Dívida de Honra
I live uncommonly alone.

Direção: Tommy Lee Jones
Roteiro: Kieran Fitzgerald, Tommy Lee Jones e Wesley A. Oliver, baseado no romance “The Homesman”, de Glendon Swarthout
Elenco: Hilary Swank, Tommy Lee Jones, Grace Gummer, Miranda Otto, Sonja Richter, Hailee Steinfeld, Meryl Streep, John Lithgow, James Spader, Jo Harvey Allen, Barry Corbin, David Dencik, William Fichtner, Evan Jones, Caroline Lagerfelt, Jesse Plemons
The Homesman, EUA/França, 2014, Western, 122 minutos
Sinopse: 1854. Por mais que seja forte e independente, Mary Bee Cuddy (Hilary Swank) guarda uma profunda mágoa devido à solidão que sente. Ela precisa levar três mulheres insanas até o Iowa, onde poderão viver em paz. No caminho ela encontra George Briggs (Tommy Lee Jones), um criminoso que tem sua vida salva por Mary Bee. Em retribuição, ele segue viagem ao lado dela e a ajuda em sua jornada. (Adoro Cinema)

Poucos gêneros morreram tanto com o passar dos anos quanto o western. Pelo menos na safra mais recente do cinema é preciso forçar a memória para lembrar de exemplares deste nicho. E o pior: mais difícil ainda é se recordar de westerns recentes de grande qualidade. Uma vez ou outra surge uma diversão descompromissada como Os Indomáveis, mas é quase raro encontrar produções do gênero, que teve seu último momento realmente excepcional em 1992 com Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Surpreendentemente, o western é agora oxigenado por Tommy Lee Jones com Dívida de Honra, um filme sensível, envolvente e bastante subversivo. Mesmo fracassando nas bilheterias estadunidenses (faturou apenas pouco mais de dois milhões de dólares), merece lugar cativo na agenda de todos os apreciadores do gênero e do cinema em geral.
Se a tarefa de elencar westerns recentes já é complicada, o que dizer, então, de um estrelado por uma mulher? Dívida de Honra, além de ser não ser centrado em uma figura masculina, inova por ter uma forte veia feminista. Em terras predominadas por homens, Mary Bee Cuddy (Hilary Swank, ótima) é uma mulher que foge dos padrões de seu tempo e espaço: com mais de 30 anos, é solteira e não tem filhos, administrando sozinha uma propriedade. Se deseja um casamento, não é por convenções sociais, e sim para preencher uma solidão que já a assombra há anos. Assim, as paisagens desérticas do filme dirigido por Tommy Lee Jones são mais do que apropriadas para ilustrar a vida da protagonista que, mais uma vez subvertendo as expectativas de uma sociedade, topa abraçar uma missão rejeitada covardemente por todos os homens da região: a de atravessar milhas até Iowa para levar três mulheres repudiadas pela cidade após surtos de loucura (uma delas por ter perdido três filhos em uma semana para a difteria, por exemplo) a um lugar onde possam ser devidamente tratadas e viver em paz.
Mary Bee Cuddy encontra no caminho George Briggs (Jones), que passa a ser seu companheiro na tal jornada, mas, mesmo quando não está em cena, a personagem permanece com o espectador. É resultado da presença marcante de uma mulher repleta de dúvidas como todos nós, mas forte e a frente de seu tempo. Ou seja, os holofotes de um western estão em uma mulher e só por isso Dívida de Honra, integrante da mostra competitiva do Festival de Cannes de 2014, já não merecia amargar fracasso ou muito menos esquecimento. O filme em si também é realmente muito bom, optando por deixar o bangue bangue ou as corridas a cavalo de lado para se focar na relação que se estabelece entre os dois protagonistas. A ambientação e as possibilidades de um western, portanto, servem justamente para falar sobre pessoas. O contraste entre Briggs e Cuddy (ele, apesar de mais experiente, não tem o pulso firme dela) ainda é fundamental para manter o interesse na história, ao mesmo tempo que Dívida de Honra ganha pontos em sua sustentação pela questão da loucura: como percorrer milhas em paisagens solitárias carregando três mulheres instáveis, surtadas e imprevisíveis?
