Rapidamente: “Duas Estranhas”, “Mamãezinha Querida”, “Quem é Primavera das Neves?” e “Tootsie”

Não foi apenas o desempenho de Dustin Hoffman que sobreviveu bem ao tempo: as críticas de Tootsie em relação à representação da mulher no audiovisual ainda são lamentavelmente atuais.
DUAS ESTRANHAS – HISTÓRIA DE MÃE E FILHA (Strangers: The Story of a Mother and Daughter, 1979, de Milton Katselas): Na época em que fazer TV não era algo nobre e que boa parte da indústria hollywoodiana torcia o nariz para o formato, Bette Davis abdicava de qualquer orgulho para continuar trabalhando e, na medida do possível, conseguindo bons papeis. Claro que Duas Estranhas – História de Mãe e Filha não preza pela originalidade, mas, para uma atriz de 79 anos, é um prato cheio, o que não deixa de ser verdadeiro também para os dias de hoje. Contracenando com Gena Rowlands, Bette chegou a ganhar o Emmy de melhor atriz por interpretar novamente uma clássica mulher casca grossa. Dessa vez, ela é Lucy, uma senhora solitária que recebe a inesperada visita de uma filha distante. Não é preciso ser perito para adivinhar o que vem a partir daí: longas discussões envolvendo mágoas do passado, segredos finalmente sendo revelados e, eventualmente, a aproximação e o carinho que tanto foram escanteados ao longo de uma vida. Mesmo encenado em um único cenário, Duas Estranhas jamais se torna um teatro filmado, mostrando que, apesar de apostar na extrema simplicidade, o diretor Milton Katselas teve tino suficiente para distinguir a linguagem audiovisual da teatral. Ainda assim, o que importa é a presença de Bette e Gena, que dominam a tela mesmo com o mais tradicional (e, às vezes, até rasteiro e mal explicado) dos textos. Não sei quanto a vocês, mas, para mim, isso já está de bom tamanho.
MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie Dearest, 1981, de Frank Perry): Desastre sem precedentes para a época que foi lançado, Mamãezinha Querida hoje é até abraçado como cult, mas não fui espirituoso o suficiente para entrar na brincadeira. Ao abranger quase 40 anos de vida e carreira da atriz Joan Crawford, o filme de Frank Perry era cercado de expectativas antes de seu lançamento. Além de transpor às telas o polêmico livro escrito por Christina Crawford, filha de Joan, que relata os supostos abusos físicos e emocionais que ela teria sofrido na convivência com a mãe, o longa estreava quatro anos após a morte de Crawford e protagonizava o sonho dourado da atriz Faye Dunaway de ganhar um segundo Oscar. Deu tudo errado: além de arruinar a carreira de Dunaway, foi um fiasco de crítica e chegou a ser vendido pelo estúdio como comédia após a desastrosa recepção, que, com toda razão, bombardeava a dramaticidade descontrolada de atuações exageradas e cenas constrangedoras. Entretanto, o problema é muito maior do que os ataques histéricos. Na verdade, Mamãezinha Querida poderia ser sobre qualquer mãe maquiavélica, já que sequer é possível compreender quem era Joan Crawford e muito menos sua influência em Hollywood. É uma produção caótica, que faz uma bela dupla com o igualmente péssimo e biográfico A Dama de Ferro: ambos saltam no tempo com a maior displicência sem contextualizar, do ponto de vista histórico ou emocional, as mulheres que retratam. De vez em quando, o constrangedor diverte (Carla Perez deve saber o quanto Cinderela Baiana é clássico nesse sentido), mas, com Mamãezinha Querida, apenas entedia a plateia e desrespeita de forma desenfreada uma mulher da vida real que, ao menos, foi redimida recentemente na minissérie Feud: Bette and Joan.
QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES? (idem, 2017, de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado): O ponto de partida é dos mais cotidianos: lendo o clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, o diretor gaúcho Jorge Furtado se deparou com o curioso nome Primavera das Neves, da jornalista e escritora portuguesa responsável pela tradução da obra. Instigado, Furtado procurou sobre Primavera na internet, mas se surpreendeu ao não encontrar qualquer registro biográfico dela. A partir daí, a curiosidade virou missão: após fazer um post no site da Casa de Cinema de Porto Alegre perguntando se alguém conhecia a tradutora, o diretor recebeu o contato de uma amiga de Primavera. O encontro entre eles, no final das contas, rendeu esse Quem é Primavera das Neves?, que Furtado dirige ao lado da colega e amiga Ana Luiza Azevedo. Primavera já faleceu, mas é na ausência dela que a dupla de diretores tira a melhor tônica para o documentário, que, calcado em afeto, torna-se, em cada minuto de sua duração, uma singela e acalantadora homenagem à amizade e ao quanto certas pessoas, por mais comuns que possam parecer, influenciam nossas vidas para sempre. Além dos depoimentos de pessoas que conheceram Primavera, o filme traz a ótima atriz Mariana Lima interpretando trechos de algumas das traduções mais célebres da personagem-título (além de Lewis Carroll, ela trabalhou com materiais de Emily Brontë, Julio Verne, John Le Carré, entre outros) e até mesmo poemas e cartas escritos pela própria Primavera. Por fim, nem chega a importa a extrema simplicidade e o formato quase televisivo do documentário. O que ganha mesmo é a delicadeza.
TOOTSIE (idem, 1982, de Sydney Pollack): À parte o inexplicável Oscar de melhor atriz coadjuvante para Jessica Lange, Tootsie é uma comédia que sobreviveu muito bem ao tempo. Mais do que isso, manteve intacta a sua atualidade: as críticas do filme de Sidney Pollack ao machismo nas produções televisivas ainda são válidas, principalmente quando traz à tona a forma como diretores e roteiristas representam as mulheres bem sucedidas, que quase sempre são pintadas como mulheres masculinizadas e nada atraentes. É justamente essa mudança de cenário que Michael Dorsey (Dustin Hoffman) propõe quando, vestido secretamente como mulher, consegue um papel de destaque em uma popular novela da TV norte-americana. Como Dorothy, uma mulher inteligente, bem sucedida, divertida e sensível, Michael alcança o sucesso que nunca teve e, mergulhado na glória, passa a literalmente viver uma nova vida. Simples e divertido, Tootsie recebeu, na época de seu lançamento, uma celebração surpreendente para uma comédia assumida: foram nada menos do que dez indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção e roteiro. Entretanto, quem brilha mesmo é Dustin Hoffman. Em um dos desempenhos mais marcantes de sua carreira, Hoffman encontra o equilíbrio certo entre a comédia pela comédia e o uso desse gênero para elucidar questões até mesmo tristes sobre seu personagem. É uma interpretação respeitosa, que jamais se entrega à caricatura e que certamente confere a Tootsie um carisma ainda mais especial.
A Cabana
Love always leaves a mark.

Direção: Stuart Hazeldine
Roteiro: Andrew Lanham, Destin Daniel Cretton e John Fusco, baseado no livro homônimo de William P. Young
Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Avraham Aviv Alush, Sumire Matsubara, Tim McGraw, Radha Mitchell, Alice Braga, Megan Charpentier, Gage Munroe, Amélie Eve, Graham Greene, Ryan Robbins
The Shack, EUA, Drama, 2017, 132 minutos
Sinopse: Um homem vive atormentado após perder a sua filha mais nova, cujo corpo nunca foi encontrado, mas sinais de que ela teria sido violentada e assassinada são encontrados em uma cabana nas montanhas. Anos depois da tragédia, ele recebe um chamado misterioso para retornar a esse local, onde ele vai receber uma lição de vida. (Adoro Cinema)

Se já é fácil ser impaciente e intolerante com filmes que apresentam histórias baseadas em valores e princípios distantes dos nossos, o que sobra, então, para aqueles que, além disso, repetem as mesmas fórmulas panfletárias e unidimensionais de outras obras ruins e de mesma proposta? Praticamente nada. É aí que se encaixa A Cabana, que, baseado no best seller homônimo de William P. Young, filosofa sobre nossa existência com um pano de fundo religioso repleto de representações batidas e dignas de um programa televisivo de auto-ajuda. Uma coisa é se deparar com isso em uma livraria, onde podemos ignorar a obra na primeira leitura da sinopse. Outra é investir tempo, dinheiro e boa vontade no cinema, esperando que um filme nos surpreenda ao quebrar qualquer preconceito que tenhamos com ele. Não é questão do que se discute em termos de conteúdo, e sim de execução, pois, quando se constata que A Cabana traz, pela milésima vez, entidades divinas vestidas de branco em um lindo jardim florido, ensolarado e cheio de borboletas, qualquer boa vontade em esperar algum exercício cinematográfico na obra vai por água abaixo.
