50ª Mostra de Cinema de São Paulo #2: “Tigre de Papel”, de James Gray

Irwin (Miles Teller) reage do modo mais crível possível quando, por acidente, pisa nos calos de uma poderosa máfia russa na Nova York da década de 1980. Temendo pela segurança da mulher e dos dois filhos, ele, inicialmente, vai para debaixo da asa do irmão Gary (Adam Driver), a pessoa que foi sua porta de entrada para esse universo subterrâneo. Contudo, apesar do carisma, da pompa e do passado de Gary como ex-policial, nada parece ser resolvido com a devida urgência, aumentando seu nervosismo, multiplicando as noites mal dormidas e, enfim, alimentando a descrença no próprio irmão.

É simples, mas faz toda a diferença: desde o primeiro momento em que Tigre de Papel decide fazer um filme sobre máfia e a desconstrução do sonho americano com os pés bem firmes no chão, preocupado mais com o efeito do medo na vida de uma pessoa banal do que com os bastidores do crime, todo o resto flui que é uma beleza. Trazer realismo a um gênero comumente ligado a tramas mirabolantes, arcos de longa duração e violência bruta só poderia vir de um talentoso contador de histórias como James Gray, cuja especialidade reside na capacidade de trazer qualquer temática para o plano íntimo e pessoal.

Em Tigre de Papel, por sinal, a máfia é silenciosa: invade casa sem arrombar portas ou estilhaçar vidros, desorganiza toda uma sala de estar na calada da noite e deixa na poltrona as polaroides tiradas de cada membro da família em sono profundo. O próprio líder russo poderia muito bem passar despercebido na rua, já que se revela um senhorzinho de bigode que não precisa cortar a garganta na frente de ninguém para impor medo. Tamanha sobriedade muito me agrada porque contribui para a noção de verossimilhança e porque encontra, na baixa fervura, uma tensão bastante eficiente.

Contudo, a máfia é apenas pretexto para que James Gray, também autor do roteiro, mergulhe nas verdadeiras camadas do filme, como o silêncio que também passa a invadir a casa de uma típica família norte-americana. Se Irwin decide não contar para a esposa Linda (Scarlett Johansson) sobre a ameaça que sofreu junto aos filhos em um passeio noturno, ela opta por esconder da família o prognóstico fatalista que recebeu em uma consulta médica. Tudo vai se emaranhando entre o desejo do filho mais velho de fazer uma festa de 18 anos e o sonho do mais novo de ter uma Mercedes. O foco, repito, está nesse entrelaçamento com o cotidiano.

Ainda no âmbito familiar, Gray faz as engrenagens de Tigre de Papel se moverem a partir da relação entre dois irmãos muito distintos, mas que têm a ternura um pelo outro em comum. Ternura, aliás, que o roteiro trabalha com complexidade e inteligente contradição, afinal, ao mesmo tempo em que Gary deseja ver o irmão prosperar na vida, resolve ajudá-lo desse jeito torto, colocando-o em negócios escusos, para dizer o mínimo. E Irwin, sempre tão aberto e reverente ao primogênito, gradativamente vê sua admiração se misturar a uma certa necessidade de considerar o irmão como alguém pertencente a um universo à parte, sem conexão com a mulher e os filhos.

Não posso deixar de mencionar que todos os atores estão ótimos em cena, mas é de fato o domínio narrativo e estético de James Gray que faz de Tigre de Papel um longa-metragem maduro. Sua escolha por registrar as imagens em película, em rima com as texturas características do bairro Queens dos anos 1980, é para lá de acertada. O mesmo se aplica ao uso econômico de outros recursos, como a trilha original de Christopher Spelman, que só entra em cena quando estritamente necessário. Ao longo de quase duas horas, me peguei envolvido com a história, mesmo não sendo exatamente um fã do gênero — e pode ser exatamente por isso que eu considere Tigre de Papel seu melhor trabalho em pelo menos uma década.

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