Por mais que carregue sua dose de tensão em função de toda a circunstância dos protagonistas, o filme de Jones tem seus melhores momentos mesmo na relação e nas discretas transformações dos personagens. Dívida de Honra cumpre com louvor o mais básico conceito de um road movie: a de que nunca chegamos ao final da estrada da mesma forma que entramos nela. Com um excelente design de produção e uma bonita trilha sonora (é Marco Beltrami voltando ao mundo dos westerns com algo bastante diferente de Os Indomáveis), o longa pode não ter o desfecho mais revelador ou impactante como se poderia esperar, mas toda a construção até lá é riquíssima, sempre de forma sóbria e sem exposições escancaradas. Solenemente ignorado na temporada de premiações (nem uma esperada indicação a melhor atriz para Hilary Swank se concretizou), Dívida de Honra parece não ter sido compreendido muito bem nem pela crítica. Porém, assim como Mary Bee Cuddy, merece quebrar barreiras e ser lembrado com carinho por aqueles que o encontrarem.
Dois Lados do Amor
He went soft. I stayed hard. That was that.

Direção: Ned Benson
Roteiro: Ned Benson
Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Isabelle Huppert, Viola Davis, William Hurt, Ciarán Hinds, Bill Hader, Jess Weixler, Nina Arianda, Nikki M. James, Wyatt Ralff, Jeremy Shamos, Daron Stewart, June Miller, Julee Cerda, Johnathan Fernandez, Justine Salata
The Disappearance of Eleanor Rigby: Them, EUA, 2014, Drama, 123 minutos
Sinopse: Nova York, Estados Unidos. Connor Ludlow (James McAvoy) e Eleanor Rigby (Jessica Chastain) são casados, mas a incurável dor de um trágico acontecimento a faz deixar repentinamente o marido e a vida que levava até então. Enquanto ela tenta recomeçar e busca novos interesses, ele tenta reencontrar o amor desaparecido e entender o que de fato aconteceu. (Adoro Cinema)

Certa vez li que Namorados Para Sempre é um filme que não funciona porque simplesmente é impossível se importar com um casal que já começa um filme separado. Tal afirmação é de uma tolice tremenda. Ora, desde quando precisamos acompanhar de forma linear todos os passos de uma cartilha romântica para que possamos nos importar com dois personagens? E será mesmo que, na desconstrução de um relacionamento, não conseguimos encontrar as forças que uniram duas pessoas? Sou um grande fã de histórias românticas que não deram certo e muitas delas (que não vou citar aqui para não estragar a surpresa de quem não as conferiu) ganham um lugar especial exatamente porque se aproximam da vida e mostram que as memórias pós-separação podem tornar momentos pregressos ainda mais significativos. Seguindo essa linha, Dois Lados do Amor (mais uma tradução brasileira equivocada e oportunista) evoca novamente a abordagem para falar sobre duas pessoas que vivem jornadas individuais em busca de um recomeço.
Concebido como um filme de duas partes, Dois Lados de Amor chegou a ser exibido comercialmente nos Estados Unidos com esse formato, onde cada um dos volumes explorava mais a percepção de um personagem do que de outro. A versão que chega ao Brasil, entretanto, condensa tudo em um longa de duas horas, também exibida no Festival de Cannes do ano passado. Não existem prejuízos nessa escolha, pois Dois Lados do Amor é bem sucedido ao se focar muito mais na versão de Eleanor (Jessica Chastain) do que na de Connor (James McAvoy). Isso porque ela tem os dilemas mais envolventes, trazendo a história de uma jovem que, após o afastamento, é salva de uma tentativa de suicídio. Figuras femininas por si só normalmente já se destacam em dramas dessa natureza, mas aqui o texto está a favor de Jessica Chastain, especialmente quando o diretor Ned Benson coloca em seu núcleo atores do calibre de Isabelle Huppert, William Hurt e Viola Davis, todos coadjuvantes com pelo menos algum tenro significado na trajetória de recuperação emocional da protagonista.
