Cinema e Argumento

Como Você Sabe

Happiness in life is about finding out what you want and learning how to ask for help to get what you want.

Direção: James L. Brooks

Elenco: Reese Witherspoon, Paul Rudd, Owen Wilson, Jack Nicholson, Kathryn Hahn, Mark Linn-Baker, Lenny Venito, Molly Price, Ron McLarty

How Do You Know, EUA, 2010, 121 minutos

Sinopse: Lisa Jorgenson (Reese Witherspoon) reencontrou o amigo de longa data George (Paul Rudd) no meio de uma crise em seu relacionamento com Manny (Owen Wilson). Enquanto Manny pelo coração de sua amada, George encara um tremendo problema financeiro, que só serve para temperar ainda mais esse complicado e divertido triângulo amoroso.

James L. Brooks é um sujeito que conquista as pessoas com um talento que poucos possuem. Vejam só: ele cria histórias completamente comuns sobre personagens do dia-a-dia e, a partir de uma abordagem linear e previsível, faz interessantes análises sobre relacionamentos humanos. Laços de Ternura e Melhor é Impossível comprovam esse estilo do diretor. No entanto, em alguns casos, uma mesma fórmula não dá certo a vida inteira. Espanglês já foi um aviso disso e, agora, Como Você Sabe aponta que, talvez, o momento do diretor abandonar esse estilo já chegou.

Para um filme estrelado por dois atores reconhecidos da comédia, Como Você Sabe tem muito pouco de humor. É uma propaganda enganosa. Se você pensa que encontrará uma história divertida e com piadas “comerciais”, pode mudar de ideia. O longa de James L. Brooks, na verdade, é interminável (ele sempre tem a chata mania de levar mais de duas horas para contar uma história), sem sal, inexpressivo e monótono. Não dei uma risada o filme inteiro e acompanhava com muita impaciência esse enredo fraquíssimo estrelado por personagens desprovidos de carisma.

Portanto, Como Você Sabe já começa errando na história, que é totalmente sem força (afinal, a principal abordagem é a comédia, o triângulo amoroso ou o drama?). Além disso, os pers0nagens são mal desenvolvidos, unilaterais, sem grandes variações e apáticos. Tudo isso resulta em desperdício de elenco, roteiro e diretor. Em suma, é um filme que tenta ser uma comédia com reflexões e dramas pessoais, mas nada dá certo. Falta ritmo e carisma para esse trabalho pobre em argumentos e criatividade. Nada acontece em Como Você Sabe. E essa é a pior sensação que pode existir em um filme.

Não sei qual público vai conseguir apreciar esse resultado bocejante. De verdade. A inexpressividade é tanta que não dá nem para definir a quem Como Você Sabe é dirigido. Aos fãs de James L. Brooks? Aos que gostam de comédias contidas? Ao público de Reese Witherspoon, Paul Rudd, Owen Wilson e Jack Nicholson? Não sei. O filme é corretinho e tudo mais (lamento ver um elenco satisfatório envolvido nesse projeto), mas nunca dá sinais de que está sequer perto de decolar. Tedioso, Como Você Sabe é para ser esquecido de tão irrelevante. Atenção, mr. Brooks, hora de trocar o disco!

FILME: 4.5


“Oceanos” em imagens

Oceanos é um documentário francês inteiramente sustentado por imagens e trilhas. Em termos de documentário, não chega a ser um grande exemplar do gênero, mas que imagens ele nos traz! São elas que valem a pena. Para se ver na maior tela, com a melhor qualidade possível!

De Pernas Pro Ar

Direção: Roberto Santucci

Elenco: Ingrid Guimarães, Maria Paula, Bruno Garcia, Denise Weinberg, João Fernandes, Cristina Pereira, Rodrigo Candelot, Marcos Pasquim

Brasil, 2010, Comédia, 107 minutos

Sinopse: Alice (Ingrid Guimarães)  já passou dos 30, é casada com João (Bruno Garcia), tem um filho e é uma executiva bem sucedida. Na verdade, ela é uma típica workaholic, que tenta se equilibrar entre a rotina de trabalho e a família, mas perde o emprego e o marido no mesmo dia. É quando ela passa a contar com a ajuda da vizinha Marcela (Maria Paula) para mostrar que é possível ser uma profissional de sucesso sem deixar os prazeres da vida de lado. Para isso, Alice vira sócia da nova amiga em um sex shop falido, enquanto Marcela ajuda ela a descobrir os prazeres dos sex toys.

