Nine

Direção: Rob Marshall
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, Nicole Kidman, Kate Hudson, Sophia Loren, Fergie
EUA, 2009, Musical, 118 minutos, 12 anos
Sinopse: Enquanto tenta fazer um novo filme, diretor de cinema (Daniel Day-Lewis) é perseguido por todas as mulheres de sua vida, da amante (Penélope Cruz) à sua falecida mãe (Sophia Loren).

Nine, até um certo tempo atrás, era o acontecimento cinematográfico do ano. Era considerado, também, a grande promessa de 2009 e o grande musical dos últimos tempos. Nunca foi assim para mim. Sempre questionei muito o que o diretor Rob Marshall faz atrás das câmeras comandando musicais – uma vez que considero Chicago um musical bem mediano. Portanto, não foi novidade alguma, para o cinéfilo que vos fala, que Nine tenha sido uma decepção para todos no planeta. A verdade é que esse musical não é ruim. Rob Marshall que é. Mas só agora foram descobrir isso.
O espetáculo estrelado por Daniel Day-Lewis tem um elenco absurdamente bom e são os grandes nomes que causam curiosidade. No entanto, Nine sofre do problema de ter gente demais com destaque de menos para as figuras em cena. Day-Lewis, claro, é o que mais tem atenções, mas as atrizes tem pouco a fazer com o espaço limitado em cena. O que dá para perceber é que cada uma delas possui alguma particularidade. Então, vamos a elas:
– Marion Cotillard é, disparada, a grande estrela. Funciona na sensualidade e na beleza. Mas, acima de tudo, é uma atriz maravilhosa. A cena em que canta My Husband Makes Movies é surpreendente. Ela é o coração da história.
– Sophia Loren, além de ser quase uma figurante em um papel que não diz absolutamente nada, chama mais a atenção por causa de suas plásticas. A mulher destruiu o rosto e isso é o grande atrativo dela.
– Penélope Cruz tem uma enorme sensualidade e interpreta um número musical bem interessante. Ela é ótima, todo mundo sabe disso, e aqui, mais uma vez, ela une beleza e talento. No entanto, sua indicação ao Oscar soa injustificável.
– Kate Hudson e Fergie possuem excelentes momentos, mas, como personagens, não acrescentam. São corriqueiras e só não são esquecidas por total em função de suas canções.
– Nicole Kidman demora a aparecer e ainda fica poucos minutinhos em cena. Participação inútil.
– Judi Dench, boa como sempre, mas também sem brilho.
De resto, Nine tem uma excelente parte técnica. Entretanto, esse méritos aparecem pelos motivos errados. É óbvio que espetáculos teatrais conseguem grandes destaques técnicos e o musical de Marshall é quase uma produção da Broadway (na cena de Be Italian, por exemplo, fica a sensação de que estamos sentados na plateia assistindo o número de Fergie). Falta a sétima arte em Nine. É sempre o mesmo esquema: a trama é filmada como cinema, mas, quando entra n a parte cantada, o filme descamba para o teatro. Parece que tudo é filmado no mesmo cenário, com a mesma abordagem. Isso incomoda bastante.
Mas, não poderia se esperar outra coisa de um diretor como Marshall. Como nunca achei que ele fosse grande coisa, não cheguei a me decepcionar com Nine. Na realidade, acho que fica, de certa forma, no mesmo nível de Chicago: um filme com ideias interessantes, mas que se perde nas inúmeras falhas do diretor. No entanto, esse segundo musical do diretor não tem atores insuportáveis como Renée Zellweger e Richard Gere. É certo que tem menos conteúdo (é uma sucessão infinita de clipes costurados: uma atriz entra, canta e sai de cena, depois vem outra e faz exatamente o mesmo procedimento), e nem sequer tem uma trama sequencial, mas, ao menos, é assistível.
FILME: 6.0

NA PREMIAÇÃO 2010 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Um Olhar do Paraíso

Direção: Peter Jackson
Elenco: Saoirse Ronan, Stanley Tucci, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon, Michael Imperioli, Rose Mclever, Reece Ritchie
The Lovely Bones, EUA, 2009, Drama, 115 minutos, 12 anos
Sinopse: Depois que é estuprada e assassinada, Susie Salmon (Saoirse Ronan), uma garota de 14 anos, acompanha do Céu como sua família e seus amigos se recuperam de sua perda, e observa as tentativas frustradas da polícia em descobrir a identidade do sujeito que a matou.