O início de Dois Lados do Amor pode facilmente enganar e fazer jus a sua equivocada tradução brasileira. Apostando em um tom popular, a história começa mostrando o casal protagonista em um dos maiores clichês de histórias românticas: a divertida fuga do restaurante quando ambos, recém descobrindo as alegrias de uma nova paixão, percebem que estão sem dinheiro para pagar a conta. Mas é apenas questão de tempo para que o tempo avance e encontremos duas pessoas distantes, de vidas separadas e que tentam encontrar algum tipo de recomeço. Aos poucos descobrimos que a tristeza que permeia a vida de Eleanor e Connor é muito mais complexa do simplesmente não terem dado certo como um casal. A partir do roteiro que ele próprio escreveu, o diretor Ned Benson, porém, não faz com que seus personagens explodam em cena ou teçam longos diálogos sobre culpas e arrependimentos. O que existe em Dois Lados do Amor é um tom pausado e melancólico para que adentremos ainda mais no emocional dos dois protagonistas.
Ainda que permeado por uma grande melancolia e um tratamento bastante intimista sobre os reflexos de um rompimento, o longa não chega, por exemplo, ao peso de Alabama Monroe, considerando histórias mais recentes sobre relacionamentos desconstruídos ou acometidos por uma tragédia. De certa forma isso chega a ser um alento (difícil algum filme superar a dor daquele longa sueco), mas não pense que Benson se exime de dar uma devida carga de intensidade ao resultado. A diferença é que aqui ela está focada muito mais nos pequenos momentos, onde Dois Lados do Amor prefere mastigar o mínimo possível para deixar a dor muito mais como uma atmosfera indissipável na vida dos personagens do que como algo escancarado. É nesse silêncio de conversas que sugerem ser sobre assuntos cotidianos mas que na realidade significam muito mais que a experiência se torna tão reflexivo.
A venda errada aqui no Brasil não deve ajudar essa obra atípica e preocupada em mostrar sobre como se sobrevive ou não a uma separação (e a outras tragédias pessoas também). O amor está ali sim, mas fatigado, dolorido e como apenas uma (boa?) memória que hoje já não parece fazer mais tanto sentido. É uma história bem contada, com excelentes atores (James McAvoy se sai bem e continua sendo um dos atores mais subaproveitados da atualidade, ao passo que o ponto alto fica mesmo na atuação de Jessica Chastain) e que não merecia ser disseminada com um viés que simplesmente não é o foco. Se o resultado cru já não é facilmente palatável para muitas plateias, imaginem, então, com as ideias erradas que a distribuidora adotou para levar o filme às salas. Já para quem souber onde está embarcando, certamente essa será uma experiência bastante diferente e recompensadora.
Annie
I’m putting on my best show under the spotlight.

