Os Oito Odiados
When you get to hell, John, tell them Daisy sent you…

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, James Parks, Channing Tatum, Dana Gourrier, Zoë Bell, Lee Horsley, Gene Jones, Craig Stark
The Hateful Eight, EUA, 2015, Drama, 187 minutos
Sinopse: Durante uma nevasca, o carrasco John Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a famosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que ele espera trocar por grande quantia de dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Como as condições climáticas pioram, eles buscam abrigo no Armazém da Minnie, onde quatro outros desconhecidos estão abrigados. Aos poucos, os oito viajantes no local começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros, levando a um inevitável confronto entre eles. (Adoro Cinema)

Em entrevista à jornalista Isabela Boscov, Quentin Tarantino reforçou o fato: Django Livre é o maior sucesso de toda a sua carreira em termos de bilheteria. Segundo o diretor, o desempenho do longa contrariou, particularmente fora dos Estados Unidos, as previsões de que os westerns eram fadados a fracassar com o público. “Reescrevemos os livros de história nesse aspecto”, disse ele. Não é só pela declaração um tanto pretensiosa (quem deveria dizer isso era qualquer pessoa menos ele) que tenho a impressão de que, justamente desde Django Livre, Tarantino tem sido vítima de seu próprio ego. Assim como Christopher Nolan, que realizou a maluquice que bem entendeu com Interestelar depois de adquirir total liberdade criativa visto o abraço de crítica e principalmente de público para A Origem, Tarantino indica que tem tudo para seguir o mesmo rumo de seu colega. Afinal, Os Oito Odiados é refém dessa certa megalomania do diretor que parece lhe ter feito esquecer o poder da síntese.
Todos os elementos que fizeram de Quentin Tarantino um diretor admirável e de estilo facilmente reconhecível estão presentes em Os Oito Odiados. O que acontece é que, assim como em Django, eles soam apenas como complementos para uma história excessivamente prolongada e de base rasa. Por mais divertido e até mesmo revolucionário tematicamente que fosse Django ao narrar a história de um negro que faz a sua própria história, não ajudava o fato da produção se estender em 165 minutos que davam a impressão de a história ter dezenas de finais. Aí vem Os Oito Odiados, onde a duração salta para 187 minutos com uma trama muito menos movimentada. Ou seja, ainda que os diálogos divertidíssimos e inteligentes de Tarantino estejam ali, é missão árdua chegar à metade do filme, quando a trama finalmente melhora em todos os sentidos. Até lá, a introdução dos personagens parece não ter fim, alguns coadjuvantes servem apenas como alívio cômico (caso de Jennifer Jason Leigh, que só se revela uma personagem complexa mais tarde) e, dependendo do ponto de vista, o roteiro pode até decepcionar quem cria expectativas por uma grande ação, já que, em certo ponto, ele simplesmente estaciona a história em um único cenário até o final do filme.
Os Oito Odiados tem um claro problema de edição que leva o espectador à melhor parte do filme já com a paciência um tanto esgotada. É complicado achar um editor com culhões para questionar alguém da mitologia de Tarantino (principalmente se esse alguém é Fred Raskin, que estreou na cadeira de edição dos filmes do diretor fazendo justamente Django Livre), mas não é preciso um bom senso tão apurado para perceber que Os Oito Odiados merecia ser mais conciso. Com uma narrativa mais enxuta, chegaríamos ao que realmente interessa no filme de braços mais abertos. Os excessos prejudicam porque fica aquela sensação de que as revelações que o filme nos reserva não são assim tão mirabolantes para justificar toda a espera e a sanguinolência quase infantil do terceiro ato. Tenho minhas dúvidas se o público reagirá positivamente a Os Oito Odiados nas bilheterias da mesma forma que respondeu a Django.
Excetuando esse problema que chegou muito perto de minar por completo a minha relação com Os Oito Odiados, Tarantino não deixa de ser um sujeito brilhante em seus melhores momentos. Grande diretor de atores (não há um ator do elenco que transpareça atuação), ele também segura com habilidade essa opção ousada de narrar metade de sua história em uma única cabana que abriga os oito personagens do título. Além da cuidadosa mise-en-scène, fundamental para a criação do suspense, são inteligentes, como de praxe, os diálogos escritos pelo diretor, que prefere não criar necessariamente mocinhos ou bandidos para seu filme.