Nunca fui um dos grandes entusiastas de Um Olhar do Paraíso. Mas não quer dizer que também não deixei de ter expectativas. Esse novo filme de Peter Jackson chegou a ser considerado um dos grandes nomes do Oscar e também era aguardado como um dos filmes mais interessantes da temporada. Nenhuma promessa em relação a isso se cumpriu. O filme foi mal recebido pelo público e ainda foi destruído pela crítica. Não sei se é para tanto. Mas, infelizmente, é fácil constatar que Um Olhar do Paraíso tem inúmeras escolhas erradas e até mesmo abordagens moralmente questionáveis em seu roteiro.
De imediato, já fica claro que a maioria dos personagens é mal trabalhada. A protagonista (vivida pela ótima Saoirse Ronan, mas que não tem muito o que fazer, já que contracena praticamente sozinha com efeitos especiais) fala coisas óbvias e faz observações até mesmo cafonas na narração em off. Os pais da garota apresentam um luto bagunçado: não dá pra captar o que a mãe (Rachel Weisz) está sentindo, já que uma hora está bem, logo em seguida sai de casa sem qualquer aviso prévio, depois chora e em questão de minutos já está recuperada… O pai (Mark Wahlberg), por um outro lado, cai no típico estereótipo da figura paterna que, cegamente, quer se vingar de quem cometeu a tal atrocidade. Depois, os coadjuvantes que não chegam a lugar algum, como a avó (Susan Sarandon) inerte no roteiro, o namoradinho que não convence, a amiguinha “sobrenatural”, a irmã heroína…
Não pára por aí. Morrer, no filme, não é tão trágico. Pode ser legal também. O paraíso é lindo e divertido. Ao mesmo tempo em que observa o luto da família, a menina joga, brinca, pula e admira lindas paisagens. Enquanto, lá embaixo, várias situações clichês acontecem nesse meio tempo. Fica a sensação de que o roteiro é preguiçoso, já que, apesar da boa proposta, não conseguiu trazer sequer algo de novo ou emocionante. Esse é o pior defeito de Um Olhar do Paraíso: o texto, além de ter inúmeras falhas, também é óbvio. O filme de Peter Jackson nunca emplaca por definitivo. Só promete e não cumpre nada. Aliás, esse nem parece um filme daquele Jackson que soube unir tão bem efeitos e dramaticidade em longas como O Senhor dos Anéis e King Kong ou aquele que criou uma história emocionalmente forte em Almas Gêmeas.
Se serve de consolo, o filme não é a catástrofe que tantos críticos anunciaram. Um Olhar do Paraíso está longe de ser um dos piores do ano. Só foi mal realizado, vítima de grandes ambições por conta da equipe do filme e, mais do que tudo, desfavorecido por tantas expectativas envolvendo a adaptação do livro e a equipe envolvida no projeto. Dá pra ter certeza que se fosse realizado por pessoas não tão relevantes, o filme não teria sido tão massacrado. Até porque a produção tem sim méritos. Pequenos, mas tem. O maior deles é a presença de Stanley Tucci. Irreconhecível por conta do estranho visual, o ator mais uma vez comprova ser extremamente versátil – e ele é o que existe de melhor na história: sua aparição é intrigante e muito magnética. Tudo fica mais interessante quando ele está em cena.
Para completar, a solução de alguns personagens é terrível (a de Tucci chega a dar dó), as últimas cenas são clichês (a de Saoirse chega a ser enjoativa de tão brega) e o desfecho ocorre de forma muito rápida, onde a trama se resolve, digamos, em cerca de cinco minutos. Se não fossem essas más impressões que o filme deixa nos últimos minutos, Um Olhar do Paraíso não terminaria deixando marcas tão negativas, já que, durante seu desenvolvimento, fica claro que, mesmo com falhas, dá pra acompanhar tranquilamente a história sem maiores exigências. Confesso que, realmente, falei muito mal do filme aqui – mas também gostaria de deixar algum tipo de defesa para ele. Como já mencionei, não é um desastre e, certamente teria mais pieadade por parte do público se certos nomes não estivessem envolvidos. Não é fácil ser Peter Jackson, viu?
FILME: 6.0

