Animais Noturnos
When you love someone, you have to be careful with it. You might never get it again.

Direção: Tom Ford
Roteiro: Tom Ford, baseado no livro “Tony & Susan”, de Austin Wright
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Laura Linney, Isla Fisher, Jena Malone, Andrea Riseborough, Robert Aramayo, Karl Glusman, Ellie Bamber
Nocturnal Animals, EUA, 2016, Drama/Suspense, 116 minutos
Sinopse: Susan (Amy Adams) é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro (Armie Hammer). Um dia, ela recebe um manuscrito de autoria de Edward (Jake Gylenhaal), seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa (Isla Fisher) e filha (Ellie Bamber) para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado. (Adoro Cinema)

Por exercício e vocação, Tom Ford é, sem trocadilhos, um sujeito de estilo. Ao resgatar a Gucci de uma trajetória decadente, fez com que a marca se tornasse um negócio bilionário. Anos depois, comprou a Maison Yves Saint-Laurent, onde assumiu o cargo de comandante do negócio após a saída do lendário estilista francês em 2002. Isso é o que, em linhas muito gerais, resume todo o poder de Tom Ford no mundo da moda. Por outro lado, o que ninguém esperava é que ele, aos 48 anos, decidisse se tornar cineasta (sem abandonar a indústria da moda, claro). E um cineasta dos mais incríveis: lançado em 2009, Direito de Amar representa um trabalho muito íntimo de Ford, mas que revela um diretor cujo talento ultrapassa todas as fronteiras relacionadas a sua mera identificação pessoal com o material original (o livro A Single Man, de Christopher Isherwood). Obviamente, tanto em Direito de Amar quanto agora em Animais Noturnos, a estética é elemento primordial para o estilista no cinema. A diferença é que, enquanto no primeiro ela exaltava as pequenas belezas de um cotidiano essencialmente morto, no segundo a situação se inverte com requintes que representam desde profundos vazios existenciais até interessantes provocações sobre um mundo de aparências.
Com um pulsante vermelho, Animais Noturnos descortina seus contrapontos logo na sequência de abertura, onde mulheres obesas aparecem nuas dançando como cheerleaders. Ford, apoiado pela trilha orquestral sempre impressiva do polonês Abel Korzeniowski, faz questão de endeusá-las como mulheres dignas de uma obra de arte. E elas realmente são: poucos minutos depois, o filme revela que todas fazem parte de uma exposição multimídia promovida por Susan (Amy Adams), a riquíssima dona de uma galeria de arte que leva uma vida onde belos saltos altos, impecáveis maquiagens e irresistíveis armações de óculos não conseguem camuflar a tristeza de uma mulher incompleta. Se Susan impacta em um primeiro momento com tanta elegância para depois se mostrar um ser humano insatisfeito, seu marido não fica muito atrás: a beleza de Hutton (Armie Hammer) soa quase artificial e, à beira da falência, tudo o que ele pode fazer é se agarrar ao que tem de mais sedutor no exterior para conseguir manter novos casos extraconjugais. O belo é feio (ou pelo menos desesperançoso) em Animais Noturnos, o que certamente é uma bela oportunidade para uma atriz talentosa como Amy Adams. A incompletude da protagonista se agrava quando ela recebe um manuscrito de seu ex-marido, que, ao escrever um romance violento e perturbador, dá a entender que ainda há algo a ser dito para a mulher que partiu seu coração e o abandonou anos atrás.
A partir desse manuscrito, que será lido da forma mais dramática possível por Susan (um dos maneirismos equivocados de Tom Ford), Animais Noturnos passa a narrar a história desse material, tentando desvendar o quanto ele pode ter relações com a vida real da protagonista. Nesse universo paralelo onde Tony (Jake Gyllenhaal) vive uma noite de terror com a mulher e a filha na beira da estrada, a beleza inexiste. O que importa nele – e com toda a razão – é a crueza dos fatos e, principalmente, dos personagens, todos basicamente homens que se entregam a emoções conturbadas como a covardia, o masoquismo e o senso cego de fazer justiça com as próprias mãos. É nessa fatia de Animais Noturnos que se revela o talento de Tom Ford em conseguir impactar sem qualquer alegoria estética, já que existe uma constante tensão na história, seja pela imprevisibilidade de todos os personagens (do sádico marginal vivido por Aaron Taylor-Johnson ao xerife anti-convencional de Michael Shannon, ambos ótimos) ou pela própria forma como o diretor captura o nervosismo de cada momento (a perseguição na estrada é uma das sequências mais tensas do ano). Sem dúvida, esse livro lido por Susan ganha contornos muito mais interessantes pelas leituras de Tom Ford.
