Cinema e Argumento

Rapidamente: “Califórnia”, “Capitão Fantástico”, “Moana” e “Real Beleza”

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Encantadora aos olhos e aos ouvidos, a animação Moana: Um Mar de Aventuras tem ideias que a colocam em um patamar diferenciado. O desenvolvimento da história, entretanto, não arrebata.

CALIFÓRNIA (idem, 2015, de Marina Person): Com uma trilha sonora irresistível e referências aos anos 1980 que endossam todo o lado pop da diretora Marina Person, Califórnia é uma experiência agradabilíssima. Acompanhando os dias de Estela (Clara Gallo), adolescente que, em plena descoberta sexual e de identidade, se comunica com o tio que mora nos Estados Unidos através de cartas repletas de confissões, o filme faz um espirituoso retrato da adolescência na década em questão com relatos regados a sucessos de David Bowie a Barão Vermelho, passando pela febre de estreias do cinema como E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg, e Gosto de Sangue, dos irmãos Coen. É divertido acompanhar Califórnia por causa dessas referências e também porque a inocência com que Marina Person retrata as primeiras descobertas de uma menina transformação é irresistível. A situação se fragiliza, por outro lado, em vários rumos do roteiro, que cria expectativas acerca do tio da protagonista (vivido por um Caio Blat sempre espirituoso) para depois subaproveitá-lo gradativamente. Há ainda uma boa parcela de previsibilidades, como a de quem se tornará o real interesse amoroso da jovem Estela. Ainda assim, Califórnia, que de fato poderia ser um retrato muito mais consistente sobre uma época tão efervescente do ponto de vista cultural, tem seu frágil roteiro compensado por uma direção sincera e que justifica a espiada descompromissada.

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic, 2016, de Matt Ross): Se existe um grande mérito em Capitão Fantástico, esse é o de fazer com que o espectador se importe com os seus personagens. A tarefa é um pouco difícil, visto que, apesar da pegada mais realista no drama, a história é um tanto distante das nossas vidas: nela, um pai de família cria seus filhos em meio às florestas sem qualquer contato com tecnologia e aprendendo, por exemplo, a fazer suas próprias refeições a partir da caça de animais. É distante porque hoje parece inconcebível viver em um mundo que valoriza as pequenas coisas e não qualquer conexão com a internet. Mas não demora muito para Capitão Fantástico ultrapassar a barreira da mera trama curiosa para se tornar um drama envolvente e delicado. O diretor Matt Ross, em seu segundo longa de ficção, é econômico em intervenções na história, depositando boa parte de sua confiança em um ótimo elenco liderado por Viggo Mortensen (em performance delicada e surpreendentemente reconhecida com uma indicação ao Oscar 2017) e pontuado por outras performances de destaque, como a do jovem George McKay e a de Kathryn Hahn, em participação especial. É um daqueles casos onde a simplicidade surge como elogio, sendo capaz de proporcionar momentos genuinamente emocionantes: a cena em que a família canta e dança em uma melancólica despedida é o ponto alto do longa. Capitão Fantástico não está livre de falhas (o personagem de Frank Langella pode muito bem ser considerado unidimensional, enquanto um acidente envolvendo um personagem acontece apenas para resolver um conflito maior), mas é realmente pouca coisa perto do imenso coração do projeto. 

MOANA: UM MAR DE AVENTURAS (Moana, 2016, de Don Hall e Ron Clements): Não, Moana não é uma animação particularmente marcante por sua execução, mas é carregada de ideias que certamente lhe colocam em um patamar bastante diferenciado. Segunda protagonista negra da Disney (a primeira foi Tiana, de A Princesa e o Sapo em 2009), a personagem-título vive uma jornada importante, especialmente se tratando de um gênero amplamente destinado aos pequenos: não existe interesse amoroso para a jovem Moana, e ela está muito bem com isso. Na verdade, o filme nem toca no assunto, preferindo contextualizar a relação da protagonista com os pais ou sua coragem em desbravar sozinha um imenso oceano. Visualmente, o filme de Don Hall e Ron Clements é um deslumbre. Na criação, também é feliz em ideias (os personagens são divertidos e todos com funções lógicas na história) e até surpreendente em uma referência particular (como não lembrar de Mad Max: Estrada da Fúria na perseguição oceânica em que Moana enfrenta um imenso barco de cocos que tocam tambores?). O problema é que essas ideias, aliadas à clássica estrutura da Disney para arcos dramáticos ilustrados por canções dignas de nota (How Far I’ll Go é o delicioso chiclete que o estúdio sabe fazer com proeza), não são suficientes para, na prática, preencher um filme de quase 110 minutos. Moana encanta olhos e ouvidos, mas não arrebata especificamente no desenvolvimento da história. 

