Cinema e Argumento

Sherlock Holmes

Never theorize before you have data. Invariably, you end up twisting facts to suit theories, instead of theories to suit facts.

Direção: Guy Ritchie

Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Eddie Marsan, Mark Strong, William Hope, David Garrick, Kelly Reilly

EUA, 2009, Aventura, 128 minutos, 14 anos

Sinopse: O detetive Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e seu fiel assistente Watson (Jude Law) precisam enfrentar Blackwood (Mark Strong), um vilão que pretende pertubar a paz e acabar com a ordem no Reino Unido.

Não sei sequer como começar a apontar as inúmeras escolhas erradas de Sherlock Holmes. Talvez, o maior pecado de todos tenha sido mudar completamente a essência do famoso detetive. No momento em que resolveram atualizá-lo para as novas massas,  o personagem perdeu completamente o estilo. Holmes usa mais o corpo do que a mente, o que é inadmissível, uma vez que sempre foi uma figura pontuada pela esperteza e pela inteligência. Ele luta com muita habilidade, faz inúmeras acrobacias e ainda tem aquela faixada de beberrão cafajeste, sedutor e engraçadinho – visivelmente tentando copiar Johnny Depp e seu capitão Jack Sparrow.

Mas Robert Downey Jr. não é nenhum Johnny Depp – aliás, passa longe disso. Por alguma razão que desconheço, ele é um ator altamente adorado. Não vejo motivo para tal. Downey Jr. tem sempre a mesma expressão e, ao meu ver, um eterno ar de antipatia (quem sabe, superioridade?) que ele próprio parece não conseguir esconder. Por causa disso, Holmes fica em segundo plano para que Watson sempre se destaque mais. Jude Law aparece, claramente, melhor que seu companheiro de cena. Está com uma ótima desenvoltura e ainda capturou toda a essência de Watson sem cair em qualquer tipo de caricatura.

Agora, falando mais especificamente do filme em si, pode-se dizer que ele sofre de uma trama complicada. Complicada nao sentido literal da palavra e em todas outras interpretações possíveis. O roteiro, além de deixar a história mais comprida do que deveria, faz questão de torná-la mais complexa do que ela realmente é. Em alguns momentos, fica até incompreensível tanta loucura junta. Depois, a ideia de fazer com que tudo fosse engraçadinho, quebrou o clima. Sem falar, claro, da monotonia que impera a partir de certo ponto da história. Fica mais a sensação de “acaba logo” de que a do “oh, qual será a resposta para tudo?”.

Mas pra não dizerem que fui muito rabugento, também tenho alguns pontos a ressaltar positivamente. Temos aqui um divertido trabalho de Hans Zimmer na trilha sonora, que condiz bastante com o jeito palhaço que quiseram moldar no protagonista. Merecida indicação ao Oscar, diga-se de passagem. Outro setor que, merecidamente, foi reconhecido pela Academia é a direção de arte. Então, Sherlock Holmes tem algumas tomadas originais e bons aspectos técnicos. Só faltou um diretor mais competente atrás das câmeras, um roteiro melhor, um ritmo mais dinâmico, uma história interessante…

FILME: 4.5


Filmes em DVD

A Onda, de Dennis Gansel

Com Jürgen Vogel, Frederick Lau e Max Rielmet

Baseado em uma história verídica, A Onda é mais um ótimo filme alemão que conquista o meu respeito mas não a minha empolgação. A exemplo de A Vida dos Outros, reconheço todos os méritos dessa película de Dennis Gansel – ainda que eu não tenha sido necessariamente envolvido por ela. Mas é de se admirar como a história foi bem contada pelo roteiro – que torna a situação dos personagens muito verossímil. Junte a isso o bom elenco de desconhecidos e você terá mais um excelente exemplar do cinema alemão.

FILME: 8.0

Distrito 9, de Neill Blomkamp

Esse, na minha opinião, é o grande azarão do Oscar 2010. Teve inúmeras indicações e, provavelmente, não vá levar uma estatueta sequer. O lado técnico é esplêndido, mas é uma pena que o roteiro tenha tantas falhas. Distrito 9 começa muito bem, mas vai perdendo a sua força aos poucos – principalmente depois da metade, quando o filme começa a ficar até cansativo. É uma ideia muito original mas que foi desenvolvida de forma irregular. No final das contas, temos aqui um filme diferente, mas que não consegue sustentar seus méritos durante toda sua duração.

