Lion: Uma Jornada Para Casa
I’m lost.

Direção: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies, baseado no livro “A Long Way Home”, de Saroo Brierley
Elenco: Dev Patel, Sunny Pawar, Nicole Kidman, Rooney Mara, David Wenham, Abhishek Bharate, Priyanka Bose, Shankar Nisode, Tannishtha Chatterjee, Nawazuddin Siddiqui, Menik Gooneratne
Lion, EUA/Reino Unido/Austrália, 2016, Drama, 118 minutos
Sinopse: Quando tinha apenas cinco anos, o indiano Saroo (Dev Patel) se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfretou grandes desafios para sobreviver sozinho até de ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica. (Adoro Cinema)

O caso de Lion: Uma Jornada Para Casa é muito semelhante ao do recente Manchester à Beira-Mar: ambos são filmes que, na teoria, despertam até ligeira desconfiança pela proposta convencional, mas que, quando ganham vida, surpreendem pela eficiência com que transformam ideias simples em experiências envolventes. Há, porém, uma diferença fundamental entre eles: enquanto Manchester à Beira-Mar não faz concessões em seus dramas dificílimos, Lion cria conflitos para quase sempre oferecer alentos. A pegada não deixa de surpreender, visto que o novo filme estrelado pelo jovem Dev Patel leva a assinatura de Garth Davis, que debuta em longas de ficção após assinar três episódios de Top of the Lake, a minissérie soturna e complexa criada pela célebre Jane Campion. E o que se constata é que o talento de Davis para contar histórias se preserva em outras esferas, pois, ainda que Lion visivelmente não equilibre sua qualidade narrativa quando a trama precisa dar um salto temporal, a direção consegue dosar certeiramente elementos que sustentam o filme, sem deixar que ele se torne apenas mais uma obra motivacional perfeitamente irrelevante.
Para narrar a história de um garoto indiano que, 25 anos após se perder de sua família e ser adotado por um casal australiano, decide ir atrás de suas verdadeiras origens, Lion abandona as idas e vindas no tempo e aposta na linearidade. A decisão é arriscada, pois, a partir dela, Garth Davis correria o risco de trabalhar dois filmes dentro de um, o que felizmente não acontece. Pelo contrário: por mais que a primeira parte seja mais interessante do que a segunda, o longa nunca se prejudica pela estrutura narrativa claramente divida porque é fácil enxergar Saroo tanto na espontaneidade do pequeno Sunny Pawar quanto na adolescência ao mesmo tempo madura e perdida que é encarnada por Dev Patel. É fácil porque o primeiro ato contribui para que nos importemos plenamente com o protagonista, e isso vai além da grande simpatia de Pawar: sem nunca ter a pretensão de discutir a identidade social e econômica de uma Índia grandiosa, Lion simplesmente acredita na força das imagens para encená-la, especialmente quando a jornada de um protagonista até então criança é ambientada com o mínimo de diálogo e a preferência por movimentação em cena (nesse sentido, o diretor diz ter trazido como inspiração a fórmula que o excepcional WALL-E usa para apresentar seu protagonista na primeira meia hora quase muda da animação). Como técnica e narrativa, Lion é indiscutivelmente envolvente nesse seu primeiro relato, além de preservar, em seu pequeno herói, todo o senso de inocência e aventura tão inerentes às crianças, bem como acontece com o famoso robozinho da Pixar.
