O Sonho de Cassandra

Direção: Woody Allen
Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Sally Hawkins, Hayley Atwell
Cassandra’s Dream, Inglaterra, 2007, Drama, 95 minutos.
Sinopse:Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são irmãos que decidem comprar o barco “Cassandra’s Dream”, apesar dos problemas financeiros que ambos atravessam. Terry trabalha em uma oficina, mas é viciado no jogo e sempre está às voltas com novas dívidas. Já Ian trabalha no restaurante do pai (John Benfield), mas sonha em largar o negócio para alçar vôos mais altos. Ambos moram com os pais, com a família sendo auxiliada financeiramente pelo tio Howard (Tom Wilkinson). Um dia Howard aparece para uma visita, o que anima Ian e Terry. Eles pretendem pedir dinheiro ao tio, para que possam realizar os sonhos que têm para suas vidas. Howard aceita ajudá-los, mas o que exige em troca muda para sempre a vida dos irmãos.

“Se em Match Point a mudança de ares foi excelente para o diretor Woody Allen, aqui nesse O Sonho de Cassandra o resultado é decepcionante. Allen conduz de forma óbvia uma história previsível, que só vale ser conferida por causa de sua dupla de protagonistas.”
Desde um grande sucesso chamado Match Point, Woody Allen se modificou completamente. Deixou de lado suas habituais características e adotou um tom mais sério e trágico. Se essa nova estrutura foi um acerto imenso em Macth Point, nesse O Sonho de Cassandra não é. É de se admirar que Woody Allen tenha selecionado uma história tão óbvia como esse e nem sequer ter colocado um pingo de originalidade no roteiro. Tudo é linear do início ao fim e nem mesmo o desfecho consegue ter a surpresa e o impacto que deveriam ter. É o roteiro que faz com que O Sonho de Casssandra seja um filme aquém do esperado, enquanto diversos outros fatores do longa são bem aceitáveis.
Para protagonizar a história, foram escolhidos dois atores que andavam um pouco apagados nos últimos tempos. O primeiro é o talentoso Ewan McGregor, que ultimamente só aprece em pequenas produções e não apresenta nada de significativo desde Moulin Rouge! – Amor Em Vermelho. O segundo é o estranho Colin Farrell, um ator perdido no mundo do cinema e que até hoje não mostrou ao que veio. Ambos realizam excelentes trabalhos no longa e acabam por ser o aspecto mais positivo de todo o filme. Também citaria o sempre ótimo Tom Wilkinson, mas a sua aparição é tão limitada, que mal dá para lhe dar um crédito maior.
O compositor Philip Glass aparece com uma trilha contundente (o tema principal é maravilhoso), mas que é uma completa variação do seu trabalho anterior: Notas Sobre Um Escândalo. Woody Allen criou em O Sonho de Cassandra o típico filme “ame-o ou deixe-o”, já que a crítica se dividiu bastante. Com certeza não é um longa ruim (longe da monotonia de Melinda e Melinda e da bobagem previsível de Scoop – O Grande Furo), é apenas desnecessário, com aquela forte sensação de que “já vi isso antes”.
FILME: 6.5

Ensaio Sobre a Cegueira

Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover, Alice Braga, Sandra Oh
Blindness, EUA, 2008, Drama, 118 minutos, 16 anos.
Sinopse: Uma inédita e inexplicável epidemia de cegueira atinge uma cidade. Chamada de “cegueira branca”, já que as pessoas atingidas apenas passam a ver uma superfície leitosa, a doença surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo Estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.

