Legítimo Baz Luhrmann, “Elvis” brilha com Austin Butler, mas erra a mão na escolha do ponto de vista

When things that are too dangerous to say, sing!

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Direção: Baz Luhrmann

Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, Jeremy Doner e Sam Bromell, baseado em história de Baz Luhrmann e Jeremy Doner

Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Kelvin Harrison Jr., Kodi Smit-McPhee, Helen Thomson, Richard Roxburgh, David Wenham, Luke Bracey, Dacre Montgomery, Leon Ford, Shonka Dukureh, Shannon Sanders, Josh McConville

Austrália/Estados Unidos, 2022, Drama, 159 minutos

Sinopse: A cinebiografia de Elvis Presley acompanha décadas da vida do artista (Austin Butler) e sua ascensão à fama, a partir do relacionamento do cantor com seu controlador empresário “Colonel” Tom Parker (Tom Hanks). A história mergulha na dinâmica entre o cantor e seu empresário por mais de 20 anos em parceria, usando a paisagem dos EUA em constante evolução e a perda da inocência de Elvis ao longo dos anos como cantor. No meio de sua jornada e carreira, Elvis encontrará Priscilla Presley (Olivia DeJonge), fonte de sua inspiração e uma das pessoas mais importantes de sua vida. (Adoro Cinema)

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Baz Luhrmann é um sujeito especial porque nunca baixou a guarda. Tachado de espetaculoso, exagerado e, por vezes, insuportável, seu cinema não desperta indiferença e vem reunindo fãs e detratores na mesma medida desde 1992 com Vem Dançar Comigo. Até os fãs devem reconhecer que a carreira do diretor tem lá seus deslizes — e o pseudo-épico Austrália talvez seja o maior deles —, mas nunca alguém poderá dizer que se trata de um realizador sem personalidade. Tão convicto de seu estilo, Luhrmann não se adestrou nem mesmo agora, quando resolveu fazer Elvis, seu primeiro trabalho biográfico, uma excelente notícia, claro, para os fãs do diretor e, principalmente, para aqueles que, assim como eu, sofrem de uma longa ressaca diante de tantas cinebiografias convencionais.  

Faz total sentido Baz Luhrmann dirigir Elvis, pois ele é um dos poucos que conseguiria transmitir toda a energia e o frenesi causados por uma figura tão icônica. E engana-se quem pensa que Luhrmann é apenas som e fúria. Há detalhes que evidenciam o seu compromisso em fazer diferente não apenas na estética. O diretor dispensa, por exemplo, a cena de abertura tão clichê com o protagonista já acabado e maltratado pelo tempo para depois voltar aos tempos de sua infância e juventude, como vimos em Os Olhos de Tammy Faye, para citar um projeto mais recente. Pelo contrário: Elvis mostra sua reverência ao justamente criar expectativa para revelar Presley, desdobrando o personagem pouco a pouco, até culminar em uma cena em que o mito, ainda muito jovem e em início de carreira, incendeia o palco e quase leva o público feminino a orgasmos tamanha a sua presença de palco.

É fácil entender o arrebatamento por esse personagem retratado com muita cor, trilha, efeitos e até mesmo animações de HQ. Na grande festa que é Elvis, o diretor se preocupa em capitalizar a força musical do ícone e as razões que o fizeram grande como artista. Em plena época de segregação racial, Presley trazia aos palcos todas a sua reverência à cultura negra que fez parte de sua criação, para desgosto de uma sociedade preconceituosa e conservadora. Perseguido por autoridades, ele, além de dançar sensualmente e com assumida maquiagem, homenageava nomes como B.B. King e Mahalia Jackson nas composições, no jeito tão característico de se mover pelo palco e no que gostava de simbolizar para multidões. Atento ao potencial dos comentários possíveis para uma discussão como essa, o longa não fica na mera homenagem — são pequenos e importantes os momentos como aquele em que B.B. King comenta que Presley, por ser branco, jamais seria preso por suas disrupções, mas que ele, um cantor negro, poderia ir para a cadeia só por atravessar a rua.

