Cinema e Argumento

Amor Sem Escalas

I thought our relationship was perfectly clear. You are an escape. You’re a break from our normal lives. You’re a parenthesis.

Direção: Jason Reitman

Elenco: George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, Jason Bateman, J.K. Simmons, Sam Elliott, Amy Morton

Up in the Air, EUA, 2009, Drama, 109 minutos, 12 anos

Sinopse: Ryan Bingham (George Clooney) é um consultor que tem a tarefa de demitir funcionários para cortar os gastos das empresas. Quando não está no trabalho, ele gosta de passar o tempo em quartos de hotéis pouco conhecidos e cabines de vôos. Com uma carta de demissão na mesa de seu chefe e a promessa de trabalho em uma misteriosa firma de consultoria, Bingham está perto de conquistar o seu principal objetivo: conseguir um milhão de milhas como passageiro.

Amor Sem Escalas tem, possivelmente, a pior divulgação dos filmes indicados ao Oscar. As escolhas erradas já começam pelo título em português, que não tem nada a ver com a essência do longa-metragem. Depois, vender o filme como “do mesmo diretor de Juno” dá uma impressão equivocada. Amor Sem Escalas não tem nada de comédia romântica e muito menos é dirigido para o público adolescente. Jason Reitman amadureceu na direção, apresentando interessantes reflexões e uma abordagem adulta sobre solidão, frustração e sentimentos.

Para falar bem a verdade, nunca achei Reitman um diretor de maiores habilidades (sua indicação ao Oscar de direção por Juno foi um verdadeiro absurdo). Mudei de ideia em relação a isso com Amor Sem Escalas, esse sim o único filme de sua carreira que merece algum tipo de grande celebração. Reitman, que tem meros 32 anos de idade, lida muito bem com todos os temas do filme. São questionamentos de meia-idade que poderiam ser infantilizados por uma direção irregular. Não é o que acontece. O diretor traz um balanceamento surpreendente e, a cada minuto, o filme só melhora as situações vividas pelos personagens.

Por mais que Amor Sem Escalas não seja um filme excepcional (assim como a maioria dos longas concorrentes ao Oscar 2010), é um dos que mais deixam boas impressões. Talvez pelo fato de que seja um filme que tenha como principal engrenagem o sentimento. Não tem como não se envolver com os personagens ou sequer não cair no carisma deles. São figuras como eu e você e que, apesar da vida diferente que vivem (a profissão deles é apenas um pequeno pretexto para outras diversas discussões), possuem os mesmos dilemas de qualquer outra pessoa.

O roteiro é o ponto alto, mas não está livre de falhas. O enredo demora a engrenar e a história, que não explicita claramente qual o verdadeiro propósito durante um bom tempo, só começa a tomar uma forma concreta perto da metade. Contudo, a partir do momento em que funciona, Amor Sem Escalas só começa a lucrar. George Clooney, Anna Kendrick e Vera Farmiga que o digam. Todos foram indicados ao Oscar e merecem esse reconhecimento. Não sei se Amor Sem Escalas é algo que mereça grande louvor, mas tem méritos que realmente surpreendem. E o maior deles é ter um texto pra lá de reflexivo. O que por si só já valida a experiência.

FILME: 8.0


Entre Irmãos

Direção: Jim Sheridan

Elenco: Natalie Portman, Jake Gyllenhaal, Tobey Maguire, Sam Shepard, Carey Mulligan, Bailee Madison, Taylor Geare, Jenny Wade

Brothers, EUA, 2009, Drama, 104 minutos, 14 anos

Sinopse: Após o desaparecimento do irmão (Tobey Maguire), um soldado tido como morto no Afeganistão, jovem (Jake Gyllenhaal) passa a dar todo o conforto e atenção à cunhada (Natalie Portman) e aos sobrinhos. Não demora muito para essa relação se transformar em algo mais intenso. Mas é nesse momento que o irmão desaparecido retorna, provocando terríveis transformações em todos os envolvidos.

Não assisti o original dinamarquês, então, fiquei livre de qualquer comparação de Entre Irmãos com o filme dirigido por Susanne Bier (Coisas Que Perdemos Pelo Caminho). Ainda assim, foi difícil entrar na história dos personagens e nas intenções dramáticas do roteiro. A culpa nem chega a ser tanto do texto. O maior erro reside na escalação de atores. Eles não conseguem passar as devidas emoções, mostrando-se muito ineficientes quando o assunto é dramaticidade.