Todavia, como se espera na maioria dos casos, Animais Noturnos se enfraquece ao ter que lidar com a estrutura de dois filmes dentro de um. E isso tem menos a ver com a lógica de que uma história é mais interessante do que outra (até no excepcional Relatos Selvagens temos as nossas preferências entre os capítulos) e mais com a forma com que o longa costura as duas tramas. A história da personagem de Amy Adams depende diretamente da que é contada no livro lido por ela para que o círculo possa se completar com mais sentido, e é aí que o roteiro escrito por Tom Ford não tem o mesmo refinamento da direção. Se não bastassem as transições óbvias entre um universo e outro para mostrar o quanto os dois universos conversam (o barulho de um tiro no livro repercute em um pássaro na janela assustando Amy Adams, por exemplo), ainda é preciso que o cineasta force um pouco a barra em soluções visuais para abrir os olhos do espectador quanto ao que está sendo discutido nas entrelinhas, como se a história não se bastasse por si só. Isso está claramente refletido na cena em que Ford faz uma personagem desfilar em um corredor onde está pendurado um quadro imenso com a palavra “vingança”. E mais: ainda a coloca para contemplar a obra. É certo que o paralelo entre os dois mundos já não é o mais revelador, mas o fato do diretor arranjar soluções pouco criativas para a conversa deles dá mais uma leve amortecida na situação.
De qualquer forma, Animais Noturnos, mesmo com eventuais fragilidades, é um filme perfeitamente eficiente, muito em função da mão segura de Tom Ford como diretor. Seu nome ainda revela outro prestígio: o que alcançou dentro do círculo de atores em Hollywood. Afinal, são poucos os diretores que conseguem reunir tantos profissionais de prestígio como Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e Aaron Taylor-Johnson em um elenco que ainda conta com grandes atores como Laura Linney em pontas reveladoras do ponto de vista dramático. O elenco é um dos grandes méritos de Animais Noturnos, o que não deixa de ser uma ramificação do bom trabalho de Tom Ford atrás das câmeras. Afinal, de nada adianta atores talentosos se não existe alguém com uma clara noção do que quer para direcioná-los. No fim, pode ser que a mais nova investida do diretor-roteirista-estilista não tenha a mesma potência que o seu trabalho de estreia. Isso não quer dizer, contudo, que Animais Noturnos não preserve grande parte de sua reconhecida e admirável assinatura, estampada também na cena final, que, assim como em Direito de Amar, induz ao alento para em seguida nos despedaçar de alguma forma. Coisas de Tom Ford. Há quem compre. Outros que detestem. Particularmente, com uma ressalva aqui e outra ali, sigo aprovando.
Sully: O Herói do Rio Hudson
Everything is unprecedented until it happens for the first time.

Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Todd Komarnicki, baseado no livro “Highest Duty: My Search for What Really Matters”, de Chesley ‘Sully’ Sullenberger e Jeffrey Zaslow
Elenco: Tom Hanks, Aaron Eckhart, Laura Linney, Anna Gunn, Valerie Mahaffey, Delphi Harrington, Mike O’Malley, Jamey Sheridan, Holt McCallany, Katie Couric, Blake Jones, Molly Bernard
Sully, EUA, 2016, Drama, 95 minutos
Sinopse: 15 de janeiro de 2009. Logo após decolar do aeroporto de LaGuardia, em Nova York, uma revoada de pássaros atinge as turbinas do avião pilotado por Chesley “Sully” Sullenberger (Tom Hanks). Com o avião seriamente danificado, Sully não vê outra alternativa senão fazer um pouso forçado em pleno rio Hudson. A iniciativa é bem sucedida, com todos os 150 passageiros a bordo sendo salvos. Tal situação logo transforma Sully em um grande herói nacional, o que não o isenta de enfrentar um rigoroso julgamento interno coordenado pela agência de regulação aérea nos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

Faz parte das afirmações dolorosas de serem feitas, mas é impossível se esquivar: Clint Eastwood tem se tornado um cineasta cada vez mais irrelevante. Se, entre 2003 e 2006, os anos foram de ouro para o veterano diretor (Sobre Meninos e Lobos! Menina de Ouro! Cartas de Iwo Jima!), a situação só desandou dali em diante: apesar das atividades ininterruptas, sua carreira vem oscilando entre a inexpressividade (Invictus), o tédio (Além da Vida) e o mero patriotismo (Sniper Americano). O que parecia ser um caminho sem volta realmente se confirma com a estreia de Sully: O Herói do Rio Hudson, longa que, para piorar, reúne todos os aspectos negativos que pautaram a filmografia recente de Eastwood.