Código de Conduta

Direção: F. Gary Gray
Elenco: Jamie Foxx, Gerard Butler, Viola Davis, Regina Hall, Bruce McGill, Michael Kelly, Josh Stewart, Leslie Bibb, Colm Meaney
Law Abiding Citizen, EUA, 2009, Suspense, 105 minutos, 14 anos
Sinopse: Clyde (Gerard Butler) é um dedicado pai de família que testemunha sua esposa e filha serem assassinadas. Um dos culpados ganha liberdade graças a um acordo feito com o ambicioso promotor Nick (Jamie Foxx). Anos depois o assassino é encontrado morto e Clyde é preso mesmo sem provas contra ele. Seu único objetivo é denunciar o corrupto sistema judicial nem que para isso tenha que matar um a um, todos os envolvidos.

Certos filmes prendem a atenção e conseguem envolver o espectador na trama, mas, simplesmente, não são excepcionais ou sequer notáveis para justificar algum elogio mais plausível. Código de Conduta se enquadra nessa situação: é um filme interessante e com bons momentos, mas que não chega a ser uma produção que mereça maiores elogios. O diretor F. Gary Gray soube segurar as pontas durante quase todo o filme. Porém, comete o erro de ter entregue a produção para dois atores que não conseguem sustentar o roteiro.
Gerard Butler e Jamie Foxx aparecem ineficientes, sem carisma algum para criar empatia com o público. Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por Ray, continua a se mostrar um dos profissionais mais canastrões de sua geração, ao passo que Butler permanece sem mostrar ao que veio. Focalizando a abordagem no personagem de Foxx, o roteiro até cria dois personagens interessantes – o porém é que seriam melhor representados por atores mais competentes. Ainda contando com a partipação de Viola Davis no elenco, Código de Conduta já perde parte de sua eficácia na escalação dos atores.
Mas sorte que a hitória tem seus momentos. É um daqueles filmes de investigação em que o desenrolar dos fatos cria expectativa. Nesse sentido, a produção acerta, deixando todos intrigados com o suspense montado. Contudo, eis que aí surge outro problema. Se no início dava para ficar entusiasmado com todo o suspense envolvendo o personagem de Butler, logo tudo começa a ficar improvável. Como, afinal, ele consegue causar tantas coisas extraordinárias fora das grades se ele está preso e impossibilitado de ter qualquer contato com o mundo exterior? E o pior de tudo: a explicação para isso é insatisfatória.
Está bem, alguns podem me acusar de estar sendo crítico demais com um filme desse gênero. Afinal, já aprendemos que a maioria dos filmes desse estilo não primam por veracidade. Mas, um pouco de realidade não faria mal a ninguém. Apesar disso, temos em Código de Conduta um filme assistível e que pode entreter. É verdade que o longa-metragem está cheio de irregularidades, de atores ineficientes e de uma abordagem muito mecânica e seca. No entanto, é só abrir mão de se focar nesses detalhes e o espectador encontrará a possibilidade de entrar no clima.
FILME: 6.5

O Desinformante!

Direção: Steve Soderbergh
Elenco: Matt Damon, Melanie Lynskey, Eddie Jemison, Rusty Schwimmer, Scott Adsit, Scott Bakula, Allan Havey, Lucas McHughCarroll
The Informant, EUA, 2009, Drama, 108 minutos, 12 anos.
Sinopse: Um executivo em rápida ascensão na gigante empresa da agroindústria ADM, Mark Whitacre (Matt Damon), de repente, torna-se informante do governo. Mesmo delatando ao FBI a conspiração para formação de cartel por parte da multinacional onde trabalha, Whitacre acredita que será transformado em herói da população e promovido. Porém, antes que tudo isso se concretize, o FBI precisa de provas, então Whitacre, entusiasmado, concorda em usar um microfone escondido e levar um gravador escondido na pasta, imaginando-se uma espécie de agente secreto. Infelizmente para o FBI, a principal testemunha não parece tão próxima a acessar os cofres da empresa. Os relatos de Whitacre estão sempre mudando, o que frustra os agentes e põe em risco o caso contra a empresa ADM, pois vai ficando quase impossível decifrar o que é real e o que é produto da fértil imaginação de Whitacre.

