Cinema e Argumento

Três Vezes Amor

Direção: Adam Brooks

Elenco: Ryan Reynolds, Abigail Breslin, Rachel Weisz, Isla Fisher, Derek Luke, Kevin Kline, Elizabeth Banks

Definitely, Maybe, EUA, 2008, Comédia Romântica, 115 minutos, 12 anos.

Sinopse:Em meio a seu divórcio, Will (Ryan Reynolds) se surpreende quando sua filha de dez anos, Maya (Abigail Breslin), começa a lhe fazer perguntas sobre como ele e a mãe dela se conheceram e se casaram. Assim, ele resolve narrar seu passado e seu envolvimento com três mulheres muito diferentes, sem dizer seus verdadeiros nomes à filha. No final, Maya precisa adivinhar com quem o pai finalmente se casou. Seria a mãe de Maya a namoradinha de faculdade Emily (Elizabeth Banks)? A grande amiga e confidente April (Isla Fisher)? Ou a ambiciosa jornalista Summer (Rachel Weisz)? Enquanto a menina junta as peças do misterioso romance do pai, ela começa a entender que o amor não é nada simples.

” O elenco talentoso é o único pretexto para que “Três Vezes Amor” seja assistido. Não chega nem a ser romântico ou divertido, pois se leva a sério demais, achando que é diferente e superior a qualquer outro filme desse gênero.”

Logo quando Maya (Abigail Preslin) aparece na tela, temos a impressão de que Três Vezes Amor vai divertir bastante. A personagem da atriz mirim, após uma aula de educação sexual, começa a fazer inúmeras perguntas para o pai – o que é um menáge a trois? Como alguém pode engravidar por engano? Ele, confuso, tenta fazer com que a filha esqueça desse assunto, mas seu esforço é nulo, uma vez que ela quer se aprofundar cada vez mais nos detalhes. Até que ela chega num ponto delicado: quer saber do pai como ele conheceu a sua mãe (da qual está se divorciando) e como tudo se sucedeu. Até então, Três Vezes Amor tem momentos bem descontraídos e divertidos, mas a partir da hora em que começa a narrar os casos amorosos do protagonista, o longa perde o tom e o ritmo, tornando-se uma experiência sem graça e até mesmo cansativa.

O filme de Adam Brooks não é conduzido de forma clichê, e muito menos de forma previsível, já que ficamos atentos para saber quem é a mãe da garotinha. No entanto, parece que o roteirista achou que a história é superior a qualquer outro filme do gênero. Por isso mesmo escorrega – tenta dar um tom de seriedade, anulando os típicos problemas de comédia romântica, mas acaba tirando justamente a principal graça que uma história desse estilo podia ter. O roteiro é vazio e nem um pouco sentimental; não torcemos por ninguém e nem vemos nada de interessante na história que o protagonista narra. Sem contar que tudo vai se desenvolvendo de forma lenta.

O que salva parcialmente Três Vezes Amor é o seu elenco. Não é nem a presença de Ryan Reynolds protagonizando o filme que chama a atenção, e sim as coadjuvantes. Aliás, literais coadjuvantes, pois todas tem espaço totalmente dividido em cena. Isla Fisher (aquela maluca namorada de Vince Vaughn em Penetras Bons de Bico) é a que apresenta melhor desempenho entre as possíveis mães da garota, mostrando que além de ser um rosto bonito, é cheia de talento e potencial. Rachel Weisz, em um de seus pouquíssimos papéis depois do Oscar de coadjuvante por O Jardineiro Fiel, é uma presença que ilumina a tela, mas seu papel não é muito atraente. Elizabeth Banks é a que menos tem espaço em cena, mas aproveita bem. Porém, é a angelical figura da pequena Abigail Breslin que mais se destaca. Por mais que seu papel tenha participação mínima na história, a atriz mirim arrasa em cada minuto de sua aparição. Abigail é a promessa que se realizou depois do grande sucesso de Pequena Miss Sunshine. Os filmes de que participa não são lá essas maravilhas, mas ela conquista a cada aparição, mostrando que ela era a verdadeira merecedora do Oscar de coadjuvante e não Jennifer Hudson, que até agora não mostrou ao que veio. Os atores se esforçam e tentam cobrir os defeitos da produção, mas não conseguem total êxito. Três Vezes Amor não é para os apaixonados nem para quem procura rir no cinema, é uma experiência neutra que é preferível ser conferida quando for lançada em DVD.

FILME: 6.0

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Vídeo da Semana

Pouca gente tinha conhecimento da apresentadora Ellen DeGeneres quando ela foi convocada para apresentar o Oscar ano passado. O fato é que ela é uma ótima entrevistadora, e isso fica mais do que evidente nesse memorável momento com Meryl Streep, onde ambas arrasam e causam muitas risadas.