Tobey Maguire, que foi absurdamente indicado ao Globo de Ouro de melhor ator em drama, é o maior dos erros. Sempre com aquela cara de garotinho estranho e nerd, Maguire não dá a devida complexidade para o personagem, que termina sem qualquer maior variação emocional. Jake Gyllenhaal, por um outro lado, está regular, mas também não faz muita coisa com o limitado papel. Quanto a Portman, todo mundo sabe que é boa atriz, mas só chorar não é sinônimo de boa interpretação.

Entre Irmãos é sobre os efeitos da guerra, tanto nos soldados quanto nas famílias envolvidas. E até que o filme tem bons momentos em relação a esse assunto, mas nunca chega a se aprofundar – fica sempre naquele nível que estamos acostumados a ver. Ou seja, naquele estilo americano de fazer drama: ausência de trilha sonora, crise existencial, alguns choros e feridas familiares. Não sei se havia necessidade de refilmar uma história comum como essa.

Entre Irmãos, no final das contas, não acrescenta nada de novo. Pode ser um filme que satisfaça em alguns aspectos e consiga acertar em alguns dramas, mas não vai deixar qualquer marca. Fica aquela sensação de que algo não deu certo. Seria o elenco ineficiente? A história sem profundidades? Ou simplesmente o fato de que Entre Irmãos é uma releitura desnecessária do original dinamarquês?

FILME: 6.0


Nine

Direção: Rob Marshall

Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, Nicole Kidman, Kate Hudson, Sophia Loren, Fergie

EUA, 2009, Musical, 118 minutos, 12 anos

Sinopse: Enquanto tenta fazer um novo filme, diretor de cinema (Daniel Day-Lewis) é perseguido por todas as mulheres de sua vida, da amante (Penélope Cruz) à sua falecida mãe (Sophia Loren).

Nine, até um certo tempo atrás, era o acontecimento cinematográfico do ano. Era considerado, também, a grande promessa de 2009 e o grande musical dos últimos tempos. Nunca foi assim para mim. Sempre questionei muito o que o diretor Rob Marshall faz atrás das câmeras comandando musicais – uma vez que considero Chicago um musical bem mediano. Portanto, não foi novidade alguma, para o cinéfilo que vos fala, que Nine tenha sido uma decepção para todos no planeta. A verdade é que esse musical não é ruim. Rob Marshall que é. Mas só agora foram descobrir isso.

O espetáculo estrelado por Daniel Day-Lewis tem um elenco absurdamente bom e são os grandes nomes que causam curiosidade. No entanto, Nine sofre do problema de ter gente demais com destaque de menos para as figuras em cena. Day-Lewis, claro, é o que mais tem atenções, mas as atrizes tem pouco a fazer com o espaço limitado em cena. O que dá para perceber é que cada uma delas possui alguma particularidade. Então, vamos a elas:

– Marion Cotillard é, disparada, a grande estrela. Funciona na sensualidade e na beleza. Mas, acima de tudo, é uma atriz maravilhosa. A cena em que canta My Husband Makes Movies é surpreendente. Ela é o coração da história.

– Sophia Loren, além de ser quase uma figurante em um papel que não diz absolutamente nada, chama mais a atenção por causa de suas plásticas. A mulher destruiu o rosto e isso é o grande atrativo dela.

– Penélope Cruz tem uma enorme sensualidade e interpreta um número musical bem interessante. Ela é ótima, todo mundo sabe disso, e aqui, mais uma vez, ela une beleza e talento. No entanto, sua indicação ao Oscar soa injustificável.

– Kate Hudson e Fergie possuem excelentes momentos, mas, como personagens, não acrescentam. São corriqueiras e só não são esquecidas por total em função de suas canções.

– Nicole Kidman demora a aparecer e ainda fica poucos minutinhos em cena. Participação inútil.

– Judi Dench, boa como sempre, mas também sem brilho.

De resto, Nine tem uma excelente parte técnica. Entretanto, esse méritos aparecem pelos motivos errados. É óbvio que espetáculos teatrais conseguem grandes destaques técnicos e o musical de Marshall é quase uma produção da Broadway (na cena de Be Italian, por exemplo, fica a sensação de que estamos sentados na plateia assistindo o número de Fergie). Falta a sétima arte em Nine. É sempre o mesmo esquema: a trama é filmada como cinema, mas, quando entra n a parte cantada, o filme descamba para o teatro. Parece que tudo é filmado no mesmo cenário, com a mesma abordagem. Isso incomoda bastante.