Os problemas cruciais de Sully começam ainda em sua concepção. Afinal, como expandir para quase 100 minutos a dramaturgia de um evento real que durou aproximadamente três minutos e meio? Além: onde está o conflito de uma trama centrada em um evento que, fadado a terminar em tragédia, acabou preservando a vida de mais de 150 pessoas? Dessa forma, o roteiro escrito por Todd Komarnicki faz de tudo para dar algum estofo dramático à jornada do protagonista, um piloto veterano que, ao confiar mais na sua experiência e nos seus sentidos humanos, reescreveu o destino ao pousar um grande avião no rio Hudson dos Estados Unidos para salvar seus tripulantes com sucesso. Só que a missão de problematizar esse feito heroico é falha, pois basta uma pequena perspectiva para perceber que não há nada a ser problematizado ali.
Tentando compensar a base dramática fragilíssima de Sully, erram tanto Kormanicki quanto Eastwood. O primeiro sobrecarrega o filme com firulas desnecessárias como os flashbacks da adolescência do protagonista que, aleatórios, não iluminam nada sobre o presente dele ou como os diferentes pontos de vista que o longa adota na hora de encenar seu grande evento (superficialmente, acompanhamos as histórias individuais de alguns passageiros antes de eles embarcarem no avião). Enquanto isso, o diretor frequentemente força a barra no tom dramático que dá aos eventos, indo de cenas dignas de novela quando perturba Sully (Tom Hanks) com falas de outros personagens que pipocam em sua mente ao conceito que aplica no comportamento da equipe de Segurança Aérea cuja única missão parece ser inexplicavelmente destruir a carreira do protagonista.
Tom Hanks, um cara bacana até quando atua no piloto-automático, é o sujeito perfeito para um papel como o de Sully: homem correto e de carreira respeitável, o protagonista exalta o retrato do cidadão norte-americano íntegro que os Estados Unidos adoram ver nas telas. Em contramão, o filme subutiliza duas grandes atrizes, aqui escaladas para papeis rasteiros para seus respectivos talentos. A primeira é Laura Linney, que dispensa comentários, mas nada tem a fazer a não ser falar ao telefone com o marido sem nunca contracenar com ele. A segunda é Anna Gunn, a eterna Skyler White de Breaking Bad, reduzida ao papel unidimensional da única investigadora feminina do time que quer derrubar o heroico piloto. Fica a dúvida: por que selecionar intérpretes tão talentosas para papeis esquecíveis como esse? Talvez seja mais uma jogada para desviar a atenção do fato de que o que mais falta em Sully é uma história.
A Chegada
If you could see your life from start to finish, would you change things?

Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer, baseado no conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Jadyn Malone, Abigail Pniowsky, Tzi Ma, Julia Scarlett Dan, Anana Rydvald, Russell Yuen
Arrival, EUA, 2016, Ficção Científica, 116 minutos
Sinopse: Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade. (Adoro Cinema)

Não há diretor mais interessante para se acompanhar atualmente do que o canadense Denis Villeneuve. Após repercussão internacional com o ótimo Incêndios, em 2010, ele conseguiu um feito raro: se lançou em Hollywood com personalidade e provocação, o que obviamente lhe trouxe admiradores e detratores na mesma proporção. Por outro lado, é curioso perceber como o diretor, ao contrário de Christopher Nolan, por exemplo, amplia suas ambições em forma e conteúdo sem se perder na pretensão. Basta olhar em retrospecto: o magnífico Os Suspeitos, de 2013, hoje soa quase simples nas questões que suscita se comparado a O Homem Duplicado, Sicario: Terra de Ninguém e, agora, A Chegada, longas consideravelmente mais complexos, mas jamais eruditos. Villeneuve veio para Hollywood querendo mexer com zonas de conforto, o que ganha novas dimensões nessa nova obra assinada por ele e estrelada pela pentacampeã em indicações ao Oscar Amy Adams. A diferença é que agora, o cineasta chega à ficção científica, um terreno infinitamente mais popular e consequentemente mais suscetível a polêmicas junto às plateias
Vendido de forma oportunista por trailers equivocados, A Chegada, desde os primeiros segundos de abertura com os acordes de On the Nature of Daylight, composição do grande Max Richter cedida para o filme, já renega o convencional ao abraçar uma profunda melancolia para introduzir sua heroína, uma linguista que guarda uma história pessoal calejada e despedaçada. É simbólico o filme começar tão próximo da intimidade de Louise Banks (Adams) porque todo o restante da trama se desenvolverá a partir do seu olhar particular, quebrando a expectativa de espectadores sedentos por pirotecnias e espetáculos visuais imediatos. As lembranças da protagonista permearão toda sua jornada como a profissional designada a compreender o idioma de alienígenas que estacionaram no planeta Terra sem motivo aparente, e é importante se atentar a elas não como meros relatos para dar algum embasamento dramático à personagem, mas sim como importantes ferramentas narrativas e imersivas. Compreender que a trajetória de Louise é tão grande quanto a da humanidade frente ao desconhecido é fator-chave para absorver o real sentido de A Chegada.
Preferindo o silêncio à qualquer hipérbole audiovisual para criar o fascínio do suspense envolvendo o pouso dos alienígenas na Terra, Villeneuve sabe que é importante entregar uma ficção com uma pegada de reflexões em tempos que produções megalomaníacas na técnica, mas rasteiras no conteúdo chegam aos cinemas em grande quantidade. Ao conjugar com precisão todas as ferramentas audiovisuais a sua disposição, o cineasta também exige o mesmo tino para o diferente de cada um dos profissionais envolvidos no projeto em suas respectivas áreas – e é impossível não destacar a trilha eficiente e frequentemente perturbadora do islandês Jóhann Jóhannsson e a fotografia assinada por Bradford Young, que é capaz de explorar a beleza e o horror das situações vividas por Louise. Por abandonar muitos dos vícios do gênero, seja na estética mais refinada ou na história mais contemplativa, a sensação é de estranhamento ou pelo menos de readaptação a um nível de sofisticação que não encontramos nesse tipo de cinema com muita frequência. Entretanto, a partir do momento em que se compra a proposta de A Chegada, o estado pode muito bem ser de maravilhamento, especialmente quando as peças finalmente se encaixam nos momentos derradeiros.
A ficção, que tem se beneficiado e dado sorte com protagonistas femininas (Gravidade e Mad Max: Estrada da Fúria arrasaram como unanimidade entre crítica e público), novamente aposta em uma mulher como estrela de uma trama. Com uma vida vazia e aparentemente dedicada apenas à profissão, Louise Banks hesita, tem pesadelos e às vezes não é levada a sério, mas tem conhecimento e principalmente sensibilidade de sobra para mostrar que o diálogo e o estudo da comunicação são ferramentas tão complexas quanto subestimadas – e é na provocação dessa necessária reflexão que reside sua vitória como heroína. Conduzindo o roteiro de Eric Heisserer, que adapta o conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang, o diretor, portanto, tem também a delicada missão de fazer com que discussões humanas dialoguem com elementos fantásticos da ficção. Nesse sentido, A Chegada apresenta lá seus tropeços, pois o estofo sci-fi vem mais pelo bom uso dos elementos técnicos do que pela concepção visual do universo em si (tanto as naves quanto os alienígenas não chegam a ser imponentes ou criativos aos olhos), além da parte dramática discutir de forma óbvia questões como a intolerância e a agressividade humana em situações de ameaça.
O caminho a passos lentos é constante em A Chegada, e a boa notícia é que a resolução compensa tanto o miolo por vezes repetitivo quanto as falhas nas relações que tenta estabelecer de forma mais prática entre o plano humano e fantástico. São poucos os filmes que, em uma resolução criativa, colocam automaticamente todo o filme em retrospectiva na cabeça do espectador para iluminar detalhes que até então pareciam aleatórios ou desconexos. A Chegada é exatamente assim, alcançando ainda níveis emocionantes quando, ao final, se propõe a versar sobre as escolhas que sabe fazemos ao longo da nossa existência e o quanto presumir ou saber os desfechos dela não anulam tudo o que pode existir de fascinante nesse caminho. Verdade seja dita que não são poucos os rodeios que o filme dá para dar simetria total a seu ciclo e chegar a toda emoção de seu terço derradeiro, mas a precisão a partir daí é admirável e o que vem a partir dela é muito íntimo. A Chegada reverbera muito além da sessão. Sorte de quem consegue perceber essa beleza.