REAL BELEZA (idem, 2015, de Jorge Furtado): O diretor Jorge Furtado jura de pé junto que não assistiu, mas é impossível não associar Real Beleza ao romance As Pontes de Madison. Adriana Esteves, que protagoniza o filme do cineasta gaúcho e assume ter se inspirado no trabalho de Meryl Streep para compôr sua personagem, deveria ter avisado: fotógrafo que viaja ao interior e se apaixona por uma mulher casada em um período que ela está sozinha em casa enquanto a família viaja é mesmo material que inevitavelmente carrega a forte imagem de Meryl Streep e Clint Eastwood. Só que o curioso de Real Beleza, primeiro drama assinado por Furtado (ele sempre foi referência em ótimas comédias como O Homem Que CopiavaSaneamento Básico), é que o casal principal não tem química alguma, o que, considerando o fato de Adriana Esteves e Vladmir Brichta serem marido e mulher na vida real, é mesmo estranho. Nada chega a ser necessariamente de mau gosto em Real Beleza, mas, ao mesmo tempo, tudo é insosso demais: as citações literárias, o questionamento do que realmente é belo e as reflexões sobre a vivência matrimonial são óbvias, sem a esperteza que Furtado sempre cultivou tanto em suas comédias. A situação melhora a partir de certo ponto com a entrada de Francisco Cuoco (tanto o ator quanto o personagem são instigantes), mas aí a história já está se encaminhando para o final, e as resoluções não deixam de ser novamente insípidas.

La La Land: Cantando Estações

Here’s to the ones who dream.

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Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Damien Chazelle

Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Finn Wittrock, Callie Hernandez, Jessica Rothe, Sonoya Mizuno, Jason Fuchs, Damon Gupton

La La Land, EUA, 2016, Musical/Romance, 128 minutos

Sinopse: Ao chegar em Los Angeles o pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) conhece a atriz iniciante Mia (Emma Stone) e os dois se apaixonam perdidamente. Em busca de oportunidades para suas carreiras na competitiva cidade, os jovens tentam fazer o relacionamento amoroso dar certo enquanto perseguem fama e sucesso. (Adoro Cinema)

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Foi em setembro de 2014 que uma querida ex-professora do meu ensino fundamental conseguiu colocar em palavras algo que considero fundamental – e, muitas vezes, até pouco praticado, dependendo de quem está no lado de cá da tela – sobre o ato de ir ao cinema. Ela, que tanto me ensinou sobre História, participou da coluna Três atores, três filmes aqui do blog e falou sobre uma trilogia de desempenhos de uma única atriz: a grande Meryl Streep. Dois deles seriam os escolhidos por boa parte do público: A Escolha de SofiaAs Pontes de Madison. Já outro causa ligeira surpresa: Mamma Mia!. Mas os argumentos usados pela Raquel Cirne não só embasam muito bem sua escolha pelo musical de Phyllida Lloyd como também nos trazem ao que La La Land: Cantando Estações agora proporciona mundo afora. “Para ter valor, nem sempre um filme precisa ser questionador, enigmático ou difícil de entender. Também ter que ter música luminosa, leveza, beleza, como aquela linda celebração do casamento com velas penduradas nas árvores… Cinema é magia, e deve ter a função de inspirar, de estimular os sonhos, de colorir a vida”, escreveu. E, realmente, não há descrição mais certeira do que essa para explicar a qual estado de espírito o musical de Damien Chazelle nos leva durante pouco mais de duas horas de projeção.