O pior defeito que um filme pode ter é esse: ser monótono. Não sei quanto a vocês, mas acho que não existe nada mais desconfortável do que assistir um longa-metragem que não tem ritmo, que não tem uma história sequer interessante ou que não possui um desenrolar bem trabalhado. É o caso de O Desinformante!, que já começa com o obstáculo de ter uma trama não muito empolgante e é uma pena que a trabalhe de forma menos instigante ainda.
Esse trabalho, portanto, é mais um fruto sem personalidade de Steven Soderbergh – que nos últimos tempos vem se confirmando como uma grande enganação. Ele pode ser eclético e fazer diversos filmes anualmente, mas é uma pena que ele não tenha conseguido imprimir firmeza em suas produções – ao contrário de outros colegas seus (como James Mangold, por exemplo, que também faz tudo o que é tipo, não possuindo um estilo próprio, mas sempre acerta). Essa ecleticidade prejudica Soderbergh, que parece não saber mais como conduzir histórias.
Mas, na realidade, não é na direção que se encontra o verdadeiro problema de O Desinformante!. O roteiro, por diversas razões, é o que mais prejudica o resultado final. Temos uma narração em off deslocada ao extremo (chega a incomodar mesmo a voz do protagonista, a todo minuto, narrando milhares de coisas), e que não serve pra nada. Depois, uma confusão corporativa na história que é detalhada demais – e podemos notar uma certa influência do questionável modo Tony Gilroy de montar esses tipos de tramas. Sem falar que o enredo é indiferente e não causa qualquer interesse em momento algum.
Matt Damon, que engordou bastante e recebeu uma questionável indicação ao Globo de Ouro por esse filme, aparece na medida, fazendo o que o personagem pede. Assim como todos do elenco, incluindo a Melanie Lynskey (pra quem não lembra, ela foi a namorada de Kate Winslet em Almas Gêmeas, do Peter Jackson). E outro fator relevante é a deliciosa trilha sonora. No entanto, é muito pouco para um filme que não flui nunca e que também jamais acerta o tom na hora de escolher a maneira certa de narrar o que está sendo desenvolvido.
FILME: 4.0

Onde Vivem os Monstros

Direção: Spike Jonze
Elenco: Max Records, Catherine Keener, Pepita Emmerichs, e com as vozes de Paul Dano, James Gandolfini, Lauren Ambrose, Mark Ruffalo, Forest Whitaker, Chris Cooper
Where the Wild Things Are, EUA, 2009, Drama, 95 minutos, Livre
Sinopse: Max (Max Records), um garoto travesso, fica de castigo, preso em seu quarto, sem jantar. Usando a imaginação, ele cria uma floresta habitada por animais selvagens e monstros exóticos, onde ele é o rei.

Não sei explicar muito bem o que dá certo em Onde Vivem os Monstros. Mas, algo encanta e até mesmo torna tudo muito melancólico. É um trabalho diferente do diretor Spike Jonze, que aqui cria um filme de fantasia voltado para um público mais maduro – e não para o infantil, como o trailer e as imagens de divulgação sugeriam. Não chega a ser um produto de grandes momentos ou sequer de setores que se sobressaiam, mas é a sinceridade que conta na história.
Usando a imaginação como metáfora de isolacionismo – o garoto “cria” um mundo quando não está satisfeito com a sua própria realidade – Onde Vivem os Monstros é um trabalho que junta pequenos pontos positivos que, no final, formam um excelente filme. Portanto, não existe um ou outro aspecto mais digno de reconhecimento. O filme é fruto de minúcias. Em todos os sentidos. À princípio a história pode parecer simples, mas existem algumas reflexões a serem consideradas nela. Reflexões que, no final das contas, formam um ótimo filme.
Um problema de Onde Vivem os Monstros é a falta de conflitos. Quase não existem problemáticas para os personagens e tudo se centra apenas no cotidiano do garoto protagonista com os tal monstos – fazendo joguinhos,ou fazendo construções, por exemplo. Mas, talvez, seja por isso mesmo que o longa conquiste. No final, é essa convivência que fará o espectador se sentir comovido. Portanto, o jeito é entrar na história e curtir a ótima trilha de Karen O. e Carter Burwell.
FILME: 8.0
