Cinema e Argumento

Conte Comigo

Conte Comigo, de Kenneth Lonergan

Com Laura Linney, Mark Ruffalo e Matthew Broderick

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Um estilo de filme que me agrada bastante é aquele que trata de famílias desestruturadas e cheias de pessoas com problemas afetivos e carências a serem resolvidas. Conte Comigo é um filme desse gênero. O diretor Kenneth Lonergan optou por tratar esse assunto da forma mais acessível possível – nada de roteiro instrospectivo, tramas subjetivas ou personagens complicados. Conseqüentemente, com isso, consegue atingir um público mais amplo, realizando uma produção altamente abrangente e que facilmente conquista certo público. Porém, também traz alguns defeitos para a história – a estrutura narrativa é certinha demais e não vemos nenhum momento mais original. Senti bastante falta de uma maior consistência ou conflitos mais intensos.

Porém, é no elenco que Conte Comigo encontra a sua maior força. Laura Linney (indicada ao Oscar de melhor atriz por essa sua atuação) empresta todo o seu grande talento para interpretar essa mulher comum – é muito fácil o público se identificar com o personagem – que criou o filho sozinha, tem problemas no trabalho e que acaba de virar amante de um homem. É com a chegada do seu irreponsável irmão (Mark Ruffalo) que ela verá sua vida transformada, principalmente quando ele começa a se relacionar com o sobrinho, trazendo algumas verdades para a vida do garoto. Linney dispensa comentários (só a emocionante cena final já é uma prova de que ela é um dos maiores talentos de sua geração) e aqui apresenta o melhor momento de toda a sua carreira. Mark Ruffalo me surpreendeu, no seu filme de maior destaque. Ainda temos pequena ponta de Amy Ryan, indicada ao Oscar de coadjuvante desse ano por Medo da Verdade.

Conte Comigo é um filme linear e pouco inspirado, mas que consegue causar algumas reflexões e conquistar por causa de seus simpáticos personagens. Não é uma produção que procurar julgar pessoas ou dar qualquer tipo de lições de moral típicas desse gênero – ele apenas observa e traz questionamentos ao espectador por meio de seus personagens. Até quando o afeto pode ser usado como desculpa para perdoar os erros de um ser humano? O que realmente queremos da vida? Quem amamos é aquela pessoa em que realmente confiamos? Tudo isso não está explicitamente no filme. O cinéfilo deve procurar isso na história. Conte Comigo não é nada memorável ou marcante, mas uma boa produção com um grande saldo positivo.

FILME: 8.0

Vídeo da Semana

O vídeo contém spoilers.

Pra falar a verdade eu não adoro esse segundo volume de Kill Bill (na época de seu lançamento até me decepcionei um pouco), mas é inegável que ele possui aspectos simplesmente brilhantes e cenas inesquecíveis. O que mais se destaca é a atuação da bela Uma Thurman – talvez no melhor desempenho de sua carreira – que tem grandes momentos dramáticos. Merecia até concorrer ao Oscar. Essa cena do filme é um dos ápices da atriz no longa-metragem.

Filmes em DVD

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O Custo da Coragem, de Joel Schumacher

Com Cate Blanchett, Emmet Bergin e Alan Devine


Se existe um diretor que até hoje não mostrou ao que veio, esse é Joel Schmuacher. Ele se lançou em diversos gêneros – musical (O Fantasma da Ópera), suspense (Número 23) e aventura (Batman & Robin). No entanto, até hoje não se achou: quando não realiza catástrofes, produz filmes completamente irregulares e esquecíveis. Só existe um trabalho relevante em seu currículo, O Cliente, e ainda por cima todos os méritos vão para a Susan Sarandon. O Custo da Coragem não vai mudar sua vida e logo você irá esquecer. A história é mal conduzida e não empolga em nenhum momento, mas a presença da Cate Blanchett (outra atriz que apesar do filme ser ruim, tem a habilidade de salvar o dia) consegue disfarçar a banalidade da narrativa, que é completamente linear e sem emoção. A história só consegue criar certo charme nos momentos finais, onde a protagonista da história tem que se deparar com um perigo real. É por Blanchett, e somente por ela, que O Custo da Coragem não chega a ser ruim.