Não surgem no vácuo a criatividade e a paixão pelo cinema que Chazelle imprime em seu La La Land. Basta retroceder até 2014, mais especificamente aos últimos dez minutos de Whiplash: Em Busca da Perfeição, para lembrar que, desde lá, o diretor não estava de brincadeira. Seria pelo momento final do filme estrelado por Miles Teller e J.K. Simmons armar uma hipnotizante sequência movida a jazz? De certa forma, pois a música é novamente um dos pilares do novo trabalho do diretor. Entretanto, o que impressionava mesmo era como Chazelle orquestrava aquele grand finale: a montagem era habilidosa ao acompanhar os incessantes movimentos dos instrumentos musicais, o som aguçava ainda mais os nossos ouvidos para a grandiosidade da apresentação, os atores passavam por transformações sem praticamente dizer uma palavra sequer e o diretor, entre tantos outros elementos, costurava tudo como se já tivesse uma larga experiência atrás das câmeras, quando, na verdade, Whiplash era apenas o seu segundo longa-metragem aos 29 anos de idade. Se fizermos uma ponte entre os minutos finais daquele filme aos primeiros de La La Land, a lógica de chegar aos sentidos segue a mesma (e isso não é algo ruim): em um (aparente) plano sequência, esse novo musical une coreografia, música, cor, dança, humor, graça e nostalgia com grande vitalidade, deixando muito claro e sem cerimônias que essa é uma experiência sobre sonhos e leveza.

Tratando-se de um longa que se presta a fazer uma homenagem aos musicais, faz total sentido que o número de abertura já jogue o espectador na alegoria porque os títulos do gênero costumam jogar o espectador no centro da musicalidade logo no início. É assim nos clássicos como A Noviça Rebelde (Julie Andrews correndo nas montanhas com “The Sound of Music”) ou em obras mais recentes como o singelo Hairspray – Em Busca da Fama (Nikki Blonsky cantando “Good Morning Baltimore” nas ruas com a maior felicidade do mundo), mas o importante é que isso ilumina o extenso conhecimento que o diretor de La La Land tem acerca dos musicais, inclusive trazendo para sua narrativa referências assumidas como o cinema de Jacques Demy em Os Guarda-Chuvas do Amor e outras pequenas brincadeiras que (nem tão) discretamente nos remetem, por exemplo, a um certo Gene Kelly se apoiando em um poste para cantar “Singin’ in the Rain”. Contudo, curiosamente La La Land é um filme com menos músicas do que o esperado. Isso é um problema? De forma alguma. Primeiro porque o filme também quer encenar um romance à moda antiga (e, para isso, a música não é obrigatória) e segundo porque Chazelle não se restringe a ela para homenagear o gênero – e é fácil perceber a eficiência de demais aspectos que abrangem desde uma ótima trilha instrumental composta por Justin Hurwitz a outras características emblemáticas dos musicais, entre elas, um irresistível número de sapateado. Com ou sem música, La La Land é sempre um deleite.

Homenagens surgem de tempos em tempos, mas o que diferencia La La Land de O Artista, por exemplo, é que o primeiro tem a esperteza de homenagear o clássico no plano contemporâneo, enquanto o segundo, esse sim, era apenas a “mera” homenagem que os contrários ao filme de Damien Chazelle tanto apontam (e desde quando uma obra se prestar a fazer “apenas” um tributo é um problema decisivo?). Capturando a vida de quem tem dificuldades em se tornar artista mesmo quando o mundo está todo na tela de um iPhone, La La Land flerta com o passado, mas se estabelece no presente ao criar coreografias nos famosos engarrafamentos de Los Angeles inclusive com street dance e ao abarcar a contemporaneidade em todos os detalhes da parte técnica, com destaque para o mágico design de produção e para os coloridos figurinos, ambos bem sucedidos ao mesclar a delicadeza da nostalgia com o frescor dos novos tempos. Através da atmosfera, Chazelle leva o espectador por uma viagem sensorial e cativante. E quando cito atmosfera é para justificar a ideia de que o roteiro de La La Land, apesar de estar um pouco acima da média dos roteiros de musicais, não é um aspecto grandioso do conjunto. Toda graça e emoção vem do trabalho de direção que, com o bom uso das ferramentas cinematográficas, torna encantador até mesmo aquele primeiro beijo que nunca acontece porque o celular toca ou porque a luz se apaga na hora errada. 

