Cinema e Argumento

Extremamente interessante, incrivelmente promissor

Stephen Daldry é um sujeito que alcançou um nível raro. Ele recebeu indicação ao Oscar de diretor por todos os filmes que fez. E esse feito se torna ainda mais notável porque estamos falando de um diretor de origem teatral que conseguiu vencer no cinema. O britânico tem a habilidade de diferenciar as linguagens e seus filmes não têm traços teatrais que possam ser criticados – ao contrário do debut de John Patrick Shanley, em Dúvida. Daldry tem, no mínimo, uma obra-prima em seu currículo: As Horas, que é um dos melhores filmes das últimas décadas.

Mais do que isso, Daldry, como era de se esperar de um diretor teatral, sempre faz um trabalho magnífico com seus atores – todos os filmes dele pelo menos indicaram uma atriz: Julie Walters concorreu como coadjuvante, ao passo que Nicole Kidman e Kate Winslet foram consagradas com o prêmio da Academia. Ou seja, Daldry é completo – e é heresia criticá-lo por ter “roubado” as indicações ao Oscar de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Heresia porque o filme de Nolan sequer concorreu nas categorias principais dos grandes prêmios, enquanto O Leitor era nomeado em praticamente todos.

Nenhum exagero, então, esperar ansiosamente pelo próximo trabalho do diretor. Afinal, Daldry conseguirá manter sua trajetória de 100% de aproveitamento? É bem provável que sim, principalmente depois que o trailer de Extremely Loud & Incredibly Close foi divulgado. Com um excelente grupo de atores que traz Tom Hanks, Sandra Bullock (com um papel que pode mostrar como seu Oscar por Um Sonho Possível foi prematuro e injusto), Viola Davis, John Goodman, Jeffrey Wright, Max Von Sydow e o jovem Thomas Horn, o filme tem estreia marcada para dezembro nos Estados Unidos.

O novo trabalho de Daldry é baseado no livro de mesmo nome do autor Jonathan Safran Foer e conta a história de um garoto de nove anos de idade (Horn) que sai por Nova York em busca de um cofre, cuja chave foi deixada por seu pai, que morreu no 11 de setembro. Nessa jornada, ele conhece diversas histórias, ouve a experiência de pessoas estranhas e tenta procurar algum tipo de paz após a perda de seu pai. A julgar por esse maravilhoso trailer, estamos diante de um filme extremamente interessante.

Já foi dito por aí que a prévia parece uma manjada mensagem norte-americana de esperança. Não vejo dessa maneira. O que podemos perceber no trailer de Extremely Loud & Incredibly Close é que o filme utilizará sim dramas do país, mas que contará uma história focada em descobertas e relacionamentos. Fica, agora, a expectativa por esse mais novo longa do diretor, que entregou uma das prévias mais eficientes até o momento para a award season. Muito promissor.

Cartas mal endereçadas

De todos os longas em competição no 39º Festival de Cinema de Gramado, O Carteiro era o que tinha maior apelo comercial. Dirigido por Reginaldo Faria, tinha qualidade de produção mais televisiva, nomes conhecidos e pretensões para alcançar o grande público. Só é uma pena que nenhum desses fatores conseguiu transformar O Carteiro numa opção interessante. Cheio de problemas narrativos, o filme decepciona não apenas por perder a chance de trazer diversão, mas, também, por desperdiçar atores que poderiam ser destaque.

O que estraga o ritmo e, consequentemente, o interesse do espectador na história é o roteiro. Focado em vários personagens, falta em Faria aquela agilidade na direção para tornar dinâmico um enredo cheio de abordagens. O que vemos é um verdadeiro tiro no pé: na tentativa de ligar várias histórias e personagens, o filme termina sendo frenético e até mesmo confuso em certas partes. Junte a isso personagens caricatos que quase não possuem qualquer diálogo com a realidade: todos são engraçadinhos ou vivem situações excêntricas.