Quanto aos personagens, destaca-se a forte personalidade de cada um deles, com menção especial para a escolha genial do diretor de colocar como figura mais imprevisível justamente a única mulher entre os homens – e Jennifer Jason Leigh é impecável todas as vezes em que o roteiro finalmente lhe dá alguma chance além de apenas apanhar de Kurt Russell. Frequentemente irreverente e delicioso de se assistir em seu último ato devido ao humor , à crítica e à acidez com que Tarantino vai de temas como o racismo ao vício de trapaça do ser humano, Os Oito Odiados fica perto de ser mais um excelente represante da retomada do western. Só faltou alguém dar aquele tão bem-vindo conselho para o capitão da história: menos costuma ser sempre mais.
Rapidamente

Helen Mirren é sempre ótima, mas A Dama Dourada é um filme sem emoção e que ainda faz com que a atriz tenha que contracenar com um inexpressivo Ryan Reynolds.
BEM CASADOS (idem, 2015, de Aluízio Abranches): Não tem sido bem recebido nem pelo público esta comédia brasileira que, comparada a tantos outros desastres comerciais que tomam as salas de cinema no final de ano, pode até ser considerada uma diversão leve e descompromissada. É bem verdade que a história se esgota muito cedo e que seus rumos são perfeitamente previsíveis, mas o elenco segura bem as pontas, em especial Camila Morgado, que, devidamente bem dirigida, usa os exageros certos para compôr uma personagem deliciosamente maluca. Aluízio Abranches, dirigindo a primeira comédia de sua carreira (para quem não lembra, ele é o responsável pelos “polêmicos” dramas Um Copo de Cólera e Do Começo ao Fim), não consegue esconder que este é um produto sem fins criativos e meramente financiado pelas Lojas Americanas e outras marcas, o que faz com que a história frequentemente ganhe um tom de novela com a escancarada aparição das marcas e situações avulsas criadas apenas para evidenciar os patrocinadores. É novelesco também o modo com que Abranches amarra seu filme nos momentos finais, esquecendo-se que é com o carisma do elenco (que ainda tem Alexandre Borges como um bom canastrão e Bianca Comparato sendo uma graça como a estagiária que se acha subvalorizada) que Bem Casados tem seus momentos mais divertidos.
A DAMA DOURADA (Woman in Gold, 2015, de Simon Curtis): Só foi pela paixão do Screen Actors Guild Awards por Helen Mirren que a veterana conseguiu uma indicação a melhor atriz na lista do prêmio este ano. Ora, é claro que Mirren é sempre ótima, mas é preciso um pouco mais de bom senso na hora de julgar quando ela está de fato superlativa. Em A Dama Dourada ela faz o tema de casa como uma judia que tenta recuperar uma obra de arte que foi tirada de sua família pelos nazistas. Por outro lado, o filme simplesmente não coopera com ela: todos os momentos bons da atriz são méritos exclusivamente de Mirren, e não do roteiro previsível de Alexi Kaye Campbell ou da direção no piloto-automático de Simon Curtis. É meio imperdoável A Dama Dourada ser um filme sem emoção e maior sensibilidade justamente quando conta a história de uma mulher que busca na arte a preservação de seu passado e até mesmo a reparação de seus erros. Agravando a situação, atrapalha a presença de Ryan Reynolds, que nunca foi bom ator e que aqui está naquelas clássicas situações constrangedoras onde um ator veterano dá um baile no principiante. Os flashbacks funcionam porque Tatiana Maslany é ótima atriz e a reconstituição de época está à altura, mas, mesmo falando sobre o nazismo a partir de um ponto de vista diferenciado, A Dama Dourada não acerta na construção dos dramas contemporâneos dos protagonistas, que, conforme manda o roteiro, tentam a todo custo emular a jornada do esse sim caloroso Philomena.
DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, de Judd Apatow): O gênero que mais tenho dificuldade em discutir e encontrar afinidades com outras pessoas é a comédia. Tomo como maior exemplo Judd Apatow, que tem uma legião de fãs conquistada depois de filmes como O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos. Humor cada um tem o seu e é por isso que me parece tão difícil falar sobre comédia e dizer que considero Apatow um sujeito pra lá de superestimado. A impressão que sempre tive dele foi reforçada nesse tedioso Descompensada, onde o diretor une forças com Amy Schumer, atriz que agora é a moda do momento e parece tão supervalorizada quanto ele. Schumer, inclusive, é a autora desse roteiro egocêntrico (a protagonista nada mais é do que uma versão dela própria e ainda recebe o nome de… Amy!) sobre uma mulher supostamente orgulhosa de seu status de solteira que transa com quem bem entende. Só que Descompensada tem clichês dos grandes e, como uma história de romance, é extremamente entediante. Fora questões altamente discutíveis sobre o que certos personagens passam a simbolizar (a própria protagonista tem uma virada inadmissível quando, em certo ponto, passa a criticar a poligamia que tanto defendia), o filme se utiliza das saídas mais fáceis para unir um casal que em momento algum parece realmente apaixonado. Haja paciência. Felizmente, Descompensada ainda não tem previsão de lançamento no Brasil.
A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS (Spy, 2015, de Paul Feig): Paul Feig é um ótimo diretor de comédias, e só não é um dos mais importantes porque não é um contador de histórias objetivo. Na TV, tem um currículo dos mais respeitáveis em comédias (dirigiu The Office, Nurse Jackie, Parks and Recreation e Weeds), enquanto no cinema alçou voo somente em 2011 quando fez o divertidíssimo Missão Madrinha de Casamento. Assim como o filme estrelado por Kristen Wiig, A Espiã Que Sabia de Menos deixa de ser uma experiência mais marcante por ter um roteiro repleto de excessos. Sempre é complicado sustentar uma comédia por mais de duas horas, especialmente essa mais recente com a assinatura do diretor, já que, além das piadas, o roteiro se desenvolve a partir de uma história de investigação. Caso fosse um pouco mais conciso, A Espiã Que Sabia de Menos seria uma comédia imperdível, já que os personagens cativam, as situações são divertidas, as referências funcionamem e até Melissa McCarthy, que ainda não me convenceu de verdade, está em um de seus melhores momentos. E o maior elogio de todos: o filme de Paul Feig consegue, inclusive, ser um entretenimento mais envolvente do que o recente 007 Contra Spectre.
Macbeth: Ambição e Guerra
So foul and fair a day I have not seen.

Direção: Justin Kurzel
Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso, baseado na peça “Macbeth”, de William Shakespeare
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Paddy Considine, David Thewlis, David Hayman, Jack Reynor, Lochlann Harris, Sean Harris, Ross Anderson, James Harkness, Maurice Roëves
Macbeth, Reino Unido/França/EUA, 2015, Drama, 113 minutos
Sinopse: Macbeth (Michael Fassbender) é um general do exército escocês que trai seu rei após ouvir um presságio de três bruxas que dizem que ele será o novo monarca. Ele é altamente influenciado pela esposa Lady Macbeth (Marion Cotillard), uma figura manipuladora que sofre por não poder lhe dar filhos. (Adoro Cinema)

Somente no IMBb, a pesquisa por Macbeth rende quase 200 resultados entre episódios de TV, telefilmes, curtas e longas-metragens, o que nos leva a pensar se ainda existe algo de novo a ser mostrado no cinema em relação a este que é um dos textos mais consagrados de William Shakespeare. Em contrapartida, não deixa de ser injusto exigir inovação desta nova versão estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard já que existe essa infinita quantidade de leituras já produzidas pelo cinema e pela TV. Afinal, é possível um realizador conferir esse montante monstruoso de adaptações e ainda pensar algo realmente inédito? Do lado de cá, como espectador, também me abstenho de falar sobre Macbeth considerando a falta de conhecimento em relação a outras de suas literais centenas de adaptações. Já em uma avaliação isolada, o filme de Justin Kurzel – que, reza a lenda, foi aplaudido durante dez minutos no Festival de Cannes deste ano -, é uma das experiências mais interessantes de 2015 por transmitir com a devida densidade e apuro estético a obscura viagem de poder e corrompimento de um general do exército escocês assombrado por profecias sombrias e, principalmente, por uma esposa altamente manipuladora.