A situação muda um pouco de cenário quando Saroo cresce, e isso se deve exclusivamente ao fato de que a história em si se amorna a partir daí: já adolescente e muito estabelecido com seus pais australianos, o personagem está às voltas com uma namorada (Rooney Mara) e prestes a se especializar em administração hoteleira. Até que um dia, ao enxergar uma comida que marcou o seu imaginário infantil, ele acorda para a ideia de que precisa ir atrás de sua família indiana. O despertar é mal regulado porque as crises existenciais de Saroo servem mais como pretextos quaisquer para trazer algum tipo de movimentação à trama do que aprofundar a personalidade do protagonista, o que afeta diretamente a personagem de Rooney Mara, por exemplo, que já tem uma missão ingrata por si só como a namorada sem uma história própria e que só serve para tentar acalmar Saroo ou incentivá-lo a criar coragem para procurar sua família. Se Garth Davis acerta no olhar carinhoso que lança ao protagonista e ao amor de sua mãe adotiva, proporcionando os momentos que Nicole Kidman merecia há tempos (não deixem de se atentar a dois momentos: emocionante abraço que ela recebe do filho recém adotado e a conversa onde ela revela sua percepção sobre o poder da adoção), o diretor volta e meia é prejudicado pelo roteiro de Luke Davies, que tropeça quando precisa introduzir as problematizações que o filme necessita. Por isso mesmo, os surtos repentinos de problematização de nosso protagonista surgem mais irritantes do que compreensíveis.
Para falar de Lion, também é importante citar o jovem Dev Patel, que viajou o mundo com o sucesso de Quem Quer Ser Um Milionário? e depois ficou relegado a escalações óbvias como o indiano piadista em comédias como O Exótico Hotel Marigold. Aliás, as origens trabalharam contra a carreira profissional de Patel nos últimos anos: rejeitado pelos produtores de As Aventuras de Pi por ser uma escolha óbvia demais para o papel, o jovem quase perdeu o papel de Lion pela mesma razão, em um teste de elenco que durou aproximadamente seis horas entre as hesitações da equipe e os argumentos do próprio ator, que, após aceito, mergulhou em horas diárias na academia para se assemelhar fisicamente ao Saroo da vida real, estudou sotaque australiano e dialetos da Tasmânia, visitou orfanatos indianos para conhecer a realidade das mais de 80 mil crianças que se perdem anualmente no país e escreveu um diário sobre os seus oito meses de preparação para o papel. Tudo está na tela, já que Lion é, indiscutivelmente, o papel mais expressivo e autêntico da carreira de Patel aqui. E pode até ser exagero a afirmação do jovem ator de que o roteiro do filme é o melhor já lido por ele (o próprio texto de Quem Quer Ser Um Milionário? era melhor), mas não há o que se negar: Lion, que tem seus problemas e carrega, entre outras coisas, na trilha de Dustin O’Halloran e Volker Bertelmann para comover, é tradicional sem perder o frescor de uma autenticidade hoje tão esquecida em filmes supostamente inspiradores, mas meramente panfletários e estrelados por Will Smith.
Aliados
Je t’aime, québécois…

Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Xavier De Guillebon, Camille Cottin, Vincent Latorre, August Diehl, Daniel Betts, Sally Messham, Charlotte Hope, Celeste Dodwell, Ami Metcalf, Angus Kennedy
Allied, EUA/Reino Unido, 2016, Drama/Romance, 124 minutos
Sinopse: Em uma missão para eliminar um embaixador nazista em Casablanca, no Marrocos, os espiões Max Vatan (Brad Pitt) e Marianne Beausejour (Marion Cotillard) se apaixonam perdidamente e decidem se casar. Os problemas começam anos depois, com suspeitas sobre uma conexão entre Marianne e os alemães. Intrigado, Max decide investigar o passado da companheira e os dias de felicidade do casal vão por água abaixo. (Adoro Cinema)

Marion Cotillard passou por uma barra muito pesada com Aliados – e tudo por causa de fatores exteriores ao filme. Quando Brad Pitt anunciou sua separação de Angelina Jolie, logo se procurou uma culpada. Assim, nada mais lógico do que, em um mundo machista, ela ser a atriz francesa, que acabara de estrelar, junto a ele, um filme sobre dois espiões que, designados a incorporar a identidade de um casal para uma missão secreta, acabam se apaixonando. É quase a mesma lógica de Sr. & Sra. Smith, onde Brad e Angelina se apaixonaram fazendo papeis basicamente parecidos. Casada e com um filho que ganhara há pouco tempo, Cotillard foi atacada pela imprensa e pelos usuários de redes sociais sem fundamento algum, como se fosse o óbvio pivô da separação, reforçando a ideia distorcida de que, claro, são as mulheres que seduzem homens e destroem casamentos. O escândalo colocou Aliados nos holofotes, mas que decepção constatar que o novo filme de Robert Zemeckis será lembrado apenas por essa teoria maluca criada por fofoqueiros de plantão. Afinal, cinematograficamente falando, o projeto sequer consegue o mérito de acender, na tela, alguma faísca entre o casal.
