Cinema e Argumento

Electroma

Existe uma certa música do Daft Punk que se chama Human After All. Esse filme deles, Electroma, trabalha em grande potencial esse assunto: a humanidade. A produção mostra a jornada de dois robôs em busca de uma alma, querendo uma inserção no mundo dos sentimentos e das emoções. Essa jornada deles é totalmente sem diálogos (nenhuma palavra é dita durante toda a projeção) e toda a emoção da história é transmitida através de tomadas silenciosas e cenas embaladas por emocionantes canções que em diversos momentos alcançam níveis extraordinários (fiquei com três momentos na cabeça durante um bom tempo). De início, Electroma é um filme meio perturbador e estranho: o silêncio grita aos ouvidos e os personagens são muito bizarros. Leva-se um tempo para se acostumar a esse estilo, que em diversas partes lembra outros filmes, mas, aos poucos, a produção vai envolvendo e conseguindo ficar cada vez mais interessante em suas intenções e em sua sincera dramaticidade. Com ligeiros 70 minutos de duração, é bem restrito e para um público mais seleto: um público de “arte”, que entende as entrelinhas e tudo o que se esconde em um silêncio subjetivo. Não digo que fui completamente envolvido e nem que me apaixonei pelo filme, mas o fato é que Electroma foi uma experiência única para mim, conseguindo ser mais emocionante do que muitos dramas enfadonhos e manipuladores que andam por aí.

FILME: 8.0

35

O Caçador de Pipas

Direção: Marc Forster

Elenco: Khalid Abdalla, Atossa Leoni, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Shaun Toub, Nabi Tanha

The Kite Runner, EUA, 2007, Drama, 124 minutos, 14 anos.

Sinopse: Depois de passar anos na California, Amir (Khalid Abdalla) retorna para a sua cidade natal, no Afeganistão, para tentar corrigir erros do passado. Ele também terá de ajudar o filho de seu amigo de infância, que está com sérios problemas.

Estranho. Achei o filme e o livro de O Caçador de Pipas totalmente diferentes. Eu não deveria ter essa sensação, uma vez que o filme de Marc Forster é plenamente fiel ao best-seller de Khaled Hosseini. Falando em Marc Forster, ele prova aqui que a palavra ”versatilidade” lhe cai muito bem, pois realiza um de seus melhores trabalhos como diretor. A produção é meticulosamente cuidadosa em todos os seus setores e especialmente na primeira hora do filme, que retrata a infância do protagonista. É nessa parte também que o filme funciona melhor, onde é mais sentimental, emocionante e verossímil. A adaptação teve pleno êxito nos primeiros momentos, que realmente ficaram muito interessantes.

Já a segunda hora e os momentos finais não conseguem conquistar, já que tudo é muito vazio e sem sentimento. De uma certa forma, a adaptação do best-seller é digna e consegue traduzir muito bem todo o espírito que o escritor Khaled Hosseini transmitia em sua obra, mas não consegui me sentir confortável com a história e muito menos me emocionar.Não é um produto comercial e gostei bastante disso. Em momento algum notamos que o filme quer apenas “ganhar dinheiro”, muito pelo contrário, tudo parece ter sido feito com amor ao livro. O fato é que eu li a história faz bastante tempo, então a versão cinematográfica não teve tanta graça porque eu já sabia tudo o que estava por acontecer.

A trilha sonora de Alberto Iglesias, que foi indicada ao Oscar, é ótima, mas de maneira nenhuma oferece riscos para a melhor trilha desse ano: a de Dario Marianelli, em Desejo e Reparação. O desconhecido elenco de O Caçador de Pipas realiza um trabalho surpreendente, todos excelentes, principlamente o elenco mirim e o protagonista Khalid Abdalla. Um filme nada mais que satisfatório, sem ousadias ou novidades. Em termos de adaptação está ótimo. Só faltava ser um pouco mais contundente como cinema…

FILME: 7.0

3

Juno

Direção: Jason Reitman

Elenco: Ellen Page, Jennifer Garner, J.K. Simmons, Allison Janney, Michael Cera, Jason Bateman

EUA, 2008, Comédia, 105 minutos, 10 anos.

Sinopse: Quando a adolescente Juno (Ellen Page) aos 16 anos de idade descobre-se grávida do namorado (Michael Cera), ela decide procurar pais adotivos para o filho que não deseja ter. Contando com o apoio de seu pai (J.K. Simmons) e de sua madrasta (Allison Janey), Juno entrará em uma jornada sobre qual a importância de crescer e superar os tombos da vida.

Logo quando Juno começou a fazer sucesso nas premiações, o público considerou essa produção independente como o Pequena Miss Sunshine de 2008. Qualquer comparação com o bem-sucedido filme de Jonathan Dayton e Valerie Farris é inútil, uma vez que Juno se difere totalmente, com exceção na aura de comédia indepentente com rumo à carreira de produção cult no futuro. A segunda incursão do diretor Jason Reitman no cinema (o primeiro foi o bom Obrigado Por Fumar) trouxe grandes frutos para a equipe envolvida. O filme recebeu quatro indicações ao Oscar e é favorito para levar o importante prêmio de roteiro original.

Sem dúvida alguma, Juno veio dar continuidade ao efeito que Pequena Miss Sunshine criou ano passado: o de que filmes baratos e independentes podem sim ser melhores do que produções caras e grandiosas. Durante todo o filme fica claro essa intenção, porque o roteiro tem um charme único, um humor muito sincero e um caráter inofensivo. Se eu tivesse que dizer a razão de toda a badalação em torno dessa comédia seria a sua simplicidade. Nada é grosseiro, clichê e muito menos forçado. A roteirista Diablo Cody (em sua estréia no cinema como roteirista) transportou um tema pesado – a gravidez na adolescência – para um tratamento agradável, abrangendo todos os públicos, que certamente irão se envolver com a jornada rumo à maturidade da protagonista.