Direção: Will Gluck
Roteiro: Aline Brosh McKenna e Will Gluck, baseado nos desenhos “Little Orphan Annie” e no texto teatral homônimo de Thomas Meehan
Elenco: Quvanzhané Wallis, Jamie Foxx, Cameron Diaz, Rose Byrne, Bobby Cannavale, David Zayas, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Zoe Margaret Colletti, Nicolette Pierini, Eden Duncan-Smith, Amanda Troya, Dorian Missick, Tracie Thoms
EUA, 2014, Comédia/Musical, 118 minutos
Sinopse: Annie (Quvenzhané Wallis) é uma jovem órfã que vive em um orfanato comandado com mão de ferro pela senhora Hannigan (Cameron Diaz). Sua vida muda ao ser escolhida para passar alguns dias na mansão de um milionário político (Jamie Foxx), onde acaba fazendo amizade com seus funcionários e sendo usada para fins eleitoreiros. (Adoro Cinema)

Will Gluck é um diretor que sabe dialogar com o grande público. Ao criar obras previsíveis e até mesmo manjadas mas devidamente agradáveis, Gluck construiu certa linearidade em sua carreira com filmes como Amizade Colorida e A Mentira. É só você não exigir muito dele que a diversão está garantida. Por isso, ele parecia ser o nome certo para comandar a nova versão cinematográfica Annie, espetáculo da Broadway já adaptado anteriormente para o cinema em 1982 e para a TV em 1999. A teoria é endossada pelos primeiros minutos de filme, onde acompanhamos a protagonista Annie (Quvanzhané Wallis) em seu último dia de aula antes das férias cantando nas ruas de Nova York e no apartamento onde mora com suas amigas órfãs sob a tutela de uma impostora (Cameron Diaz). As passagens são repletas de graça e inocência, com uma linguagem que teria colocado Annie, anos atrás, como um verdadeiro clássico infantil da Sessão da Tarde. Tudo funciona até. Já quando o filme começa a construir uma história, o jogo inverte por completo.
Seria maravilhoso ver Annie se tornar uma fábula contemporânea para os pequenos, que estão cada vez mais carentes de obras populares com pequenas mas importantes lições. Também seria um alento curtir um musical descontraído, leve e inocente ao estilo Hairspray – Em Busca da Fama. Tudo isso era possível em Annie, mas é curioso ver como Gluck acerta no tom empregado em sua direção mas peca demais na adaptação do texto feita em parceria com Aline Brosh McKenna (cujo trabalho mais célebre no cinema foi o roteiro de O Diabo Veste Prada). A refilmagem, toda embalada para dar certo, frustra com um conteúdo frágil demais para sustentar a atenção de qualquer pessoa. Na jornada da garotinha órfã em busca dos pais que esbarra na vida de um candidato a prefeito (Jamie Foxx) sedento por uma novidade para impulsionar sua campanha, não existem grandes originalidades. O problema, porém, não é a ausência delas, mas sim a falta de consistência da história, que resulta vazia e desinteressante.
Fora as transformações óbvias ou repentinas dos personagens, pouco acontece em Annie – e isso é um verdadeiro problema para um longa de quase duas horas que pede ao espectador que compre a ingenuidade de uma trama infantil e, principalmente, toda a cantoria de um musical. Haja paciência. Com as situações rasas, a fragilidade se estende, infelizmente, ao lado musical, que não chega a ter canções particularmente empolgantes. Claro que aqui estamos falando de um musical que, mesmo tendo que conquistar os ouvidos (principalmente dos pequenos), utiliza a música basicamente como uma ferramenta narrativa, mas, dada a falta de força da história, a sensação é que os atores começam a cantar simplesmente do nada – e o pior: sobre trivialidades, com destaque para o tedioso dueto de Wallis e Foxx admirando Nova York em um voo de helicóptero.
Quem Annie pensou que agradaria com esse resultado? Os pequenos? Certamente não, pois o filme não chega a ser um passatempo infantil de bom ritmo para prendê-los frente à tela. Os adultos? Muito menos, pois para eles fica ainda mais evidente as a ausência de uma história interessante. Em termos de elenco, os atores também não ajudam: se a pequena Quvanzhané Wallis tem a graça necessária para o papel que nada exige além da já esperada naturalidade para alguém de sua idade, o resto do elenco sofre com uma das piores interpretações da carreira de Cameron Diaz (achando que, para interpretar uma vilã, precisa de infinitas caras e bocas – uma decisão que lhe valeu uma merecida indicação ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante) e com a habitual repetição de Jamie Foxx, que, fora Django Livre, pouco fez de relevante em sua carreira depois do Oscar por Ray.