De vez em quando, o cinema brasileiro inventa de lançar uma comédia constrangedora. Nem considero Se Eu Fosse Você parte desse grupo (ok, é um filme bobo, mas não chega a ser vergonhoso), mas produções como A Casa da Mãe Joana, por exemplo. O último exemplar desses filmes que fazem o espectador se contrair na poltrona querendo se esconder é De Penas Pro Ar. Desperdiçando o carisma de Ingrid Guimarães e a possibilidade de ser bem sucedido em um assunto normalmente vulgarizado, o filme de Roberto Santucci é uma sucessão de escolhas mal executadas.

Sexo é um assunto que por si só já causa risadas em muita gente, principalmente quando você coloca vários jovens com os hormônios à flor da pele juntos em uma sala. Talvez esse grupo até consiga se divertir com De Pernas Pro Ar, já que o roteiro utiliza bastante todos os tipos de piadas sexuais possíveis. Só que, para quem deseja algo mais original ou pelo menos bem encenado, o longa-metragem deixa muito a desejar. Aliás, parece que  filma tudo de forma muito amadora, com tomadas extremamente previsíveis e sem qualquer personalidade. A direção de arte, então! É trabalho de um filme caseiro de tão mal explorada…

O roteiro de De Pernas Pro Ar já é problemático. Só ele já bastaria para estragar o filme. É aquela velha ladainha da mulher que trabalha demais, não dá atenção para o marido e, de repente, é abandonada por ele e demitida de seu cargo na empresa. Ela reconstrói sua vida de maneira inusitada e, quando alcança êxito de novo, percebe que só a família é o importante na vida. Clichê até o último fio de cabelo, mas intercalado por uma temática sexual nada atraente e por uma direção que não consegue nem dar ritmo para as piadas.

O ponto alto do humor está todo no trailer (e, se você não gostou da prévia, saia correndo do filme) e De Pernas Pro Ar não apresenta nada além do que está mostrado ali. Pelo contrário, só piora. Enfim, é lamentável ver uma boa atriz como Ingrid Guimarães reduzida a um filme desses. Até dá para entender as intenções, mas nada justifica um longa sem foco, com cenas sem qualquer conexão e um roteiro tão apelativo (não no sentido sexual, mas no modo como força cada situação mesmo). Com raros momentos de graça, De Penas Pro Ar proporciona, no máximo, um sorriso amarelo. Até relevaria certos erros justificando que ele é um produto para o grande público, mas nem assim foi possível…

FILME: 4.0

Pânico 4

One generation’s tragedy is the next one’s joke.

Direção: Wes Craven

Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Emma Roberts, Hayden Panettiere, Nico Tortorella, Adam Brody, Kristen Bell, Anna Paquin

Scream 4, EUA, 2011, Terror, 111 minutos

Sinopse: Sidney Prescott (Neve Campbell) está de volta a sua cidade natal, Woodsboro, onde sobreviveu a uma série de terríveis assassinatos. Uma vez lá, ela reencontra o xerife Dewey (David Arquette) e a jornalista Gale (Courteney Cox), agora casados, e também a prima Jill (Emma Roberts). Mas enquanto a cidade comemorava o aniversário dos crimes, novos assassinatos começam a acontecer e o retorno de Ghostface, o assassino da máscara, parece ser uma nova realidade para a cidade que novamente entra em pânico.

Gostaria que alguém me corrigisse se eu estiver errado, mas quando criticamos ou fazemos piada (no mau sentido) de alguma coisa, não é sinal de que faríamos tudo diferente? Vamos levar como exemplo Pânico 4. Durante vários momentos, o filme de Wes Craven tira sarro do próprio gênero e, inclusive, faz referências a outras franquias para mostrar como o terror anda desgastado. Uma personagem, por exemplo, chega a mencionar Jogos Mortais 4 como nojento e desprovido de evolução de personagens. Ora, se Pânico 4 faz tanta questão de mostrar o cansaço do gênero terror e de fazer piada das previsibilidades desses filmes, era de se esperar que o quarto volume da série não fosse, pelo menos, repetir esses aspectos que tanto critica.