FILME: 6.5

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Tentação, de John Curran

Com Mark Ruffalo, Peter Krause e Naomi Watts


O diretor John Curran me surpreendeu completamente com O Despertar de Uma Paixão. Nem lembrava que esse Tentação era dele, e assisti sem saber disso. E, mais uma vez, ele conseguiu me conquistar. Existe um quê de Pecados Íntimos (a vida suburbana é cheia de casamentos despedaçados e pessoas infelizes) e um toque de Closer – Perto Demais (o sexo é usado como forma de afetar os sentimentos e magoar o próximo) no roteiro, que além de usar a introspecção para criar um clima de tristeza na trama, ainda conta com um ótimo elenco. Mark Ruffalo, Peter Krause (em seu trabalho mais significativo depois do fim de A Sete Palmos), Laura Dern e Naomi Watts estão excelentes, entregando uma empatia única e fazendo com que o espectador se identifique com os personagens. Apesar desses nomes famosos, Tentação é um filme completamente independente. Por mais que não traga inovações ou uma mensagem mais consistente, é um filme simples e efetivo, que até faz pensar.

FILME: 8.0

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16 Quadras, de Richard Donner

Com Bruce Willis, Mos Def e David Morse


16 Quadras é mais uma bobagem policial que Bruce Willis realiza tentando resgatar seu estrelato no gênero que fez tanto sucesso no passado. Não posso dizer que não fui envolvido pela trama e que não me empolguei em certos momentos, mas acho difícil apreciar esse passatempo que nada mais é que uma repetição de tantos outros filmes que vagam pelo cinema. Além de ter um dos coadjuvantes mais chatos da década (alguém me explica porque Mos Def faz aquela voz tão insuportável?!), o filme segue uma linearidade absurda, mantendo-se totalmente preso às regras do gênero. No entanto, quando não se exige muito do filme de Richard Donner, ele engana perfeitamente, mantendo a tensão e a curiosidade pelo desfecho. Por mais que seja esquecível e completamente dispensável, 16 Quadras é uma aceitável diversão para se assistir sem expectativas.

FILME: 6.5

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O Homem Que Não Estava Lá, de Joel e Ethan Coen

Com Billy Bob Thornton, Frances McDormand e Scarlett Johansson


O Homem Que Não Estava Lá resgata todo o espírito noir do cinema, contando uma história totalmente envolvente e interessante. Cheio de brilhantimos, o filme é uma pérola dos irmãos Coen que foi completamente ignorada nas premiações – recebeu apenas uma indicação ao Oscar (fotografia) e perdeu. O protagonista é Billy Bob Thornton, em momento inspirado e que caiu como uma luva para o papel. Em menores participações aparecem Frances McDormand, James Gandolfini, Scarlett Johansson e Richard Jenkins. A elegante trilha sonora ajuda a conduzir o interessante roteiro, que nunca decepciona durante suas duas horas de projeção. Como não sou muito fã de Fargo – Uma Comédia de Erros, acho que O Homem Que Não Estava Lá é a melhor introdução possível ao mundo desse dois ótimos irmãos.

FILME: 8.5

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Feliz Natal, de Christian Carion

Com Daniel Brühl, Diane Krueger e Guillaume Canet


Até hoje eu não entendo a badalação em torno de Paradise Now. Muitos condenaram a Academia por não ter premiado o filme, enquanto eu acho que a não-premiação foi algo bem justo. Falou-se tanto nesse filme, que acabaram esquecendo dos outros concorrentes. O mais injustiçado é esse Feliz Natal, surpreendente drama de guerra que chama a atenção por tratar o tema de forma humana, deixando de lado toda aquela repetição típica que costuma envolver esse gênero tão saturado. Além de ser um filme relativamente curto para esse tipo de história (não tem nem duas horas de duração), consegue ser dramaticamente interessante, mostrando toda emoção que existe dentro de cada ser humano envolvido na guerra – algo parecido com o recente Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood. Sua primeira hora é um pouco chata e entediante, mas tudo se recupera a partir do momento em que o tal “feliz natal” do título é dado. Certamente merecia ter levado o Oscar…

FILME: 8.0

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Impulsividade, de Mike Mills

Com Lou Pucci, Tilda Swinton e Vince Vaughn


Ritmo é inexistente no roteiro de Impulsividade, já que a história é arrastada e tudo demora pra se desenrolar. O que não deveria acontecer, uma vez que a história é interessante. Tirando esse efeito que é quase debilitante para o andamento, o filme tem bons aspectos. A começar pelo elenco, onde todos têm destaque. O novato Lou Pucci é competente, Vince Vaughn longe de qualquer caricatura habitual e Keanu Reeves sem parecer o robô que sempre é. Mas a presença mais significativa é a de Tilda Swinton (recém agraciada com o Oscar de coadjuvante por Conduta de Risco), em um dos desempenhos mais memoráveis de toda a sua carreira. Outro aspecto positivo é a deliciosa trilha sonora, cheia de excelentes canções. Impulsividade é um bom filme, mas que peca por não ter um bom andamento. O que, na minha visão, é essencial.

FILME: 6.0

Vídeo da Semana

A canção não-original mais linda do ano, até agora, presente em um longa-metragem.