Frustra Annie alcançar esse resultado completamente irregular porque que existe um realizador ideal atrás das câmeras para uma história como essa. Dessa vez, no entanto, Will Gluck não colheu bons frutos: o musical não fez sucesso nos Estados Unidos (mesmo sendo um espetáculo bem sucedido na Broadway), foi lembrado entre os indicados do Framboesa de Ouro como pior remake e aqui no Brasil passou completamente despercebido pelas salas de cinema (decepcionando também a própria distribuidora, que resolveu lançar o filme apenas com cópias dubladas, em uma clara intenção de alcançar o grande público). Mereceu o fracasso. Aguentar uma história tão frouxa permeada por canções que pouco acrescentam narrativamente ou como diversão para os ouvidos é complicado. Uma chance desperdiçada.
Rapidamente

David Oyelowo em cena com o veterano Tom Wilkinson: seu desempenho como Martin Luther King é o ponto alto de Selma: Uma Luta Pela Igualdade, produção lembrada pelo Oscar 2015 apenas nas categorias de melhor filme e canção original
DOADOR DE MEMÓRIAS, O (The Giver, 2014, de Phillip Noyce): Tem ideias muito interessantes esse filme que entra na onda das adaptações de best sellers infanto-juvenis, mas que não rendeu o esperado nas bilheterias (mundialmente faturou apenas um pouco mais do dobro de seu orçamento de 25 milhões). É fácil entender o porquê: os conflitos que movem O Doador de Memórias são muito subjetivos para ganhar caráter popular. Na história, uma comunidade vive em um mundo preto-e-branco, onde os sentimentos foram extintos por meio de uma injeção diária em cada habitante. Ou seja, todos vivem sem saber e vivenciar o que é amor ou qualquer outra emoção. A situação muda quando a única pessoa detentora das memórias do que hoje inexiste nessa sociedade precisa passar adiante suas lembranças. O escolhido é o jovem Jason (Brenton Thwaites), que obviamente se encanta com as sensações que o seu mundo não sabe que existe e aos poucos passa a tentar introjetá-las nas pessoas em sua volta. As ideias são ótimas, mas O Doador de Memórias não vai muito além da teoria simplesmente porque a direção de Phillip Noyce é péssima. Optando pelo cafona no visual e na própria condução das cenas com frases prontas, efeitos visuais mal acabados e situações clichês, ele desperdiça o potencial do filme (não é qualquer trama dessa natureza que reúne Meryl Streep como antagonista e Jeff Bridges no elenco), que tinha tudo para ser uma saga bem sucedida se abordada de maneira mais sóbria e menos comercial. Lembrando que o livro original escrito por Lois Lowry ainda tem outras três obras complementares passadas no mesmo universo de O Doador de Memórias. Dado o fracasso do filme, são trabalhos que não devem ganhar vida no cinema.
SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, de Ava DuVernay): O maior mérito desse filme que despertou discussões sobre racismo no Oscar é justamente falar sobre a causa sem qualquer traço de panfletagem. Com muita dignidade, a diretora Ava DuVernay narra a trajetória de Martin Luther King (David Oyelowo) em 1965, quando ele organizou uma marcha da cidade-título até Montgomery, no Alabama, para protestar e garantir o direito de voto aos negros (que já existia mas era solenemente ignorado). Produzido por Oprah Winfrey (ela também tem uma pequena participação na história), Selma: Uma Luta Pela Igualdade chama atenção pela sobriedade e pela franqueza com que apresenta suas denúncias e reivindicações. O mesmo tom certeiro também está presente naquele que é o aspecto mais precioso do filme: a interpretação de David Oyelowo. Discreto mas intenso quando a história pede, o ator dá um show como Martin Luther King. Em momento algum duvidamos de sua sabedoria, de seu caráter e de sua integridade. Admiramos aquele personagem, o que é consequência direta do desempenho incrivelmente discreto e eficiente de Oyelowo. Já o filme como um todo não chega a empolgar, especialmente quando o ritmo arrastado faz com que Selma pareça ter o dobro da duração que realmente tem. Vale mais pela mensagem e pela dignidade com que fala sobre racismo do que propriamente como um filme envolvente. Destaque ainda para a bela canção Glory, vencedora do Oscar 2015 em sua respectiva categoria.