Essencialmente concentrado em apenas dois personagens, o musical cresce ao entregar grandes responsabilidades a Emma Stone, que está no auge de uma carreira prolífera e que vem ganhando mais espaço nos últimos tempos (até indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante ela teve por Birdman!). É o segundo musical da atriz, que ganhou o papel em La La Land justamente porque o diretor a viu nos palcos da Broadway com Cabaret. Ela está encantadora como sempre e, agora, reveladora na técnica, com direto até a um número solo onde condensa talento vocal e emoção genuína (“Audition (The Fools Who Dream)”). Emma é, sem dúvida alguma, o tipo de estrela que La La Land precisava. Enquanto isso, Gosling, que andava um pouco econômico em projetos nos últimos anos depois de dramas como Half NelsonA Garota IdealNamorados Para Sempre, surge menos radiante que a colega, mas em momento algum deixa escapar o carisma. O romance entre os dois é especial a partir dos contornos dados por um diretor que reconhece o valor dos sonhos e que, mesmo compreendendo que muitas vezes é necessário abrir mão de alguns em detrimento de outros supostamente mais importantes, nenhum deve perder seu valor diante dos obstáculos impostos pela vida. La La Land termina com o clássico The End, mudando um pouco a pegada do que décadas atrás indicava a proximidade desse letreiro (mais uma atualização do filme!), mas sem jamais abandonar a certeza de que sonhar é sempre um lindo estado de espírito. Mesmo quando precisamos manter os pés bem firmes no chão.

Manchester à Beira-Mar

I can’t beat it.

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Direção: Kenneth Lonergan

Roteiro: Kenneth Lonergan

Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Matthew Broderick, Tom Kemp,  Gretchen Mol,  Chloe Dixon, C.J. Wilson, Mary Mallen, Anna Baryshnikov, Heather Burns

Manchester by the Sea, EUA, 2016, Drama, 137 minutos

Sinopse: Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai (Kyle Chandler) do rapaz, seu irmão, falecer precocemente. Este retorno ficará ainda mais complicado quando Lee precisar enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes. (Adoro Cinema)

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Como fazer a ideia de um filme pequeno se tornar grande na tela? Há vezes em que uma proposta relativamente simples é ampliada por uma ambientação altamente criativa ou por uma escala maior de produção (caso do recente musical La La Land: Cantando Estações, que poderia facilmente se tornar um romance meramente clichê ou até mesmo irritante). Em outras situações, basta um cineasta talentoso que saiba potencializar o tripé mais básico do cinema (roteiro, direção e elenco) para que a experiência ganhe consistência admirável. Com Kenneth Lonergan em Manchester à Beira-Mar, a situação se enquadra exatamente no segundo caso. A partir de uma trama simplíssima (o homem que, após a morte do irmão, viaja à cidade natal para cuidar do jovem sobrinho desamparado ao mesmo tempo em que enfrenta seus próprios fantasmas), Lonergan faz bonito ao entregar um roteiro de precisão rara, uma direção em pleno controle e um trabalho de elenco à altura de todo o conjunto. Manchester à Beira-Mar rejeita firulas ou ideias mirabolantes para impactar apenas com sua aparente simplicidade, o que lhe confere uma maturidade ímpar.