Pelas razões citadas, percebe-se como Reginaldo Faria não tem dom para ser um contador de histórias. As plateias podem se divertir com O Carteiro, mas também é fácil encontrar aqueles que se decepcionaram com o filme e que, principalmente, não foram atraídas pelo tom caricato e quase exagerado de certas partes. Tratando tudo com um tom que beira o teatral (no sentido negativo), o longa não consegue se diferenciar exatamente por misturar uma narrativa mal construída com abordagens que imploram pela simpatia do espectador a todo custo.

Planeta dos Macacos: A Origem

He thinks he’s special or something.

Direção: Rupert Wyatt

Elenco: James Franco, Andy Serkins, John Lithgow, Freida Pinto, Tom Felton, Brian Cox, David Oyelowo, Tyler Labine, Jamie Harris

Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2011, Ficção, 105 minutos

Sinopse: Will Rodman (James Franco) é um cientista que trabalha em um laboratório onde são realizadas experiências com macacos. Ele está interessado em descobrir novos medicamentos para a cura do mal de Alzheimer, já que seu pai, Charles (John Lithgow), sofre da doença. Após um dos macacos escapar e provocar vários estragos, sua pesquisa é cancelada. Will não desiste e leva para casa algumas amostras do medicamento, aplicando-as no próprio pai, e também um filhote de macaco de uma das cobaias do laboratório. Logo Charles não apenas se recupera como tem a memória melhorada, graças ao medicamento. Já o filhote, que recebe o nome de César, demonstra ter inteligência fora do comum, já que recebeu geneticamente os medicamentos aplicados na mãe. O trio leva uma vida tranquila, até que, anos mais tarde, o remédio para de funcionar em Charles e, em uma tentativa de defendê-lo, César ataca um vizinho. O macaco é então engaiolado, onde passa a ter contato com outros símios e, cada vez mais, se revolta com a situação.

O maior benefício das franquias que são ressuscitadas atualmente é o de despertar o interesse das novas gerações por histórias que, um dia, marcaram o cinema e também espectadores. É o caso, por exemplo, de Star Trek, um excelente trabalho de J.J. Abrams que, além de dialogar de forma certeira com os fãs de blockbuster, também consegue despertar a curiosidade do público em relação aos trabalhos anteriores da franquia. Planeta dos Macacos: A Origem também consegue esse feito. Só que, ao contrário da turma do capitão Spock, o longa de Rupert Wyatt não consegue ir além de uma boa mensagem e de despertar a curiosidade. Como filme solo, ficou com um gosto de quero mais – e não necessariamente no bom sentido.

Planeta dos Macacos: A Origem se desprende dos filmes anteriores para lançar uma história quase independente. É muito fácil, por exemplo, que o público leigo pense que, a partir de agora, veremos outros vários filmes que discutam as questões abordadas aqui. Não é bem assim: esse longa, que é um prequel, dialoga com os exemplares antigos, só que de forma bem sutil para quem desconhece maiores detalhes. Com maiores abordagens hollywoodianas, Planeta dos Macacos: A Origem pode ser definido como uma diversão que carrega uma mensagem sempre atual. A discussão sobre como o humano é, em vários aspectos, inferior aos animais é o que permeia essa produção que consegue prender a atenção do espectador.

Apresentando um ótimo trabalho de efeitos especiais (e nisso podemos incluir o sempre brilhante resultado do ator Andy Serkins ao dar vida ao macaco Cesar através da performance capture), o filme de Rupert Wyatt cria certa tensão não apenas ao mostrar um conflituoso cotidiano entre animais e humanos, mas também ao achar o tom certo em algumas situações que parecem estar sempre prestes a explodir. É esse sentimento de que algo muito sério vai acontecer a qualquer momento que envolve o espectador. E os efeitos possuem papel fundamental nessa missão de tornar tudo ainda mais palpável para o espectador. Nós acreditamos em tudo que estamos vendo e, a cada cena, permanecemos inquietos com o sutil crescimento dos problemas entre os personagens.

