O Bebê de Bridget Jones
I can always find time to save the world. And, Bridget, you’re my world.

Direção: Sharon Maguire
Roteiro: Dan Mazer, Emma Thompson e Helen Fielding
Elenco: Renée Zellweger, Colin Firth, Patrick Dempsey, Gemma Jones, Jim Broadbent, Shirley Henderson, Sally Phillips, Kate O’Flynn, Sarah Solemani, Agni Scott, Ben Willbond, Ed Sheeran, Jessica Hynes
Bridget Jones’s Baby, Reino Unido/EUA/Irlanda/França, 2016, Comédia, 123 minutos
Sinopse: Estável no emprego como produtora de TV, Bridget Jones (Renée Zellweger) continua solteira. Depois de aceitar o convite de uma amiga do trabalho para ir a um festival de música pop, lá ela acaba “acidentalmente” dormindo com o desconhecido e sedutor Jack Quant (Patrick Dempsey). Mas ela não é mais a mesma neurótica e nem se preocupa com o paradeiro do moço. Pouco depois, em um batizado, a verborrágica inglesa reencontra Mark (Colin Firth), seu amor do passado. E eles acabam… dormindo juntos. Mais algumas semanas se passam, e Bridget se encontra grávida. E, sem ter certeza de quem é o pai da criança, adia a “revelação”, enquanto ambos acreditam ser o verdadeiro pai do bebê de Bridget Jones. (Adoro Cinema)

O que Renée Zellweger conquistou entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000 não é bobagem. Filmes como Um Amor Verdadeiro, A Enfermeira Betty, Jerry Maguire, Deixe-Me Viver e Chicago, para citar alguns de seus trabalhos expressivos em termo de repercussão e qualidade, revelaram a atriz como uma das mais prolíferas e consistentes de sua geração. O fenômeno Renée Zellweger, entretanto, foi se diluindo com o tempo, por uma série de variáveis que são difíceis de constatar. Teria sido a sua persona, que, de repente, passou a ofuscar os próprios personagens? Ou foi a influência negativa de seu prematuro e equivocado Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo irregular Cold Mountain? De qualquer maneira, após realizar trabalhos cada vez menos expressivos, a atriz estacionou a carreira em 2010, voltando somente agora aos cinemas com um de seus papeis mais marcantes: o da atrapalhada Bridget Jones.
Alcançando feitos raros com a personagem criada na literatura por Helen Fielding (quem consegue ser indicada ao Oscar de melhor atriz por uma popular comédia romântica?), Renée pode até ter ficado afastada das telas, mas seu retorno com O Bebê de Bridget Jones comprova o quanto a personagem nunca saiu do imaginário dos espectadores. E pode até ser que esse novo filme não tenha lá muito frescor, mas é o tipo de experiência que não deixa de revigorar a carreira de uma atriz em baixa e proporcionar, através da nostalgia, uma ótima diversão para a plateia, além de, em termos de representatividade, apresentar-se como um marco por configurar a primeira trilogia da história do cinema dirigida exclusivamente por mulheres.
Só faz bem o retorno de Sharon Maguire à cadeira de direção após o criticado trabalho de Beeban Kidron no filme anterior porque ela preserva todas as acertadas ideias que projetaram a protagonista junto ao grande público. Não apenas é importante colocar novamente em pauta, através da comédia, questões julgadas pela sociedade em relação ao mundo feminino (é absurdo pensar que mulheres acima dos 40 ainda são cobradas por não terem filhos ou maridos!) como também trazer de volta o humor mais clássico de Bridget Jones, distanciando-se da certa histrionia presente no longa anterior. Sharon Maguire compreende a essência da personagem, e isso é fundamental para que O Bebê de Bridget Jones funcione.