FILME: 7.5

Tá Chovendo Hamburguer, de Phil Lord e Chris Miller

Tá Chovendo Hamburguer é um dos desenhos mais sem noção dos últimos tempos. Caricato e maluco até no título original (Cloudy With a Chance of Meatballs), talvez seja exatamente aí que o longa encontre a sua graça. Dá pra se divertir com os absurdos apresentados. O problema é que isso também faz o espectador julgar o filme como bobinho demais. E ele realmente é. Temos aqui um desenho totalmente voltado ao público infantil, onde os adultos podem até se sentir aborrecidos com o que estão vendo.

FILME: 7.0

Novidades no Amor, de Bart Freudlinch

Com Catherine Zeta-Jones, Justin Bartha e Eliza Callahan

Bart Freudlinch, marido de Julianne Moore, não sabe fazer comédias românticas divertidas. Sempre tem aquele clima de aborrecimento. Totalmente Apaixonados, um significativo fracasso, já demonstrava isso. E, apesar de Novidades do Amor ser mais assistível que o seu longa anterior, continua sendo nada inovador ou original. No entanto, dá pra se assistir com tranquilidade – especialmente porque a temática me agrada bastante: a relação amorosa entre pessoas de idades bem diferentes (que foi mostrada com muita simpatia em Terapia do Amor). Catherine Zeta-Jones e Justin Bartha fazem o que podem com o roteiro pouco movimentado. Talvez seja por causa deles que essa história até agrade um pouco.

FILME: 6.0

Uma Vida Sem Regras, de Oliver Irving

Com Robert Pattinson, Rebecca Pidgeon e Powell Jones

Alguns atores do público teen querem provar que possuem talento. Mas isso vem naturalmente (como Zac Efron, que estava ótimo em 17 Outra Vez) e não de forma forçada. Fica visível que o envolvimento de Robert Pattinson nesse filme foi de puro interesse – ele queria provar que tem talento dramático e que esse filme de auto-ajuda poderia deixá-lo, de certa forma, mais “respeitável”. O tiro saiu pela culatra e Uma Vida Sem Regras passou em branco nos cinemas. Não é pra menos: fazia tempo que eu não via um filme tão mal resolvido. O roteiro é completamente sem propósito, os personagens não possuem sentido algum e o resultado é deplorável.

FILME: 2.0

Preciosa – Uma História de Esperança

“Who else was going to love me? Who else was going to touch me? Who else was going to make me feel good about myself?”

Direção: Lee Daniels

Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Amina Robinson, Sherri Shepherd, Stephanie Andujar

Precious – Based on the Novel Push by Sapphire, EUA, 2009, Drama, 110 minutos, 16 anos

Elenco: Em Harlem, a jovem Claireece “Precious” Jones (Gabourey “Gabby” Sidibe), que já sofreu muito e está grávida de seu segundo filho, é convidada a frequentar uma escola alternativa, na qual vê a esperança de conseguir dar um novo rumo à sua vida.

A Cor Púrpura, de 1985, é um dramalhão sobre a difícil vida da personagem Celie Johnson (Whoopie Goldberg). Negra e pobre, Celie foi separada da irmã e era constantemente maltratada por várias pessoas na dura vida que levava. No entanto, Celie era uma pessoa esperançosa e que não deixava de acreditar que a vida tinha coisas boas. A situação é praticamente a mesma com a sofrida Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe) – ainda que a sua história em Preciosa – Uma História de Esperança tenha sido retratada décadas depois da história do filme de Steven Spielberg.