Sem realizar um trabalho realmente marcante desde Náufrago, de 2000, Robert Zemeckis é um desses diretores que transitam pelos mais diferentes gêneros e estilos sem necessariamente carregar uma assinatura. Às vezes, isso é um trunfo (James Mangold, de filmes como Johnny & June, Identidade e Garota, Interrompida, é um ótimo exemplo), em outras, pode denotar falta de personalidade, como é o caso de Zemeckis nos últimos anos: fora a repentina temporada produzindo medianas animações (O Expresso Polar, Os Fantasmas de Scrooge e A Lenda de Beowulf), o diretor, desde Náufrago, foi da adaptação de fatos reais (A Travessia) a dramas mais convencionais que se focavam no ser humano (O Voo), mas tudo sem deixar uma marca ou proporcionar grandes experiências. É lógico fazer essa retrospectiva porque ela nos remete a um dos maiores problemas de Aliados: a falta de atmosfera. Zemeckis não consegue instigar o espectador em relação ao grande conflito história (a real identidade de sua protagonista) por uma série de razões, entre elas a forma como o filme tenta ser muitas coisas (romance, drama de guerra, thriller) sem conseguir ser nenhuma delas e o próprio desenrolar desinteressante dos fatos, que culminam em uma resolução melodramática e, por que não, covarde para uma obra que depende tanto de seu desfecho.
Há problemas cronológicos claros na trama, onde o roteiro escrito por Steven Knight, profissional que oscila entre produções interessantes (Coisas Belas e Sujas, Senhores do Crime) e outras desastrosas ou inexpressivas (O Sétimo Filho, A 100 Passos de Um Sonho), se atrapalha ao entender que o tempo é fundamental para a construção do clima. Uma prova disso é a primeira metade ansiosa de Aliados, responsável por unir Max (Brad Pitt) e Marianne (Marion Cotillard) com frases fáceis e repentinas como “venha para Londres e case comigo!” que jamais compensam a ausência de uma narrativa que desenvolva uma relação (em especial a amorosa) nos pequenos momentos de um cotidiano. Por trabalhar fatos meramente pontuais ao invés dos sentimentos intrínsecos neles, Aliados se sabota, não criando a intimidade necessária entre o casal para o que o espectador se importe com os personagens. Dessa forma, uma cena como a que Marianne dá luz à filha em meio a um bombardeio da Segunda Guerra Mundial serve mais como uma ferramenta para ilustrar a passagem do tempo – ao estilo de manjadas novelas da TV aberta, diga-se de passagem – do que como um importante momento para a construção íntima da trama.
Com a falta de consistência na relação entre os dois protagonistas, Aliados chega ao conflito sobre Marianne ser ou não uma espiã infiltrada causando suspense pela natureza óbvia da dúvida e não por méritos relacionados à construção dela. Que frustrante, portanto, constatar como o filme, ao invés de crescer em tensão, apenas se amorna a partir daí – e não há nada que Marion Cotillard, lindamente fotografa com os belíssimos figurinos assinados por Joanna Johnston, possa fazer para se engrandecer com uma personagem que deveria ser fascinante para além da questão estética. É óbvio que Brad Pitt não ajuda em absolutamente nada – e não é exagero dizer que boa parte da inexpressividade do filme vem dele, que poucas vezes esteve tão inerte, sem presença e indiferente -, mas Zemeckis simplesmente não sabe tornar a situação consistente, tornando frágil e inorgânica até a transição do marido plenamente confiante na esposa para homem consumido pela dúvida. Para completar, o diretor se entrega por completo ao melodrama em uma conclusão abrupta que prova, outra vez, que um profissional de visão mais apurada faria de Aliados uma experiência rica em conflitos, e não esse desperdiço de potenciais que beira ao ostracismo. Cotillard, que comeu o pão que o diabo amassou por conta do projeto, poderia pelo menos ter sofrido por algo melhor.