Elle

Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: David Birke, baseado no livro “Oh…”, de Philippe Djian
Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira, Judith Magre, Christian Berkel, Jonas Bloquet, Alice Isaaz, Vimala Pons, Raphaël Lenglet, Arthur Mazet
França/Alemanha/Bélgica, 2016, Drama/Suspense, 130 minutos
Sinopse: Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela. (Adoro Cinema)

O plano inicial era ambientar Elle nos Estados Unidos com os personagens, claro, falando inglês. No entanto, o diretor Paul Verhoeven sofreu para encontrar uma protagonista que topasse embarcar no projeto. E isso não é exagero: você consegue imaginar um filme recusado por Julianne Moore, Nicole Kidman e Kate Winslet, atrizes reconhecidas por eventuais papeis despidos de vaidade e atraídas por projetos transgressores? Segundo Verhoeven, que, junto aos produtores, ainda abordou nomes como Cate Blanchett e Sharon Stone, a situação que se repetia na maioria dos casos era a seguinte: as atrizes recusavam o roteiro já em uma primeira leitura ao invés de, como é de praxe, esperar alguns dias para dar um retorno negativo.
Com tantas recusas, Elle foi transferido para a França, onde finalmente encontrou Isabelle Huppert, atriz que, antes mesmo de chegar ao roteiro, havia lido a obra original (o romance “Oh…”, escrito por Philippe Djian) e acreditava que aquele era um papel que precisava interpretar. Pode ser que outras atrizes tenham rejeitado o projeto simplesmente por questão de agenda (o que seria uma coincidência tremenda, dada a declaração de Verhoeven sobre o roteiro ser muitas vezes descartado já em um primeiro contato), mas o nome de Huppert aponta para uma tese clara: talvez somente ela, a atriz mais corajosa da Europa, teria mesmo aceitado personificar Michèle Leblanc, a protagonista incrivelmente desafiadora de Elle.
Ironicamente, no final das contas, Elle é um trabalho de pegada muito mais européia do que norte-americana, começando pela ideia de que, como define a própria Huppert, o filme se apoia não em uma história, mas em uma personagem, traço muito característico do cinema europeu. Essa categorização é fundamental para compreender que, antes do thriller que estabelece envolvendo a desconhecida identidade de um estuprador, Elle é sobre as múltiplas e contraditórias facetas de uma mulher que já é um mistério por si só: deixando de lado a necessidade de causar simpatia no espectador para apostar nas imperfeições do realismo (e não é aí que residem os grandes papeis?), Michèle Leblanc se apresenta como uma pessoa que, ao reagir de forma inesperada após um ato de violência, é imprevisível em atos e pensamentos, desde a convivência com seus funcionários no trabalho até os julgamentos que faz acerca da vida sexual da mãe.
Sem nunca utilizar o estupro como ferramenta de vitimização para uma personagem de conduta frequentemente questionável, Elle se engrandece menos quando quer fazer mistério sobre o ato de violência em questão e mais quando documenta os dias de uma mulher que vive a partir de suas próprias regras. Um exemplo disso é como a agressão pode ser vista sob a luz do próprio passado da protagonista, que esconde um grande trauma envolvendo o pai ausente. Não seria a atípica reação de Michèle ao estupro uma forma de ela também tentar entender a conturbada índole de seu progenitor? A violência está frequentemente em pauta no roteiro de David Birke, e ela funciona melhor como uma forma de enriquecer as complexidades de uma mulher madura e solitária cujos ímpetos sexuais ainda são decisivos em suas atitudes (algo que raramente o cinema gosta de discutir em personagens como essa).