Não é só por ser tão sombrio e pesado que Macbeth se torna um filme de nicho. O que não populariza esta adaptação – e o que obviamente fará com que o longa fique pouquíssimo tempo em cartaz – é a ideia do roteiro escrito a seis mãos por Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso adaptar o texto de Shakespeare mantendo seu estilo original. Tomar a decisão de preservar a linguagem de Shakespeare é arriscado também para o próprio tom do filme, uma vez que exige muita disciplina de um diretor não transformar a experiência em um mero teatro filmado. Por sorte, o australiano Justin Kurzel, em seu segundo longa-metragem, conduz Macbeth com destreza e, junto a um notável trabalho técnico, dá a dimensão necessária para que o filme realmente seja… um filme! É assombrosa, por exemplo, a trilha sonora de Jed Kurzel, que intensifica o lado já sombrio da história do protagonista, ao passo que a fotografia de Adam Arkapaw, uma das mais belas do ano, negrita as sensações dos personagens com uma intensidade expressiva de cores, criando cenas ao mesmo tempo lindas e angustiantes de serem vistas (o último plano submerso em um vermelho amedrontador é impressionante nesse sentido).
Fora a parte técnica, que em momento algum nos remete aos clichês dos filmes de época com figurinos esdrúxulos e locações megalomaníacas, Macbeth é um filme envolvente em sua dramaticidade com um roteiro que sabe arquitetar a suja ascensão do protagonista e a eventual paranoia que toma conta de sua vida após a conquista do poder. É mais instigante ainda o arco da esposa de Macbeth, vivida por Marion Cotillard (ela diz sempre ter sonhado interpretar esse papel), que manipula facilmente o protagonista para que ele se torne uma figura poderosa e relevante, custe o o que custar. A culpa por não poder lhe dar filhos está ali, e, ao mesmo tempo em que Macbeth chega a boa parte de suas conquistas graças a esposa, também é nítida a angústia da esposa ao vê-lo se tornar uma figura gradativamente perigosa e até fora de seu controle durante a escalada. A proposta é encenada até os dias de hoje (Claire Underwood não seria uma espécie de lady Macbeth no seriado House of Cards?), mas nunca deixa de ser densa essa viagem sem escrúpulos rumo ao poder e incômodo o pavor ao constatarmos o quanto o ser humano é suscetível a se transformar quando passa a ser expressivamente dominante. Uma história como essa já teria impacto por si só, imagine, então, com o peso do texto de William Shakespeare!
Vícios teatrais, entretanto, ainda deixam seus resquícios no filme de Justin Kurzel. Frequentemente Macbeth entrega aos atores longos monólogos em lindas paisagens, flertando, então, com esse problema de remeter demais aos palcos, seja na câmera estática no corpo dos atores ou na própria formalidade com que eles interpretam cada palavra. Certamente é um belo presente para que Fassbender e Cotillard tirem o máximo de proveito, mas se torna um tropeço para o filme em si. Deixando de lado o deslize, dá gosto, por outro lado, ver atores tão talentosos quanto eles brilhando nesses momentos (e abençoado seja quem teve a ideia de juntá-los em um filme!). Enquanto Fassbender capta com precisão as oscilações entre insegurança e ganância de um homem inicialmente comum que aos poucos se corrompe, Cotillard surge inofensiva e perigosa na espreita dos bastidores como a mulher que, na realidade, é a grande responsável pelo marido ser quem realmente é. O diretor e os atores se reunirão futuramente em um projeto inusitado: Assassin’s Creed, a adaptação do videogame homônimo lançado em 2007. Julgando pela ideia, não é bem difícil criar expectativas, mas, considerando esse ótimo resultado de Macbeth, quem sabe?