“Mesmo que tenha pouquíssimos longas em seu currículo, o diretor Fernando Meirelles mais uma vez prova que é a melhor figura brasileira trabalhando no exterior. Ele surpreende com um longa diferente na sua estética e que não deve nada ao trabalho de José Saramago.“
O título acusa um filme sobre cegueira, mas ele não é bem isso. Não é apenas isso. Ensaio Sobre a Cegueira é uma história sobre a degradação da sociedade, os limites do ser humano, a falta de moralidade e o desespero atordoante. A doença misteriosa que atinge os seres humanos de uma população é mero pretexto para que uma análise do mundo em que vivemos seja feita. Ao mesmo tempo em que os personagens perdem a visão, o lado obscuro de suas respectivas almas vem à tona. Devido a essa temática difícil e a outros inúmeros fatores, o livro homônimo de José Saramago era considerado impossível de ser filmado, e as expectativas em torno do longa de Meirelles eram imensas. É um alívio, ao fim da sessão, constatar que o produto que acabamos de assistir é muito mais que uma missão cumprida, é uma história que ganhou vida própria em uma estética inovadora e diferente.
Depois de comprovar competência com direções arrebatadoras nos longas Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel – esse último injustiçado nas premiações na categoria de direção – Fernando Meirelles mais uma vez dá orgulho. Em certas partes se limita apenas a fazer o básico e em outras consegue surpreender (a cena do estupro, apesar de reduzida, consegue mexer com os nervos do espectador), dando literalmente vida aos momentos que Saramago criou em sua obra. Mas óbvio que os méritos técnicos não são apenas do diretor. A fotografia branca de César Charlone (ainda bem que colocaram legendas amarelas!) tem sim seus momentos de irregularidade. Contudo, eu quero que alguém me diga quando foi a última vez que uma fotografia tão intrigante como essa foi apresentada? Temos também a bonita trilha de Marcos Antônio Guimarães, que faz lembrar bastante a sonoridade da canção Proven Lands que Jonny Greenwood compôs para Sangue Negro. Eu esperava mais desse setor de Ensaio Sobre a Cegueira, que podia ter criado passagens mais inspiradas como o trailer sugeria.
Ensaio Sobre a Cegueira também é o esperado retorno de Julianne Moore após tantos erros desde sua última aparição no Oscar. Não podia ter um retorno mais recompensador, fazendo com que nós esqueçamos todas as bobagens que ela fez nos seus últimos caminhos. Julianne não cai em excessos, representando a “esperança” do longa da forma mais adequada possível. Nada de berros ou choros compulsivos, a grande presença dela no longa está em cada olhar triste, em cada expressão de desespero. Ela é a estrela do filme e nenhum outro ator do elenco alcança a mesma qualidade. Eles não têm momentos individuais muito marcantes, mas como um todo funcionam de forma excelente. Danny Glover tem um pouco mais de presença por ter uma ou outra narração. Narrações, aliás, que foram reduzidas. Mas mesmo assim ficaram fora de contexto no longa, não representando muita coisa.
O escritor do livro ficou emocionado ao fim da sessão quando assistiu ao longa. Nada mais justificável. Eu estaria completamente realizado se eu tivesse visto um filme tão competente que foi baseado em uma obra minha. O roteiro segue exatamente o livro, sem grandes liberdades mas ainda excepcional em sua narrativa. É visível que o longa é comprido (são duas notáveis horas), entretanto, é algo necessário para que a história seja contada da forma mais fluente possível. O livro de Saramago está ali, em um filme que não deve nada para a obra. Desde já, um dos melhores do ano.
FILME: 8.5


Em Paris

Em Paris, de Christophe Honoré
Com Romain Duris, Louis Garrel e Joana Preiss

Sempre vi o cinema francês como uma constante. Os resultados de seus filmes são sempre bons e raramente desapontam. Quando um furacão chamado Piaf – Um Hino Ao Amor e uma cultuada animação chamada Persépolis fizeram o país europeu brilhar novamente no mundo da sétima arte, uma pequena produção chamada Em Paris passou despercebida. Não é digna de premiações, mas é um satisfatório exemplar vindo da França, que trabalha relacionamentos; principalmente os familiares. Não, aqui não temos nenhuma situação onde uma família cura feridas do passado, lágrimas sendo derramadas por arrependimentos ou diálogos enfatizando a força dos laços familiares. Em Paris fala de relacionamentos sem ser explícito quanto a isso. E com essa estrutura temos a sustentabilidade do roteiro.
Ao mesmo tempo em que encontramos esse fator positivo, vemos que nada na história do filme é algo que já não tenhamos visto previamente em outras produções. A força vai ser centrada nos seus dois talentosos atores. O protagonista, Romain Duris, já havia provado ter competência suficiente para encabeçar um longa – fez sucesso com O Albergue Espanhol e Bonecas Russas. Aqui não é diferente, Duris apresenta mais um bom desempenho. Contudo, seu personagem perde bastante para o de Louis Garrel (o menos conhecido de Os Sonhadores) que cria uma figura muito mais interessante dentro do contexto do roteiro. Não estamos diante de uma produção original ou memorável, mas de um produto bem produzido e satisfatório. O que já justifica uma espiada.
FILME: 7.5
Jogos do Poder

Direção: Mike Nichols
Elenco: Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Emily Blunt, Brian Markinson, Jud Tylor.
Charlie Wilson’s War, EUA, 2008, Comédia, 115 minutos, 14 anos.
Sinopse:Início dos anos 80. A União Soviética invade o
Afeganistão, o que chama a atenção de políticos norte-americanos. Um
deles é Charlie Wilson (Tom Hanks), um homem mulherengo e polêmico que
não tem grande relevância política, apesar de ter sido eleito 6 vezes
para o cargo. Com o apoio de Joanne Herring (Julia Roberts), uma das
mulheres mais ricas do estado que o elege, e do agente da CIA Gust
Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), Wilson passa a negociar uma aliança
entre paquistaneses, egípcios, israelenses e o governo norte-americano,
de forma que os Estados Unidos financiem uma resistência que possa
impedir o avanço soviético no local.