SNIPER AMERICANO (American Sniper, 2014, de Clint Eastwood): Com exceção dos estadunidenses, que compareceram em massa às salas de cinema (são 330 milhões de dólares até agora nas bilheterias do país, sendo que o orçamento foi de apenas 58), não sei quem ainda aguenta ver filmes sobre as consequências do 11 de setembro, em especial as histórias passadas na guerra do Iraque. Esse é um tema já explorado à exaustão, mas agora o diretor Clint Eastwood (que não entrega uma obra verdadeiramente marcante desde Cartas de Iwo Jima, em 2006) resolveu entrar na lista dos cineastas que desenterram o assunto. E sinceramente? Clint não conta absolutamente nada de novo ou extraordinário. Apesar do sucesso estrondoso em seu país de origem, Sniper Americano repete a fórmula do herói estadunidense atormentado pela guerra. Novamente temos o sujeito em campo defendendo seu país (Bradley Cooper, indicado ao Oscar 2015 de melhor ator) que, aos poucos, começa a se tornar o soldado distante e até amedrontador para a esposa lacrimosa com um filho no colo. No meio disso tudo, idas e vindas ao Iraque, algumas cenas de tensão envolvendo a profissão do protagonista (Chris Kyle se “consagrou” como o maior franco-atirador dos Estados Unidos) e tomadas inegavelmente bem filmadas. Mas, infelizmente, Sniper Americano não deixa de ser uma obra frustrante e redundante dentro do tema que se propõe a discutir – e talvez até mesmo bastante atrasada.
Para Sempre Alice
It was about love.

Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Roteiro: Richard Glatzer e Wash Westmoreland, baseado no romance “Still Alice”, de Lisa Genova
Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Hunter Parrish, Stephen Kunken, Daniel Gerroll, Seth Gilliam, Erin Darke, Maxine Prescott, Orlagh Cassidy, Rosa Arredondo, Zillah Glory, Quincy Tyler Bernstine
Still Alice, EUA, 2014, Drama, 101 minutos
Sinopse: A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha Lydia (Kristen Stewart) se aproximam. (Adoro Cinema)

O Alzheimer é uma das doenças mais tristes ainda sem cura. Perder sua própria identidade, esquecer quem são as pessoas que você mais ama, viver o momento e daqui algumas horas já não lembrar de mais nada… Isso é terrível demais para qualquer pessoa e ninguém merece um sofrimento como esse. O cinema, claro, se atentou para o potencial dramático da doença e já realizou muitos filmes sobre o tema. Do tradicional Iris ao tocante Longe Dela (citando exemplares mais recentes), o Alzheimer já foi tão explorado em obras cinematográficas que hoje tem, de certa forma, uma cartilha com os passos que um longa sobre o assunto deve seguir. É um terreno complicado, repleto de clichês e repetições, e Para Sempre Alice novamente não apresenta algo de algo inovador. Dirigida pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland, a adaptação do romance Still Alice, de Lisa Genova, certamente ganhará a simpatia do grande público por apresentar uma história sobre Alzheimer no sentido clássico. Afinal, o longa segue todos os passos de um tradicional filme do gênero: o primeiro esquecimento que parece uma tolice, a suspeita, a consulta ao médico, os exames, o diagnóstico, o lamento da família, a decisão sobre quem vai cuidar de Alice, os conflitos no casamento, o amor incondicional no meio de tanto drama, e por aí vai…
Porém, é irônico como um filme que fala justamente sobre o tempo (ou mais especificamente sobre a perda da noção dele) tenha na cronologia um de seus maiores problemas. Glatzer e Westmoreland falham ao situar o espectador nas épocas em que o longa se desenvolve. Sem sabermos direito quanto tempo passou entre um avanço e outro da doença, fica a sensação de que a situação da protagonista piora muito repentinamente – e isso teria que estar bem alinhado, uma vez que já é atípico embarcar em uma história sobre uma doença acometendo uma mulher de apenas 50 anos quando normalmente ela é retratada apenas com pessoas idosas. Se a desorientação quanto ao tempo fosse algo proposital, a ideia seria brilhante, mas infelizmente não parece ser o caso dessa obra que, caso fosse lançada na metade do ano, não teria sequer fôlego para sobreviver nas memórias das premiações e dar o Oscar de melhor atriz que Julianne Moore recebeu recentemente.
