“Medida Provisória” é o filme que Lázaro Ramos precisava fazer (e nós precisávamos assistir) no Brasil atual

Como é que a gente deixou chegar nesse ponto? Como é que a gente riu disso?

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Direção: Lázaro Ramos

Roteiro: Aldri Anunciação, Elisio Lopes Jr., Lázaro Ramos e Lusa Silvestre, baseado no texto teatral “Namíbia, Não!”, de Aldri Anunciação

Elenco: Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Emicida, Dona Diva, Mariana Xavier, Aldri Anunciação, Pablo Sanábio, Flavio Bauraqui, Hilton Cobra

Brasil, 2022, Drama, 94 minutos

Sinopse: Em um futuro distópico, o governo brasileiro decreta uma medida provisória, em uma iniciativa de reparação pelo passado escravocrata, provocando uma reação no Congresso Nacional, que aprova uma medida que obriga os cidadãos negros a migrarem para a África na intenção de retornar a suas origens. Sua aprovação afeta diretamente a vida do casal formado pela médica Capitú (Taís Araújo) e pelo advogado Antonio (Alfred Enoch), bem como a de seu primo, o jornalista André (Seu Jorge), que mora com eles no mesmo apartamento. Nesse apartamento, os personagens debatem questões sociais e raciais, além de compartilharem anseios que envolvem a mudança de país. Vendo-se no centro do terror e separados por força das circunstâncias, o casal não sabe se conseguirá se reencontrar. (Adoro Cinema)

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Guardadas as devidas proporções e assertividades, Medida Provisória tem muito em comum com Não Olhe Para Cima, o hit mais recente produzido originalmente pela Netflix. Assim como o filme dirigido por Adam McKay, a estreia na direção do ator Lázaro Ramos é extremamente literal em tudo que se propõe a discutir. Isso quer dizer que não há espaço para sutilezas e que as representações são as mais explícitas possíveis, da composição de personagens ao desenrolar da trama. A adoção de tal estilo não é boa ou ruim por si só, mas, no Brasil em que vivemos atualmente, creio ser uma necessidade: quando precisamos sempre (re)explicar o que significa respeito, civilidade e bom senso, o trabalho de quem tem a paciência e vontade de dizer o que deve ser dito com todas as letras é mais do que bem vindo. 

Ser tão literal reserva alguns riscos dos quais Medida Provisória nem sempre ileso, com destaque para os momentos em que personagens discursam sem muita naturalidade ou quando transita aqui ou ali entre diferentes gêneros. Entretanto, são passagens pontuais em comparação a outros acertos de maior peso. Lázaro Ramos, também autor do roteiro, ao lado de Aldri Anunciação, Elisio Lopes Jr. e Lusa Silvestre, entende que, infelizmente, vivemos uma espécie de luta do bem contra o mal, o que não é motivo para caricaturas (nem todo branco é necessariamente maquiavélico, por exemplo) ou para ignorar a discussão de pontos passíveis de problematização, como o do casal protagonista de classe média viver uma posição privilegiada quando comparada a de tantos outros negros em meio à medida provisória do título.

Cuidados como esse costumam passar despercebidos na apreciação de filmes menos sutis, mas eles elevam o material e revelam a existência de artesanalidade no que é convencionalmente chamado de “comercial” ou “popular”. Medida Provisória é baseado no espetáculo teatral “Namíbia, Não!”, de 2011, dirigido pelo próprio Lázaro, e essa é outra informação importante, pois evidencia o olhar apurado do ator como um diretor capaz de transitar por diferentes formatos e gêneros sem confundir linguagens ou ficar preso a formalidades. A capacidade de Lázaro de transformar um espetáculo teatral protagonizado por apenas dois atores em um longa-metragem de dimensões muito maiores e com focos distintos comprova que ele tem futuro como o tipo de realizador que assumidamente deseja ser: o mais plural possível, algo que já está sendo explorado no seu contrato com a Amazon, pelo qual acaba de rodar um musical.

Medida Provisória constrói com eficiência um clima de distopia porque, mesmo tendo sido finalizado ainda em 2019, aponta para inúmeras questões que nos são muito familiares. Como vítimas ou testemunhas de uma sociedade acostumada a destilar racismos tanto de forma explícita quanto em pequenas violências diárias, nós, espectadores, jamais duvidamos deste universo criado pelo filme em que políticos — ou até mesmo os vizinhos da porta ao lado — apoiam a ideia de que a população negra deve ser devolvida à África, revelando um ódio disfarçado do discurso de “reparação histórica”. Dos comentários racistas murmurados nos bares aos panfletos espalhados abertamente em um condomínio, Medida Provisória até compensa um certo excesso de subtextos abertos pelo roteiro com essa tônica da vida real.

Sem economizar também nas homenagens, sejam elas políticas, históricas ou musicais, da cantora Elza Soares à vereadora Marielle Franco, Lázaro reúne um elenco cuja presença é fundamental para consolidar a energia do projeto. Há protagonistas que se saem muito bem em momentos mais potentes do ponto de vista emocional, como Taís Araújo; coadjuvantes que não se limitam a alívios cômicos e funcionam também nas contribuições dramáticas dadas à história, a exemplo de Seu Jorge; e outros exercitam papeis que costumam tiram de letra, caso de Adriana Esteves na pele da odiável Isabel. O bom elenco dá sustentação a um pilar muito importante de Medida Provisória: o da cumplicidade entre os personagens que, narrativamente falando, potencializa o senso de proximidade e envolvimento com o conflito principal. 

Em entrevista ao programa Roda Viva, Lázaro Ramos comentou que sua intenção com Medida Provisória era ir além de uma radiografia do racismo no Brasil. O que ele também queria era cruzar o terreno da distopia com um viés mais utópico. A utopia de Lázaro está, segundo ele, no poder do afeto. É o que de fato vemos em Medida Provisória, o filme brasileiro com o maior número de negros em frente e atrás das câmeras: há, em diversas passagens, um convite ao pensamento, ao diálogo e ao sentimento, colocando luz na resistência e na persistência, mas sem nunca ter a ingenuidade de acreditar que somente isso é o suficiente. O projeto vai muito ao encontro do que escreveu o poeta Sérgio Vaz: “Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar. Luta é para a vida inteira.”. Lázaro sabe que seu filme não ficará datado tão cedo porque a luta retratada já se arrasta desde que o mundo é mundo. Medida Provisória era o filme que ele precisava fazer agora, mesmo que imperfeito e com pontos ainda a serem amadurecidos. Afinal, suas ideias são do tipo que nunca devem ser deixadas para depois.

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