Dirigido por Stuart Hazeldine, A Cabana opta pelo drama fácil sempre que possível, o que é um claro reflexo do seu material de origem, que, não há dúvidas, tornou-se um grande sucesso editorial por justamente não poupar esforços para comover o maior número de leitores. E, no cinema, onde palavras precisam ser transpostas para figurinos, trilhas sonoras, cenários e outros setores, a situação se torna mais atraente para quem curte a pegada e, claro, mais difícil para quem rejeita o formato. Não bastasse trazer o batido arco da família perfeita de comercial de margarina que, um belo dia, tem sua vida colocada de pernas para o ar por uma tragédia, A Cabana centra quase toda sua história em uma viagem motivacional onde o patriarca Mack (Sam Worthington), incapaz de superar a perda de um ente querido, passa um fim de semana transformador com Deus, Jesus e Espírito Santo. De vez em quando, ele ainda esbarra com figuras como a Sabedoria (sim, a virtude, vivida por Alice Braga), que, também vestida de branco e com um semblante extremamente acolhedor, ensinará o que ele precisa rever em sua vida para se recompor, voltar para casa e reunificar a família.
É fundamental não julgar o que A Cabana quer deixar de mensagem, mas sim como ele deixa que isso chegue ao espectador. Expositivo (a cena da Sabedoria não dispensa flashbacks para retomar acontecimentos já encenados), o fim de semana do protagonista junto a figuras divinas é tedioso porque não passa de um amontoado de conversas onde ele será persuadido a reavaliar muitas de suas ideias. Entre uma prosa e outra, Mack também corre pelas águas assumindo os poderes de Jesus Cristo, como se o filme tentasse fazer alguma graça para movimentar um relato que visivelmente não consegue ir além do trabalho verbal. Sem as longas cenas de reflexões onde Mack, afundado em tristezas, esbraveja para Deus que seu amor é seletivo ao permitir que pessoas morram diariamente de forma injusta no mundo, A Cabana é estático e, pior ainda, limitado nas associações visuais que faz em relação aos sentimentos do personagem e às diferentes fases vividas por ele ao longo da trama. Basta perceber como os momentos em que Mack passa por algum sofrimento possuem estilizações simplórias (as surras que leva do pai alcoolizado na infância, por exemplo, são encenadas de forma estridente em uma noite chuvosa e cheia de trovões), problema que é repetido nas sequências em que ele recebe algum alento (a primeira longa conversa com Deus acontece em uma cozinha aconchegante com um brilhante feixe de luz atravessando a janela). São construções óbvias, previsíveis e já usadas à exaustão em outros filmes. Daí vem a impaciência com A Cabana.
Muito dos defeitos e das simplificações do longa poderiam ser relevados se um ator de grande talento tivesse uma forte presença em cena. Não é o caso de Sam Worthington, que, além de não ter talento ou expressiva (até em Avatar ele era perfeitamente esquecível), torna A Cabana uma viagem ainda mais ingrata por não fazer com que o espectador tenha qualquer conexão com seu personagem. A história vivida por ele é triste, claro, mas não há texto que garanta emoção quando um intérprete precisa visivelmente se esforçar até para derramar uma lágrima. É um problema tremendo (talvez o maior) para um filme que, por outro lado, consegue ser um veículo de exercício para Octavia Spencer. Ela, que vem diminuindo a marcha de suas caricaturas em filmes como Estrelas Além do Tempo, está novamente humana e devidamente acalantadora ao assumir a responsabilidade de incorporar Deus. Inclusive, é muito bacana a diversidade encontrada na representação das figuras divinas, onde Deus, Jesus e Espírito Santo são interpretados por atores negros, árabes e orientais, respectivamente. Contudo, é mera questão de tempo para que A Cabana volte a repetir suas fórmulas e melodramas, perdendo a chance de ser o filme que poderia, pelo menos, fazer com que boa parte da plateia repensasse o preconceito que nutre por produções baseadas em best sellers de auto-ajuda.