Filmes em DVD

Casa de Areia e Névoa, de Vadim Perelman (revisto)

Com Ben Kingsley, Jennifer Connelly e Shoreh Agdashloo

Drama intenso e até um pouco subestimado, que não teve a repercussão que merecia, apesar das três indicações ao Oscar (Ator para Kignsley, Atriz Coadjuvante para Shoreh e Trilha Sonora). Para um trabalho de iniciante, o resultado é sensacional, mostrando o talento de Vadim Perelman atrás das câmeras. Contudo, certamente as atuações são o ponto alto de Casa de Areia e Névoa. Jennifer Connelly, injustamente preterida nas premiações, está no melhor momento da sua carreira; a coadjuvante Shoreh Agdashloo surpreende em ótimo trabalho. Mas o show fica por conta de Ben Kingsley, marcante e intenso em papel memorável. O roteiro não ajuda tanto – um fiapo de história é trabalhado durante duas longas horas de duração, com temas dramaticamente pesados, tirando o ritmo da história. Mas toda a competência do filme cobre esses meros defeitos e consegue trazer para o espectador um excelente produto cinematográfico. Destaque também para a trilha de James Horner.

FILME: 8.0

Ratatouille, de Brad Bird (revisto)

Com as vozes de Patton Oswalt, Peter O’Toole e Ian Holm

Espetáculo visual que achei mais impressionante nas telas do cinema do que em casa. O ratinho Rémy continua me conquistando com toda sua simpatia, assim como todo o filme de Brad Bird. Dessa vez fiquei mais atento aos detalhes técnicos – a boa trilha de Michael Giacchino, a excelente montagem e os ótimos efeitos sonoros (que inclusive deveriam ter levado uma das estatuetas que O Ultimato Bourne ganhou). O roteiro é o ápice desse filme de Brad Bird – que anteriormente havia me decepcionado com Os Incríveis – que não é apenas um filme apenas para crianças, uma vez que os adultos também têm muito o que aprender com a história. Sem dúvida alguma Ratatouille mereceu o prêmio máximo do cinema de animação (e tantos outros que conquistou pelo caminho), pois fazia tempo que uma animação não se apresentava tão impecável como essa.

FILME: 8.5

Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, de Pedro Almodóvar

Com Carmen Maura, Antonio Banderas e Julieta Serrano

De todos os filmes de Almodóvar que tive a oportunidade de assistir, esse é o mais sem graça. Por mais que eu odeie Má Educação, é uma película que tem personalidade e um propósito. Esse Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos nada mais é que uma brincadeirinha boba para causar algumas risadas. Com um roteiro raso e pouco insipirado, o filme nunca empolga (com excessão dos momentos finais) e toda a excelência do filme se deve ao espetacular desempenho de Carmen Maura, impecável como a ótima protagonista. Os coadjuvantes também são muito bons e auxiliam a produção a ter um bom andamento. Relativamente curta, a história tem seus bons momentos, mas eu achei que tudo ficou muito aquém para os padrões de Almodóvar. Recebeu uma estranha indicação ao Oscar de melhor Filme Estrangeiro, mas não levou a estatueta.

FILME: 7.0

Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino

Com Steve Buscemi, Harvey Keitel e Michael Madsen

O filme menos badalado do genial Quentin Tarantino. Talvez por ter sido com ele que o diretor se lançou no cinema (só viria a ter maior repercussão com Pulp Fiction – Tempo de Violência). Porém, nota-se na estrutura e no roteiro de Cães de Aluguel tudo o que o diretor estava prestes a nos apresentar em seus filmes seguintes. Aqui tempos um filme policial tenso e intrigante, que atiça a curiosidade do espectador até o último minuto de projeção. Com a ajuda de um excelente elenco (Harvey Keitel e principalmente Steve Buscemi estão ótimos), tudo se desenvolve de forma clara, trazendo o filme mais objetivo de Tarantino. Por mais que não seja especialmente original ou sequer espetacular, Cães de Aluguel é um excelente filme do gênero que merece ser conferido.

FILME: 8.0

High School Musical, de Kenny Ortega

Com Zac Efron, Vanessa Hudgens e Ashley Tisdale

Nem com a maior boa vontade do mundo consegui ao menos me divertir com esse High School Musical. Nem tentando ignorar os clichês e a previsibilidade. O musical acaba sendo um produto da falta de originalidade de Hollywood, que ainda insiste nessas histórias colegiais enjoativas. Funcionaria muito melhor se tivesse sido feito na década passada – mas mesmo assim alcançou inexplicável sucesso entre as garotas adolescentes. As canções pobres e toscas só ferem os ouvidos e até ofendem o gênero, tamanha a inutilidade delas. O astro teen Zac Efron irrita com seu visual típico de adolescente americano e Vanessa Hudgens não convence como garotinha inocente. Os vilões, por exemplo, são um acerto muito maior. Porém, High School Musical funciona para aqueles dias de inverno em que nos gripamos e ficamos em casa, onde qualquer porcaria da Sessão da Tarde é uma opção assistível quando não se tem mais nada para ver.