Não deixa de ser frustrante constatar que Bridget Jones tenha chegado aos 43 anos agindo de forma inexperiente demais para alguém dessa idade. Porém, o terceiro capítulo capta tudo o que existe de melhor na conversa da personagem com o espectador, desde a encenação cômica de pequenos momentos já vividos por todos nós (quem nunca se encheu de nervosismo ou viu sua espontaneidade desaparecer ao reencontrar um caso amoroso mal resolvido do passado?) a outros mais específicos às mulheres e às expectativas criadas em torno delas. O tino cômico de O Bebê de Bridget Jones é clássico, quase ingênuo, indo na contramão das majoritárias comédias femininas de humor mais afiado ou transgressor. Caso mal executado, o resultado poderia soar antiquado, o que definitivamente não é o caso aqui, onde tudo soa atraente por sua leveza.
Na prática, O Bebê de Bridget Jones não inova em qualquer aspecto, mas isso não diminui a graça dessa produção amplamente impulsionada pelo carisma de Renée Zellweger e pela boa complementariedade que existe entre o inegável charme britânico de Colin Firth (e a idade só faz bem ao ator em todos os sentidos) e a representação de Patrick Dempsey como um homem que, apesar do sucesso, se revela tão comum quanto qualquer outro. Adicione ainda o tempero de uma trilha sonora deliciosa (o que não é novidade se tratando da franquia), as divertidas participações de Emma Thompson (que também assina o roteiro ao lado de Dan Mazer e Helen Fielding) e discussões centradas muito mais em quem os personagens descobrem ser a partir da gravidez da protagonista do que no mistério sobre quem é o pai (e não se preocupe: existe resposta para o grande dilema). O Bebê de Bridget Jones faz o espectador sair da sala de cinema com um sorriso no rosto. E já que a vida anda tão difícil, isso não é ótimo?
De Onde Eu Te Vejo
Sabe o que eu descobri? Que as histórias infelizes é que são todas iguais. As felizes não. São felizes cada uma a sua maneira.

Direção: Luiz Villaça
Roteiro: Leonardo Moreira e Rafael Gomes
Elenco: Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti, Marisa Orth, Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Fúlvio Stefanini, Laila Zaid, Théo Werneck, Marcello Airoldi
Sinopse: Ana Lúcia (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) decidem se separar após vinte anos de casamento e ele se muda para um apartamento do outro lado da rua. Além da separação, eles passam por uma crise no trabalho e precisam enfrentar a iminente mudança de cidade da filha. Com todas essas mudanças, eles precisam aprender a viver essa nova realidade e reinventar o amor. (Adoro Cinema)

Conforme o tempo passa, é cada vez mais comum, como cinéfilos dedicados, prezarmos pelo novo ou pelo menos por aquilo que procura se distanciar da normalidade. Considerando os filmes sobre separações de casais, por exemplo, são infinitos os relatos dramáticos e até mesmo trágicos sobre o fim de relações amorosas. Não que, dessa forma, filmes como Alabama Monroe ou Namorados Para Sempre se tornem menores (eles sempre serão grandes por suas respectivas franquezas), mas, quando surge uma experiência como a proporcionada pelo belo De Onde Eu Te Vejo, voltamos a lembrar que precisamos de mais produções como essa assinada por Luiz Villaça e estrelada por Denise Fraga e pelo agora saudoso Domingos Montagner. Partindo do divórcio de um casal que dividia o mesmo teto há 20 anos, o longa acompanha os protagonistas sob a luz desse desfecho. Até aí, nenhuma novidade, pois o que torna De Onde Eu Te Vejo tão especial vem em seguida: é verdade que Ana (Fraga) e Fábio (Montagner) se separaram, mas, com o convívio próximo mesmo após a ruptura, eles encontrarão, por vontade do destino e deles próprios, uma nova forma de amar um ao outro.