Em meio a esse contexto político e social, Elvis avança no tempo sem maiores cerimônias ou sem as ultrapassadas montagens de capas de discos e jornais que costumam pontuar o passar dos anos em tantas cinebiografias. Não há também a formalidade de querer explicar o nascimento de cada um dos seus sucessos ou de esmiuçar o clássico arco de ascensão, queda e redenção com o qual  artistas icônicos são retratados no cinema. É certo que, de um jeito ou de outro, há um pouco disso tudo no roteiro escrito por Luhrmann com Craig Pearce, Jeremy Doner e Sam Bromell. Entretanto, a preocupação é a de que Elvis seja fiel ao espírito do cantor, incluindo aspectos frágeis de sua existência e a dicotomia que ele revelava ao ser tão grande nos palcos e a tão manipulável nos bastidores, em especial na relação bastante problemática com Tom Parker, o agente que lhe alçou ao sucesso. O apreço pela imperfeição e pelas contradições faz do longa um relato capaz de contemplar tanto o mito quanto o ser humano, relação que o cinema Hollywoodiano tem tentado evitar nos últimos anos com cinebiografias higienizadas, como se o público não devesse entrar em contato com as falhas de ídolos e celebridades.

Não foram poucas as estrelas que assumiram publicamente o desejo de interpretar Elvis Presley e que fizeram o teste para o papel. De Ansel Elgort a Harry Styles, passando por Aaron Taylor-Johnson e Miles Teller, o papel acabou nas mãos de Austin Butler, o nome menos midiático entre os citados. Decisão mais do que acertada, já que não ter uma grande estrela contribui para evitar distrações e deixar o campo ainda mais aberto para eventuais surpresas. E Butler realmente estoura em cena, acumulando vitórias em cima de vícios e cacoetes que poderiam orbitar um retrato como esse. Sem se tornar obcecado em mimetizar cada movimento de Elvis ou beirar o overacting para disfarçar a dublagem das canções, o jovem ator de 30 anos encarna o protagonista com sinceridade e parcimônia, comprometido em primeiro capturar antes o espírito do cantor e depois reproduzir tecnicidades. Junto ao Elton John de Taron Egerton em Rocketman, o Elvis de Austin Butler fica entre as composições biográficas mais genuínas do cinemão recente.

Elvis, portanto, é um filme sobre Elvis, certo? Não necessariamente, e é aí que mora a grande fragilidade do projeto. Em tudo, a ideia de narrar a trajetória do cantor a partir da perspectiva de seu agente, Tom Parker, é um erro. Apesar de reparar o apagamento de uma figura importante como Parker nos relatos mais célebres de Presley, a decisão não traz grandes insights e nunca alcança as dimensões prometidas. Toda vez em que o personagem aparece, deveríamos, na verdade, estar vendo mais de Elvis. Falta polimento a esse conflito bastante interessante sobre o aprisionamento que Parker significou na vida e na carreira do cantor. Oportunista de mão cheia (era conhecido como coronel quando nunca havia recebido o título e sequer se chamava Tom Parker de verdade), o agente que lançou Presley às estrelas mentia a torto e a direito para manter o astro sob as suas rédeas, a ponto de até impedir as suas tão sonhadas turnês internacionais.

Só que Hanks, atrás de muitas próteses e maquiagem, representa um tipo de caricatura comumente encontrada no cinema de Luhrmann, mas que não casa com esse filme mais coeso e repleto de reverência. Não apenas a atenção excessiva ao coronel chega a ser quase um teste de paciência — afinal, acompanhamos a história pela perspectiva de um vilão quase unidimensional — como acaba tolhendo o protagonismo do próprio Elvis, que, inclusive, divide os créditos finais de sua história com o Parker. Tudo sobre o personagem estufa demais o longa-metragem, a ponto de, por vezes, o próprio Tom Hanks emitir sinais confusos sobre a figura que interpreta. Dramaticamente, a relação entre Elvis e Parker nos faz entender muita coisa sobre o cantor e, sem dúvida, é um pilar importante de sua existência artística. Contudo, ser a linha condutora do roteiro é um pouco demais, quase amortecendo o brilho e a energia presentes em Elvis.

É uma grande incógnita como essa ideia de colocar Parker como testemunha da vida de Presley sobreviveu até a versão filmada. A melancolia com que vemos um homem exausto, acima do peso e já sem o pique para cantar uma música em pé antes dos 40 anos encerra o relato no tom certo. É a força de Elvis que reverbera após a sessão. Não a narração redundante de Parker sobre como o amor do público foi nocivo ao astro. Recentemente, Luhrmann revelou a existência de uma versão com quatro horas de duração do filme. Sabe-se lá se um dia essa versão se tornará pública, mas, pensando nela, o que eu gosto de acreditar é que se trata de um corte com mais Elvis e menos Tom Parker, seja com Austin Butler a ponto de bala ao som de Suspicious Mind ou com o próprio Elvis Presley emocionando ao piano com a clássica Unchained Melody em imagens reais.

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