Mas, não poderia se esperar outra coisa de um diretor como Marshall. Como nunca achei que ele fosse grande coisa, não cheguei a me decepcionar com Nine. Na realidade, acho que fica, de certa forma, no mesmo nível de Chicago: um filme com ideias interessantes, mas que se perde nas inúmeras falhas do diretor. No entanto, esse segundo musical do diretor não tem atores insuportáveis como Renée Zellweger e Richard Gere. É certo que tem menos conteúdo (é uma sucessão infinita de clipes costurados: uma atriz entra, canta e sai de cena, depois vem outra e faz exatamente o mesmo procedimento), e nem sequer tem uma trama sequencial, mas, ao menos, é assistível.

FILME: 6.0

NA PREMIAÇÃO 2010 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Um Olhar do Paraíso

Direção: Peter Jackson

Elenco: Saoirse Ronan, Stanley Tucci, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon, Michael Imperioli, Rose Mclever, Reece Ritchie

The Lovely Bones, EUA, 2009, Drama, 115 minutos, 12 anos

Sinopse: Depois que é estuprada e assassinada, Susie Salmon (Saoirse Ronan), uma garota de 14 anos, acompanha do Céu como sua família e seus amigos se recuperam de sua perda, e observa as tentativas frustradas da polícia em descobrir a identidade do sujeito que a matou.

Nunca fui um dos grandes entusiastas de Um Olhar do Paraíso. Mas não quer dizer que também não deixei de ter expectativas. Esse novo filme de Peter Jackson chegou a ser considerado um dos grandes nomes do Oscar e também era aguardado como um dos filmes mais interessantes da temporada. Nenhuma promessa em relação a isso se cumpriu. O filme foi mal recebido pelo público e ainda foi destruído pela crítica. Não sei se é para tanto. Mas, infelizmente, é fácil constatar que Um Olhar do Paraíso tem  inúmeras escolhas erradas e até mesmo abordagens moralmente questionáveis em seu roteiro.

De imediato, já fica claro que a maioria dos personagens é mal trabalhada. A protagonista (vivida pela ótima Saoirse Ronan, mas que não tem muito o que fazer, já que contracena praticamente sozinha com efeitos especiais) fala coisas óbvias e faz observações até mesmo cafonas na narração em off. Os pais da garota apresentam um luto bagunçado: não dá pra captar o que a mãe (Rachel Weisz) está sentindo, já que uma hora está bem, logo em seguida sai de casa sem qualquer aviso prévio, depois chora e em questão de minutos já está recuperada… O pai (Mark Wahlberg), por um outro lado, cai no típico estereótipo da figura paterna que, cegamente, quer se vingar de quem cometeu a tal atrocidade. Depois, os coadjuvantes que não chegam a lugar algum, como a avó (Susan Sarandon) inerte no roteiro, o namoradinho que não convence, a amiguinha “sobrenatural”, a irmã heroína…

Não pára por aí.  Morrer, no filme, não é tão trágico. Pode ser legal também. O paraíso é lindo e divertido. Ao mesmo tempo em que observa o luto da família, a menina joga, brinca, pula e admira lindas paisagens. Enquanto, lá embaixo, várias situações clichês acontecem nesse meio tempo. Fica a sensação de que o roteiro é preguiçoso, já que, apesar da boa proposta, não conseguiu trazer sequer algo de novo ou emocionante. Esse é o pior defeito de Um Olhar do Paraíso: o texto, além de ter inúmeras falhas, também é óbvio. O filme de Peter Jackson nunca emplaca por definitivo. Só promete e não cumpre nada. Aliás, esse nem parece um filme daquele Jackson que soube unir tão bem efeitos e dramaticidade em longas como O Senhor dos Anéis e King Kong ou aquele que criou uma história emocionalmente forte em Almas Gêmeas.