De Onde Eu Te Vejo, contudo, não é sobre um casal que vira amigo e divide a cama de vez em quando. Ao fazer um morar de frente para o outro em apartamentos de uma mesma rua de São Paulo, o roteiro escrito pela dupla Leonardo Moreira e Rafael Gomes encena sutilezas mais cotidianas e individuais, como o exercício interno que Ana faz quando a filha prefere estar com o pai – e, ao invés de sentir ciúmes da relação dos dois, ela só volta a lembrar o quanto seu ex-marido é um pai querido, devotado e atencioso. O filme faz coro à ideia de um dos personagens de que finais também podem simbolizar recomeços, utilizando situações e sentimentos corriqueiros para revelar que, no fundo, alguns rituais são necessários para compreender que o amor por si só nem sempre consegue compensar os percalços de uma convivência que não dá mais certo. É preciso maturidade para encarar essa verdade, e é exatamente isso o que não falta à equipe de De Onde Eu Te Vejo para colocar tal discussão na tela com uma abordagem muito nostálgica e agridoce.
Alegria e tristeza se misturam em função dessa consciência dos protagonistas em relação ao amor em comum e à necessidade de um afastamento. Existe algo de muito bonito em reconhecer o fim sem cortar laços, o que é plenamente compreendido por Denise Fraga e Domingos Montagner. Eles, que contracenam com um elenco coadjuvante de luxo (Juca de Oliveira, Laura Cardoso, Marisa Orth, Fúlvio Stefanini), são perfeitos ao transitar, da primeira à última cena, pelas memórias e pelo presente de pessoas que – não temos dúvida – sempre se amarão. Montagner, falecido há pouco tempo durante as gravações da novela Velho Chico, fica com uma fatia maior da comédia (o que não é um problema, pois, como diz a Ana de Denise Fraga, as melhores comédias são, na realidade, tristíssimas), enquanto ela, uma das nossas melhores atrizes, entrega sua humanidade de sempre para uma mulher em conflito com a ideia de querer sempre novidade ao mesmo tempo em que, inconscientemente, não se desapega do que já passou – e o fato da poltrona já gasta e esquecida de sua mãe nunca descartada da mobília do novo apartamento é uma simbólica prova disso.
É importante não confundir a leveza e o bom humor presentes em De Onde Eu Te Vejo com superficialidade, pois isso seria uma injustiça com o roteiro e a direção do longa, que, além das leituras que fazem sobre relações amorosas e familiares, entregam uma interpretação muito interessante e contemporânea de São Paulo. Normalmente retratada pelo cinema brasileiro recente como uma cidade imensa que isola pessoas, aqui a capital ganha contornos nostálgicos para a personagem de Fraga, que, através do seu relacionamento com o marido, até deixou de lado a falta que sentia do mar, antes tão importante em sua vida no Rio de Janeiro. Os restaurantes, as janelas e os cinemas paulistanos ajudam a construir o mapa de uma cidade repleta de mudanças (em suas construções, em suas profissões, em suas relações), mas também de um casal que se transformou junto e, simbolicamente, desenhou um mapa próprio com tantas histórias vividas em pontos específicos dessa capital gigante. Com sutileza, De Onde Eu Te Vejo percorre todos esses temas e lugares sem qualquer sinal de dispersão, encerrando sua história no auge, com um emocionante diálogo entre Denise Fraga e Domingos Montagner que é a síntese da maturidade desse filme indiscutivelmente precioso.
A Intrometida
Who doesn’t love love?

Direção: Lorene Scafaria
Roteiro: Lorene Scafaria
Elenco: Susan Sarandon, Rose Byrne, J.K. Simmons, Jerrod Carmichael, Cecily Strong, Lucy Punch, Michael McKean, Jason Ritter, Sarah Baker, Amy Landecker, Casey Wilson, Billy Magnussen
The Meddler, EUA, 2016, Comédia/Drama, 100 minutos
Sinopse: Para Marnie Minervini (Susan Sarandon) a maternidade não é um dever, mas sim uma vocação. Mesmo após a recente morte do marido, ela não deixa de ser alegre, sempre mandando mensagens, ligando e aparecendo sem avisar na casa da filha, Lori (Rose Byrne). Almejando algum controle sobre sua vida, principalmente após o término de um relacionamento, Lori tenta sair das asas da mãe, mas Marnie segue a filha até Los Angeles e acaba desenvolvendo uma conexão com um policial (J.K. Simmons). (Adoro Cinema)

As situações são facilmente identificáveis e comicamente aplicáveis aos dois lados da moeda: enquanto os filhos enxergam, com muito humor, o superprotecionismo expansivo e natural de todas as mães, as progenitoras compreendem perfeitamente as necessidades de presença e carinho que tanto movem alguém como Marnie (Susan Sarandon), a protagonista de A Intrometida, que, ainda lidando com a morte do marido, encontra, na filha, uma forma de não ter seus dias tão vazios. Surpreendentemente, o filme escrito e dirigido com muita simplicidade por Lorene Scafaria se desapega da diversão envolvendo as barreiras (ou falta delas) que se estabelecem a partir de laços familiares e opta por narrar as cotidianidades de uma mulher que, após a mudança da filha para outra cidade, precisa aprender a recomeçar, na meia-idade, uma vida que já lhe parecia tão certa.