Considerando o que chamamos informalmente de tripé mais básico do cinema, primeiro é preciso discutir o roteiro. Da comédia (Máfia no Divã) ao drama (Conte Comigo) passando até por filmes de época (Gangues de Nova York), Kenneth Lonergan, no entanto, nunca foi tão refinado como em Manchester à Beira-Mar, onde não deixa de voltar às origens do próprio Conte Comigo, filme que assinou em 2000 conduzindo a ótima Laura Linney em uma singela história familiar sobre uma mulher que precisava lidar com o delicado retorno de seu irmão mais novo. Ao retomar a ideia de extrair dramas a partir de um reencontro envolvendo pessoas do mesmo sangue, Lonergan dessa vez é mais cru e menos sentimental ao narrar a história de Lee Chandler (Casey Affleck), sujeito quieto e visivelmente calejado pela vida que, de repente, se vê na condição de tutor de Patrick (Lucas Hedges), um jovem garoto em plena descoberta sexual e de identidade. No convívio entre os dois, Manchester à Beira-Mar aborda várias jornadas: a de Lee, que parece saber lidar melhor com a perda do irmão do que com a sua nova condição de tutor; a de Patrick, que, distanciado de uma mãe problemática, tenta inconscientemente abstrair a repentina ausência do pai ao se cercar de amigos e interesses amorosos; e, claro, a conjunta desses dois personagens, que agora enfrentam inúmeros reajustes sob o mesmo teto.

Manchester à Beira-Mar engloba dilemas individuais e coletivos sem perder a mão, distribuindo uma generosa cota de tempo e digestão para o drama de cada um dos personagens. Com uma longa metragem (quase 140 minutos), o filme não tem pressa em desenvolver mesmo registros supostamente corriqueiros. Isso porque tudo está ali para comunicar, como a visível infelicidade de Lee, perceptível em uma simples montagem que acompanha seus dias lidando com clientes insatisfeitos no trabalho, ou o jeito torto de Patrick acobertar emoções que explode em um pequeno acidente doméstico na cozinha. Outro aspecto que torna o roteiro incrivelmente preciso é a inteligente introdução de flashbacks e personagens coadjuvantes na trama. A comprovação máxima desse elogio é o momento em que Manchester à Beira-Mar descortina uma perturbadora tragédia do passado do protagonista. Sóbrio, o relato surge organicamente: enquanto boa parte dos diretores não resistiria em guardá-lo como uma surpreendente revelação para os minutos finais de projeção, Lonergan o insere muito antes, percebendo que ele é prioritariamente um necessário complemento para o entendimento do espectador em relação ao protagonista.

Segundo, nossa discussão chega à direção. Se a quantidade de filmes dirigidos poderia acusar uma certa inexperiência de Kenneth Lonergan (excetuando o bem sucedido Conte Comigo, houve apenas o pequeno e quase ignorado Margaret, levando em conta seus 16 anos como diretor até aqui), Manchester à Beira-Mar surpreende ao se apresentar como, disparada, a direção mais madura do nova-iorquino. Ainda assim, não deixa de causar estranheza um filme como esse se destacar tanto em uma temporada de premiações, já que é raro obras menores e de dramas “comuns” (entre aspas porque nenhum drama é comum, especialmente quando bem contado) receberem algum tipo de reconhecimento. E o estilo escolhido para conduzir Manchester à Beira-Mar amplia um pouco esse estranhamento. Isso porque a direção crua não força absolutamente nada da história, acreditando que a força individual dela é de certa forma suficiente para seu impacto. O maior mérito da direção é justamente o inverso do que normalmente recebe distinções: ao invés de sublinhar o que não é necessário com qualquer artifício (nem mesmo os flashbacks são concebidos com diferenciações estéticas) ou de intensificar a força de cenas que já são dramáticas por si só, Lonergan toma como trabalho principal delimitar fronteiras em todas as frentes – e, além de acertar na escolha, consegue fazê-la sem jamais tirar toda a densidade tão característica de Manchester à Beira-Mar.

Terceiro, por último e não menos importante, vem o elenco. São duas as figuras centrais do filme, e os atores escolhidos para interpretá-las são excelentes. Ao considerar Casey Affleck surpreendente aqui, meio mundo deve ter esquecido o quão bom ele já era em O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford. Porém, isso em nada diminui a força de sua atuação, que, assim como todo filme, é calcada na economia mesmo quando Affleck é colocado a arranjar brigas em bares. Sua fragilidade é tocante na construção de um personagem que deixou de ter qualquer aptidão social e que sabota até mesmo as chances de retomar algum contato verdadeiramente humano na vida. Em contraste, o jovem Lucas Hedges, que participou de filmes como Refém da PaixãoO Grande Hotel BudapesteMoonrise Kingdom com pequenas pontas, tem um papel mais sonoro – e com toda razão, pois, apesar de interiorizar sentimentos em relação a morte do pai, o garoto tenta se ajustar em uma banda com os amigos, administrar duas namoradas e conciliar suas vontades com as escolhas soberanas de seu novo tutor. Tanto Affleck quanto Hedges se equiparam ao filme, carimbando, também no plano da interpretação, a ideia de que Manchester à Beira-Mar, um projeto pequeno em tese, é mesmo grande na prática.