Rapidamente: “Batman vs Superman”, “Eu, Daniel Blake”, “Mulher do Pai” e “Mulheres do Século 20”

Mais um filme muito íntimo e pessoal do diretor Mike Mills, Mulheres do Século 20 se destaca pelo excelente trabalho do elenco feminino e de suas inteligentes referências e contextualizações.
BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016, de Zack Snyder): Foi massacrado mundo afora, e com toda razão, já que só deve perder para Esquadrão Suicida como o pior filme de super heróis dos últimos anos. A lista do que não funciona é imensa: dos protagonistas inexpressivos (Ben Affleck não traz personalidade ao icônico Batman, enquanto Henry Cavill nunca funcionou mesmo como Superman) aos coadjuvantes que variam de caricaturas ineficientes (Jesse Eisenberg tenta fazer algo divertido, mas sem sucesso) a presenças desperdiçadas (dá pena ver Amy Adams tendo que se contentar com o papel da mocinha que só vive em função de seu homem), Batman vs Superman tem um roteiro dos mais problemáticos, onde nada é suficientemente consistente para nos convencer do confronto entre os herois. Porém, o mais decepcionante deve ser a concepção estética completamente pobre do filme, pois, se os universos dos dois heróis já não conversam direito, a situação só se agrava com uma direção que comanda cenas de ação no piloto-automático e apostando na velha e já inaceitável fórmula de cidades sendo inteiramente destruídas durante os confrontos só para mostrar algum tipo de grandiosidade. A própria luta entre os dois protagonistas é concebida de forma preguiçosa, como se fosse apenas uma brincadeira onde os dois alteram porradas com diversos poderes e artimanhas. E mais: o conflito tem uma solução das mais esfarrapadas imagináveis. Talvez Batman vs Superman não chegue a aborrecer tanto quanto Esquadrão Suicida, mas é um aventura ultrapassada demais, o que não nos dá nem desculpa de classificá-lo como uma homenagem ou uma experiência nostálgica para tentar defendê-lo.
EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake, 2016, de Ken Loach): Não está entre os casos mais graves, mas a Palma de Ouro para Eu, Daniel Blake não deixa de contribuir para as escolhas extremamente irregulares do júri presidido pelo cineasta australiano George Miller no Festival de Cannes em 2016. O novo filme de Ken Loach é muito simbólico e relevante em tempos que discutimos tanto os direitos trabalhistas no Brasil e no mundo, mas, em termos de execução, o resultado é bastante decepcionante. Acompanhando os difíceis dias de Daniel Blake (Dave Johns), que, após ficar desempregado em função do diagnóstico de um problema cardíaco, enfrenta as burocracias do governo para receber seus auxílios por direito, Eu, Daniel Blake não exige que a plateia já tenha compartilhado da mesma situação do protagonista para se indignar e até reconhecer as inúmeras situações absurdas relacionadas ao descaso do governo com a classe trabalhadora. O que acontece é que Eu, Daniel Blake, apostando em um ritmo bastante lento, se repete demais e, sempre que procura dar alguma guinada na trama, soa artificial. Por mais comovente que seja a interpretação de Hayley Squires como Katie, a amiga de Daniel que passa por problemas bastante semelhantes, seu conflito com o protagonista a respeito da profissão que resolve adotar para resolver problemas financeiros é executado com arbitrariedade. Mais decepcionante ainda é o desfecho que, nada sutil e imprevisível, ainda reserva uma última cena repleta de drama que, justamente, por ser consequência de uma escolha conduzida apressadamente pelo roteiro, não surte efeito algum. Em tese, Eu, Daniel Blake é necessário. Na prática, beira o esquecível.