Cinquenta Tons Mais Escuros
What do you want, Anastasia?

Direção: James Foley
Roteiro: Niall Leonard, baseado no romance homônimo de E.L. James
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Marcia Gay Harden, Kim Basinger, Rita Ora, Bella Heathcote, Luke Grimes, Victor Rasuk, Max Martini, Andrew Airlie, Robinne Lee, Amy Price-Francis
Fifty Shades Darker, EUA, 2017, Drama, 118 minutos
Sinopse: Incomodada com os hábitos e atitudes de Christian Grey (Jamie Dornan), Anastasia (Dakota Johnson) decide terminar o relacionamento e focar no desenvolvimento de sua carreira. Ele, no entanto, não desiste tão fácil e fica sempre ao seu encalço, insistindo que aceita as regras dela. Tal cortejo acaba funcionando e ela reinicia o relacionamento com o jovem milionário, sendo que, aos poucos, passa a compreender melhor os jogos sexuais que ele tanto aprecia. (Adoro Cinema)

Há uma sensação de déjà vu nos primeiros minutos de Cinquenta Tons Mais Escuros. Tentando viver uma vida sem Christian Grey (Jamie Dornan), Anastasia Steele (Dakota Johnson) vaga visivelmente infeliz pelas ruas e pelos escritórios de seu mais novo trabalho como assistente de uma editora de livros. Quando é convidada para a exposição de um de seus amigos que nem lembrávamos existir, a protagonista se vê fotografada em vários quadros selecionados para o evento. Contrariada por ter se tornado obra de arte sem aviso prévio (ela diz ser tímida e envergonhada demais para se tornar o rosto de uma exposição de fotos), Anastasia questiona o amigo, que logo ganha a justificativa que precisava para se defender: uma de suas agentes interrompe a conversa e diz que todos os quadros da moça foram comprados. Detalhe: por um uma única pessoa. Difícil adivinhar quem? Não. Só poderia ser Christian Grey, que, minutos depois, aparece na exposição disposto a ter Anastasia de volta. É óbvio que ela vai relutar um tantinho, mas, após um jantar luxuoso, algumas promessas fáceis, outras frases de efeito e um singelo presente que traz um MacBook e um iPhone, ela cede ao homem amado. Que se danem as vontades sádicas de Christian Grey, agora reprimidas, segundo ele. Ela também o quer de volta. E os pombinhos se entregam novamente à paixão.
O dèjá vu se dá por novamente vermos Christian Grey agindo como um psicopata que engaveta investigações profissionais sobre sua namorada e que não pensa duas vezes antes de tratá-la como uma mera posse, proibindo-a até mesmo de fazer uma viagem a trabalho sem ele. Uma falsa pista vem logo em seguida: em um surto repentino de lucidez, a protagonista finalmente se rebela contra Christian, dizendo que essa sua obsessão até então nunca questionada veemente por ela é realmente uma insanidade e que ele precisa procurar ajuda. É um vislumbre de esperança que não vai em frente, pois a protagonista volta a se contradizer e a repetir as mesmas atitudes do filme anterior. Sem mais delongas, Cinquenta Tons Mais Escuros segue trabalhando os conceitos errados que são romantizados pela escritora E.L. James no material original. E os equívocos desse texto são tão fortes que nem mesmo a troca na cadeira de direção (sai Sam Taylor-Johnon e entra James Foley) é capaz de amortecer alguma coisa. Um estúdio com culhões e um diretor exigente poderiam muito bem virar o jogo: imaginem que instigante seria se Anastasia realmente entendesse o poder que ela exerce sob Christian e não o contrário? Claro que isso não acontece aqui, e Cinquenta Tons Mais Escuros apenas reforça a tese de que, caso Christian não fosse incrivelmente rico, talvez a nossa mocinha não se deixasse ser persuadida com tanta facilidade.