Não há comparações depreciativas que possam diminuir o valor simbólico que tem um filme como A Intrometida. Cada vez mais discutimos a representatividade no cinema, e é bom ver que roteiros que contemplem esse nicho tão frequentemente esquecido pelo cinema que é o público de meia-idade. Sempre reforço que os europeus sabem tratá-lo como ninguém, o que deveria ser uma aula para os norte-americanos, que costumam colocar personagens de idade mais avançada apenas como os pais coadjuvantes sem vida pessoal que só servem para ouvir histórias e dar conselhos aos filhos, especialmente em comédias de gosto altamente duvidoso. Por isso é de se celebrar um projeto com a proposta de A Intrometida: aqui, esse público é o centro das atenções em uma história que não chega a ser necessariamente sofisticada, mas que compensa amplamente essa limitação com uma boa dose de afeto.
É a partir de pequenos momentos da vida de sua protagonista – a amizade com o vendedor de uma loja, a dificuldade em se relacionar com as novas tecnologias, o sentimento de solidão que surge entre uma risada ou outra com uma conhecida qualquer – que o roteiro estrutura a construção de uma personagem simplesmente adorável. Claro que sempre achamos as mães dos outros um máximo, mas a Marnie de Susan Sarandon é realmente especial em sua generosidade eventualmente excessiva que não deixa de ser questionada por sua psicóloga vivida por Amy Landecker. Afinal, tanta dedicação ao próximo não deixa de ser uma desculpa para não ter que olhar para a própria vida? Como na maioria dos filmes sobre mulheres de meia-idade em pleno recomeço, A Intrometida tem uma intérprete das mais impecáveis. Se Diane Keaton tem um dos melhores momentos de sua carreira em Alguém Tem Que Ceder e Meryl Streep se diverte à beça no fragilíssimo Simplesmente Complicado, Susan Sarandon (que, sabe-se lá como, não envelhece e fica mais bela a cada dia) tem sua melhor chance em anos, transmitindo uma humanidade que é muito característica do seu arsenal de talentos.
Não deixa de ser frustrante, contudo, que relatos sobre o público de meia-idade simplifiquem tanto as coisas para suas protagonistas. Ou não é um tantinho mais fácil sofrer quando a Erica Barry de Alguém Tem Que Ceder viaja a Paris com o dinheiro de sua carreira vitoriosa na dramaturgia, a Jane Adler de Simplesmente Complicado se vê dividida entre dois amores enquanto reforma sua confeitaria de grande sucesso e, agora, a Marnie Minervini de A Intrometida procura uma nova vida enquanto se diverte ao bancar casamentos alheios com a fortuna deixada pelo falecido marido? Isso não deixa de reduzir todos esses filmes ao velho drama de que ricos também sofrem, e é assim que falta complexidade ao carinhoso mundo da personagem vivida por Susan Sarandon porque tudo acaba se resumindo a circunstâncias que desviam a atenção do que realmente merece ser contado. Quando A Intrometida permite que Marnie finalmente considere um novo amor ou que ela dê sinceras gargalhadas com a filha após um incidente que constrói um novo momento de aproximação entre as duas, o resultado ganha o sentido de que agora sim estamos realmente vendo a representatividade ideal de seu público-alvo.
