50ª Mostra de Cinema de São Paulo: “Minotauro”, de Andrey Zvyagintsev

Se uma esposa está feliz com seu casamento, é porque ela não sabe de nada — e, se sabe, seu casamento é, então, uma farsa. É o que diz Galina (Iris Lebedeva) em uma noite de jantar com os amigos do seu marido, Gleb (Dmitriy Mazurov), quando ele insiste para que os dois façam algo fora da rotina e tentem se conectar com quem eram antes. A frase pode muito bem dizer respeito à insatisfação que Galina vem tendo com sua vida matrimonial, assim como, em um filme como Minotauro, pode se aplicar ainda ao contexto político de uma Rússia em desintegração — moral, ética, social — na década de 2020. Se algum russo está feliz com este momento do país, é porque não sabe de nada — e, caso saiba, deve viver em alienação.

O cineasta Andrey Zvyagintsev (Leviatã, Sem Amor) não chega a ter uma visão fatalista sobre a vida ou sobre sua nação, mas a perspectiva seca e dura que adota para falar sobre a sociedade por meio de um microcosmo específico reflete a forma sombria com que a Rússia (e boa parte do mundo) se encara hoje em dia. Em Minotauro, ele volta a examinar uma relação de longa data, agora focado no período em que a estafa do cotidiano e da mesmice começa a se impor para um dos lados, revelando que, talvez, um rompimento seja inevitável. Para Galina, que mente ao dizer que passa os dias em cafeterias e salões de beleza, o distanciamento já está posto, enquanto Gleb, afundado em um trabalho estratégico que exige dele posicionamentos diante da guerra travada contra a Ucrânia, parece acreditar que o melhor caminho é varrer as coisas para debaixo do tapete.

Há, enfim, uma violência específica que mudará a dinâmica da história para os dois protagonistas, acentuando as proximidades que Zvyagintsev busca estabelecer entre a vida do casal e o país. Ocupando um cargo de poder, Gleb tem a missão de escolher quais funcionários de sua corporação indicará ao governo para convocação à guerra. Em uma reunião com o prefeito, tendo o quadro de Vladimir Putin ao fundo, ele compreende que precisa tratar o assunto como qualquer negócio, e assim o faz. É algo aterrorizante e que, ao ser tratado como uma tarefa cotidiana por Gleb, coloca em pauta a banalização da guerra, da violência e da falta de empatia, em um contexto no qual a vida humana não tem qualquer valor. Normalizado no trabalho, esse mindset respinga na vida pessoal do personagem a partir do momento em que ele administra com rapidez os desdobramentos da violência que será definidora para seu casamento.

Minotauro é uma releitura do francês A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, e o termo “releitura” se encaixa bem aqui, pois Zvyagintsev se mostra cirúrgico ao transferir as ideias de Chabrol para o contexto russo, transformando o material original em uma obra à parte. Mais do que no plano temático, o cineasta faz deste um filme verdadeiramente seu, da rigorosa mise-en-scène, sempre pronta para revelar mais sobre os personagens, à própria ambientação, em sua maioria trabalhada dentro de uma casa imensa e envidraçada, que simboliza uma série de duplicidades e transparências. Sua disciplina cinematográfica, aliada à vontade de falar sobre um espectro social com honestidade, é palpável, o que chega a disfarçar os momentos em que o roteiro se alonga demais e se torna reiterativo. Na forma e no conteúdo, entre o íntimo e o coletivo, Minotauro traduz na tela um país em crise consigo mesmo. País esse que, não por acaso, acaba por definir quem as pessoas são dentro de suas próprias casas.

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