O Curioso Caso de Benjamin Button

Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Tilda Swinton, Elle Fanning, Julia Ormond, Faune A. Chambers, Elias Koteas, David Ross, Patterson
The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008, Drama, 170 minutos, 14 anos.
Sinopse: Nova Orleans, 1918. Benjamin Button (Brad Pitt) nasceu de forma incomum, com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos mesmo sendo um bebê. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.

O Curioso Caso de Benjamin Button pode ser comparado com Forrest Gump – O Contador de Histórias. Ambos os filmes relatam a trajetória de um homem diferente, que conhecem vários lugares e convivem com diversas pessoas pelo mundo. O mais novo filme de David Fincher é exatamente isso, um relato detalhado da vida de um homem que, desde o momento que nasceu, foi condenado a ter uma vida diferente. Muita expectativa foi crescendo em torno da excentricidade do filme, mas o que deve se ter em mente ao ir assisitir O Curioso Caso de Benjamin Button é que o filme não se importa muito em explorar os efeitos da “vida inversa” do protagonista, ele quer mostrar que, independente de nossas idades, todos nós somos seres humanos dotados de sentimentos. A idade não é necessariamente um problema, nós que fazemos com que ela seja assim.
O roteiro de O Curioso Caso de Benjamin Button podia ser um completo problema para o longa, já que é um trabalho que se utiliza de quase três horas para compôr a história do protagonista. Não é o caso aqui; é claro que fica uma pequena sensação de desconforto, afinal é complicado permanecer tanto tempo assistindo uma história que não tem muitas variações, mas a sensação que fica é de uma história bem contada. Pouca coisa fica parecendo desnecessária e ninguém pode alegar que a história ficou mal apresentada. O roteiro de Eric Roth pode até não ser enxuto ou objetivo, mas o detalhismo ajuda para que o longa tenha um saldo positivo. Junto com o bom trabalho realizado na parte escrita, temos a excepcional maquiagem. O que vemos em cena nesse setor é óbvio, mas espetacular. E não apenas no personagem de Brad Pitt. Outro aspecto técnico interessante é a bela trilha sonora do ótimo Alexandre Desplat, presente lidamente durante todo o filme.
Considerado forte candidato a diversos Oscar, O Curioso Caso de Benjamin Button merece mênção em diversos deles. Além dos óbvios técnicos, minha maior torcida é para que o protagonista Brad Pitt consiga ser lembrado. Assim como sua esposa Angelina Jolie, ele vem se mostrando um excelente ator faz bastante tempo e tem aqui seu maior momento de destaque – sem excessos, controlado e mutio adequado para o papel. Sua companheira de tela, Cate Blanchett, só vai aparecer depois da metade, mas realiza trabalho satisfatório. Ainda no elenco as boas Taraji P. Henson e Tilda Swinton.
Não há dúvidas de que esse filme de David Fincher é bem produzido e com aspectos muito interessantes. Agora, considerá-lo uma obra-prima ou sequer espetacular é uma heresia, uma vez que o diretor Fincher já mostrou maior genialidade em outros trabalhos. O Curioso Caso de Benjamin Button sofistica excepcionalmente uma história simples – que só é diferente em sua proposta – e que não vai nem deixar grandes lembranças. É bonito e competente, mas longe de ser alguma preciosidade.
FILME: 8.0

NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO:


Fatal

Direção: Isabel Coixet
Elenco: Ben Kingsley, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Peter Sarsgaard, Dennis Hopper, Sonja Benett, Deborah Harry
Elegy, EUA, 2007, Dram, 107 minutos, 16 anos.
Sinopse: David Kepesh (Ben Kingsley) é um renomado professor de faculdade que se encanta por Consuela Castillo (Penélope Cruz), uma de suas alunas. Logo eles começam a namorar, apesar de David manter um relacionamento puramente sexual há mais de 20 anos com Carolyn (Patricia Clarkson). David aos poucos se apaixona por Consuela, mas sempre teme que a diferença de idade entre eles seja um empecilho.