Grande engano. Chega a ser até irônico acompanhar uma história que se contradiz em diversos momentos. Pânico 4, ao mesmo tempo que tira sarro dos formatos dos filmes de terror, constrói sua história justamente em torno desses moldes. Resumo da história: ri e “critica”, mas vai lá e segue justamente o que lhe serve como alvo de deboche. Por um outro lado, a boa notícia é que a franquia continua com a mesma eficiência de antes. Não vejo muita diferença entre os três primeiros filmes e, em termos de suspense, esse quarto não se difere muito dos anteriores. O mesmo tipo de desenvolvimento, repetição de resoluções, sequências de tensão já conhecidas e por aí vai… Para quem aprecia, um prato cheio, claro.

Inclusive, existem algumas melhorias. Não lembro de sequências tão tensas como as do quarto volume. Claro que elas são bem parecidas com as dos longas anteriores, mas parecem providas de um maior realismo ou, até mesmo, de maior competência em jogar sangue para todos os lados mesmo. Junto a isso, permanecem os personagens com as mesmas características: o policial pamonha que não resolve nada vivido por David Arquette, a inescrupulosa jornalista de Courteney Cox e a sofrida Sidney Prescott interpretada por Neve Campbell. No sentido de reviver a série e de matar a saudade, Pânico 4 cumpre sua missão com louvor – até porque o resultado consegue ser bem divertido, mesmo com piadas que nada acrescentam, como aquela que diz que gays não morrem em filmes de terror (?!).

No entanto, volta-se para aquela questão citada anteriomente. Aliás, devo dizer que, em determinado momento, pensei que Pânico 4 fosse, de fato, escapar das obviedades e se diferenciar dos filmes que tanto satiriza. Nos momentos finais, estava pronto para aplaudir uma decisão madura da equipe. Mas eis que eles não conseguiram ir adiante com a escolha. Faltou a coragem e a inovação que eles próprios exigem dos filmes de terror atuais. No final das contas, aqueles dois personagens cinéfilos que “racionalizam” os assassinatos através de filmes sintetizam bem o que é Pânico 4: um filme esquematizado e que não escapa da cartilha trabalhada por eles antes. Emma Roberts e sua personagem que deixa forte impressão mereciam resoluções que, de fato, viessem justificar o pôster do longa que diz existir novas regras para uma nova década. O que se viu, afinal, foi um bom remember dos filmes anteriores. Nada de novo…

FILME: 7.5

Na coleção… Coisas Belas e Sujas

Aprecio demais a carreira do diretor Stephen Frears. Não só os seus trabalhos com a realeza (Ligações Perigosas e A Rainha são ótimos), mas também aqueles pequenos filmes como Coisas Belas e Sujas. Essa produção estrelada por Chiwetel Ejiofor e Audrey Tautou recebeu, inclusive, uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. Nomeação merecida, uma vez que Coisas Belas e Sujas é um filme bem amarrado e que nunca perde o ritmo.

O enredo é o seguinte: o nigeriano Okwe (Chiwetel Ejiofor) está vivendo ilegalmente na Inglaterra, assim como a turca Senay (Audrey Tautou) também tem seus problemas com a legalização de sua permanência no país. Os dois estão tendo um romance e trabalhando no hotel Baltic. Uma noite, Okwe descobre o mercado de tráfico de órgãos, onde os “doadores” cedem, por exemplo, um rim para conseguir passaporte para outro país. Okwe e Senay, então, começam a se envolver cada vez mais nesse perigoso mundo clandestino para conseguir suas respectivas legalizações.

Com uma premissa dessas, diretores mais inexperientes poderiam cair no lugar-comum ou, então, criar uma história completamente irregular. Sorte que Stephen Frears foi certeiro no tom de denúncia e ainda conseguiu criar um filme que tem vários momentos de tensão e suspense. O ponto forte de Coisas Belas e Sujas é o roteiro, que tem a notável habilidade de ser eficiente sem nunca perder as rédeas. Esse é um trabalho pequeno e sem grandiosidades, mas que deve conquistar muita gente com o ótimo resultado. Só resta saber se todos vão querer embarcar nessa história que, de certa forma, é desconfortável e traz uma visão mais “negativa” de Londres.

FILME: 8.0