O Destino de Uma Nação

You can not reason with a tiger when your head is in its mouth!

Direção: Joe Wright

Roteiro: Anthony McCarten

Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Nicholas Jones, Samuel West, David Schofield, Richard Lumsden,  Malcolm Storry,  Hilton McRae

Darkest Hour, EUA/Reino Unido, 2017, Drama, 125 minutos

Sinopse: Winston Churchill (Gary Oldman) está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. Paralelamente, ele começa a costurar um tratado de paz com a Alemanha nazista que pode significar o fim de anos de conflito. (Adoro Cinema)

Costumo lançar duas exigências quando vou ao encontro das cinebiografias. A primeira é de que elas precisam ser fiéis aos seus biografados, abraçando tanto as suas qualidades quanto as suas imperfeições, algo que o recente Bingo – O Rei das Manhãs fez tão bem. E a segunda é de que inovem de alguma maneira, seja no que for. Lanço as exigências porque gosto de ser surpreendido, mas também porque não existe estilo de filme menos criativo e provocador do que esse, com obras sempre tão lineares, pouco inventivas e excessivamente entregues a seus atores, dando a entender que basta um intérprete estar parecido com seu respectivo biografado para elas terem cumprido o seu propósito. Em cartaz nos cinemas brasileiros, O Destino de Uma Nação tanto não inova em qualquer aspecto quanto joga boa parte de suas responsabilidades para Gary Oldman, escolha que, claro, já encaminhou toda a papelada para que o ator vença o Oscar 2018, mas que dificilmente fará com que a produção em si seja lembrada por outra razão que não seja a celebração desse experiente profissional jamais celebrado até então.

À parte sua estrutura formalíssima, O Destino de Uma Nação passa longe de ser um relato empolgante sobre Winston Churchill por não ser exatamente fiel ao seu biografado. O momento retratado é bom — aquele em que Churchill, recém eleito primeiro-ministro da Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial, precisa escolher entre firmar um acordo com a Alemanha nazista de Adolf Hitler ou enfrentar o temido ditador que está prestes a exterminar o exército britânico —, o que, por incrível que pareça, não traz a tensão que seria tão bem-vinda para um conflito dessa magnitude. Por ser didático na forma, O Destino de Uma Nação é mais explicativo e menos cinematográfico, apoiado em um roteiro que se baseia na personalidade e nos discursos de Churchill, que tinha o indiscutível dom da oratória. E explorar tanto as qualidades do personagem não deixa de ser um demérito, pois, nesse caso, o talento não está nas criações do longa e sim nas coisas como elas realmente eram, aconteceram e foram ditas pelo primeiro-ministro.

Partindo para o plano da interpretação de Churchill, o irreconhecível Gary Oldman parece ter se divertido à beça por debaixo das pesadas maquiagens e próteses, mas, anterior ao seu trabalho como ator, existe o roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo), que, seguindo mais ou menos o que fez Abi Morgan em A Dama de Ferro, tenta a todo momento amenizar ou até mesmo a omitir o lado polêmico e controverso do personagem. Gosto de ressaltar que ajustes são inevitáveis em adaptações, ao passo que, por outro lado, não ser fiel aos fatos, é mais do que infidelidade: é também desonestidade (O Rei do Show é um recente exemplo disso). Quando chega próximo de retratar um Winston Churchill mais genioso, difícil e irredutível, O Destino de Uma Nação imediatamente dá um jeito de humanizá-lo, seja com a entrada de figuras femininas que só existem para isso (a esposa vivida por Kristin Scott Thomas, a datilógrafa interpretada por Lily James e as filhas cujos nomes nem sabemos direito) ou com a ideia de torná-lo um adorável rabugento. O longa se esquiva de aprofundar as questões que levam Churchill a ser um personagem ao mesmo tão difícil e fascinante, assim como induz o espectador a rir de suas grosserias e intolerâncias ao invés de investigar a origem desse temperamento.

É curiosa essa irregularidade do britânico Joe Wright como diretor, capaz de obras intensas do ponto de vista dramático e técnico (Desejo e Reparação permanece imbatível como sua obra máxima) e também de outras superficiais e sem muita personalidade, como O Solista, Peter Pan e agora esse O Destino de Uma Nação. Em seu relato de Churchill, Wright se cercou de amigos talentosos e profissionais irrepreensíveis (o compositor italiano Dario Marianelli, o fotógrafo francês Bruno Delbonnel), todos realizando trabalhos que, assim como o do diretor, podem não ser inovadores do ponto de vista técnico, mas que, ao menos, conferem aquela classe tão característica das biografias realizadas no Reino Unido. E talvez esteja aí a maior das decepções com o resultado apenas mediano de O Destino de Uma Nação: com o time que reuniu, era de se esperar, no mínimo, um caldo mais consistente, especialmente quando temos como referência o ótimo John Lithgow, que colecionou pencas de (merecidos) elogios por sua performance como Churchill na primeira temporada do seriado The Crown. Wright e sua turma bem que poderiam ter colocado mais energia no projeto para fazer alguma diferença. Talento é o que não falta aos envolvidos.

3 comentários em “O Destino de Uma Nação

  1. Pingback: “Dois Papas”: simplicidade, leveza e excelentes interpretações para resgatar o poder transformador do diálogo | Cinema e Argumento

  2. Matheus, a sua crítica está muito consistente. “O Destino de uma Nação” é uma obra apenas correta, pouco inventiva, mas que serve ao seu propósito de enaltecer a figura que foi Winston Churchill. Neste sentido, o grande destaque acaba sendo mesmo a atuação de Gary Oldman, que, como você bem lembra, está irreconhecível.

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