Cinema e Argumento

Margin Call – O Dia Antes do Fim

There are three ways to make a living in this business: be first, be smarter, or cheat.

Direção: J.C. Chandor

Elenco: Kevin Spacey, Paul Bettany, Zachary Quinto, Penn Badgley, Jeremy Irons, Demi Moore, Stanley Tucci, Mary McDonnell, Simon Baker

Margin Call, EUA, 2011, Drama, 107 minutos

Sinopse: Peter Sullivan (Zachary Quinto), Seth Bregman (Penn Badgley) e Will Emerson (Paul Bettany) trabalham no setor de recursos humanos de uma empresa, sendo responsáveis pelos trâmites burocráticos da demissão dos funcionários. Um dos demitidos é Eric Dale (Stanley Tucci), que entrega a Peter um pen drive contendo um projeto no qual estava trabalhando. Peter conclui o projeto em casa e descobre que ele excede os níveis históricos de volatilidade com os quais seu empregador trabalha. Quando o projeto entra em funcionamento, logo as ações da empresa caem 25%. A situação faz com que os executivos que comandam a empresa se reúnam para encontrar uma solução o mais rapidamente possível.

Não é novidade a tendência da realidade pautar o cinema. O que mudou, nos últimos tempos, foi a velocidade com que certos fatos viram filmes. Tudo é instantâneo e isso, claro, não parte da vontade de fazer algo autoral e sim de razões financeiras ou, então, da urgência de conquistar públicos com acontecimentos recententemente vivenciados por eles. Se o 11 de setembro rende material até hoje (Tão Forte e Tão Perto, o próximo filme de Stephen Daldry é um exemplo), podemos esperar mais uma leva de produções sobre a crise econômica que afetou os Estados Unidos no ano de 2008. De maior destaque nesse segmento, podemos citar Wall Street 2 – O Dinheiro Nunca Dorme e o desinteressante documentário vencedor do Oscar Trabalho Interno. São duas produções que começaram a discutir o assunto mas que, em nenhum momento, conseguiram empolgar. Margin Call – O Dia Antes do Fim apresenta mais uma trama passada durante a tal crise – só que, assim como seus colegas semelhantes em temática, também fica no meio do caminho.

O principal desafio de histórias que versam sobre fatos econômicos não é criar desenvolvimentos engenhosos ou tramas surpreendentes, mas sim descomplicar esse terreno tão limitado para o público leigo. Não apenas no que se refere ao uso de vocabulários técnicos, mas também na própria velocidade como insere o espectador nesse mundo. Margin Call – O Dia Antes do Fim cumpre parcialmente essa jornada. O curioso aqui é ver como a trama permanece falha na didática (tudo é muito técnico, falado como se todos compreendessem o mundo da economia), mas eficiente no clima criado. O diretor J. C. Chandor consegue, mais do que Wall Street 2 ou Trabalho Interno, mostrar como o dinheiro move o mundo e que o mercado é algo muito delicado: basta um mínimo detalhe dar errado para que tudo venha abaixo. Isso está bem evidente na forma como Margin Call mostra a influência do preocupante cenário econômico nas relações corporativas: tudo vai muito além de ideais, às vezes é preciso agir conforme a decisão dos outros para manter-se vivo no jogo. É um longa, portanto, que se beneficia por mostrar bem o entrave entre personagens de princípios opostos, a vontade de crescer numa corporação e como as relações são conduzidas pelo ambiente de trabalho.

Os personagens dependendo da economia para, por exemplo, continuar empregados ou bem posicionados na empresa pauta o suspense de Margin Call. É essa tensão que leva o espectador para dentro do eficiente clima criado pelo diretor. E essa tensão, apresentada no típico formato de filme só com diálogos, permanece presente durante um bom tempo – mais especificamente enquanto a história é encenada à noite (o filme é passado em tempo real). A verdade é que, como já constatado em outras produções com mesmo teor, não é fácil manter um bom ritmo durante todo o tempo com um assunto desses. E Margin Call, infelizmente, perde sua força pouco a pouco, especialmente quando resolve mostrar para o espectador como os personagens pretendem solucionar a crise que estão vivendo. A partir daí, o roteiro começa a repetir situações e apresentar diálogos que pouco acrescentam. Por sorte, o elenco, que é destaque mais pelo conjunto geral do que por interpretações em particulares, permanece intacto até o último momento, tornando-se, por fim, o grande atrativo desse filme que era promissor até certo ponto e, depois, revelou-se plano e sem grandes momentos.