Rapidamente: “O Clube”, “Marguerite” e “Trumbo – Lista Negra”

Catherine Frot em Marguerite: tanto ela quanto Meryl Streep em Florence: Quem é Essa Mulher? compreendem a trágica inocência de uma mesma personagem.
O CLUBE (El Club, 2015, de Pablo Larraín): Vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Berlim em 2015 e indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro este ano, O Clube é o sexto longa-metragem assinado pelo chileno Pablo Larraín. Para quem ainda não acompanhava o nome dele de perto (em 2012, fez o excelente No, estrelado por Gael García Bernal e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro), é bom reparar o erro a partir de agora com O Clube, um filme profundamente desconfortável (no bom sentido) e munido de muita coragem ao narrar os dias de padres isolados pela igreja católica em uma casa litorânea sob a suspeita de crimes de pedofilia. O clima invernal, o tom taciturno, a fotografia nebulosa e uma morte na porta do retiro dos padres são os pontos altos da ambientação desse filme que não economiza, seja abordagem ou vocabulário, para falar sobre os crimes nunca encenados que os sacerdotes teriam cometido. Com um desfecho particularmente surpreendente e até mesmo perturbador, O Clube reafirma o talento de Larraín como contador de histórias – e, ainda que No seja mais marcante, sua nova investida atrás das câmeras não deixa de ser uma experiência de alto valor cinematográfico e narrativo.
MARGUERITE (idem, 2015, de Xavier Giannoli): Realizado quase paralelamente ao ótimo Florence: Quem é Essa Mulher?, o belga Marguerite prefere carregar menos no tom anedótico para contar a história da personagem-título, transpondo a história verídica de Florence Foster Jenkins para o imaginário de língua francesa. Por isso acho tão complicado – e até injusto – colocar na balança o trabalho de Xavier Giannoli com o longa estrelado por Meryl Streep e Hugh Grant, já que o segundo, mesmo dando conta da dimensão dramática da personagem, prefere ser um (satisfatório) produto cômico. Enquanto isso, Marguerite opta por fazer um estudo mais minucioso de sua personagem, explorando muito mais os detalhes da trágica inocência de uma mulher que, apesar do marido compreensivo e do mordomo fiel, enfrenta uma crise no casamento e constantemente se depara com pessoas que querem secretamente abusar de sua ingenuidade. Elegante, o longa de Giannoli, assim como o de Stephen Frears, respeita e compreende o que existe de mais fascinante em sua protagonista, principalmente porque também acerta na escolha da intérprete: aqui, Catherine Frot é excelente como protagonista que sempre conquista a nossa compaixão.
TRUMBO – LISTA NEGRA (Trumbo, 2015, de Jay Roach): Quem escreveu que Trumbo – Lista Negra é o filme que coloca um diretor de comédia no mundo dos dramas e da biografia certamente desconhece a carreira de Jay Roach. É lógico que seus maiores sucessos são filmes cômicos como Austin Powers e Entrando Numa Fria, mas a comparação lógica para falar sobre Trumbo seria com Recontagem e Virada no Jogo, duas grandes histórias verídicas sobre importantes momentos da política norte-americana que ele adaptou para a HBO. Isso porque Trumbo, que já decepciona por si só, acaba se tornando ainda menos interessante quando lembramos do que Jay Roach já foi capaz com esses dois filmes específicos. Fica claro, no longa estrelado Bryan Cranston, que o diretor tem sérios problemas em narrar biografias que compreendem um longo espaço de tempo. Enquanto em Recontagem e Virada no Jogo ele era cirúrgico ao distribuir a construção de seus personagens a partir de momentos cotidianos de um pequeno recorte, em Trumbo a situação é dispersiva pela amplitude cronológica, resultando no recorrente problema de filme biográficos que, desejando narrar tudo o que é possível sobre a vida de um personagem, acabam comunicando muito pouco. Bryan Cranston faz o que está ao seu alcance em um elenco mal aproveitado e até caricato (Helen Mirren não passa da caracterização, por exemplo), mas isso não é o suficiente para tirar o filme do status de mero relato esquemático e sem refinamento.