Óbvio que para um filme como esse, uma protagonista carismática e competente é necessária. A escolhida da vez é Ellen Page, que anteriormente havia mostrado competência no péssimo Menina Má.Com e que aqui tem a verdadeira chance de alçar vôo em sua carreira. A jovem atriz de 20 anos se mostra confortável e muito segura no papel, conseguindo segurar tranqüilamente as rédeas da ótima personagem e merecendo sua indicação ao prêmio da Academia. Mas, não estaria ela interpretando a si mesma? O elenco de suporte não possui maiores destaques, tendo como coadjuvantes Allison Janney (a namorada de Meryl Streep em As Horas) e J.K. Simmons. Quem mais chama a atenção é Jennifer Garner, muito simpática e em bom desempenho.

Um outro aspecto que me deixou bastante satisfeito foram as canções, agradáveis e encantadoras. Por mais que sejam utilizadas em excesso, combinam perfeitamente com cada momento e com cada cena. Apesar de todos esses meus elogios, não achei Juno tão original assim. O sucesso e o encantamento em volta do filme devem-se apenas ao grande poder de conquistar com sua simplicidade. Até achei bastante estranho a Academia ter dado tanta ênfase para esse filme em um ano tão concorrido (absurdo Joe Wright ter sido eliminado da lista de direção por Desejo e Reparação e ter “cedido” o lugar para Jason Reitman, por exemplo). Juno, com certeza, vai achar seu público…

FILME: 8.0

35

Jogos Mortais 3

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[De Darren Lynn Bousman. Com Tobin Bell, Shawnee Smith e Bahar Soohmekh]

Toda a genialidade apontada pelo público para Jogos Mortais só existiu realmente no primeiro volume, que conseguiu ser surpreendente e intrigante no seu ótimo suspense. Por mais que o segundo volume seja mais divertido e forte em suas cenas de violência, acabou soando um pouco decadente em seu roteiro. Por causa dessa leve decepção e do anúncio de um terceiro e um quarto volume, não tinha a mínima vontade de ver mais um repeteco inferior aos outros filmes. Vi esse terceiro capítulo gratuitamente e mesmo assim me arrependi, porque vi um produto completamente comercial e sem qualquer tipo de impacto cinematográfico. Ok, não posso negar que gostei das cenas de violência e das grandes bobagens presentes, mas eu não consegui ver mais graça nessa história, que já me parece completamente saturada e sem atrativos. Se existe alguma coisa aproveitável na história é o desempenho de Bahar Soohmekh (que anteriormente havia feito Crash – No Limite), que está esforçada e tenta dar um pouco de verossimilhança para a história. Nem detestei o filme, apenas achei frio e completamente mecânico. Ainda assim deve agradar o povão que gosta desses filmes sanguinolentos. Com certeza passo longe do quarto volume, que nem pretendo assistir.

FILME: 6.0

25

Meu Nome Não é Johnny

Direção: Mauro Lima

Elenco: Selton Mello, Cléo Pires, Júlia Lemmertz, Eva Todor, Cássia Kiss, André Di Biasi.

Brasil, 2008, Drama, 113 minutos, 14 anos.

Sinopse: João Guilherme Estrella (Selton Mello) nasceu em uma família de classe média do Rio de Janeiro. Filho de um diretor do extinto Banco Nacional, ele cresceu no Jardim Botânico e frequentou os melhores colégios, tendo amigos entre as famílias mais influentes da cidade. Carismático e popular, João viveu intensamente os anos 80 e 90. Neste período, conheceu o universo das drogas, mesmo sem jamais pisar numa favela. Logo, tornou0se o maior vendedor de drogas do Rio de Janeiro, sendo preso em 1995. A partir de então, passou a frequentar o cotidiano do sistema carcerário brasileiro.

Até hoje não consigo entender toda a polêmica em volta do superestimado Tropa de Elite (que os fãs me perdoem, mas não vejo nada demais). Meu Nome Não é Johnny trata da mesma temática – o tráfico de drogas. Como eu não sou fã do filme de José Padilha, achei que o longa-metragem de Mauro Lima consegue fazer uma denúncia muito melhor e mais sincera. Mas, deixando de lado todo esse papo de drogas, esse filme (que é o primeiro brasileiro lançado esse ano) tem vários aspectos positivos que o tornam muito mais do que uma mera denúncia social.

O maior mérito, sem dúvida, é o sempre ótimo Selton Mello, que cada vez mais comprova ser um excelente ator – carismático e competente, sempre se encaixando muito bem em seus papéis. O filme é dele, que aproveita muito bem cada momento da produção. Quem faz seu par romântico é a linda Cléo Pires, em sua segunda incursão no cinema (sua primeira vez foi como a musa do péssimo Benjamim) e ela está ótima. As coadjuvantes Cássia Kiss e Júlia Lemmertz também realizam bons trabalhos.

Meu Nome Não é Johnny conta com cenas em Barcelona e Veneza, cenas em que o roteiro fica muito divertido, com um humor totalmente agradável. Falando em roteiro, ele é um pouco óbvio e pouco ousado, parecendo uma versão de Scarface, somente narrando a ascenção de um homem no mundo das drogas, mas foge de qualquer esquema de filmes banais feitos pela Globo Filmes. Um poco longo (fica particularmente desinteressante nos momentos finais), o filme conseguiu me surpreender. Não é nada comercial e consegue ter personalidade própria. Um achado do cinema brasileiro.

FILME: 7.5

3