FILME: 7.0

Um Dia

If I can’t talk to you, then what is the point of you? Of us?

Direção: Lone Scherfig

Elenco: Anne Hathaway, Jim Sturgess, Patricia Clarkson, Jodie Whittaker, Rafe Spall, Tom Mison, Joséphine de la Baume, Ken Stott, Heida Reed

One Day, EUA/Inglaterra, 2011, Romance, 107 minutos

Sinopse: Vinte anos. Duas pessoas. Em Um Dia, Emily (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess) se conhecem e, a princípio, assumem que não dariam certo juntos. Tentando manter uma amizade, os dois convivem durante anos, mas um sentimento diferente sempre permanece escondido. Diversas situações levam os dois personagens a uma conclusão: eles foram feitos um para o outro. Mas será mesmo que a vida está disposta a juntá-los?

Um Dia começa em 15 de julho de 2006. Na primeira cena, acompanhamos Emily (Anne Hathaway) andando de bicicleta por uma rua. O calendário, então, muda e o filme volta para o dia 15 de julho de 1986. Qualquer cinéfilo mais experiente – e diria que até os menos dedicados – já conseguem deduzir que, quando uma história começa a partir de certo ponto na primeira cena para, depois, voltar no tempo, é porque algo vai acontecer. Na maioria das vezes, envolve um final trágico ou uma trama mirabolante para explicar como tudo chegou surpreendentemente naquele ponto. É exatamente por esse começo já indicando que algo pode acontecer a qualquer momento que Um Dia se torna previsível. Desconfiamos que algo vai acontecer, principalmente quando o filme é definido por vários que o assistem como “lindo” e “triste”. Só incomoda o fato de que Um Dia é triste por razões erradas e óbvias, perdendo a oportunidade de fazer algo diferente e genuinamente doloroso.

Dirigido por Lone Scherfig com um charme habitual (mas não o suficiente para se igualar ao ótimo Educação), Um Dia é sobre as idas e vindas de duas pessoas que, a princípio, pensam ser somente amigas mas que, com o passar dos anos, percebem que existe muito mais do que apenas amizade entre elas. É uma temática batida, é verdade, mas que, se trabalhada com os devidos toques de melancolia e sutileza, consegue ir além de um mero filme romântico bem construído: pode até mesmo fazer com que a identificação do público com a história seja um grande ponto a favor. E se a narrativa estruturada em anos (o longa ilustra de 1986 a 2006 o relacionamento dos personagens) poderia ser um problema, não é o que acontece aqui. O divisor de águas está na abordagem do tema. Enquanto os mais românticos encontram em Um Dia um filme água com açúcar, os que esperam algo mais consistente do ponto de vista dramático podem se decepcionar com a falta de profundidade.

A culpa está longe de ser dos protagonistas, até porque Anne Hathaway prova, cada vez mais, ser uma figura extremamente iluminada e carismática. O que define a aceitação do filme é o gosto pessoal de quem o assiste. Se você procura romance, encontrará. Agora, se você, assim como eu, procura algo mais emotivo que não seja tão tendencioso para o lado romântico, pode até existir certa decepção. E essas duas abordagens estão claramente dividias: na primeira metade, o longa se dedica inteiramente a mostrar a juventude dos protagonistas e como o laço entre os dois começou a ser formado; na segunda, já se preocupa em mostrar como eles, já maduros e com vidas estabelecidas, ainda procuram, apesar dos erros, algum tipo de paz emocional. Um Dia acerta justamente quando fala sobre os sonhos perdidos, sobre aquilo que não deu certo ou sobre certas coisas que, talvez, não sejam mais possíveis de se colocar em prática (o segmento do ano 2000 evidencia bem isso). Só que, infelizmente, o longa de Lone Scherfig está mais preocupado em utilizar as ferramentas de romance e de fazer com que o espectador torça pelos dois. Assim, percorre o caminho que tem mais aceitação mas que, como sabemos, paga o preço por ser previsível.