Esquadrão Suicida
You know what they say about the crazy ones…

Direção: David Ayer
Roteiro: David Ayer
Elenco: Viola Davis, Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Joel Kinnaman, Cara Delevingne, Ike Barinholtz, Scott Eastwood, David Harbour, Jai Courtney, Robin Atkin Downes, Jim Parrack
Suicide Squad, EUA, 2016, Aventura, 123 minutos
Sinopse: Após a aparição do Superman, a agente Amanda Waller (Viola Davis) está convencida que o governo americano precisa ter sua própria equipe de metahumanos, para combater possíveis ameaças. Para tanto ela cria o projeto do Esquadrão Suicida, onde perigosos vilões encarcerados são obrigados a executar missões a mando do governo. Caso sejam bem-sucedidos, eles têm suas penas abreviadas em 10 anos. Caso contrário, simplesmente morrem. O grupo é autorizado pelo governo após o súbito ataque de Magia (Cara Delevingne), uma das “convocadas” por Amanda, que se volta contra ela. Desta forma, Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez) e Amarra (Adam Beach) são convocados para a missão. Paralelamente, o Coringa (Jared Leto) aproveita a oportunidade para tentar resgatar o amor de sua vida: Arlequina. (Adoro Cinema)

Uma confissão importante: tenho problemas em organizar ideias quando escrevo sobre filmes que me despertam emoções extremas, para o bem ou para o mal. É um desafio deixar o lado passional de lado e sistematizar racionalmente o que deu certo ou errado em determinada obra para justificar minha opinião. Digo isso porque encontrei novamente essa árdua tarefa ao conferir Esquadrão Suicida, que vem faturando altas cifras mesmo com uma catastrófica recepção da crítica. As análises depreciativas estão cobertas de razão, pois é realmente um choque ver um filme de “super-herois” tão mal realizado quanto esse. Para quem gosta de definições simplistas, basta dizer que Esquadrão Suicida está na mesma gaveta de desastres que há muito já pareciam impossíveis, como Demolidor e até mesmo Mulher-Gato.
Uma breve pesquisa na internet é o suficiente para que inclusive os leigos percebam o quanto Esquadrão Suicida foi mutilado pelo tempo. Reza a lenda que o projeto começou com uma ideia muito mais dark antes de se tornar uma meleca colorida que lembra apenas os programas infantis da Nickelodeon. Imaginem que interessante um filme sobre anti-herois com suas contradições e reflexões! A tese funciona (Detona Ralph fez um lindo trabalho ao concentrar toda sua história em um rejeitado “vilão”), mas Esquadrão Suicida não esperava encontrar o sucesso repentino do humor de Deadpool ou a aversão à falta de maior senso de entretenimento de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Na pós-produção, o estúdio tentou maquiar o produto final para tentar se encaixar às respostas do público. Deu tudo errado, e a aventura que chega aos cinemas é ineficiente no humor e no espírito de mera adaptação caça-níqueis.
A desconstrução comercial da personalidade do projeto tem sido usada como justificativa para Esquadrão Suicida ser tão ruim. Ora, estão pegando muito leve, pois ela é dos males o menor. Mesmo em sua essência, o filme de David Ayer é um completo caos repleto de amadorismos. São transcorridos poucos minutos e a trama já mostra sua capacidade narrativa rasteira e preguiçosa: extremamente explicativa, a apresentação dos personagens narra o passado de cada um deles com uma preguiça assustadora. Ao colocar na tela um vilão por vez com suas histórias e razões para terem chegado a um universo de crimes e rupturas de caráter, Esquadrão Suicida repete uma espécie de passo a passo inventado por alguém que nunca soube lidar com dois personagens ou mais em cena. Como se não bastasse isso, também é necessário que uma protagonista esteja na mesa de um jantar narrando justamente cada uma dessas histórias para outros personagens. Quanta criatividade!