“Isabel Coixet mais uma vez acerta na melancolia da vida para compôr uma história adulta e madura.”
Isabel Coixet é uma diretora de emoções, não de grandes filmes. Todas as histórias que ela conta são envolvidas por uma interessante melancolia e uma efetiva dramaticidade. Entretanto, seus filmes nunca passam de satisfatórios; não chegam a ser empolgantes ou de maior magnitude. É o caso, também, desse Fatal, longa mais maduro da diretora, que discursa sobre como o amor afeta as pessoas mais velhas e solitárias.
Na realidade, a diferença de idades entre o professor David (Ben Kigsley, ótimo) e sua aluna Consuela (Penélope Cruz, boa, mas sem inspiração) é mero pretexto para uma história de isolamento de pessoas. David é um homem que, apesar de possuir uma relação de 20 anos sem compromisso com Carolyn (Patricia Clarkson), encontra-se sempre sozinho. Consuela é linda, mas não sabe o que fazer com sua beleza, e passa o tempo inteiro indo e vindo, com uma inquietude interior muito presente. O encontro entre os dois muda bastante coisa, mas a percepção que ambos têm um do outro difere. Ela gosta dele, mas não consegue aplicar os seus sentimentos para algo mais sólido. Ele é completamente cheio de afeto por ela, mas não demonstra isso. E, em diversas vezes, acaba por perdê-la por não demonstrar o que sente.
Fatal é um longa muito adulto, cheio de análises – e restrito por conta disso. É um pouco complicado entrar no mundo do longa, que possivelmente vai funcionar mais para paladares mais sensíveis e subjetivos. Assim como toda a filmografia da diretora Coixet. A diferença é que aqui ela não se utiliza de uma tragédia para criar o fio condutor de sua história, ao contrário de seus outros filmes. Em Minha Vida Sem Mim, tinhamos a mãe que sofre de uma doença e que em breve vai morrer. Em A Vida Secreta das Palavras, um homem sofre queimaduras e forma um laço sentimental com sua enfermeira. A tragédia aparece sim em Fatal, mas só no final. E isso é um erro, já que fica um pouco fora de contexto e não emociona da maneira como deveria. O filme acaba meio que repentinamene e sem grandes emoções – diria até que em um ponto baixo da projeção.
Tudo é muito tímido, carente de originalidade ou ousadias. Contudo, a diretora nunca deixa a qualidade cair. Sempre, durante toda a história, vemos uma história muito bem narrada em Fatal. O longa certamente possui defeitos, mas a habilidade da diretora em falar sobre sentimentos mascara fatos mais incomodativos que possam chamar a atenção do espectador. Os méritos do lado positivo do filme não se devem somente a ela. Ben Kinglsey realiza um excelente trabalho. Ele, que é um ótimo ator, encontra o tom certo para seu personagem e, num balanço geral, é o ponto alto. Sua companheira Penélope Cruz já teve momentos melhores e expõe sua personagem de forma simpática – mas com aquele seu terrível sotaque que parece fazer com que ela não seja uma boa atriz. O que não é verdade. Fatal, então, é simples. Não é o melhor filme da diretora e muito menos um marco na vida de qualquer um dos envoldidos. Mas só por sua maturidade já vale a pena ser assistido.
FILME: 7.0

A Troca

Direção: Clint Eastwood
Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Amy Ryan, Jeffrey Donovan, Frank Wood, Michael Kelly, Colm Feore
Changeling, EUA, 2008, Drama, 140 minutos, 16 anos.
Sinopse: Los Angeles, março de 1928. Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira, se despede de Walter (Gattlin Griffith), seu filho de 9 anos, e parte rumo ao trabalho. Ao retornar descobre que Walter desapareceu, o que faz com que inicie uma busca exaustiva. Cinco meses depois a polícia traz uma criança, dizendo ser Walter. Atordoada pela emoção da situação, além da presença de policiais e jornalistas que desejam tirar proveito da repercussão do caso, Christine aceita a criança. Porém, no íntimo, ela sabe que ele não é Walter e, com isso, pressiona as autoridades para que continuem as buscas por ele.