A contextualização do déjà vu nos traz à ideia de ignorar as percepções erradas mas já irreversivelmente enraizadas da série Cinquenta Tons para falar mais sobre a construção desse novo volume. Enquanto no anterior ainda existia o fator novidade de ver uma jovem descobrindo o lado sexual um tanto obscuro de sua mais nova paixão, aqui não a nada a se descobrir: inerte, a história é apenas a escalada de sucesso de um casal que, aos poucos, começa a encontrar um novo jeito de se relacionar – e é tudo muito simples, pois Christian praticamente elimina os fetiches sádicos e Anastasia tenta ser mais compreensiva, na medida do possível, com os traumas do passado que levaram seu namorado a ser do jeito que é. Sendo assim, nada realmente acontece na trama central de Cinquenta Tons Mais Escuros, o que faz com que roteiro escrito pelo estreante em longas para o cinema Niall Leonard (outra troca do primeiro filme em relação ao segundo) compile os conflitos secundários mais aleatórios e desinteressantes do livro original para problematizar de alguma forma esse “conto de fadas” (título que o próprio cartaz assume). Com isso, surge o chefe unidimensional de Anastasia cujo único objetivo é levá-la para a cama, uma ex-submissa de Christian que persegue o casal com uma arma na mão e a mulher que tirou a virgindade do moço e que agora indica ter como missão de vida terminar com qualquer relacionamento dele. Todos são personagens coadjuvantes sem dimensão alguma e que só servem para (tentar) trazer algum tipo de estofo dramático para uma história carente disso.
Para uma série que se propõe a falar sobre fetiches e ser uma experiência picante, o erotismo continua em baixa, o que não se resume à quantidade de cenas sexo (aqui consideravelmente menores, já que Christian Grey está tentando eliminar seus ímpetos sádicos), mas sim com o que acontece nelas, onde simplesmente é evocado um tesão de gente grande. Mais: é imperdoável que Cinquenta Tons Mais Escuros seja tão púdico na nudez de seu representante masculino, que quase sempre transa de roupa (e isso não é um fetiche dele) ou é visto nu sob pesadas sombras. Não é certo faltar erotismo ao filme, e o diretor James Foley não está nem preocupado em explorar toda a eficiência que a trilha sonora poderia trazer nesse sentido. Falando em trilha, ela, mesmo que não tenha função narrativa alguma, novamente é o que se extrai de melhor da série Cinquenta Tons, carregando a unidade e a personalidade que o filme não tem. Inclusive, é de se indagar o porquê de artistas como Sia, Halsey, Tove Lo, Taylor Swift e até Zayn, o novo astro em carreira solo, chegam a esse projeto por outras razões que não sejam as profissionais. Às vezes é injusto ser tão incisivo, mas, para um filme que encena um acidente de helicóptero para criar um suspense aleatório de cinco minutos e que novamente não dá suspeitas de ter qualquer boa noção de coesão narrativa ou de interpretações, tornando situações dramáticas momentos de puro humor involuntário, o melhor que você pode fazer por você mesmo é curtir a excelente seleção musical com uma boa taça de vinho. Mas se você quiser mesmo ver Cinquenta Tons Mais Escuros – afinal, esse filme é mais um evento do que necessariamente… um filme! -, vá devidamente avisado. Como se, nesse altura do campeonato, avisar fosse realmente preciso…
Jackie
Is this all there is?

Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Noah Oppenheim
Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Jurt, Richard E. Grant, Caspar Phillipson, Beth Grant, John Carroll Lynch, Max Casella, Sara Verhagen, Hélène Kuhn
EUA/Chile/França, 106, Drama, 100 minutos
Sinopse: Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), inesperadamente viúva, lida com o trauma nos quatro dias posteriores ao assassinato de seu marido, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy. (Adoro Cinema)

Não há o que contestar: Jackie, drama assinado pelo chileno Pablo Larraín, alcança o o feito raro de se diferenciar dentro de um oceano de cinebiografias que chegam anualmente às telas. Em um nicho preso a narrativas formais, lineares e suscetíveis a explorar incansavelmente elementos comuns a vários biografados (a capacidade de superar obstáculos para alcançar a fama, os problemas com drogas ou bebidas, a degeneração física, a decadência que surge a partir do envelhecimento), o filme de Larraín consegue, em sua concepção, subtrair vícios para propôr um relato esteticamente diferenciado e que, a exemplo dos melhores filmes do gênero, trabalha a partir de um recorte de tempo ao invés de se entregar à perigosa ambição de comprimir, em apenas duas horas, a vida inteira de uma pessoa. A ideia é nobre e há de se reconhecer o quanto Jackie tem seu valor em função disso. O difícil de acreditar é que, ironicamente, o relato sobre os dias em que a ex-primeira-dama Jaqueline Kennedy lida com o assassinato de seu marido, o então presidente John F. Kennedy, esquece de dar atenção a um importante na equação de qualquer filme: a emoção (ou, ao menos, a justificativa da ausência dela). E, se tratando de uma obra que procura trazer um olhar íntimo e pouco explorado sobre tragédia da política norte-americana, isso se torna um verdadeiro problema.
Pablo Larraín assumiu a direção de Jackie no lugar de Darren Aronofsky, que produziria o filme com Rachel Weisz, sua esposa até então, como protagonista. O casal acabou se separando e a substituição se deu durante o Festival de Veneza, quando Aronofsky, impactado por O Clube, assinado por Larraín, propôs ao chileno a cadeira de direção, dessa vez com Natalie Portman, com quem havia trabalhado recentemente em Cisne Negro, no papel central. No início, Larraín hesitou em aceitar, questionando a ideia de um estrangeiro comandar a história de uma emblemática figura do cenário político norte-americano. No entanto, era justamente a distância de Larraín com a história – além, claro, de seu talento como diretor – que trazia confiança a Aronofsky: para ele, um outsider só faria bem ao projeto justamente para tecer um relato diferenciado sobre a figura de Jaqueline Kennedy. Teoria certa, prática errada. Se Larraín fez maravilhas em No, filme que registra um período histórico conhecido do diretor – o plebiscito chileno realizado nos anos 1980 para decidir a permanência ou não de Augusto Pinochet no poder -, em Jackie a situação desanda justamente pela falta de familiaridade do diretor com toda a influência da figura retratada para toda uma nação. Claro exemplo disso é a maneira como Jaqueline Kennedy é vista muito mais como uma figura calculista quanto às consequências das escolhas que toma acerca do enterro do marido do que necessariamente como uma mulher em pleno sofrimento ao longo de dias infinitamente traumáticos.