Desde o início já falta tom interessante, costura inteligente, ritmo bem dosado e personalidade ao que é mostrado em Esquadrão Suicida. São no mínimo desleixadas as tentativas de Ayer de tornar seu filme um produto pop, começando pela infinita lista de clássicas canções utilizadas para imprimir uma alma cool ao filme (ninguém precisa mais, por exemplo, ouvir Sympathy for the Devil em 2016 de forma tão gratuita). Isso certamente nos remonta à ideia de que tentaram maquiar Esquadrão Suicida na pós-produção para que ele se tornasse algo mais popular. Coloco minha mão no fogo pela ideia de que essa e outras tantas músicas não estavam no esboço original do projeto. Ademais, é primário o erro da aventura de se utilizar tanto de computação gráfica (já faz anos que os bons filmes desse “gênero” deixaram de parecer um videogame) para criar uma antagonista que deseja… dominar o mundo! Sério mesmo? Em que anos estamos?
Parado no tempo, Esquadrão Suicida poderia, então, pelo menos compensar na ação, certo? Errado. Em cada cena de adrenalina, o diretor abusa de milhões de clichês como as balas caindo em slow motion de uma metralhadora ou vidros se estilhaçando de forma supostamente elegante. Tem muitos tiros e pancadaria, é verdade, mas não dá para se encontrar muito ali: é de se duvidar que alguém tenha entendido bem quem faz o quê em cada cena de ação, onde determinado personagem pulou ou qual tiro acertou quem. Não há apuro geográfico na forma como a câmera do diretor se movimenta na ação. Agora, uma coisa é certa: é questão de poucos minutos até Arlequina (Margot Robbie) fazer uma piada ou estourar uma bolinha de chiclete mesmo quando o circo está pegando fogo – e isso nos leva a mais um problema gravíssimo de um filme cuja lista de defeitos parece não ter fim.
Nada mais trágico em um longa da natureza de Esquadrão Suicida do que você não se interessar pelos personagens em cena. E já começo falando da Arlequina de Margot Robbie porque ela está sendo defendida, na realidade, por ser apenas um alento em um casting de personagens apáticos – e isso é realmente muito pouco para chamá-la de destaque. Para ser bem justo, dá sim para dizer que Robbie tem um apurado timing cômico. Entretanto, sua Arlequina é tão mal escrita que fica difícil ter boa vontade. Indo além: ela serve apenas para fazer graça a partir de uma loucura muito mal explicada e literalmente parar um exército ao ostentar seu corpo esbelto em um micro short. Não dá mais para amenizar objetificação da mulher hoje em dia, inclusive porque Esquadrão Suicida se esmera ainda mais (no mau sentido) ao fazer com que Arlequina represente o estereótipo de mau gosto da figura feminina que vive apenas para reencontrar seu homem e que só falta usar um colar que mais parece uma coleira com o apelido do amado que comanda cada passo de sua vida. Só que… ei, espera, ela usa!
Por falar em amado, que homem mais horroroso! Jared Leto é sonolento com a interpretação repetitiva de um Coringa sem propósito, personalidade e função. Nesse casso, a culpa é tanto do ator, que se preocupou mais em vender sua caracterização na mídia do que em de fato fazer um trabalho decente, quanto do diretor, que não dá qualquer dimensão à nova construção desse personagem que certamente faz Heath Leder se revirar no caixão e até Jack Nicholson respirar aliviado. De resto, dá pena ver Viola Davis no meio de tantas figuras irritantes e esquecíveis, inclusive porque ela própria só causa indiferença em Esquadrão Suicida. Rejeito comentários tão definitivos, mas não há nada que se salve nesse desastre. Não importa o quanto alguém tente lhe preparar: tudo é pior do que se pode imaginar. Dessa forma, o longa de David Ayer virou um filme-evento por ser tão ruim. Todos querem tirar a prova para ver se algo pode mesmo ser tão absurdo. As pessoas têm razão em ir ao cinema apesar das advertências. Só mesmo vendo para acreditar.