Esse filme não é nada agradável. Mesmo que seja datado como um drama, é preciso saber que a história não é das mais fáceis. Tudo que é tipo de desgraça acontece na vida da protagonista – ela é maltratada pela mãe, foi engravidada pelo próprio pai, tem problemas na escola, é pobre e tem contra si mesma o fato de ser obesa. A vida da protagonista é uma verdadeira tristeza e o filme faz questão de não amenizar os problemas dela para o espectador. Mas o principal ponto positivo do roteiro de Preciosa é não pesar tanto a barra em relação a isso. O texto encontrou o tom certo e não fica aquela incômoda sensação de exagero que poderia existir. Não ficou exagerado nem contido demais.

Elogios também merece o diretor Lee Daniels, muito seguro atrás das câmeras. Ele trouxe um filme que vai mais pro lado social do que pro lado melodramático e isso é um verdadeiro feito, já que existe uma linha muito tênue entre esses dois aspectos. Daniels encontrou um ótimo balanceamento entre as inúmeras mensagens que gostaria de transmitir. Mas, é claro, tudo no diretor não é perfeito: ele traz, por exemplo, algumas narrativas desnecessárias – em especial aquelas cenas mostrando as imaginações da protagonista com a fama, que não acrescentam em nada para o que está sendo mostrado e são repetidas constantemente.

Mas, o grande destaque fica mesmo para o ótimo elenco. Enquanto Mo’Nique (realmente ótima, mas com uma personagem que não tem muita variação a não ser no seu monólogo final) apresenta um retrato desumano e cruel de uma mãe que pode ser considerada desprovida de senso materno, Gabourey Sidibe cumpre a missão de humanizar a sofrida protagonista mas sem nunca apelar para conquistar o sentimento do espectador. Outro nome a ser citado é o de Paula Patton, que representa um grande alívio emocional no meio de tantas dificuldades impostas na vida das figuras do filme. Isso é o que tanto chama a atenção na presença dela.

Preciosa tem vários aspectos que merecem destaque. No entanto, é aquele tipo de filme que não chega a deixar maiores lembranças. Como drama, funciona muito bem – mas o problema é que já vimos diversas produções com essa temática e Preciosa fica devendo por não evoluir em seus conflitos, já que fica a sensação de que assistimos apenas a uma continuidade de cenas dramáticas sem maior conexão. Isso termina por amenizar a possível marca que o filme poderia deixar. Entretanto, não quer dizer que fique sem impacto. Com esse resultado, podemos dizer que o filme é A Cor Púrpura da nova geração. Mas é uma pena que histórias assim já não causem o mesmo fascínio e interesse como na época em que Spielberg lançou a celebrada história de Celie Johnson.

FILME: 8.0


Amor Sem Escalas

I thought our relationship was perfectly clear. You are an escape. You’re a break from our normal lives. You’re a parenthesis.

Direção: Jason Reitman

Elenco: George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, Jason Bateman, J.K. Simmons, Sam Elliott, Amy Morton

Up in the Air, EUA, 2009, Drama, 109 minutos, 12 anos

Sinopse: Ryan Bingham (George Clooney) é um consultor que tem a tarefa de demitir funcionários para cortar os gastos das empresas. Quando não está no trabalho, ele gosta de passar o tempo em quartos de hotéis pouco conhecidos e cabines de vôos. Com uma carta de demissão na mesa de seu chefe e a promessa de trabalho em uma misteriosa firma de consultoria, Bingham está perto de conquistar o seu principal objetivo: conseguir um milhão de milhas como passageiro.

Amor Sem Escalas tem, possivelmente, a pior divulgação dos filmes indicados ao Oscar. As escolhas erradas já começam pelo título em português, que não tem nada a ver com a essência do longa-metragem. Depois, vender o filme como “do mesmo diretor de Juno” dá uma impressão equivocada. Amor Sem Escalas não tem nada de comédia romântica e muito menos é dirigido para o público adolescente. Jason Reitman amadureceu na direção, apresentando interessantes reflexões e uma abordagem adulta sobre solidão, frustração e sentimentos.

Para falar bem a verdade, nunca achei Reitman um diretor de maiores habilidades (sua indicação ao Oscar de direção por Juno foi um verdadeiro absurdo). Mudei de ideia em relação a isso com Amor Sem Escalas, esse sim o único filme de sua carreira que merece algum tipo de grande celebração. Reitman, que tem meros 32 anos de idade, lida muito bem com todos os temas do filme. São questionamentos de meia-idade que poderiam ser infantilizados por uma direção irregular. Não é o que acontece. O diretor traz um balanceamento surpreendente e, a cada minuto, o filme só melhora as situações vividas pelos personagens.

