
Fui à sessão do documentário Ney Por Trás das Máscaras com certa desconfiança. Por que, afinal, Esmir Filho lançaria mais um longa-metragem sobre Ney Matogrosso após o sucesso de público e crítica de Homem com H? O que mais ele teria a mostrar sobre o cantor? Ou seria apenas um projeto protocolar para pegar o embalo do filme anterior? Felizmente, me surpreendi ao encontrar um projeto que, a seu modo, é quase como uma extensão de Homem com H. Não se trata de um documentário-retrospectiva sobre a vida e a obra de Ney, mas sobre como são os seus dias hoje, tendo como pano de fundo os preparativos para o desfile da escola de samba Imperatriz Leopoldinense que o homenageou em fevereiro deste ano.
Mesmo diante de todo o inegável legado de seu personagem, Ney Por Trás das Máscaras se interessa, como o próprio título indica, por quem ele é na vida real, comendo sua torradinha com vitaminas e creatina no café da manhã para depois andar de pé descalço pela natureza, plantando mudas de árvore ou devolvendo animais capturados ao seu habitat. No dia a dia do cantor, encontramos uma pessoa intimamente ligada à vida e ao planeta Terra, filho afetuoso e homem trabalhador, alguém hoje mais interessado no afeto e sem vergonha de dizer que ainda sente tesão depois dos 80 anos. Se, nos palcos, Ney é inspirador, ele também o é nos bastidores, capaz de nos convocar a um desprendimento que parece tão improvável atualmente.
Há pouquíssimos depoimentos de amigos ou colegas em Ney Por Trás das Máscaras. O mais significativo é o de Gilberto Gil, que, em estúdio com o colega, fala sobre como Ney é sempre Carnaval, um homem que, ao longo da carreira, se mascarava no palco para, na verdade, desmascarar toda a hipocrisia e as certezas erradas do Brasil. Esmir Filho também não cede à tentação de se valer de apresentações musicais para rechear a obra com sucessos . A turnê de Bloco na Rua, por exemplo, é registrada majoritariamente no camarim do cantor, onde ele próprio usa um lápis usado e pequeno para fazer sua maquiagem. Nos trechos que exploram a criação carnavalesca de sua vida, o filme prioriza o encontro com os amigos e os carinhos muito pessoais que Ney recebe de quem ajuda a colocar todo aquele espetáculo em pé.
Como documentário, principalmente no que se refere à linguagem e à forma, Ney Por Trás das Máscaras não se propõe a inventar a roda, encontrando suas pequenas belezas em conversas corriqueiras ou na naturalidade com que seu personagem se despe (em determinado momento, literalmente) diante das câmeras. O documentário é dedicado à Dona Beita, mãe de Ney, que faleceu no último mês de março, aos 103 anos. Sua citação rende um dos melhores momentos do filme: ao refletir sobre a finitude da mãe, que, à época das filmagens, já estava acamada e sem falar, Ney conta que, em vez de ficar mal, vê tudo aquilo como um percurso natural da vida. Para ele, a morte, por ser a única certeza da vida, não deveria ser temida. Não somos donos de absolutamente nada. A gente passa, o resto continua. E aí me peguei pensando: quando crescer, quero ter um pouco da compreensão e da aceitação de Ney Matogrosso sobre a vida.