Sarah McLachlan interpreta Answer, presente no desfecho de Valente.

“I will be the answer, at the end of the line. I will be there for you, while you take the time. In the burning of uncertainty, I will be your solid ground. I will hold the balance, if you get knocked down. If it takes my whole life, I won’t break, I won’t bend. It will all be worth it, worth it in the end. ‘Cause I can only tell you what I know… That I need you in my life. And when the stars have all gone out, you’ll still burning so bright. Cast me gently, into morning, for the night has been unkind. Take me to a place so holy that I can wash this from my mind. The memory of choosing not to fight. If it takes my whole life, I won’t break, I won’t bend. It will all be worth it, worth it in the end. ‘Cause I can only tell you what I know… That I need you in my life. And when the stars have all gone out, you’ll still burning so bright. Cast me gently, into morning.”

Antes de Partir

We live, we die, and the wheels on the bus go round and round.


Direção: Rob Reiner

Elenco: Jack Nicholson, Morgan Freeman, Sean Hayes, Beverly Todd, Rob Morrow, Rowena King

The Bucket List, EUA, 2007, Comédia, 95 minutos, 12 anos.

Sinopse: Carter Chambers (Morgan Freeman) é um homem casado, que há 46 anos trabalha como mecânico. Submetido a um tratamento experimental para combater o câncer, ele se sente mal no trabalho e, com isso, é internado em um hospital. Logo passa a ter como companheiro de quarto Edward Cole (Jack Nicholson), um rico empresário que é dono do próprio hospital. Edward deseja ter um quarto só para si mas, como sempre pregou que em seus hospitais todo quarto precisa ter dois leitos para que seja viável financeiramente, não pode ter seu desejo atendido pois isto afetaria a imagem de seus negócios. Edward também está com câncer e, após ser operado, descobre que tem poucos meses de vida. O mesmo acontece com Carter, que decide escrever a “lista da bota”, algo que seu professor de filosofia na faculdade passou como trabalho muitas décadas atrás. A lista consiste em desejos que Carter deseja realizar antes de morrer. Ao tomar conhecimento dela, Edward propõe que eles a realizem, o que faz com que ambos viagem pelo mundo para aproveitar seus últimos meses de vida.

Antes de Partir é apenas mais uma história sobre ”viva o agora pois a vida é curta”. A sessão acaba, poucos segundos depois você já nem lembra mais do filme e só vai voltar a pensar nele quando alguém o citar em uma conversa. Infelizmente, é esse o resultado do novo filme de Rob Reiner, que pouco tempo atrás era até mesmo cotado para o Oscar, em possíveis indicações para Jack Nicholson ou Morgan Freeman. O fato é que a produção se revelou como apenas um entretenimento leve e pouco inspirado.

No entanto, fiquei bastante contente ao ver que Antes de Partir não é descaradamente clichê e brega como eu estava esperando – tudo é muito contido, sem maiores lições de moral (que, apesar de estarem presentes no roteiro, não chegam nem a incomodar) e com humor agradável. Nem mesmo nas partes dramáticas a história se deixa levar por grandes pieguices, conseguindo obter um resultado bem efetivo. Claro que tudo não tem o menor impacto ou originalidade, mas ao menos conseguiu com que a temática fosse tratada de um bom jeito, tornando a curtíssima sessão de 95 minutos, no mínimo, simpática.

Deixando de lado o roteiro, que é o fator menos importante da produção, vamos ao que mais interessa: os desempenhos de Jack Nicholson e Morgan Freeman. Como era de se esperar, o filme é completamente deles, com cada um tendo seus bons momentos. Nicholson, que vem participando de poucos filmes recentemente (o último foi Os Infiltrados), está ótimo. O seu Edward Cole é uma mistura de Warren Schmidt de As Confissões de Schmidt e Harry Sanborn de Alguém Tem Que Ceder. O timing cômico do ator é perfeito, e o diretor Rob Reiner soube aproveitar isso muito bem, extraindo do ator excelentes momentos cômicos e dramáticos também.

Já para Morgan Freeman ficou o papel dramático e também o do narrador (aliás, ele leva jeito pra coisa, assim como demonstrou em Menina de Ouro), com o ator conseguindo outro ótimo trabalho e se mantendo no mesmo nível de excelência de Nicholson. No final das contas, Antes de Partir é inofensivo, não ofende ninguém e não machuca uma mosca. O jeito é assistir o filme de cabeça aberta, sem qualquer preconceito com esse tipo de história e deixar o senso crítico de lado. É o melhor jeito para se perdoar os erros e as obviedades de Antes de Partir. Destaque para a música de John Mayer, que toca nos créditos finais (“Say“) e que transmite toda a mensagem que o filme quer passar…

FILME: 7.0

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