Se serve de consolo, o filme não é a catástrofe que tantos críticos anunciaram. Um Olhar do Paraíso está longe de ser um dos piores do ano. Só foi mal realizado, vítima de grandes ambições por conta da equipe do filme e, mais do que tudo, desfavorecido por tantas expectativas envolvendo a adaptação do livro e a equipe envolvida no projeto. Dá pra ter certeza que se fosse realizado por pessoas não tão relevantes, o filme não teria sido tão massacrado. Até porque a produção tem  sim méritos. Pequenos, mas tem. O maior deles é a presença de Stanley Tucci. Irreconhecível por conta do estranho visual, o ator mais uma vez comprova ser extremamente versátil – e ele é o que existe de melhor na história: sua aparição é intrigante e muito magnética. Tudo fica mais interessante quando ele está em cena.

Para completar, a solução de alguns personagens é terrível (a de Tucci chega a dar dó), as últimas cenas são clichês (a de Saoirse chega a ser enjoativa de tão brega) e o desfecho ocorre de forma muito rápida, onde a trama se resolve, digamos, em cerca de cinco minutos. Se não fossem essas más impressões que o filme deixa nos últimos minutos, Um Olhar do Paraíso não terminaria deixando marcas tão negativas, já que, durante seu desenvolvimento, fica claro que, mesmo com falhas, dá pra acompanhar tranquilamente a história sem maiores exigências. Confesso que, realmente, falei muito mal do filme aqui – mas também gostaria de deixar algum tipo de defesa para ele. Como já mencionei, não é um desastre e, certamente teria mais pieadade por parte do público se certos nomes não estivessem envolvidos. Não é fácil ser Peter Jackson, viu?

FILME: 6.0


Código de Conduta

Direção: F. Gary Gray

Elenco: Jamie Foxx, Gerard Butler, Viola Davis, Regina Hall, Bruce McGill, Michael Kelly, Josh Stewart, Leslie Bibb, Colm Meaney

Law Abiding Citizen, EUA, 2009, Suspense, 105 minutos, 14 anos

Sinopse: Clyde (Gerard Butler) é um dedicado pai de família que testemunha sua esposa e filha serem assassinadas. Um dos culpados ganha liberdade graças a um acordo feito com o ambicioso promotor Nick (Jamie Foxx). Anos depois o assassino é encontrado morto e Clyde é preso mesmo sem provas contra ele. Seu único objetivo é denunciar o corrupto sistema judicial nem que para isso tenha que matar um a um, todos os envolvidos.

Certos filmes prendem a atenção e conseguem envolver o espectador na trama, mas, simplesmente, não são excepcionais ou sequer notáveis para justificar algum elogio mais plausível. Código de Conduta se enquadra nessa situação: é um filme interessante e com bons momentos, mas que não chega a ser uma produção que mereça maiores elogios. O diretor F. Gary Gray soube segurar as pontas durante quase todo o filme. Porém, comete o erro de ter entregue a produção para dois atores que não conseguem sustentar o roteiro.

Gerard Butler e Jamie Foxx aparecem ineficientes, sem carisma algum para criar empatia com o público. Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por Ray, continua a se mostrar um dos profissionais mais canastrões de sua geração, ao passo que Butler permanece sem mostrar ao que veio. Focalizando a abordagem no personagem de Foxx, o roteiro até cria dois personagens interessantes – o porém é que seriam melhor representados por atores mais competentes. Ainda contando com a partipação de Viola Davis no elenco, Código de Conduta já perde parte de sua eficácia na escalação dos atores.

Mas sorte que a hitória tem seus momentos. É um daqueles filmes de investigação em que o desenrolar dos fatos cria expectativa. Nesse sentido, a produção acerta, deixando todos intrigados com o suspense montado. Contudo, eis que aí surge outro problema. Se no início dava para ficar entusiasmado com todo o suspense envolvendo o personagem de Butler, logo tudo começa a ficar improvável. Como, afinal, ele consegue causar tantas coisas extraordinárias  fora das grades se ele está preso e impossibilitado de ter qualquer contato com o mundo exterior? E o pior de tudo: a explicação para isso é insatisfatória.

Está bem, alguns podem me acusar de estar sendo crítico demais com um filme desse gênero. Afinal, já aprendemos que a maioria dos filmes desse estilo não primam por veracidade. Mas, um pouco de realidade não faria mal a ninguém. Apesar disso, temos em Código de Conduta um filme assistível e que pode entreter. É verdade que o longa-metragem está cheio de irregularidades, de atores ineficientes e de uma abordagem muito mecânica e seca. No entanto, é só abrir mão de se focar nesses detalhes e o espectador encontrará a possibilidade de entrar no clima.

FILME: 6.5