Um Dia, que acerta na escolha de atores e na forma como estrutura a narrativa, perde pontos somente nessa essência previsível em que insiste colocar a todo momento. A história pode ser, como já disseram, bonita, mas não sei até que ponto isso vale quando podemos prever tudo o que está prestes a acontecer. Longe de mim dizer que Um Dia é uma má opção – só desejaria que essa história fosse triste por outras razões e não por um fato óbvio e até mesmo gratuito. De qualquer forma, excetuando essas minhas implicâncias, pode-se dizer que Um Dia acertará em cheio aqueles que gostam de romances açucarados. Não só em função da estética, das locações (Paris presente novamente!), de Anne Hathaway ou dessa aposta constante na simpatia pelos dois personagens. Mas porque é um filme que tem todos os elementos para agradar seu público-alvo. O restante deve se contentar com um filme que está no limite do satisfatório e que não cruza essa barreira por ter certo receio em ousar com outro tipo de infelicidade que não seja a do desfecho – que simplifica demais uma história que poderia ter ido além.

FILME: 7.5

Os Muppets

We all agreed, celebrities aren’t people.

Direção: James Bobin

Elenco: Jason Segel, Amy Adams, Chris Cooper, Alan Arking, Jack Black, Emily Blunt, Whoopi Goldberg, John Krasinski, Zach Galifianakis, Jim Parsons, David Grohl, Selena Gomes. Com as vozes de: Steve Whitmire, Eric Jacobson, Dave Goelz, Bill Barretta, David Rudman, Matt Vogel, Peter Linz

The Muppets, EUA, Comédia, 98 minutos

Sinopse: Walter (voz de Peter Linz), fã dos Muppets, viaja junto com seus amigos Gary (Jason Segal) e Mary (Amy Adams) para Los Angeles. Lá, eles descobrem que Tex Richman (Chris Cooper) quer destruir o Muppet Theatre para explorar o petróleo que recém foi descoberto no local. O trio, então, devide salvar o lugar. Para tanto, reúnem mais uma vez os Muppets, com o objetivo de realizar um programa de TV que consiga arrecadação de dez milhões de dólares.

Algo que pode ser concluído com Os Muppets é que desenhos e filmes infantis estão dialogando tanto com as crianças quanto com os adultos. Se Up – Altas Aventuras tinha uma cena arrasadora sobre a brevidade de nossa existência e Toy Story 3 falava sobre as dores e felicidades de crescer, Os Muppets vem para mostrar que sempre é possível recuperar o passado e que nada está perdido para sempre – basta um puquinho de vontade e determinação para trazer tudo de volta ao presente. Ok, o filme de James Bobin é menos consistente e contundente na sua mensagem do que as animações da Pixar, mas nem por isso deixa de ter seus momentos especiais e, principalmente, de carisma – atribuídos quase que inteiramente aos espetaculares personagens.

É isso mesmo, Os Muppets é todo de Kermit, Piggy, Walter e cia. Sem eles, o filme não teria nem metade da graça que tem. Essa afirmação é baseada no fato de que a história vivida pelos icônicos personagens é óbvia, previsível e até mesmo boba. Incomoda muito a fragilidade da história, que parece ser aleatória, sem muita consistência. Qualquer situação é motivo para piadas ou para alguma trapalhada. É um fiapo de história conduzindo um filme que, em diversos momentos é até meio perdido (notem como as figuras de Jason Segel e Amy Adams alternam entre os papeis de figurante-entra-mudo-sai-calado e de destaque com tramas superficiais) e que, por diversas vezes, aposta em bobeiras: é aquele velho esquema onde um personagem fica o filme inteiro martelando outro para não esquecer de algo e este vai lá e… Esquece!

Ou seja, consistência não é algo que existe em Os Muppets. Só que, sinceramente, não dá para esperar isso de um filme que, claramente, quer ser um remember para o público que já está familiarizado com os personagens e, principalmente, uma diversão para conquistar a parcela infantil. Todas ferramentas de humor são usadas quase que exlusivamente para agradar as crianças – com uma ou outra referência diferente que elas sequer vão entender, como a de miss Piggy fazendo uma paródia de Anne Wintour e Emily Blunt reprisando seu papel de O Diabo Veste Prada como mais uma mal humorada secretária que lida com a chefe megera. Tudo bem básico e inocente, algo que também se reflete nas interpretações de Amy Adams (sempre a mocinha inocente e meiga) e Jason Segal (menos eficiente do que o protagonista deveria ser).