O problema de Para Sempre Alice está mais na direção pouco inspirada e sem grandes desejos de construir algo realmente fora do convencional na execução do que no roteiro propriamente. Um exemplo disso é a própria escalação do elenco de suporte, onde basicamente todas as escolhas são erradas: Alec Baldwin não tem a presença necessária para dar estofo dramático a um filme como esse (o ator ainda remete demais à comédia), Kristen Stewart está na sua versão descabelada e de boca aberta (ao contrário de sua maravilhosa aparição no recente Acima das Nuvens) e o jovem Hunter Parrish quase se resume a um figurante (o que tem virado sua especialidade, uma vez que, anos atrás ele também já era o filho insosso e inútil de Meryl Streep em Simplesmente Complicado). O uso da trilha sonora de Ilan Eshkeri, que cai nos caminhos mais fáceis de composições que querem emocionar a todo custo com piano e violino, também denota a falta de criação da dupla diretora. Por isso, exigir o devido esmiuçamento de relações interessantes como Alice ser uma professora de linguística condenada a uma doença que fará com que ela esqueça justamente palavras é pedir demais. Detalhes como esses, no entanto, devem interferir apenas na percepção de quem já se cansou das repetições de filmes sobre Alzheimer. Até porque Para Sempre Alice, apesar de tudo, é inofensivo e desenvolve bem a sua parcela de emoção.
Falando em emoção, duas cenas se destacam no longa. Uma é a que traz Alice, já diagnosticada, falando sobre sua condição para dezenas de pessoas em uma palestra. “Eu vou esquecer deste dia, mas isso não quer dizer que o agora não importe para mim”, conta a personagem, evocando também a poeta Elizabeth Bishop para falar sobre perdas, mostrar que ainda não é uma inválida e que muito menos se tornou uma versão cômica de si mesma. Por mais que discursos motivacionais para plateias sejam jogadas comuns de filmes envolvendo doenças, esta cena de Para Sempre Alice consegue superar o didatismo e até emocionar, falando com simplicidade e humanidade sobre muitos assuntos que vem à tona quando alguém é diagnosticado com Alzheimer. Outra cena que marca é a última da protagonista com a sua filha, Lydia (Kristen Stewart), que encerra o filme de forma bastante carinhosa.
Verdade seja dita, porém, que quase toda parcela do êxito de tais cenas – assim como de todo o filme – é resultado direto do trabalho de Julianne Moore. Vindo de uma recente consagração na TV com o ótimo Virada no Jogo e uma coroação em Cannes com o prêmio de interpretação feminina por Mapa Para as Estrelas, a atriz retoma uma fase de ouro que muitos anos atrás lhe posicionou como uma das atrizes mais queridas de sua geração. Para Sempre Alice é, com certeza, mais um ótimo movimento rumo a essa retomada. Dotada de sua já conhecida sensibilidade e humanidade, Moore tira de letra o papel, que está longe de ser um dos mais desafiadores de sua carreira, mas que lhe dá todas as circunstâncias para que mais uma vez emocione como poucas atrizes conseguiriam. A exemplo de muitos filmes simplistas sustentados só por grandes intérpretes, Para Sempre Alice não foge em momento algum da regra: sem Julianne Moore, o resultado seria, com o perdão do trocadilho, completamente esquecível.