No incômodo “Nitram”, a angústia nasce da espera constante por uma tragédia fora de quadro

Laughing at my pain. Laughing like it was the funniest thing in the world.

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Direção: Justin Kurzel

Roteiro: Shaun Grant

Elenco: Caleb Landry Jones, Judy Davis, Anthony LaPaglia, Essie Davis, Sean Keenan, Phoebe Taylor, Conrad Brandt, Jessie Ward, Ethan Cook, Lucas Friend

Austrália, 2021, Drama, 112 minutos

Sinopse: Nitram (Caleb Landry Jones)  vive com os pais nos subúrbios da cidade australiana de Hobart, em meados da década de 1990. Solitário e frustrado pela incapacidade de se relacionar com os outros, inesperadamente ele encontra Helen (Essie Davis), uma herdeira que vive isolada em uma mansão decadente. A amizade inusitada ganha caminhos inesperados e acaba sendo a porta de entrada para que Nitram cometa um ato trágico e irreparável.

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Como é de costume, mãe e filho brincam de esconde-esconde, mas, desta vez, a diversão cotidiana se torna um grande pesadelo. Apesar de procurar, chamar e pedir ajuda para várias pessoas, a mãe não encontra seu filho de jeito nenhum. Desesperada e já em lágrimas, ela desiste de encontrá-lo na loja de tecidos em que sempre brincavam e volta ao carro. Ao sentar-se, ouve alguém rindo — é seu pequeno filho, deitado no chão do banco de trás. Tudo poderia ser apenas uma brincadeira de mau gosto a ser corrigida pela mãe, do tipo que crianças fazem sem ainda saberem das consequências de seus atos. Não é o caso. Lembrando da cena, a personagem vivida por Judy Davis é categórica: “Ele ria. Ria da minha dor. Ria como se fosse a coisa mais engraçada do mundo”. Com o tempo, e talvez até mesmo à época, ela já sabia que Nitram (Caleb Landry Jones) tinha algo de muito diferente por dentro. O que ela não poderia imaginar é que, adulto, ele seria o responsável por matar 35 pessoas e ferir outras 23 naquele que, até hoje, é considerado o maior massacre já registrado na Austrália.

Todo o contexto do esconde-esconde importa mais do que a tragédia vivida em 1996 na cidade de Port Arthur porque Nitram, o novo filme do diretor Justin Kurzel, investigar o que aconteceu antes da tragédia e não o evento propriamente dito, algo explícito inclusive no título do longa (Nitram é palíndromo de Martin, nome real do assassino que o diretor buscou não enaltecer ou espetacularizar em muitos sentidos). Há uma construção muito mais rica para quem desconhece a história real, especialmente porque o roteiro de Shaun Grant revela o protagonista aos poucos. Primeiro, temos um menino-problema; depois, um jovem provocador; mais para frente, um clássico borderline, talvez?; e, por fim, uma bomba-relógio prestes a explodir. Não se trata de testemunhar o personagem adquirindo essas características ao longo da trama como em uma cinebiografia, mas sim de um sentimento crescente de angústia e imprevisibilidade que o roteiro descortina de forma gradativa em um recorte específico e horrivelmente plausível.

O que temos em Nitram é uma figura da qual é difícil gostar ou simpatizar. Sua incapacidade de encontrar o mínimo de retidão e, por conta disso, qualquer aceitação do olhar alheio é uma parte significativa de sua tragédia. Uma relação que ilustra isso com perfeição é a que ele estabelece com a própria mãe vivida por Judy Davis. Desde o primeiro minuto, suspeitamos que ela parece ter desistido do filho há muito tempo. Ainda que tente discipliná-lo aqui ou ali, a personagem tem plena consciência de travar uma batalha perdida. Compreendemos que Nitram é o que é porque, ao não conseguir estabelecer conexões ou ter alguém que se importe com ele, corre livre e sem o mínimo de suporte clínico para a sua condição mental, mas também entendemos, com um gosto muito amargo na boca, os movimentos dessa mãe tão derrotada quanto conformada. Fora isso, fica no ar a dúvida sobre o quanto ela de fato se dedicou a salvá-lo e sobre até que ponto negou para si própria a ideia de que Nitram pudesse cometer atos irreparáveis.

A entrada de Ellen (Essie Davis) embola ainda mais o cenário. Com ela, Nitram introduz a tese de que, talvez, o protagonista finalmente tenha sido aceito por alguém. No melhor estilo Grey Gardens, Ellen é a mulher rica, inusitada e difícil de definir que, no entanto, não deve ser resumida por definições fáceis como essas. O relacionamento dela com Nitram sublinha oscilações já observadas até então e acaba por desencadear acontecimentos e sentimentos que mudaram para sempre o rumo dos fatos. Todas essas figuras femininas ao redor de Nitram são estimulantes como engrenagens importantes da história e como o excelente momento de atrizes muito talentosas. Se Judy Davis é um caso à parte por capturar a relação entre o interior e o exterior de uma mãe rígida e de gestos complexos para com o seu filho, Essie Davis ultrapassa a linha da mera excentricidade para trazer um pouco de coração, ainda que tumultuado, a uma vida caótica.

Acaba que, no longa, não há mérito comparável à grandiosidade do desempenho de Caleb Landry Jones, premiado no último Festival de Cannes. Desde que entra em cena, Caleb é uma presença forte e incômoda. O melhor, entretanto, é construído em camadas quase imperceptíveis: trata-se de uma performance que não nos insere na mente do protagonista e nos posiciona apenas como observadores, em paridade com tantos outros personagens que lidam com seu comportamento errático e imprevisível. É como se nós também fôssemos obrigados a tentar administrá-lo, o que fortalece a atmosfera de angústia do filme. Nesta difícil relação com a plateia, Caleb se sai admiravelmente bem ao jamais tentar justificar o personagem ou torná-lo empático. Ele expõe Nitram em toda sua problemática visceralidade, do trabalho corporal a semblantes minimalistas que expõem uma psique guardada a sete chaves.

As discussões de Nitram não são exatamente novas como as que vimos, por exemplo, no recente Mass, mas o diretor Jutin Kurzel, que já dirigiu um pouco visto Macbeth com Michael Fassbender e Marion Cotillard, acerta em deixar a violência explícita e suas ramificações para fora da tela. Imagino que, mesmo com essa e outras decisões bem sucedidas, Kurzel ainda terá que lidar com problematizações envolvendo a condição do personagem-título e o fato de fazer um filme que dá holofotes a ele. Esse tipo de reação acaba sendo frustrante porque Kurzel está longe de amenizar ou explorar de forma irresponsável a vida de Martin Bryant. Se chegamos ao ponto de apontar o dedo para o cinema por ele se “atrever” a discutir temas, digamos, sombrios, delicados e de difícil digestão, é porque estamos nos desconectando de um dos propósitos mais importantes da arte de se contar histórias em qualquer formato. Com o tanto que desperta, Nitram definitivamente não merece ser reduzido a isso.

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