Todo cinéfilo já deve ter visto, alguma vez na vida, um filme em que uma mãe tenta provar que não está louca. Caso de alguns desastres como Os Esquecidos, A Cor de Um Crime e Protegida Por Um Anjo. Esse filme de Clint Eastwood, A Troca, utiliza esse pretexto para construir sua trama. Christine Collins (Angelina Jolie) é uma mãe que tem seu filho desaparecido. Quando a polícia anuncia que seu filho foi achado, ela alega que a criança não é o seu herdeiro de sangue. A partir daí, então, ela tenta provar de todas as maneiras que existe alguma conspiração contra ela e que a polícia lhe trouxe a criança errada.
Claro que um diretor do calibre de Clint Eastwood não cairia em armadilhas típicas desse estilo de filme. E ele não cai mesmo, A Troca é desprovido de qualquer absurdo narrativo ou de bobagens que levem o filme em direção à catástrofe. Tentando evitar erros, Clint caiu em outra armadilha – ao tentar imprimir um tom correto ao longa, perdeu-se em um tratamento preso a esquemas, onde o roteiro é correto demais. E longo também, já que – quando se aproxima do desfecho – o filme parece interminável. A história não precisava ser tão detalhada, narrando minuciosamente cada acontecimento do caso policial que está sendo contado (cansa ver tanta coisa como julgamento, prisão, manicômio e enforcamento num mesmo filme) . Ainda assim, o roteiro permanece como satisfatório em sua condução, mas com bastantes falhas de ritmo.
A estrela de A Troca, obviamente, é Angelina Jolie. Ela, que faz bastante tempo que se empenha para mostrar que não é apenas uma linda mulher e que seu Oscar por Garota Interrompida não foi uma injustiça, tem aqui sua melhor interpretação desde o prêmio da Academia. Fica visível que a sua personagem é óbvia e seu drama é previsível, mas Jolie está extremamente verossímil no papel de Christine Collins. Está bem superior ao seu acalmado trabalho do ano passado em O Preço da Coragem. A perfeita direção de arte, a ótima fotografia, a trilha sonora com jeito de clássica (mas que é repetida a exaustão) e o ótimo desempenho de Jolie conferem competência ao resultado final de A Troca. O problema é que o filme deveria ter sido trabalhado de outra maneira, não de forma tão óbvia como essa. Ao menos era de se esperar algo mais contundente de um diretor tão bom.
FILME: 6.0

Bolt – Supercão

Direção: Chris Williams e Byron Howard
Com as vozes de: John Travolta, Miley Cyrus, Malcolm McDowell, Nick Swardson, James Lipton, Ronn Moss, Randy Savage
Bolt, Animação, 105 minutos, Livre
Sinopse: Em um programa de TV, uma garotinha (Miley Cyrus) e o cão Bolt (John Travolta) lutam contra o crime e Bolt usa seus super poderes como um latido alto o suficiente para acabar com qualquer um que esteja em sua mira. Assim, Bolt acha que ele realmente é um super-herói e tem todos aqueles super-poderes, e esquece que é um simples ator de TV e que Penny realmente é apenas uma atriz apenas contratada para fazer sua parte e não alguém que realmente o ama. O cãozinho não compreende que muitos de seus grandes feitos são trucagens desenvolvidas pela equipe do estúdio. Bolt então é um cão que vive um mundo de fantasia, sem nunca questionar a razão da sua existência. Nunca viu como é o mundo fora dos estúdios. Por acidente ele acaba conseguindo sair, e é enviado para Nova York. E é nessa situação adversa, longe de casa, que o cãozinho decide usar seus poderes para voltar para casa, mas é ai que percebe que na verdade ele não tem poderes nenhum e que vai precisar de amigos para conseguir voltar.

“Bolt – Supercão é uma animação muito satisfatória dentro de suas características. Sincera e efetiva, consegue funcionar como muita animação por aí nao consegue.”
Na crítica de Madagascar 2, aleguei que é muito complicado ser uma animação em um tempo que a estupenda originalidade da Pixar domina o mercado. Mas Bolt – Supercão vem pra provar que ainda existe espaço para animações singelas e sinceras. O desenho de Chris Williams e Byron Howard – também disponível em uma boa versão 3D – não é nenhuma pérola, mas um dos bons exemplares infantis que estão circulando pelos nossos cinemas. A proposta é bem original e por mais que seu desenvolvimento não faça justiça a inovação da sinopse, é bem fácil entrar na história e se divertir com as aventuras do cãozinho Bolt.
As primeiras cenas impressionam com sua incrível ação e já nos mostram qual é o tratamento que a história vai trabalhar ao longo de seu roteiro. Aliado a isso temos personagens muito carismáticos – desde o protagonista até os coadjuvantes – que tornam muito fácil a transmissão da mensagem do filme. Mensagem esse que nunca soa forçada, realmente funcionando. Bolt – Supercão é feliz em suas escolhas e é um bom exemplo de como se fazer animação sem cair nas armadilhas de previsibilidades normalmente implantadas nesse tipo de filme.
O longa também tem duas excelentes músicas: Barking at the Moon (infelizmente dublada) e I Thought I Lost You, ambas igualmente efetivas dentro do contexto da aventura. Algumas vezes comprido e um pouco sem ritmo, Bolt – Supercão tem sim seus defeitos, mas é muito fácil perdoar seus deslizes diante de uma produção tão sincera como essa. O filme, no final das contas, quer nos mostrar que não é fácil mudarmos o nosso papel no ciclo da vida. Sonhadores são sonhadores, realistas são realistas. Cada um vive em seu mundo e a inversão dos papéis nem sempre é bem sucedida. E, mesmo que alguns prefiram acreditar em ilusões mais convenientes, nossa passagem aqui na Terra é significativa, independente de como enxergamos os fatos. Não podemos ter sete vidas como os gatos, mas essa vida que vivemos já é boa o suficiente, como diz o próprio filme.
FILME: 8.0