Passageiros

A drowning man will always try to drag you down with him.

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Direção: Morten Tyldum

Roteiro: Jon Spaihts

Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia, Vince Foster, Kara Flowers, Conor Brophy, Julee Cerda, Aurora Perrineau, Lauren Farmer

Passengers, EUA, 2016, Ficção Científica, 116 minutos

Sinopse: Durante uma viagem de rotina no espaço, dois passageiros são despertados 90 anos antes do tempo programado. Sozinhos, Jim (Chris Pratt) e Aurora (Jennifer Lawrence) começam a estreitar o seu relacionamento. Entretanto, a paz é ameaçada quando eles descobrem que a nave está correndo um sério risco e que eles são os únicos capazes de salvar os mais de cinco mil colegas em sono profundo. (Adoro Cinema)

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Não faz sentido Jennifer Lawrence estar em Passageiros. Feminista ferrenha, a estrela favorita do diretor David O. Russell topou participar de um filme cujas ideias contradizem tudo o que ela já defendeu sobre os direitos de escolha e igualidade da mulher. Para isso, precisamos fazer uma significativa alteração na sinopse: Passageiros é, na verdade, sobre um homem que, fadado a viver 90 anos sozinho em uma nave após ter acordado por acidente antes de seus outros 4.999 colegas, resolve despertar uma moça que acaba de se tornar sua mais nova paixão só de observá-la dormindo. Existem muitos absurdos nessa proposta. O primeiro deles é obviamente esse amor mal concebido do nosso “herói” por uma moça que ele passa a investigar obsessivamente através de vídeos disponíveis sobre ela no sistema da nave que viaja em piloto-automático sem nunca poder alterar sua rota. O segundo é ele considerar acordá-la com a justificativa de que precisa de companhia após quase um ano sozinho, quando, na verdade, tal decisão revela não uma necessidade de contato humano, mas sim uma necessidade de consumo: ele se apaixonou e quer essa mulher na sua vida de qualquer jeito. E, por fim, o terceiro é realmente despertá-la, condenando a moça não somente a morrer antes da nave chegar a um sonhado destino (afinal, são 90 anos em que eles precisam ficar na nave impossibilitados de voltar a dormir), mas também a conviver com ele sem saber que foi despertada para ser seu próximo par romântico. 

Sob o ponto de vista realmente correto (e contemporâneo), Passageiros contaria essa história questionando moralmente toda a situação. Já como está nos cinemas, o contexto é amplamente romantizado, comprovando que todas as outras fragilidades presentes no filme seriam mesmo inevitáveis para uma equipe que não percebe o problema de uma ideia já em suas linhas mais gerais. Dirigido sem qualquer personalidade por Morten Tyldum (não era de se esperar mesmo algo diferente de um diretor que vem do formalíssimo O Jogo da Imitação), Passageiros tem a esperteza de trazer dois grandes astros que, sim, em tese são os nomes apropriados para um filme dessa dimensão. Entretanto, era quase impossível imaginar que Chris Pratt (sem qualquer carisma depois de ter se transformado em um galã hollywoodiano de tanquinho bem definido) e Jennifer Lawrence (que tem se preservado depois de Jogos Vorazes e de sua temporada de indicações ao Oscar) não teriam química alguma em cena. Amigos na vida real, não existe qualquer chama entre os dois que possa de alguma forma compensar a equivocada proposta do roteiro de romantizar uma situação moralmente questionável. Com a ineficiência do trabalho de Pratt e Lawrence (individual ou em dupla), Passageiros passa a depender ainda mais de sua concepção estética e, claro, dos conflitos que estabelece em uma trama que se resume basicamente a um longo dueto. Novos poréns surgem na fórmula: não há muita imaginação no universo criado por Tyldum (e dizer que os efeitos visuais são bons é redundante, pois, no atual cenário tecnológico, isso não é menos do que a obrigação de uma ficção) e nem nas problematizações feitas na história, que frequentemente costuma se levar a sério.