Só que Michèle Leblanc é uma figura que, na vida real, causaria aversão em quase todos nós. Ao passo em que é vitoriosa na vida profissional como a prestigiada executiva-chefe de uma empresa de videogames (o que não a livra de ter que às vezes levantar a voz para lembrar seus funcionários sobre quem manda no recinto, iluminando a questão de gênero no ambiente de trabalho), a protagonista encara as relações humanas a partir de um modelo próprio e que julga ser o ideal. Intolerante, não economiza ironias para desprezar as decisões do filho, abre mão de cerimônias e pesos de consciência para admitir erros e traições e diz qualquer coisa que venha à cabeça, o que a torna uma figura bela (e quem sabe evoluída) pela inabalável franqueza ou profundamente desumana por não considerar outros sentimentos que não sejam os dela.
Não há redenção para a protagonista de Elle – nem mesmo com a questão do estupro vindo à tona -, o que torna a missão de interpretá-la um desafio dos mais complexos. E Isabelle Huppert, atriz especialista em personificar tipos “difíceis” (definição que ela rejeita) como esse, sabe transformar Michèle Leblanc em uma mulher fascinante do ponto de vista dramático (e até cômico, já que o longa também é munido de um humor muito peculiar) ao invés de simplesmente reduzi-la ao status de ser humano desprezível por suas atitudes desregradas. Hoje é difícil imaginar qualquer atriz em seu lugar, pois o trabalho realizado aqui é de quinta grandeza e principalmente de total imersão em uma personagem que nunca é (e nem precisa ser) justificada ou redimida pelo roteiro. Huppert, que nunca busca tornar sua personagem palatável ao público, traz uma belíssima adição ao rol de papeis femininos fortes de 2016. Não à toa, ela e Sonia Braga (Aquarius) foram as divas mais aplaudidas no último Festival de Cannes por suas atuações.
Em um filme onde o fascínio se encontra no mundo feminino (todos os homens são fracos ou medíocres), outra qualidade se sobressai na construção dramática de Elle: a do diretor Paul Verhoeven em nunca armar um circo a partir dos inúmeros acontecimentos propostos pelo roteiro. São várias as tragédias pessoais vividas pela protagonista, o que felizmente não torna o conjunto implausível ou inverossímil. Pelo contrário: tudo serve para complementar as complexidades de um relato que, assim como o recente O Silêncio do Céu, parte de um estupro, mas nunca se torna necessariamente um filme sobre estupro. Experiência bastante desafiadora para a plateia, Elle, no entanto, é plenamente recompensador para quem aceita ser provocado. Se esse for o seu caso, pode acreditar: teremos longas e instigantes conversas sobre a obra durante um bom tempo.
Doutor Estranho
We never lose our demons. We only learn to live above them.

Direção: Scott Derrickson
Roteiro: C. Robert Cargill, Jon Spaihts e Scott Derrickson, baseado nos quadrinhos de Steve Ditko
Elenco: Benedict Cumberbatch, Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Benjamin Bratt, Michael Stuhlbarg, Scott Adkins, Alaa Safi, Katrina Durden, Topo Wresniwiro
Doctor Strange, EUA, 2016, Aventura, 115 minutos
Sinopse: Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) leva uma vida bem sucedida como neurocirurgião. Sua vida muda completamente quando sofre um acidente de carro e fica com as mãos debilitadas. Devido a falhas da medicina tradicional, ele parte para um lugar inesperado em busca de cura e esperança, um misterioso enclave chamado Kamar-Taj, localizado em Katmandu. Lá descobre que o local não é apenas um centro medicinal, mas também a linha de frente contra forças malignas místicas que desejam destruir nossa realidade. Ele passa a treinar e adquire poderes mágicos, mas precisa decidir se vai voltar para sua vida comum ou defender o mundo. (Adoro Cinema)

Vem de longa data a minha rejeição aos filmes baseados em histórias de quadrinhos, e isso não tem nada a ver com qualquer aversão aos personagens em si ou ao fato de que as adaptações dão origem, em sua quase totalidade, a blockbusters meramente descompromissados. Não há problema algum em abraçar a diversão pela diversão. Minha rejeição vem pela constante redundância dessas obras. Mercadologicamente, é inevitável que cada vez mais tenhamos aventuras derivadas de HQ’s e que todas elas, apesar de seus universos e heróis distintos, assemelhem-se em estrutura porque o alto investimento dos estúdios precisa ter resultados financeiros – e é fácil reconhecer a fórmula que o público gosta para mantê-la em looping. Já artisticamente, o cansaço também é compreensível: como não ser um geek e ainda ter expectativas ou até mesmo paciência com filmes que apenas se encaixam dentro de uma mesma cartilha repetida há anos? Pois Doutor Estranho invade os cinemas provando que não é necessário fazer escolhas tão diferentes para entregar uma experiência indiscutivelmente acima da média para o gênero.