“Extremamente confuso – e também restrito – Jogos do Poder é uma jogada mal realizade do diretor Mike Nichols, que dessa vez não consegue agradar com o estilo e nem mesmo com o elenco.”
Mike Nichols é um grande diretor, principalmente quando se trata da sua forma de conduzir um elenco. Ele dirigiu o telefilme mais emocionante que já tive a oportunidade de ver (Uma Lição de Vida, que traz uma estupenda atuação de Emma Thompson), criou uma memorável minissérie (Angels In America, vencedora de vários Emmy, incluindo prêmios para Meryl Streep e Al Pacino) e provou ser um grande maestro ao orquestrar diálogos excepcionais (como em Closer – Perto Demais e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?). É estranho ver a sua mudança de gênero com esse Jogos do Poder, onde se lança em um terreno que pouco trabalhou – a comédia. Além de tudo, resolveu usar a política como engrenagem para construir o humor.
Se a estrutura já limita a aceitação do público, o roteiro não fez a mínima questão de tornar a história mais atraente ou original; Jogos do Poder é completamente político e puramente falado. Na minha visão isso resulta em tédio. E foi exatamente o que eu senti durante todo o filme. Em momento algum eu fui envolvido pela história, que é cheia de detalhes e nula em conflitos dramáticos. Normalmente, quando temos um bom elenco em mãos, os defeitos são parcialmente recompensados. Aqui não é o caso. Por mais que ótimos nomes estejam no casting, nenhum consegue sustentar o longa. Tom Hanks, que há um bom tempo vem brincando com a sua carreira, mais uma vez não convence. Julia Roberts, depois de um tempo desaparecida, mal tem presença significativa em cena. E se existe um alguém que se salva, esse é Philip Seymour Hoffman, excelente! Amy Adams também tem aparição radiante.
Entendo quem aprecia o resultado do longa, que tem várias críticas e um humor inteligente, mas dessa vez Mike Nichols pisou na bola. Por alguma razão misteriosa o Globo de Ouro se encantou com o resultado (dando, inclusive, cinco absurdas indicações para o filme), mas isso não aconteceu comigo. Fiquei bastante decepcionado com o tedioso produto que assisti. A requintada produção e alguns rostos do elenco demonstram eforço, mas é difícil quando um roteiro foi construído para atingir só certa parcela do público total.
FILME: 5.5

O Som do Coração

O Som do Coração, de Kirsten Sheridan
Com Freddie Highmore, Jonathan Rhys Meyers e Robin Williams

O Som do Coração é um exercício de paciência e também um desafio. Ganha quem agüentar por mais tempo tanto clichê meloso. São tantos encontros e desencontros improváveis, personagens puros demais (alguém caiu na bobagem de que a música cura qualquer infelicidade da vida?) e filosofias saturadas, que fica difícil ter boa vontade com o filme. O mais estranho de tudo é que a culpa não é da diretora, ao menos pra mim. Kirsten Sheridan tem excelentes momentos atrás das câmeras – como o concerto final – e demonstra aptidão para o cargo que exerce. A culpa mesmo fica com o roteiro, que parece ter se baseado em todos aqueles dramas enfadonhos da Sessão da Tarde para compôr sua história.
Mas O Som do Coração não é só reclamações. É bom ver um elenco esforçado (ainda que não seja suficiente para suprir os deslizes do longa) tentando trazer alguma verossimilhança para o espectador. A começar pelo garoto Freddie Highmore. Ele nasceu para o cinema com seu espetacular desempenho em Em Busca da Terra Do Nunca e mostrou ser um dos maiores talentos mirins recentes. Contudo, perdeu-se em suas escolhas. Highmore é sempre competente, mas o papel de “criança coitadinha” já não cola mais e O Som do Coração prova isso. Mesmo simpático, ele já não tem mais carisma nesse tipo de papel para segurar um filme. A melhor é Keri Russel, seguida pelo Robin Williams.
O setor musical é bom, mas nada justifica a indicação ao Oscar para a brega canção Raise It Up, que passa totalmente despercebida no filme. O Som do Coração é cheio de boas intenções e não é uma produção ruim. Seu problema é querer emocionar a todo custo e não conseguir. Algo que já não tinha funcionado anteriormente em outros filmes como O Amor Pode Dar Certo. O resultado não é catastrófico como o do filme citado, só resta saber se ainda existem pessoas dispostas a assistirem e a gostarem desse tipo de história clichê como a de O Som do Coração.
FILME: 6.0