Só que os humanos são o que menos interessa. O show mesmo é dos muppets que conquistam não apenas por seus visuais simplistas, mas por suas personalidades. Figuras encantadoras que sustentam o filme e que, mais importante de tudo, tornam agradável um enredo que, se fosse mostrado em qualquer outro desenho corriqueiro, seria completamente aborrecido. É esse sentimento de nostalgia e de carinho despertado pelos muppets que tornam a experiência tão válida. Entrando no clima deles, conseguimos até encontrar emoção nas lições de moral. Os Muppets, por fim, é isso: leve, sem ousadias, plano e previsível. Mas agradável e inocente como poucas obras do gênero conseguem ser. Tudo isso com uma notável ajuda da ótima trilha sonora – sempre no ponto, transitando da comédia ao drama (sendo Pictures in My Head a minha favorita). Se, após 12 anos sem filme, os muppets queriam retornar, conseguiram esse feito com saldo positivo. Crianças e fãs dos personagens podem se dar por satisfeitos.

FILME: 8.0

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Independent, Board, New York

Sempre gosto de dizer que prêmios de associações não querem dizer nada em relação ao Oscar, principalmente em categorias de atuação. Aliás, só acho válido fazer apostas consistentes lá na época dos indicados ao BAFTA. A maior prova disso? O Discurso do Rei, que, na última hora, desbancou A Rede Social, considerado favorito absoluto. Só que essa tendência não é de hoje, ela já se repetiu em anos anteriores: Avatar também foi outro desbancado de última hora. Na lista de atores e atrizes, nem vale a pena discorrer muito. Basta lembrar da vitória repentina de Sandra Bullock, que, em prêmios menores e em listas de associações, sequer aparecia numa batalha que parecia destinada para Carey Mulligan e Meryl Streep. Ou seja, esse negócio de previsões para o Oscar logo no início vale mais pela diversão em si do que necessariamente tentar adivinhar quem vencerá o prêmio da Academia. Entrando nessa diversão, fiz breves comentários sobre três listas que foram divulgadas recentemente.

A Associação de Críticos de Nova York já começou elegendo The Artist como filme do ano – o que não me convence muito, já que parece extremamente improvável a ideia de ver premiações como Globo de Ouro e Oscar consagrando um filme preto-e-branco e mudo. Principalmente depois de um ano em que o “clássico” foi homenageado pelo Oscar com O Discurso do Rei, o que irritou muita gente. E, se for uma obra-prima, o filme de Michel Hazanavicius tem a cara daqueles filmes que são ignorados solenemente pelas estatuetas. Nas atuações, a Associação confirma a ideia de que a temida direção de Phyllida Lloyd em A Dama de Ferro não deve ser problema para Meryl Streep, que foi eleita a melhor atriz. A surpresa ficou com Brad Pitt, escolhido como melhor ator por Moneyball e A Árvore da Vida (o filme também foi coroado com uma merecida vitória para o excelente Emmanuel Lubezki). Jessica Chastain foi a melhor coadjuvante por Vidas Cruzadas, A Árvore da Vida e Take Shelter, enquanto Albert Brooks foi o coadjuvante do ano por seu trabalho em Drive. Confira a lista.

Já o Independent Spirit Awards confirma a tendência de que The Descendants, novo filme de Alexander Payne (vencedor do Oscar de roteiro por Sideways e diretor do meu filme favorito, As Confissões de Schmidt) terá grande presença nas premiações. É certo dizer que essa é uma premiação do cinema independente, mas, como a obra foi a que mais se destacou entre os indicados, podemos defini-la como a principal representante desse segmento na temporada de prêmios – sem contar que ser estrelado por George Clooney sempre ajuda muito. O preocupante da lista é ver Glenn Close, dada como a primeira da fila para vencer o próximo Oscar de atriz, sequer figurou na principal categoria de interepretação feminina, enquanto sua colega, Janet McTeer foi nomeada como coadjuvante, o que comprova que eles viram sim o filme e que a ausência de Glenn Close é por falta de votos mesmo. A categoria, portanto, deve ter Michelle Williams como vencedora por My Week With Marilyn… e devo destacar minha felicidade ao ver Lauren Ambrose, atriz do seriado Six Feet Under, sendo reconhecida (ainda não vi Think of Me, mas tenho um carinho grande por Lauren). Conheça todos os indicados.

