se Alexandre Desplat merecia estar nessa lista com A Rainha ou com O Despertar de Uma Paixão, filme que lhe rendeu um merecido Globo de Ouro. As duas trilhas são ótimas e foram perfeitas introduções do compositor para o público que até então não tinha muito conhecimento de sua obra (ela já incluía bons trabalhos como Reencarnação e Moça Com Brinco de Pérola). Desplat poderia sim ter vencido o prêmio logo de cara, uma vez que a segunda estatueta para o subestimado Gustavo Santaolalla foi apenas uma consolação para Babel, filme que era um dos favoritos daquela cerimônia e que não poderia sair da festa de mãos abanando. Além de um merecido reconhecimento para A Rainha, seria também um importante voto de confiança para esse compositor que não deixaria de dar constantes provas de talento a partir daí. Se não fosse Desplat, que pelo menos tivessem premiado a bela trilha de O Labirinto do Fauno, ou, então, a de Notas Sobre Um Escândalo, para corrigir as injustiças absurdas que já cometeram com o mestre Philip Glass, que, pasmem, não tem Oscar até hoje.

2009 – Melhor Trilha Sonora

Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button)

A.R. Rahman (Quem Quer Ser Um Milionário?)

Thomas Newman (WALL-E)

James Newton Howard (Um Ato de Liberdade)

Danny Elfman (Milk – A Voz da Igualdade)

Obra-prima de Alexandre Desplat, a trilha de O Curioso Caso de Benjamin Button não conseguiu rivalizar com a de Quem Quer Ser Um Milionário?, do indiano A.R. Rahman – um sujeito que, assim como Santaolalla, é bastante superestimado. O trabalho de Desplat era, claramente, o mais consistente entre todos, criando uma atmosfera impecável para o filme de David Fincher. Estranho ver a Academia se rendendo ao trabalho de Rahman, já que a trilha é basicamente composta por canções (três delas indicadas ao prêmio em sua respectiva categoria). 2009 também foi um ano de gigantes, onde ainda concorriam outros profissionais que até hoje não sentiram o gosto do que é vencer um Oscar, como Thomas Newman (inspirado em sua trilha para WALL-E, outro que merecia mais reconhecimento), James Newton Howard e Danny Elfman. Rahman, cujo prêmio foi mais pela empolgação exacerbada com o filme de Danny Boyle, realizou sim um trabalho muito interessante, mas que, hoje, já não fica tanto na memória quanto O Curioso Caso de Benjamin Button, de Alexandre Desplat.

2010 – Melhor Trilha Sonora

Michael Giacchino (Up – Altas Aventuras)

Alexandre Desplat (O Fantástico Sr. Raposo)

Hans Zimmer (Sherlock Holmes)

James Horner (Avatar)

Marco Beltrami & Buck Sanders (Guerra ao Terror)

No ano em que Marco Beltrami e Buck Sanders foram inexplicavelmente lembrados pela trilha de Guerra ao Terror (mais um caso de indicação só para bajular um filme) e que Abel Korzeniowski não foi citado por seu perfeito trabalho em Direito de Amar, poderíamos esperar qualquer loucura para o vencedor. Desplat, por O Fantástico Sr. Raposo, não tinha qualquer chance de vencer, pois Michael Giacchino era, merecidamente, o favorito por seu ótimo trabalho em Up – Altas Aventuras. Era mesmo o ano da Pixar nessa categoria, porque os já consagrados Hans Zimmer e James Horner dificilmente venceriam por seus respectivos trabalhos. Vale lembrar, claro, que Desplat, seguindo o seu padrão de alta quantidade de trilhas por ano, ainda tinha dois excelentes trabalhos elegíveis: Coco Antes de Chanel e Chéri. Trabalhos, inclusive, que eram mais merecedores do que o próprio indicado do francês.

2011 – Melhor Trilha Sonora

Trent Reznor & Atticus Ross (A Rede Social)

Hans Zimmer (A Origem)

Alexandre Desplat (O Discurso do Rei)

John Powell (Como Treinar o Seu Dragão)

A.R. Rahman (127 Horas)

Desplat não seria Desplat se não se envolvesse com os projetos certos. Entre tantos trabalhos, eis que ele foi parar no grande vencedor do ano de 2011. E, se num primeiro momento, pode até parecer que o compositor foi indicado apenas pelo buzz de O Discurso do Rei, logo percebemos que não é bem assim: a trilha, simpática e com uma música-tema muito interessante, merecia mesmo estar ali. Mas não para vencer. Assim como o próprio filme de Tom Hooper, era o indicado “clássico” e sem ousadias de sua categoria. Se O Discurso do Rei conseguiu bater seus rivais na categoria principal, Desplat não alcançou tal feito, até mesmo porque os vencedores, Trent Reznor e Atticus Ross, mereceram a estueta pelo trabalho contemporâneo e diferente. Outro cotadíssimo desse ano era Hans Zimmer, que criou composições emblemáticas para o grandioso A Origem. Entre as ausências, Daft Punk, por Tron – O Legado. A dupla merecia figurar entre os cinco selecionados, fazendo par com A Rede Social. As duas trilhas têm muito em comum.

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No próximo post: George Clooney.

Dez cenas do cinema em 2011

A perfeição de Nina (Natalie Portman), em Cisne Negro.

A sequência final de Um Sonho de Amor.

Kermit relembra o passado cantando Pictures in My Head, em Os Muppets.

O desfecho de Melancolia.

Uxbal (Javier Bardem) pede que a filha nunca o esqueça, em Biutiful.

Emily (Julianne Moore) inventa uma desculpa e liga para Cal (Steve Carell), em Amor a Toda Prova.

O passado de Snape (Alan Rickman) no flashback de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2.

“Já conheço os passos dessa estrada. Sei que não vai dar em nada”, em As Canções.

All the Lovers encerra Aphrodite: Les Folies, show de Kylie Minogue gravado em 3D especialmente para os cinemas.

Discussão final + créditos de Namorados Para Sempre.