Por mais que Amor Sem Escalas não seja um filme excepcional (assim como a maioria dos longas concorrentes ao Oscar 2010), é um dos que mais deixam boas impressões. Talvez pelo fato de que seja um filme que tenha como principal engrenagem o sentimento. Não tem como não se envolver com os personagens ou sequer não cair no carisma deles. São figuras como eu e você e que, apesar da vida diferente que vivem (a profissão deles é apenas um pequeno pretexto para outras diversas discussões), possuem os mesmos dilemas de qualquer outra pessoa.

O roteiro é o ponto alto, mas não está livre de falhas. O enredo demora a engrenar e a história, que não explicita claramente qual o verdadeiro propósito durante um bom tempo, só começa a tomar uma forma concreta perto da metade. Contudo, a partir do momento em que funciona, Amor Sem Escalas só começa a lucrar. George Clooney, Anna Kendrick e Vera Farmiga que o digam. Todos foram indicados ao Oscar e merecem esse reconhecimento. Não sei se Amor Sem Escalas é algo que mereça grande louvor, mas tem méritos que realmente surpreendem. E o maior deles é ter um texto pra lá de reflexivo. O que por si só já valida a experiência.

FILME: 8.0


Entre Irmãos

Direção: Jim Sheridan

Elenco: Natalie Portman, Jake Gyllenhaal, Tobey Maguire, Sam Shepard, Carey Mulligan, Bailee Madison, Taylor Geare, Jenny Wade

Brothers, EUA, 2009, Drama, 104 minutos, 14 anos

Sinopse: Após o desaparecimento do irmão (Tobey Maguire), um soldado tido como morto no Afeganistão, jovem (Jake Gyllenhaal) passa a dar todo o conforto e atenção à cunhada (Natalie Portman) e aos sobrinhos. Não demora muito para essa relação se transformar em algo mais intenso. Mas é nesse momento que o irmão desaparecido retorna, provocando terríveis transformações em todos os envolvidos.

Não assisti o original dinamarquês, então, fiquei livre de qualquer comparação de Entre Irmãos com o filme dirigido por Susanne Bier (Coisas Que Perdemos Pelo Caminho). Ainda assim, foi difícil entrar na história dos personagens e nas intenções dramáticas do roteiro. A culpa nem chega a ser tanto do texto. O maior erro reside na escalação de atores. Eles não conseguem passar as devidas emoções, mostrando-se muito ineficientes quando o assunto é dramaticidade.

Tobey Maguire, que foi absurdamente indicado ao Globo de Ouro de melhor ator em drama, é o maior dos erros. Sempre com aquela cara de garotinho estranho e nerd, Maguire não dá a devida complexidade para o personagem, que termina sem qualquer maior variação emocional. Jake Gyllenhaal, por um outro lado, está regular, mas também não faz muita coisa com o limitado papel. Quanto a Portman, todo mundo sabe que é boa atriz, mas só chorar não é sinônimo de boa interpretação.

Entre Irmãos é sobre os efeitos da guerra, tanto nos soldados quanto nas famílias envolvidas. E até que o filme tem bons momentos em relação a esse assunto, mas nunca chega a se aprofundar – fica sempre naquele nível que estamos acostumados a ver. Ou seja, naquele estilo americano de fazer drama: ausência de trilha sonora, crise existencial, alguns choros e feridas familiares. Não sei se havia necessidade de refilmar uma história comum como essa.

Entre Irmãos, no final das contas, não acrescenta nada de novo. Pode ser um filme que satisfaça em alguns aspectos e consiga acertar em alguns dramas, mas não vai deixar qualquer marca. Fica aquela sensação de que algo não deu certo. Seria o elenco ineficiente? A história sem profundidades? Ou simplesmente o fato de que Entre Irmãos é uma releitura desnecessária do original dinamarquês?

FILME: 6.0