MULHER DO PAI (idem, 2017, de Cristiane Oliveira): Rodado na região de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, Mulher do Pai faturou os prêmios de melhor direção, fotografia e atriz coadjuvante no Festival do Rio 2016, além de ter feito trajetória internacional ao ter sido selecionado para a mostra Generation do Festival de Berlim deste ano. Ao contrário dos festivais, já não compartilho o mesmo entusiasmo com esse trabalho de estreia da diretora Cristiane Oliveira, que, também autora do roteiro, opta por um caminho nobre em seu debut (o de economizar ao máximo as emoções de uma história que, centrada nas descobertas e no amadurecimento de uma jovem do interior que precisa cuidar do pai cego), mas que, por isso mesmo, resvala em outro o problema: o de que, muitas vezes, menos realmente é menos. Marat Descartes, como o pai da protagonista, é sempre ótimo, e Mulher do Pai ambienta muito bem a vida no interior. Mas falta visceralidade aqui, inclusive nas sutilezas: um exemplo claro disso é a relação da protagonista com a professora de artes (a ótima Verónica Perrota, vencedora do Kikito de melhor atriz em Gramado ano passado pelo uruguaio Las Toninas Van al Este), que, inicialmente interessante e cercada de delicadezas, se desenrola de forma previsível e nada catártica ao se transformar em conflito quando a professora se interessa pelo pai da menina. Existem outros problemas, como a geografia não ser devidamente explorada (a protagonista quer desesperadamente conhecer o Uruguai por questões culturais e, quando viaja até lá, quase nada é mostrado do país), que me desconectam bastante do filme. Tratando-se de um relato sobre a transição da adolescência para a vida adulta, o cinema brasileiro já nos trouxe histórias muito mais envolventes nos últimos anos.
MULHERES DO SÉCULO 20 (20th Century Women, 2016, de Mike Mills): Não é preciso retroceder tanto a carreira do diretor Mike Mills para constatar o quanto ele é apaixonado por histórias íntimas. Basta lembrar de Toda Forma de Amor, filme que rendeu o Oscar ao veterano Christopher Plummer pela personificação de um pai de família que, após a descoberta de um câncer, resolve finalmente sair do armário para o filho. Agora, Mills sai da relação de um personagem com o pai para falar sobre a influência de uma mãe (e de várias outras figuras femininas) na vida de um garoto adolescente. É bonito como o diretor consegue imprimir uma assinatura sem nunca se repetir, e Mulheres do Século 20 é particularmente marcante do ponto de vista pessoal, já que essa é uma história baseada na vida do próprio diretor. Pop e recheado de referências e contextualizações das mais variadas naturezas (da música ao cinema, passa até pelo marcante documentário Koyannisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, de 1982), o relato é delicado ao retratar as relações familiares, especialmente nos momentos em entre mãe e filho. Falando em mãe, ela é vivida com talento e elegância por Annette Bening, com uma figura interessantíssima e que, aos poucos, parece também fazer parte da nossa família. Para não ser injusto, vale mencionar ainda Elle Fanning e Greta Gerwig, ambas em plena sintonia com Bening em um elenco feminino para lá de especial.
A Bela e a Fera
I want so much more than they’ve got planned!

Direção: Bill Condon
Roteiro: Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Nathan Mack, Haydn Gwynne, Hattie Morahan, Ray Fearon
Beauty and the Beast, EUA, 2017, Musical, 129 minutos
Sinopse: Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. (Adoro Cinema)

Sem reajuste de inflação, a versão live action de A Bela e a Fera ostenta, até o momento, o status de maior musical já produzido mundialmente para o cinema. Foram nada menos do que 160 milhões de dólares investidos nessa adaptação da animação homônima de 1991 dirigida pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise! O retorno financeiro que obviamente veio pelas bilheterias já era esperado pela Disney, mas o que justamente faz a diferença para o sucesso dessa versão dirigida por Bill Condon é o salto ambicioso dado pelo estúdio, o que, para total surpresa de quem assiste ao filme, logo se descobre que tem pouco a ver com dinheiro. Na verdade, A Bela e a Fera se diferencia do insosso Cinderela, por exemplo, ao redimensionar a animação em uma série de aspectos, principalmente no de dar ainda mais ênfase à música como pilar fundamental para a jornada da protagonista.
É o tipo de caso que vale alertar: A Bela e a Fera, muito antes de ser apenas uma transposição de um universo animado para outro de carne e osso, é um grande musical, com direito a diálogos cantados e até resoluções que se desenham a partir da música. Isso mesmo, a adaptação de Bill Condon se sustenta a partir de uma cantoria quase incessante, o que revela primeiro a já comentada ambição do estúdio de fazer algo diferenciado e segundo a confiança em um diretor que foi chamado justamente por sua aproximação com o gênero (para quem não lembra, Condon dirigiu, em 2006, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho). Missão duplamente cumprida: não só A Bela e a Fera consegue brilhar no universo de repetitivas adaptações de animações como também tem pleno domínio da narrativa musical. E o fato do mestre Alan Menken, compositor do longa de 1991, ter retomado seu posto só qualifica ainda mais o projeto.