O Dia Em Que a Terra Parou

Direção: Scott Derrickson
Elenco: Jennifer Connelly, Keanu Reeves, Kathy Bates, John Cleese, Jaden Smith, Jon Hamm
The Day The Earth Stood Still, EUA, 2009, Ficção, 14 anos.
Sinopse: Um ser de outro planeta chamado Klaatu (Keanu Reeves) vem à Terra entregar ao presidente um presente, mas é impedido por soldados. Ele é preso e se esconde em uma pensão onde conhece Helen (Jennifer Connelly) e seu filho Bobby (Jaden Smith). Klaatu se decepciona várias vezes com os humanos ao se deparar com o uso desenfreado de armas de fogo. E, por isso, faz um alerta: A Terra será destruída caso os seus habitantes não mudem essa postura.

“O Dia Em Que a Terra Parou faz parte do grupo das refilmagens de clássicos que não deram certo. O filme tem grandes efeitos e uma instigante ambientação, mas nunca dá sinal de originalidade ou inovação.”
Não compartilho da idéia de que clássicos do cinema devam ser refilmados. A maioria decepciona – e até resultam em tragédias como Psicose, de Gus Van Sant – e soam como produções desnecessárias. Não é certo fazer disso uma verdade absoluta, já que existem resultados maravilhosos como o King Kong de Peter Jackson, mas dificilmente temos resultados positivos desses projetos. O Dia Em Que a Terra Parou faz parte desses filmes decepcionantes do gênero. E não dá pra explicar muito bem o porquê, uma vez que a ambientação é grandiosa e o lado técnico impecável.
Scott Derrickson, diretor de O Exorcismo de Emily Rose, é quem comanda o espetáculo. O trabalho dele é, no mínimo, irregular. Em determinados momentos, ele tranquilamente imprime um tom muito autêntico para esse estilo de filme. O início é um excelente exercício de suspense, onde o diretor sabe criar o clima adequado de tensão, até porque o visual ajuda em muito nesse aspecto – onde se destaca a fotografia escura e nebulosa. O problema é que, a partir do momento em que Keanu Reeves entre em cena, o filme desanda, perdendo todo o seu tom de mistério. A culpa, dessa vez, não é do ator – que está em um papel condizente com suas limitações – mas do próprio roteiro, que não sabe administrar os fatos da trama. A complexidade envolvendo a mensagem do filme (“o planeta Terra tem que ser salvo de seus habitantes inconsequentes”) não tem o efeito apropriado e é usada de forma rasa. O pecado do filme é esse – a mensagem deveria ser o carro-chefe do filme, mas fica em plano completamente coadjuvante e subutilizada.
O que merece destaque (e bastante!) em O Dia Em Que a Terra Parou é o seu lado técnico, um dos melhores do gênero nesses últimos anos. Os efeitos, desde já merecedores de menção ao Oscar, impressionam, mesmo quando óbvios. Unido a eles temos a fotografia, a montagem e o visual. Tudo conspirando para que o longa dê certo. Ninguém pode reclamar disso no filme. Esse, então, é um dos pontos positivos para que uma refilmagem tenha sucesso. A tecnologia pode proporcionar coisas novas e tornar mais verossímil o que estamos vendo na tela. O Dia Em Que a Terra Parou é extremamente feliz nesse quesito. A protagonista Jennifer Connelly é aquele tipo de atriz que, mesmo em momentos sem inspiração, funciona. Isso é o que ocorre aqui. É visível que ela não consegue segurar o filme sozinha, mas é dotada de um carisma (leia-se também beleza) que tem um poder magnético. De mais significativo no elenco, temos também a boa Kathy Bates.
O Dia Em Que a Terra Parou, portanto, é uma diversão cheia de estilo visual e interessante tecnicamente. Podia ter uma boa mensagem e um resultado instigante, mas ficou muito fraco, com os pontos negativos se sobrepondo aos positivos. Uma pena, pois tinha toda uma força positiva no ar para que ele desse certo. Talvez seja outro alerta para que os clássicos fiquem guardados com suas respectivas excelências no passado.
FILME: 6.0