Por fim, o National Board of Review escolheu Hugo como o filme do ano. Um pouco estranho. Mesmo que nunca seja prudente desconfiar de Scorsese, não acredito que essa aventura comandada pelo diretor tenha maior espaço em outros prêmios. Mas, como já dito, nunca vale a pena desconfiar de Scorsese (que também ganhou como melhor diretor). No top 10 do NBR, pelo menos duas surpresas. Primeiro, J. Edgar, que tinha naufragado após críticas negativas. Segundo, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2. A última parte da saga do bruxo parecia esquecida (é o preço que se paga pelo lançamento distante da temporada de premiações), mas é estimulante ver que ainda se lembram do filme – que merece sim receber honrarias por seu espetacular capítulo final. A atriz do ano foi Tilda Swinton, por We Need to Talk About Kevin, algo que não causa nenhum espanto, já que a atriz é boa e muito tempo atrás já existia buzz para ela. Clooney ficou, novamente, como melhor ator. Senna também foi lembrado, ficando entre os cinco documentários do ano, comprovando o erro da Academia ao tê-lo excluído da lista de pré-selecionados. Acesse a lista.

O que podemos concluir com essas três listas é que ainda é muito cedo para afirmar qualquer coisa. A disputa está extremamente desfocada e não é certo dizer que já existe um franco favorito, em qualquer categoria. Também vale lembrar que certas obras ainda não foram conferidas, a exemplo de Tão Forte, Tão Perto, do queridinho do Oscar, Stephen Daldry. Ainda tem muita coisa para rolar… Nem que seja para o Oscar desmentir tudo depois. O que vale é a diversão!

Contos argentinos

Já virou uma espécie de lei: filme argentino é filme maravilhoso. Ok, não podemos negar que os nossos vizinhos são, realmente, muito bons e que muito frequentemente encantam com a facilidade de fazer maravilhas com histórias completamente simples, sobre as pequenas coisas da vida. Só que também precisamos reconhecer que nem tudo que vem da deles é necessariamente um espetáculo. É o caso de Um Conto Chinês, que, como muitos exemplares do País, foi ovacionado pelo público. A diferença é que, aqui, o resultado chega a decepcionar. Estrelado pelo George Clooney argentino Ricardo Darín – que, assim como o norte-americano, faz mil filmes e tem sempre a mesma (eficiente) cara, esse longa de Sebastián Borensztein é, no máximo, agradável. Principalmente num ano em que a narrativa jovem e assuntos mais contemporâneos alcançaram notável desempenho em outro filme vindo do país, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual.

Um Conto Chinês começa de forma peculiar, com um misto de curiosidade e comédia. Numa bela tarde ensolarada, um casal está num pequeno barco na China. Ele se vira, pega as alianças que estão dentro de uma cesta e se prepara para pedir a moça em casamento. Mas, quando o chinês volta para a amada, uma vaca cai na cabeça dela, matando a pobre chinesa. A partir daí, a história desse rapaz se cruza com a de Roberto (Ricardo Darín), um rabugento argentino que é dono de uma ferragem. E contar qualquer outro detalhe pode estragar Um Conto Chinês, exatamente porque o filme se desenvolve sem qualquer surpresa. É certo que encontramos aqui as sutilezas do cinema argentino, bem como a forma de mostrar enredos de “gente como a gente”. O problema é que o filme é repetitivo, girando em torno de um mesmo assunto o tempo inteiro, sempre sem inovar ou sequer instigar como a cena inicial.

Tal sensação de lugar-comum também fica evidente porque Um Conto Chinês mostra uma situação que já estamos cansados de ver: aquela em que um homem extremamente mal humorado tem sua vida alterada em função de um estranho – e, nesse caso, é fácil lembrar de Gran Torino, já que, em ambos os filmes, o rabugento começa a conviver com um oriental! O coringa que está na manga de Um Conto Chinês é mesmo Ricardo Darín, uma figura que sempre desperta interesse, mesmo quando o filme é apenas regular, como é o caso desse. Com conclusões menos originais do que o esperado, essa experiência cinematográfica agradou muitas pessoas, entrando para a lista dos filmes argentinos venerados. No entanto, acredito que, como já mencionado, seja apenas consequência dessa onda que se instalou de que todo e qualquer longa dos nossos vizinhos é excepcional. Na maioria das vezes, concordo. Dessa vez, não vi o porquê de Um Conto Chinês receber tantos elogios. Não que seja ruim, só é bem menos do que todos apontaram.