O que pode parecer apenas um detalhe se revela um acerto fundamental na mistura diferenciada do filme dirigido por Scott Derrickson: o elenco. Habitualmente estreladas por atores reconhecidos mais pela beleza ou pela famosidade do que propriamente pela excelência em atuação (Chris Hemsworth, Ryan Reynolds, Henry Cavill, Chris Evans), as adaptações de quadrinhos raramente ganham pontos nesse quesito. Pode ser que Robert Downey Jr. tenha carisma como o Homem de Ferro ou que Hugh Jackman já tenha criado suas marcas como Wolverine. No entanto, são raros os casos como o de Doutor Estranho, onde todos os atores do elenco vêm de uma boa trajetória no cinema ou na TV e conferem uma verossimilhança significativa aos seus personagens ao invés de apenas ligarem o piloto-automático no meio de tantos uniformes e efeitos especiais. O resultado é visto na prática, em especial nas figuras de Benedict Cumberbatch, que é ótimo ao dar visceralidade a um personagem que carrega o arco dramático clichê do homem arrogante que precisa passar por uma tragédia para se transformar, e de Tilda Swinton, sempre distribuindo versatilidade (e dubiedade, quando preciso) para até mesmo emocionar em sua cena derradeira. Inclua ainda nomes Rachel McAdams, Mads Mikkelsen e Chiwetel Ejiofor na mistura e encontre um elenco seguro, consistente e realmente diferenciado.
Dos tradicionais cenários estadunidenses que são destruídos a cada lançamento, vamos para o Nepal (e um pouco mais além para Hong Kong), onde a geografia asiática se torna a circunstância perfeita para uma trama que não se origina a partir de experimentos tecnológicos e muito menos evolui em função de vilões com planos hiperbólicos: Doutor Estranho é sobre um neurocirurgião que, ao sofrer um grave acidentes nas mãos, viaja o mundo para corrigir sua nova incapacidade física com a ajuda de um misterioso grupo que está muito mais para o plano espiritual do que para o prático – e é por causa dessa abordagem que a experiência se torna, na medida do possível, uma aventura muito mais identificável a todos nós, pois, assim como Stephen Strange (Cumberbatch), embarcamos na jornada realmente nos questionando sobre tudo aquilo que não sabemos e que supostamente sempre subestimamos ser possível. O desconhecimento desse mundo de explicações menos racionais é a porta de entrada para uma ação mitológica em que personagens passam a adquirir poderes imprevisíveis: ao mesmo em que um portal para o outro lado do planeta pode se abrir com um simples movimentos das mãos, toda uma cidade fica literalmente de ponta-cabeça quando esses poderes se aperfeiçoam com a prática. Tal imprevisibilidade encanta em termos de adrenalina porque tudo pode acontecer na luta entre dois personagens que conseguem tornar realidade basicamente tudo aquilo que é imaginação.
Com uma carreira que evidencia seu talento para contar histórias focadas mais em pessoas do que em artificialidades (enquanto o remake da ficção O Dia em Que a Terra Parou é uma tremenda decepção, O Exorcismo de Emily Rose é uma marco por ter uma pegada até mais dramática do que de terror), Scott Derrickson nunca cria um filme esteticamente fake mesmo com a obrigatoriedade do espetáculo visual: as cenas em que os cenários se deslocam como em A Origem, de Christopher Nolan, são realmente impressionantes, mas todas as outras também são bem executadas, o que é reflexo de uma parte técnica frequentemente criativa (nesse aspecto podemos citar ainda a ótima trilha sonora assinada por Michael Giacchino). Derrickson orquestra tudo com competência – inclusive o elenco, já que, vale lembrar, nada adianta um casting incrível se um diretor que não sabe conduzi-los, como no desastroso Esquadrão Suicida –, e o resultado se reflete muito além das bilheterias: até a data de publicação desse texto, Doutor Estranho alcança a marca de 90% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes em um universo de mais de 250 avaliações. Reconhecimento merecido e diversão mais do que garantida para você que, assim como eu, precisa de muita boa vontade para conferir um filme de super herói.