Escrito por Jon Spaiths (autor da boa surpresa que foi o recente Doutor Estranho), Passageiros é um filme frágil em tudo o que estabelece narrativamente. Expositivo, faz com que Jim (Chris Pratt) diga sozinho e em voz alta coisas como “eu acordei 90 anos antes!”, verbalizando o que já havia sido compreendido pela plateia muitos minutos antes. Em termos de criar e resolver problemas, Spaiths não hesita em se utilizar das ferramentas mais fáceis possíveis, a exemplo da criação de uma máquina capaz de ressuscitar pessoas ou da rápida e gratuita aparição de um personagem cuja única função é desatar nós dramáticos (e o fato de ele ser interpretado por alguém da relevância de Laurence Fishburne só engana o espectador – no mau sentido – sobre as reais intenções do roteiro). Como bom alívio cômico, Michael Sheen é um dos saldos positivos de Passageiros ao dar vida a um robô que, infelizmente, também é sabotado pelo roteiro ao ser o responsável por inexplicavelmente revelar um segredo, como se, de repente, fosse uma máquina provida de algum senso moral e de justiça, o que não é muito bem explicado pelo filme. Quando o cinema recebe uma enxurrada cada vez maior de filmes passados no espaço (o trailer de outros dois – VidaO Espaço Entre Nós – foram exibidos na minha sessão), é saudável ter um balanço entre obras mais complexas como Gravidade e o recente A Chegada e outras mais descompromissadas. A questão é que, em qualquer um dos casos, representações, por mais rasteiras que possam parecer, importam porque introjetam ideias em milhões de plateias. E Passageiros, que dá a sua protagonista o nome de Aurora (fazendo uma assumida referência A Bela Adormecida), acredita, em pleno 2017, que é mesmo necessário um “príncipe encantado” para salvar uma mocinha e torná-la uma nova pessoa com o “amor”. Aí realmente não dá para perdoar.

Rapidamente: “Águas Rasas”, “O Contador”, “Neruda” e “Nós Duas Descendo a Escada”

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Poesia e realidade se misturam nos melhores momentos de Neruda, que se engrandece em todos os sentidos ao deixar de lado as formalidades históricas.

ÁGUAS RASAS (The Shallows, 2016, de Jaume Collet-Serra): O desafio que existe em assistir a Águas Rasas é o mesmo de todos os outros filmes do diretor espanhol Jaume Collet-Serra: saber até que ponto devemos nos desprender de coincidências e exageros para realmente curtir a experiência. O cinema realizado por ele é indiscutivelmente comercial (levam sua assinatura os suspenses de gosto duvidoso A Casa de CeraA Órfã, além de outras obras mais inofensivas mas igualmente esquecíveis como Sem Escalas), estilo que está novamente impresso em Águas Rasas, que não consegue se esquivar de comparações com o indie Mar Aberto e com (obviamente) o clássico Tubarão. Ou seja, nada de muito novo é contado aqui, e o jeito é não levar a situação muito a sério para embarcar na proposta que, quando encarada dessa forma, diverte e prende a atenção. Tecnicamente, Águas Rasas capta o realismo da tensão vivida pela protagonista, o que é fundamental para não tirar o espectador do filme. O problema é que, assim como em todos os filmes do diretor, a situação sai do controle nos momentos derradeiros, abusando da boa vontade do espectador de todas as formas possíveis. Águas Rasas não escapa disso, construindo um clímax de resoluções hiperbólicas para uma história que, de repente, passa a ser sobre a implicância pessoal de um tubarão com uma surfista. Aí sim, em um momento tão crucial, o longa dá uma daquelas rasteiras que desprendem a plateia por completo da experiência. 