Mais longo do que a animação (são 45 minutos a mais, com três novas canções, três outras estendidas, novos personagens e detalhes adicionais sobre a vida dos protagonistas), A Bela e a Fera chegou a ser idealizado pela Warner Bros. com Guillermo Del Toro na direção. A ideia, entretanto, acabou ficando mesmo com a Disney, que custou a comprar a ideia de que a adaptação deveria ser um musical, algo rapidamente incentivado por Condon em suas conversas com o estúdio. O longo processo de idealização e o alto investimento financeiro são percebidos na tela muito mais pelo alinhamento técnico de todo o filme do que pela extensa etapa de pós-produção (as gravações terminaram em agosto de 2015!): é digna de nota a grandiosidade estética da adaptação, que, com figurinos exuberantes de Jaqueline Durran e imponente design de produção de Sarah Greenwood, faz jus ao imaginário de toda uma geração apaixonada pela animação e também de quem é fã de musicais.
Em termos de história há de se considerar leituras cada vez mais consideradas nos dias de hoje como A Bela e a Fera narrar um romance que nasce a partir do aprisionamento da mocinha por um príncipe que logo a encantará com um castelo imenso e bibliotecas impressionantes. Ainda é válido questionar o quanto a representação de LeFou (Josh Gad) é correta, uma vez que ele não passa de um personagem gay que, obcecado pelo amigo hétero, unidimensional e até mesmo machista, abre mão a todo momento de sua própria personalidade para causar algum tipo de impressão ao moço. De resto, A Bela e a Fera, mesmo com alguns excessos na história, é uma experiência encantadora aos olhos e aos ouvidos, entregando, com doses certeiras de ambição, a transposição para o live action que há tempos merecíamos conferir.
Um Mergulho no Passado
We’re all obscene. Everyone’s obscene. That’s the whole fucking point.

Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: David Kajganich, baseado em história de Alain Page
Elenco: Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson, Corrado Guzzanti, Aurore Clément, Lily McMenamy, Elena Bucci, Salvatore Gabriele, Francesco Lo Pinto, Youness Zrhaiba
A Bigger Splash, Itália/França, 2015, Drama, 125 minutos
Sinopse: A estrela do rock Marianne Lane (Tilda Swinton) passa férias em uma ilha italiana na companhia de seu parceiro (Matthias Schoenaerts) quando é surpreendida por Harry (Ralph Fiennes), um ex-caso que aporta no paraíso com a filha (Dakota Johnson) e desencadeia uma onda de nostalgia e perigosos jogos de sedução. (Adoro Cinema)

Vivida por Tilda Swinton, a estrela do rock Marianne Lane é a perfeita síntese de toda a dramaticidade de Um Mergulho no Passado, longa que marca a quarta colaboração entre a atriz e o diretor italiano Luca Guadagnino. Recuperando-se de uma cirurgia nas cordas vocais, a cantora praticamente não consegue falar e precisa evitar ao máximo qualquer expressão de voz. Para tanto, Marianne opta por se refugiar com o namorado Paul (Matthias Schoenaerts, o par romântico de Marion Cotillard em Ferrugem e Osso) em uma belíssima ilha italiana, onde, por coincidência, acaba vivendo justamente o contrário, pois é lá que também está de férias o excêntrico Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-marido da artista que também produziu e agenciou sua carreira musical durante anos. E se grande parte dos cineastas faria desse encontro um verdadeiro melodrama sobre um amor mal resolvido que renasce a partir do acaso, Guadagnino usa um pincel muito mais fino: quando Harry canta, dança, fala o tempo inteiro e faz o que bem entende em qualquer lugar como um verdadeiro furacão para qualquer círculo social, Um Mergulho no Passado se torna um estudo sobre tudo o que nasce a partir do silêncio em meio ao caos – e por isso é tão simbólico uma estrela da música se encontrar praticamente muda em um turbilhão interno tão intenso.