No entanto, se Planeta dos Macacos: A Origem é certeiro ao segurar o público na cadeira e tornar o enredo inquietante, sofre por não conseguir apresentar consistência em seus argumentos. O roteiro anda em círculos e mais da metade do filme é inteiramente baseado em fatos repetidos. Outro problema é a forma errada como o filme generaliza a espécie humana: todos, com exceção do protagonista e seus agregados, são incrivelmente maquiavélicos para os macacos e a forma caricatural com que isso é mostrado quase enfraquece a mensagem no filme – e, nesse sentido, o exagerado  Tom Felton é o grande representante dos forçados personagens que maltratam animais.

Resumo da história: se por um lado Planeta dos Macacos: A Origem é extremamente eficiente em sua técnica, não consegue ter a mesma consistência em conteúdo. O clímax do filme, que parece ser constantemente protelado por histórias que pouco acrescentam (o pai do protagonista com Alzheimer, por exemplo), termina sendo o mais esperado – e por pouco não se torna uma ação descontrolada devido a essa necessidade de compensar conteúdo raso com valiosa tecnologia. Sorte que os efeitos impressionam e  que toda aquela rebelião que se instala no mundo dos personagens se torna ainda mais interessante graças a esse compentente trabalho visual. No final das contas, Planeta dos Macacos: A Origem é um satisfatório filme-pipoca para grandes bilheterias, não necessariamente uma homenagem aos fãs dos filmes anteriores.

FILME: 7.5

Na coleção… Ensaio Sobre a Cegueira

O documentário José e Pilar, que regrista o cotidiano do escritor português José Saramago com sua mulher, Pilar, traz uma linda cena: aquela em que ele, emocionado após a sessão de Ensaio Sobre a Cegueira, diz para o diretor Fernando Meirelles que, ao fim do filme, estava tão feliz quanto no momento em que finalizou seu livro. Saramago, que esteve doente antes da exibição do filme, agradece por ter tido a chance de assistir a Ensaio Sobre a Cegueira e diz que não saberia o que estava perdendo caso a vida não tivesse lhe dado a chance de ver a adaptação de sua obra para o cinema. E se a produção foi recebida de forma gélida pela crítica, Meirelles nem precisa se preocupar com isso: ele tem a completa aprovação desse gênio da literatura que escreveu o livro em que Ensaio Sobre a Cegueira foi baseado. Sinceramente, precisa da aprovação de mais alguém?

Sempre foi dito que essa obra de Saramago era impossível de ser adaptada, o que é verdade, já que o livro é extremamente complexo do ponto de vista narrativo e traz assuntos muito delicados que podem cair no exagero se adaptados pelas pessoas erradas. Dessa maneira, é no mínimo notável o que fez o filme de Fernando Meirelles. Adaptado por Don McKellar, Ensaio Sobre a Cegueira, em sua versão cinematográfica, discute com eficiência todos os aspectos sociais que são propostos pela trama. A cidade e, principalmente, a sociedade devastada por uma cegueira repentina e inexplicável é o ponto alto desse trabalho que, em diversos momentos, consegue se transformar numa experiência impactante e até mesmo claustrofóbica. Nós compartilhamos do desespero dos personagens e, claro, compartilhamos das angústias da única personagem que não foi afetada pela cegueira, a mulher do médico, vivida por Julianne Moore.

A fotografia, acusada de ser óbvia, é outro ponto a ser destacado. Utilizando tons fortes de branco para ressaltar a cegueira dos personagens (que é, justamente, clara, e não escura como habitual), deixa tudo ainda mais interessante, pois traz uma visão completamente crua desse manicômio onde o filme é passado. E se o desempenho de Julianne Moore é um dos mais subestimados da carreira da atriz (ela, sem dúvida, merecia indicações e honrarias), é a destruição dos personagens que mais marca nesse filme. Ao mostrar como o homem volta ao estado primitivo quando colocado em uma situação desesperadora, Ensaio Sobre a Cegueira apresenta cenas fortes – tanto do ponto de vista dramático quanto do visual. Tal crueza prejudicou algo que poderia tornar Ensaio Sobre a Cegueira uma obra-prima: a emoção. Se não fosse tão seco, seria mais que excelente. Seria referência obrigatória.