As Sufragistas
Never surrender. Never give up the fight.

Direção: Sarah Gavron
Roteiro: Abi Morgan
Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Ben Whishaw, Anne-Marie Duff, Romola Garai, Grace Stottor, Geoff Bell, Adam Michael Dodd, Sarah Finigan, Lorraine Stanley, Adam Nagaitis, Finbar Lynch
Suffragette, Reino Unido, 2015, Drama, 106 minutos
Sinopse: No início do século XX, após décadas de manifestações pacíficas, as mulheres ainda não possuem o direito de voto no Reino Unido. Um grupo militante decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobre o movimento e passa a cooperar com as novas feministas. Ela enfrenta grande pressão da polícia e dos familiares para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decide que o combate pela igualdade de direitos merece alguns sacrifícios. (Adoro Cinema)

O momento mais impactante de As Sufragistas não está entre os sofridos dias de Maud Watts (Carey Mulligan) resistindo às más e preconceituosas condições de trabalho que lhe são oferecidas em uma lavanderia. A maior denúncia do filme de Sarah Gavron também não está estampada nos dramas pessoais que o roteiro de Abi Morgan coloca em meio a um relato histórico. Na realidade, As Sufragistas deixará mesmo o espectador de boca caída com seus créditos finais, que, por meio de uma linha do tempo relativamente comprida, coloca na tela a cronologia dos países que aderiram ao voto feminino. E surpresa! O ano de 2015 está lá. Isso mesmo, foi apenas em 12 de dezembro de 2015 que a Arábia Saudita, último país do mundo a negar o direito de voto às mulheres, realizou a sua primeira eleição recebendo o público feminino como votantes e candidatas a cargos políticos. É o melhor momento do filme não porque As Sufragistas divague sobre o tema de forma inexpressiva, mas porque sua relevância temática, infelizmente, é muito maior do que a cinematográfica.
É importante ressaltar que, conceitualmente, As Sufragistas faz o dever de casa. O filme tem figuras femininas por toda sua equipe: na direção, Sarah Gavron; no roteiro, Abi Morgan; no elenco, praticamente apenas mulheres (e ótimas atrizes, vale destacar). Esse passo é sim significativo para a igualdade de sexos no fazer cinematográfico, já que ainda vivemos tempos em que atrizes do calibre de Meryl Streep precisam promover laboratórios para que mulheres possam exercitar sua criação no segmento de roteiros e ingressar nesse mercado de trabalho. Tudo bem que essa concepção da equipe seria o mínimo para um filme que fala justamente sobre justiça entre homens e mulheres, mas nunca é demais comemorar que composições como essa realmente saiam do papel. O que acontece é que, dramaticamente falando, As Sufragistas não entrega absolutamente nada de criativo, talvez cometendo o erro de acreditar que a força do tema que tem em mãos é o suficiente para dar conta do impacto da experiência. Não deixa de ter sua parcela de razão, mas, para realmente se tornar um produto de discussões e grandes dimensões, é necessário muito mais. Cinema não pode ser apenas um mero registro histórico sem criação. Para isso, existe uma infinidade de programas de grandes reportagens na TV.
Não precisamos ir fundo na memória para resgatar outras produções que se entregam ao tema de igualidade sem exercitar muitas ideias. The Normal Heart, sobre a disseminação da AIDS nos Estados Unidos, é uma delas. Até mesmo – e sei que muitos vão me crucificar aqui – o oscarizado 12 Anos de Escravidão parece muito mais um simples relato sobre o horror da escravidão do que propriamente um cinema de grandes criações. De forma alguma esses filmes perdem sua relevância temática (e só a existência de obras que contemplem tais temas já vale a iniciativa), mas, se formos falar além dessas fronteiras, a impressão que fica é bem menor. As Sufragistas não foge à regra e é possivelmente o longa mais tradicional entre os já citados. As feministas de plantão certamente terão muito a contribuir em relação à fidelidade dos fatos, mas, cinematograficamente falando, o longa de Sarah Gavron se utiliza de ferramentas cômodas demais para ambientar o mundo de injustiças vivido pelas mulheres britânicas no início do século XX. Percebam a jogada mais básica: em menor ou maior escala, todos os homens da história são tiranos ou insensíveis. Não existe saída mais óbvia do que vilanizar de forma unilateral uma maioria para vitimizar as minorias, e uma história como a de As Sufragistas merecia um pouquinho mais de requinte.