Inteligentemente, Harry está longe de ser um sujeito meramente insuportável. Sua necessidade de estar constantemente falando e chamando atenção revela, na verdade, uma autenticidade que, sim, extrapola a paciência e o limite de muita gente, mas que não deixa de ser… autenticidade. O próprio personagem questiona: por que ele precisa pedir desculpas por simplesmente ser quem é? Isso nos leva à ideia de que Harry tem um mérito que, parando para pensar, é raríssimo em boa parte das relações que estabelecemos. A própria Marianne compreende isso (e não à toa esse parece um dos aspectos que fizeram com que ela um dia caísse de amores por ele), o que, em contraste, não amortece a incômoda sensação de tê-lo de volta em sua vida que, no exato momento retratado por Um Mergulho no Passado, é muito bem estabelecida do ponto de vista profissional e amoroso. Toda a ação do filme de Luca Guadagnino parte dessa chegada turbulenta de Harry, que ainda viaja com uma filha adolescente (Dakota Johnson) que diz recém ter descoberto existir. Na convivência do quarteto (Marianne e seu namorado, Harry e sua filha), o longa apresenta dilemas sexuais, amorosos e até mesmo sociais partindo de cotidianidades. Os sub-textos que surgem desde uma mera diversão no karaokê até um duvidoso passeio de campo reforçam o naturalismo do longa, que, como outros do diretor italiano, prefere lançar um olhar microscópico para situações corriqueiras ao invés de apostar em reviravoltas para criar estofo dramático.
Saindo dos registros bucólicos de Um Sonho de Amor para as paisagens veranis de Um Mergulho no Passado, Luca Guadagnino segue filmando histórias com grande requinte estético. Se Tilda Swinton novamente é um deslumbre com figurinos invejáveis (todo o guarda-roupa dela foi desenhado pela Gucci, incluindo o icônico óculos de sol usado do início ao fim) e as paisagens litorâneas da Itália são de encher os olhos, o diretor nunca deixa que a estética seja apenas um personagem extra do filme ou que sirva apenas para tornar ainda mais atraente a inegável beleza de Matthias Schoenaerts, por exemplo. Tudo tem um propósito: a sofisticada roupagem de Tilda justifica seu status de estrela da música mundialmente reconhecida e as praias criam um clima de despojamento que é fundamental para a o desejo físico que se cria secretamente ou não entre os personagens. Afinal, assim são os filmes que reverberam como Um Mergulho no Passado: grandes também nos detalhes técnicos e não apenas no roteiro. Por falar em texto, aqui o roteirista David Kajganich revela um talento surpreendente. Responsável pelos péssimos Invasores (a ficção estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig em 2007) e Renascido das Trevas (mais uma bagunça dirigida por Joel Schumacher, dessa vez um terror com Henry Cavill), Kajganich é pontual ao administrar a ciranda de sentimentos entre os personagens, todos muitíssimos bem desenvolvidos em suas personalidades e na forma como elas se afetam.
Muito da verossimilhança de Um Mergulho no Passado se dá pelo alto nível de interpretação do quarteto de atores reunidos no longa, incluindo até mesmo Dakota Johnson, que, com um papel consideravelmente menor em tempo de projeção se comparado ao de seus colegas, consegue transmitir toda a esperteza de uma jovem que tenta compreender (ou quem sabe se aproveitar?) dos conflitos a sua volta. Mas se Tilda Swinton já dispensa comentários há anos (aqui está novamente fantástica com um papel que só poderia ser dela) e faz uma ótima dupla com Matthias Schoenaerts, que interpreta um homem atraente e comum na medida exata, quem realmente dá show é o sempre subvalorizado Ralph Fiennes. É claro que seu personagem, por ser o centro das atenções (e da ação), já ganharia destaque naturalmente, mas Fiennes sabe calibrá-lo com grande precisão, atentando-se a dois pontos fundamentais: primeiro o de Harry como um homem verborrágico que torna qualquer momento um grande acontecimento e segundo como sujeito confiante que, muito no fundo, aos poucos compreende que não pode controlar tudo nesse mundo (a cena em que Marianne pergunta por que Harry não consegue aceitar a ideia de ela ser feliz sem sua presença é uma das melhores do filme). Em uma das entrevistas que concedeu para divulgar Um Mergulho no Passado, Guadagnino diz que trabalhar com esses atores foi a melhor experiência que já teve com um elenco em toda a sua carreira. Se como espectador é fácil acreditar na grande verdade dessa afirmação, imagine estando lá…