Escrito por Noah Oppenheim, que só tinha no currículo filmes comerciais como Maze Runner: Correr ou Morrer e A Série Divergente: Convergente, Jackie se apoia na estrutura de entrevista-flashback, o que nunca se apresenta como um acerto: além de não funcionar e empacar o ritmo de uma história lenta por si só, o artifício só antipatiza a figura da protagonista, aqui construída como uma mulher difícil e que aparentemente só quer controlar cada palavra que o jornalista escreve para que possa escolher o que a imprensa dirá sobre ela. Tal impressão também se estende a todas idas e vindas no tempo, onde Jackie (Natalie Portman) é vista pensando como pode tomar decisões que façam seu marido ser lembrado postumamente como um grande político da estatura de Abraham Lincoln. Um filme de alto calibre usaria toda essa abordagem inusitada da personagem para torná-la riquíssima em conflitos internos, mas isso não acontece aqui, impressão que só ganha reforços pela direção essencialmente técnica. Quem entra na mesma onda é a própria Natalie Portman, em um desempenho certeiro na reprodução de entonação de voz e trejeitos, mas também carente de construções que venham de dentro para fora. É exatamente essa a sensação que tanto a direção quanto a atuação de Natalie deixam em várias cenas, com destaque para aquela em que Jackie limpa o rosto ensaguentado frente ao espelho como se estivesse tirando a maquiagem após um longo dia. O momento é lindo de se ver – pela composição, pelo enquadramento, pelos olhos lacrimosos da atriz -, quando, na verdade, deveria ser incômodo ou impactante pela tragicidade que carrega.
Menos biográfico do que se supunha, Jackie se atrapalha ao fazer um recorte específico da vida da personagem-título. Sem expandir muito de sua personalidade a partir do momento escolhido (e é sempre válido lembrar de A Rainha como um exemplo positivo nesse sentido), não sabemos muito de Jaqueline Kennedy além do recorte proposto. É uma limitação que não permite que, com a experiência, o espectador a conheça mais do que sabia ou não antes da sessão. Em suma, Jackie se estabelece como uma boa ideia executada por uma técnica de escolhas eficientes do ponto de vista estético (o auge é a trilha sonora inventiva e devidamente incômoda de Mica Levi) e que proporcionam passagens realmente inspiradas, especialmente no final, quando o filme faz uma costura entre uma conversa da ex-primeira-dama como um padre (o agora saudoso John Hurt) ao mesmo tempo em que reconstrói o assassinato de John Kennedy. Entretanto, basta olhar para esse momento específico com o coração para, novamente, termos nossa atenção desviada: o que mais instiga nele é a figura do padre, seja pelas questões que provocam reflexões em Jackie ou pela própria interpretação de Hurt, um ator que conhecia o poder das palavras como poucos. Ali, o longa chega perto de florescer em emoção. Pena que, logo em seguida, os créditos finais comecem a rodar na tela.
Estrelas Além do Tempo
Just ‘cause it’s the way, doesn’t make it right, understand?

Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Allison Schroeder e Theodore Melfi, baseado no livro “Hidden Figures: The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race”, de Margot Lee Shetterly
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali, Aldis Hodge, Glen Powell, Kimberly Quinn, Olek Krupa, Kurt Krause
Hidden Figures, EUA, 2016, Drama, 127 minutos
Sinopse: 1961. Em plena Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética disputam a supremacia na corrida espacial ao mesmo tempo em que a sociedade norte-americana lida com uma profunda cisão racial, entre brancos e negros. Tal situação é refletida também na NASA, onde um grupo de funcionárias negras é obrigada a trabalhar a parte. É lá que estão Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), grandes amigas que, além de provar sua competência dia após dia, precisam lidar com o preconceito arraigado para que consigam ascender na hierarquia da NASA. (Adoro Cinema)

É ao mesmo tempo lógico e injusto comparar Estrelas Além do Tempo a Histórias Cruzadas, ambos filmes sobre mulheres negras que, na década de 1960, buscam protagonismo em uma sociedade norte-americana que ainda as obriga a usar banheiros e até mesmo xícaras de café separadas da população branca. A lógica de colocar as duas obras lado a lado vem pelo compartilhamento da temática, do bom humor e do sucesso estrondoso: enquanto Histórias Cruzadas faturou oito vezes mais do que o seu orçamento em âmbito mundial, Estrelas Além do Tempo se encaminha para o mesmo triunfo, já que, em pouco mais de um mês de exibição considerando a data desse texto, o filme de Theodore Melfi (Um Santo Vizinho) já quadruplicou o retorno de seus próprios custos mundo afora. Em contrapartida, a injustiça se dá em termos de qualidade: se Estrelas Além do Tempo é tão popular e novelesco quanto Histórias Cruzadas, pelo menos abraça esse perfil preferindo confiar na graça de suas intérpretes e em uma inegável simplicidade do que em posicionamentos rasteiros e em piadas que oscilam entre o preparo de tortas de fezes e caricaturas fáceis.