No geral, todo o arco dramático escrito por Abi Morgan (é sempre complicado ter boa vontade com ela depois do desastre que foi A Dama de Ferro) segue caminhos já conhecidos, como o fato da protagonista obviamente se entregar ao movimento sufragista depois de tanto renegá-lo. Existe também a figura de uma garota mais jovem em quem a Maud de Carey Mulligan obviamente vê o seu reflexo de adolescente sofrida e sem chances na vida de anos atrás – e precisa algum esforço para adivinhar como se desenhará o destino dessa relação? Este é o clássico caso de um filme basicamente certinho e inofensivo, mas que em momento algum expande suas ambições. Público para isso tem de sobra, e não podemos dizer que As Sufragistas não é dotado de elementos para satisfazê-los. Mesmo os mais exigentes devem reconhecer o bom elenco feminino, especialmente Mulligan, em seu trabalho mais relevante desde Educação. Aos curiosos, vale o comentário: Meryl Streep, apesar da divulgação, tem apenas uma cena, mas sua escalação faz todo sentido, já que somente uma atriz de sua grandeza poderia dar a força de presença necessária para Emmeline Pankhurst, a líder foragida do movimento sufragista que era raramente vista e só discursava para suas seguidoras em momentos e lugares estratégicos.
Com uma boa parte técnica (destaque para a trilha de Alexandre Desplat), As Sufragistas tem um claro comodismo ao construir a dramaticidade de sua trama, mas termina cumprindo sua missão como produto temático, se isso for suficente. Na estreia do filme em Londres, um grupo de mulheres protestantes ultrapassou as barreiras de segurança e invadiu o tapete vermelho bradando pelas gerações que morreram sem direito ao voto e lembrando que o sufragismo ainda está aí. Helena Bonham Carter comemorou a iniciativa delas e disse estar feliz pelo filme ter tido algum efeito, e que é justamente para isso que ele existe. Só vou discordar um tantinho de Helena e voltar a afirmar que, sim, o bom cinema é aquele que provoca e que mais questiona do que responde, mas a forma também me parece fator preponderante para uma experiência mais instigante. As Sufragistas pode fazer um belo serviço para as discussões envolvendo os direitos da mulheres. Já nos debates sobre cinema em si, o papo deve ser menos empolgante…
Rapidamente

Jennifer Lawrence tenta, mas o último filme da saga Jogos Vorazes é problemático individualmente e como complemento aos outros capítulos da saga.
JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA – O FINAL (The Hunger Games: Mockingjay – Part 2, 2015, de Francis Lawrence): Lamentável uma série que dependia tanto deste último volume para se tornar um marco terminar de forma tão decepcionante. Com a sucessão de escolhas erradas que foi dividir o último capítulo em dois volumes, Jogos Vorazes, no final das contas, fica na lembrança como uma franquia bastante irregular. São inúmeras as razões que fazem de A Esperança um capítulo aquém do que a série mostrou no ótimo Em Chamas, e todas estão ligadas a essa velha decisão comercial que coloca as bilheterias em primeiro lugar e não a história. Como complemento ao capítulo anterior, este novo filme só enrola durante longos 130 minutos para chegar a um clímax mal conduzido e pobremente arquitetado (Julianne Moore mais uma vez deu azar!), enquanto Jennifer Lawrence faz o que pode com o roteiro pobre em ação e que não cria discussões ou metáforas interessantes nos momentos de calmaria. Nós já sabemos tudo o que precisamos saber sobre a protagonista e sua batalha, e o que importa mesmo aqui é passar a régua e terminar as contas. Só que Jogos Vorazes: A Esperança – O Final tem pouco a dizer (reflexo de que tudo deveria ter sido condensado em um filme só), além de um elenco desperdiçado, um triângulo amoroso insosso e uma das cenas finais mais cafonas do ano. Não serve nem como uma carinhosa despedida do saudoso Philip Seymour Hoffman, em seu último filme lançado nos cinemas.