FILME: 8.5

O mágico piano de Philip Glass

Poucos minutos depois das nove horas da noite do dia 19 de setembro, um senhor vestido todo de preto entrou no palco do Theatro São Pedro, em Porto Alegre, e arrancou aplausos da plateia. Ele, com jeito muito tímido, saudou a plateia com um “boa noite” em português. Era o músico norte-americano Philip Glass que, em sua terceira apresentação na capital gaúcha, mostrou o porquê de ser considerado um dos profissionais mais influentes de sua área. Ele falou em português a noite inteira, surpreendendo a plateia, e fez uma apresenteção de quase duas horas – excedendo a duração inicial programada para apenas 80 minutos.

Philip Glass, hoje com 74 anos, já transitou entre os mais variados cenários musicais: compôs para o teatro, criou óperas, dedicou-se a solos em piano, trabalhou para o cinema e já direcionou o seu talento para inúmeros instrumentos. O autor das espetaculares trilhas de As Horas (sua obra-prima definitiva) e Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, alcançou fãs incondicionais ao redor do mundo com obras extremamente íntimas e singulares em suas sonoridades. Se Einstein on the Beach é o seu trabalho mais aclamado, também não podemos deixar de citar passagens da carreira de Glass igualmente impressionantes, como o álbum Solo Piano.

Apresentando-se com o violinista Tim Fain, Philip Glass revelou que a obra selecionada para aquele momento era extremamente pessoal e que ele quase nunca se apresenta desta maneira. O evento teve alternância entre solos de piano e violino, para, depois, unir os dois instrumentos nos melhores momentos da apresentação: Music for The Screens e a recente Pendulum. Nas três divisões de Music for The Screens (onde podemos destacar a maravilhosa The French Lieutenant) e também na breve Pendulum, fica evidente a eficiente parceria de Glass e Fain.

A apresentação, que teve início mais do que marcante com a belíssima Metamorphosis Two (composição que serviu de inspiração para algumas das melodias da trilha de As Horas), foi um verdadeiro espetáculo para os apaixonados por música. Não só por ter como principal estrela Philip Glass, mas, também, por revelar o jovem Tim Fain, que já foi solista de várias orquestras do mundo tocando de Beethoven à Tchaikovsky. É uma dupla que faz o melhor com seus respectivos instrumentos, mostrando, claro, forte dedicação pela arte.

Aplaudidos fervorosamente, Glass e Fain retornaram ao palco duas vezes após o anúncio do final da apresentação. O veterano compositor, então, disse que o bis seria dividido entre ele e Fain. Enquanto o violinista tocou de forma impressionante uma parte de Einstein on the Beach (obra que é um verdadeiro desafio para se tocar em solo), Glass encerrou sua passagem por Porto Alegre com Opening, de Glassworks. Em qualquer momento da noite, o veterano compositor transpareceu sua paixão por música: fácil vê-lo tocando de olhos fechados, como se estivesse “sentindo” a música.

Glass, portanto, recebe pelo menos três agradecimentos. Primeiro, o da plateia, que estava visivelmente encantada. Segundo, o de Fain (numa escala de tempo, tem mais aparição que o próprio Glass, devido ao maior tempo dos solos de violino), que muito em breve deve seguir os passos de outro pupilo de Glass: Nico Muhly, que foi assistente do compositor em Notas Sobre Um Escândalo e, depois, fez sucesso e compôs a trilha de O Leitor. E, por último, o meu. As três horas de fila para conseguir ingresso valeram a pena. Obrigado, sr. Glass, por uma das noites mais incríveis da minha vida!