FILME: 5.0

Duro de Matar 4, de Len Wiseman

Com Bruce Willis, Justin Long e Jeffrey Wright

Nunca assisti a nenhum filme da série Duro de Matar, mas tentei entar no clima desse. No entanto, achei que a confusa história não convence tanto quanto deveria e o roteirista não se deu conta disso. A ação é completamente absurda mas competente e cumpre muito bem o seu papel no filme, empolgando nos momentos certos, em fusão com ótimos efeitos especiais. Bruce Willis ainda está ótimo e em plena forma para interpretar o personagem. Duro de Matar 4 deve satisfazer os fãs da série, mas não consegui entrar muito clima. O filme é extremamente longo para o gênero (130 minutos) e não empolga quando deixa de mostrar correrias e explosões. Porém, não posso deixar de negar que é um filme muito bem acabado e um excelente retorno de Bruce Willis.

FILME: 6.0

Segredos Na Noite, de Patrick Stettner

Com Robin Williams, Toni Collette e Rory Culkin

Suspense dramático (tendendo muito mais para o drama, apesar dos toques nebulosos e obscuros da fotografia) que lembra bastante a premissa de filmes como Os Esquecidos e Plano de Vôo – onde o protagonista tem de provar que determinada criança existe e que ela não é fruto de sua imaginação. Tudo muito bem pontuado pelos desempenhos de Robin Williams (em ótima presença como há tempos não se via) e Toni Collette (aproveitando muito bem o limitado espaço que lhe é proporcionado). Bem diferente do que eu imaginava por tratar de abuso sexual, doença terminal, homossexualidade e deficiência visual – temas incomuns para o gênero – Segredos Na Noite só não causa maior impacto por causa da falta de intensidade no seu roteiro, especialmente no interessante desfecho que seria melhor se tivesse uma dimensão psicológica maior. Mas mesmo assim é um bom filme que até merece uma conferida.

FILME: 7.5

Vídeo da Semana

A melhor música da primeira temporada de Brothers & Sisters, que toca no episódio 3 – Affairs Of State. A canção é Easier To Lie, de Aqualung.

Conte Comigo

Conte Comigo, de Kenneth Lonergan

Com Laura Linney, Mark Ruffalo e Matthew Broderick

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Um estilo de filme que me agrada bastante é aquele que trata de famílias desestruturadas e cheias de pessoas com problemas afetivos e carências a serem resolvidas. Conte Comigo é um filme desse gênero. O diretor Kenneth Lonergan optou por tratar esse assunto da forma mais acessível possível – nada de roteiro instrospectivo, tramas subjetivas ou personagens complicados. Conseqüentemente, com isso, consegue atingir um público mais amplo, realizando uma produção altamente abrangente e que facilmente conquista certo público. Porém, também traz alguns defeitos para a história – a estrutura narrativa é certinha demais e não vemos nenhum momento mais original. Senti bastante falta de uma maior consistência ou conflitos mais intensos.

Porém, é no elenco que Conte Comigo encontra a sua maior força. Laura Linney (indicada ao Oscar de melhor atriz por essa sua atuação) empresta todo o seu grande talento para interpretar essa mulher comum – é muito fácil o público se identificar com o personagem – que criou o filho sozinha, tem problemas no trabalho e que acaba de virar amante de um homem. É com a chegada do seu irreponsável irmão (Mark Ruffalo) que ela verá sua vida transformada, principalmente quando ele começa a se relacionar com o sobrinho, trazendo algumas verdades para a vida do garoto. Linney dispensa comentários (só a emocionante cena final já é uma prova de que ela é um dos maiores talentos de sua geração) e aqui apresenta o melhor momento de toda a sua carreira. Mark Ruffalo me surpreendeu, no seu filme de maior destaque. Ainda temos pequena ponta de Amy Ryan, indicada ao Oscar de coadjuvante desse ano por Medo da Verdade.

Conte Comigo é um filme linear e pouco inspirado, mas que consegue causar algumas reflexões e conquistar por causa de seus simpáticos personagens. Não é uma produção que procurar julgar pessoas ou dar qualquer tipo de lições de moral típicas desse gênero – ele apenas observa e traz questionamentos ao espectador por meio de seus personagens. Até quando o afeto pode ser usado como desculpa para perdoar os erros de um ser humano? O que realmente queremos da vida? Quem amamos é aquela pessoa em que realmente confiamos? Tudo isso não está explicitamente no filme. O cinéfilo deve procurar isso na história. Conte Comigo não é nada memorável ou marcante, mas uma boa produção com um grande saldo positivo.

FILME: 8.0