CONTADOR, O (The Accountant, 2016, de Gavin O’Connor): Cinco anos após o extraordinário Guerreiro, o diretor Gavin O’Connor volta a misturar ação e drama em uma receita, que, dessa vez, prioriza o primeiro gênero ao segundo. Particularmente, prefiro a composição inversa (é ela que me faz ser tão fã de Guerreiro), o que não chega a tirar os méritos de O Contador, um filme bem executado e que reforça a mão firme de O’Connor atrás das câmeras. Mas, nesse caso, é uma questão de gosto: ao conduzir uma trama essencialmente investigativa, o longa, cujo roteiro é escrito por Bill Buduque (que estreou mal no cinemas em 2014 com o tedioso O Juiz), termina por se emaranhar em uma série de situações e complicações desnecessárias, tornando a história embolada demais em vários momentos. E quando não há nada de muito revelador saindo dessa cerimônia toda, fica a impressão de que tudo não passou de um capricho (algo que tem se tornado a especialidade de Christopher Nolan desde Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge). A situação é exatamente essa com O Contador, que tem um elenco de suporte digno de nota (J.K. Simmons, John Lithgow, Jeffrey Tambor), mas parece não sacar que é no confronto – inclusive físico – do protagonista com seu passado, seus fantasmas e suas raízes familiares que O Contador ganha uma força que vai além da mera testosterona que Gavin O’Connor tem inegável facilidade em colocar na tela.  

NERUDA (idem, 2016, de Pablo Larraín): Já de fora da lista de pré-selecionados ao Oscar 2017 de melhor filme estrangeiro, Neruda marca a nova parceria entre o diretor Pablo Larraín e o astro Gael García Bernal, que trabalharam juntos no excelente No. O resultado aqui é mais irregular porque Neruda traz dois filmes dentro de um: enquanto a primeira parte não passa de um correto relato histórico (que, dependendo da disposição, pode ser até um pouco sonolento), a segunda esbanja criatividade ao se apropriar da poesia chilena de Pablo Neruda para costurar a trama. A quebra narrativa do filme é clara, e é de se perguntar porque Larraín perde tanto tempo com as cerimônias de contextualização histórica ao invés de simplesmente traduzir, desde o início, a bela obra do poeta para toda a narrativa do filme. Quando se torna um filme mais poético do que histórico, Neruda entrega momentos genuinamente emocionantes do ponto de vista não apenas emocional, mas também cinematográfico (as cenas finais de Gael na neve são impecáveis). Com essa libertação, o longa fascina ao misturar realidade e ficção e ao refletir sobre o protagonismo de cada personagem na trama (e, por que não, na vida). É aí que está o verdadeiro DNA do cinema de Larraín: no olhar criativo e diferenciado que lança para todo e qualquer tema – até mesmo os aparentemente banais. 

NÓS DUAS DESCENDO A ESCADA (idem, 2016, de Fabiano de Souza): Se Nós Duas Descendo a Escada tem um mérito inegável, esse é o de não problematizar a questão sexual de suas duas protagonistas. Ao contrário do que se vê nos filmes mais rasteiros de temática LGBT, a obra assinada por Fabiano de Souza não se preocupa em radiografar preconceitos para ter algum estofo dramático. Professor e critico de cinema, o gaúcho prefere contar uma história muito cotidiana sobre duas mulheres que se apaixonam e que, depois, precisam aprender a lidar com a desconstrução desse amor. A forma quase caseira com que Nós Duas Descendo a Escada é filmado poderia ser um ganho em realismo caso o roteiro e as ideias não fossem tão frágeis. Abarrotado de referências literárias, musicais e cinematográficas que saltam de forma gratuita e pouco orgânica na tela, o longa aposta em obviedades até na concepção de suas personagens: enquanto a Mona de Carina Dias é a clássica mulher madura, experiente e bem resolvida, a Adri de Miriã Possani é a jovem insegura em questões, pessoais, sexuais e profissionais, evidenciando um contraponto que já foi insistentemente explorado em produções memoráveis como Azul é a Cor Mais QuenteCarol. Como vitrine para duas boas atrizes e um bom passeio por Porto Alegre, Nós Duas Descendo a Escada tem seu valor. Já todo o resto está muitos degraus abaixo.