Iluminando a jornada de figuras que, como o título original indica, sempre ficam escondidas quando o assunto é a famosa corrida especial entre os Estados Unidos e a União Soviética, Estrelas Além do Tempo não tem vergonha de sua formalidade e, principalmente, de seu apelo popular. Melodramático, o próprio flashback de abertura surge como uma ferramenta meramente explicativa que nunca é retomada ao longo do filme, já sendo um claro indício do quanto os roteiristas Alison Schroeder e o próprio Theodore Melfi não querem saber de muita sofisticação: o que é representado ali poderia ser brevemente mencionado em um simples diálogo posterior, por exemplo. Além do roteiro, o diretor também não é econômico no apelo do tom empregado à história: a trilha de Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer e Pharrell Williams acentua toda e qualquer emoção mais expressiva, as protagonistas eventualmente fazem discursos explosivos e idealizados para conscientizar outras pessoas em cena e os coadjuvantes, como aqueles vividos por Jim Parsons e Kirsten Dunst, estão ali apenas para dificultar a vida das nossas heroínas.
Só que para fazer tudo isso, o diretor, que não escapa da velha fórmula de inserir um personagem branco que, aqui ou ali, dará aquele empurrãozinho para resolver conflitos decisivos em relação ao racismo, tem a sorte de ter três intérpretes muito talentosas em seu filme e, principalmente, de saber dirigi-las. Se Tate Taylor não segurou o completo histrionismo de Bryce Dallas Howard ou a caricatura repetitiva de Octavia Spencer em Histórias Cruzadas, Melfi tira o melhor até mesmo da própria Spencer, que, dessa vez, não precisa de caras e bocas para fazer graça e é inclusive delicada quando vive os dilemas de uma mulher que, assim como suas amigas, sofre para alcançar reconhecimento no trabalho, mas que julga ser mais fracassada por não conseguir ser tão pioneira quanto elas. Totalmente diferente da divertida e extravagante Cookie Lyon, do seriado Empire, Taraji P. Henson dá conta do recado com seu carisma habitual, abraçando com segurança a maior parcela de protagonismo da história. Quem completa o trio é a cantora Janelle Monáe, que combina beleza e desenvoltura em uma personagem menor, mas que jamais deixa de se igualar as outras em carisma e interesse.
Voltando a Histórias Cruzadas, não há problemas em achar graça na forma como ele se utiliza da comédia porque humor é sempre algo muito particular, mas o que Estrelas Além do Tempo faz é, no mínimo, mais interessante. Basta reparar em uma das primeiras cenas do filme, onde as protagonistas, após serem paradas na estrada por um policial branco, precisam seguir a viatura depois do interrogatório, mas brincam que, em plenos anos 1960, elas são três mulheres negras poderosas perseguindo uma autoridade branca. É com esse tipo de descontração pontuado por três excelentes atrizes que o filme ganha um caráter popular que se distancia do apelativo, o que é algo muito saudável, uma vez que nem sempre temos um hit de bilheteria que, mesmo tradicional na forma e no conteúdo (a parte espacial envolvendo os avanços da NASA cumprem a missão histórica, mas não chegam a ser particularmente empolgantes), acerta ao fazer uma representatividade menos escrachada de dois núcleos, que, ainda depois de meio século, seguem basicamente na mesma luta por protagonismo: o feminino e o negro. E Estrelas Além do Tempo, que é mais passatempo do que registro marcante em termos de qualidade, não deixa de contribuir, de alguma forma, para esse importante retrato, especialmente em uma temporada de filmes marcados por histórias otimistas sobre pessoas que procuram seu lugar ao sol.