MY HOUSE IN UMBRIA (idem, 2003, de Richard Loncraine): Deve ter sido pela dívida de nunca ter premiado uma dama como Maggie Smith que o Emmy a consagrou como melhor atriz em telefilme/minissérie por esse açucarado drama dirigido por Richard Loncraine. A teoria é essa porque My House in Umbria não traz qualquer desafio para a veterana ou sequer uma cena mais especial onde ela possa realmente brilhar. Na tentativa de fazer um mosaico com personagens de diferentes origens e idades (todos sobreviventes de um ataque terrorista em um trem que passam uma temporada na mansão da protagonista vivida por Maggie), My House in Umbria fica sem consistência pois não desenvolve com propriedade nenhuma das figuras em questão. Até mesmo a relação da protagonista com uma garotinha que fica órfã após a tragédia é trabalhada de forma rasa e sem a emoção que merecia. Maggie está lá, com sua habitual sobriedade britânica, mas a mão frequentemente pesada de Loncraine para o drama mina o filme quase por completo, especialmente quando, na falta de conflitos mais sólidos, o diretor resolve aumentar o tom da trilha sonora ou inventar pequenos conflitos que nunca se revelam uma verdadeira contribuição para o todo da história.
TEMPORÁRIO 12 (Short Term 12, 2013, de Destin Daniel Cretton): É com muita maturidade e sensibilidade que o diretor Destin Daniel Cretton, em seu segundo longa-metragem, conta uma história super complicada: a de uma jovem que, na casa de seus 20 anos, convive com as mais diferentes tragédias pessoais de um grupo de adolescentes em uma clínica. A sobriedade reina em Temporário 12, que, com grande delicadeza, apresenta dramas densos sem nunca cair no melodrama ou no exagero. Hoje favorita ao Oscar de melhor atriz por O Quarto de Jack, Brie Larson já entregava um belo momento no filme de Cretton e, por mais que alguns de seus conflitos pessoais sejam perfeitamente previsíveis, a atriz nunca deixa transparecer em sua atuação qualquer fragilidade que o roteiro possa ter. Ao mesmo tempo triste e esperançoso, Temporário 12 é um exemplar clássico do cinema independente que se preocupa muito mais com a complexidade dos sentimentos do que com a complexidade dos fatos. É nos pequenos momentos e na verossimilhança de seus adolescentes problemáticos e perdidos na vida que o filme de Cretton se engrandece – o que confere ao filme uma humanidade das mais preciosas.
A VERY MURRAY CHRISTMAS (idem, 2015, de Sofia Coppola): Lançado pelo Netflix, o Natal musical de Bill Murray se assemelha muito ao que simbolizam os dois decepcionantes filmes de Sex and the City, em especial o segundo: amigos se divertindo do lado de lá da tela enquanto os espectadores ficam completamente entediados assistindo sem fazer parte da festa. Não há carisma ou ator experiente como Bill Murray que sustente este especial de uma hora onde a história simplesmente inexiste e tudo é mero pretexto para que várias celebridades soltem a voz em um karaokê infinito de músicas natalinas. Sofia Coppola, que há anos não realiza algo realmente relevante, dirige A Very Murray Christmas de forma muito displicente, provando que, caso não ela não estivesse atrás das câmeras, os atores certamente conduziriam tudo da mesma maneira sem qualquer dificuldade. Isso porque Coppola não encena os números musicais com qualquer criatividade, apostando 100% na ideia de que o carisma de figuras como George Clooney e Amy Poehler é o suficiente para que a atração se sustente. O problema é que não demora muito tempo para percebermos que não é isso o que acontece. Na realidade, A Very Murray Christmas só serve mesmo para abrir nossos olhos (e ouvidos) para a boa cantora que Miley Cyrus é.