Cinema e Argumento

Guerreiro

I think I liked you better when you were a drunk. 

Direção: Gavin O’Connor

Elenco: Tom Hardy, Joel Edgerton, Nick Nolte, Jennifer Morrison, Frank Grillo, Kevin Dunn, Jake McLaughlin, Vanessa Martinez, Carlos Miranda

Warrior, EUA, 2011, Drama, 140 minutos

Sinopse: Tommy Conlon (Tom Hardy) é o filho mais novo de Paddy (Nick Nolte) e voltou há pouco tempo para casa. Tommy supera os problemas do pai com bebida e passa a treinar com ele para poder participar de campeonatos de MMA (Mixed Martial Arts), o famoso vale-tudo. Só que sua trajetória faz com que tenha que enfrentar no ringue Brendan Conlon (Joel Edgerton), seu próprio irmão.  (Adoro Cinema)

Um pequeno grande filme. É assim que podemos definir o surpreendente Guerreiro, que ficou ausente nos cinemas brasileiros e que, agora, já está disponível para locação. É um notável trabalho do diretor Gavin O’Connor, cujo filme mais relevante até então era Livre Para Amar, que rendeu uma indicação ao Oscar para a atriz Janet McTeer. Nesse seu novo longa, estrelado por Tom Hardy e Joel Edgerton, O’Connor apresenta um resultado completo, misturando, de forma envolvente, esporte, dramas familiares e muita emoção. A luta, que serve como guia para o desenvolvimento dos personagens, nunca havia sido retratada de forma tão contundente nos últimos tempos – pelo menos não desde o ano em que Clint Eastwood fez Menina de Ouro.

Guerreiro segue dois tipos de história. A primeira é aquela que envolve os conflitos familiares: o pai ex-alcoólatra que tenta se redimir dos erros do passado, o filho que foi embora e viu a mãe morrer e o caçula que ficou tentando constituir uma família. A segunda é a que encena o campeonato de MMA (Mixed Martial Arts), onde os dois irmãos, por circunstâncias e necessidades diferentes, decidem competir. E o roteiro consegue ser certeiro em ambas abordagens: nos difíceis relacionamentos familiares, nunca cai no previsível (ainda que não sejam nada originais, os dilemas são verossímeis e sem exageros do ponto de vista dramático); no esporte, consegue empolgar e emocionar, envolvendo o espectador em cada segundo dos confrontos.

O que se pode constatar é que Guerreiro, além de bem sucedido do ponto de vista narrativo, também consegue grande resultado na parte técnica. A montagem, dinâmica e muito bem finalizada nas tomadas de luta, ainda estrutura com precisão o destaque de cada personagem – principalmente porque os dois irmãos possuem personalidades completamente diferentes e, caso não fossem apresentados da devida maneira, o filme poderia vilanizar um e inocentar outro – e isso está longe de acontecer. Da forma como Guerreiro foi concluído, não conseguimos culpar ninguém. Vemos, em cada personagem, seres humanos cheios de falhas, tristezas e, por que não, esperanças. É o retrato de uma família desmantelada pelo tempo. O filme explora bem isso, seja quando aposta no estilo mais óbvio de dramaturgia ou quando resolve utilizar a luta como metáfora.

Essa sucessão de acertos de Guerreiro só melhora nas mãos do elenco. Tom Hardy que, nas cenas de confronto físico, parece possuído (o que evidencia a brutalidade descontrolada de um personagem agressivo não só fisicamente e que nunca baixa a guarda), começa como um tipo antipático, mas que, aos poucos, ganha pelo menos o entendimento do espectador. O contraponto de Hardy é interpretado com notável sinceridade por Joel Edgerton – um ator que explora bastante as fragilidades emocionais de seu personagem, mesmo que nunca deixe de mostrar a força que o mesmo possui. Não bastasse a excelente dupla de protagonistas, eis que surge o coadjuvante Nick Nolte com um trabalho superlativo, onde deixa todos com um impasse: hoje, ele parece o mais interessado dos pais, mas, na realidade, pecou muito no passado (com fatos que nunca são – e nem precisam – ser detalhados). Afinal, ele merece uma segunda chance? Questionamentos e emoções que Nolte dramatiza com pura excelência.

Guerreiro comete algumas bobeiras aqui ou ali no que diz respeito ao lugar-comum. Em certos momentos, fica evidente a superficialidade de certas cenas (como a fácil resolução que um personagem apresenta para que o outro se motive a lutar). Sorte que tudo passa batido. São detalhes que não alteram em nada o surpreendente trabalho do diretor Gavin O’Connor. É um filme de luta que não segmenta sua temática. É um drama familiar que não cai no clichê. Guerreiro, que, em certo ponto, parece tomar rumos previsíveis, sempre escapa da banalidade. E não existe momento mais simbólico que a cena final. Nela, ao som de About Today, do The National, o filme resume todas as suas mensagns: a necessidade do perdão, o valor de uma segunda chance, o amor incondicional, a hora de deixar o passado de lado. Os créditos finais chegam, você absorveu tudo isso, conseguiu se emocionar diversas vezes e, claro, terminou com a certeza de que assistiu a um filme surpreendente.

FILME: 9.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

BAFTA 2012: apostas (atualizado com vencedores)

Estamos chegando na etapa final da award season e o BAFTA tem papel fundamental nesse momento. Ano passado, carimbou o favoritismo de O Discurso do Rei – assim como, em outras ocasiões, premiou Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor) e Tilda Swinton (Conduta de Risco), atrizes que, na época, estavam longe do favoritismo ao Oscar –  e ,como sabemos, posteriormente, viriam a vencer o prêmio da Academia. Por isso, apesar de todo o bairrismo que lhe traz tantas críticas, o BAFTA é um prêmio que pode sim definir tendências. E é bom ficar de olho nelas. Também é o primeiro grande prêmio que considera categorias técnicas, desde som e montagem até fotografia e maquiagem. A cerimônia, que acontece no próximo domingo (12), deve confirmar o favoritismo de O Artista em categorias como filme e diretor.

O único rival à altura do longa de Michel Hazanivicius é o britânico O Espião Que Sabia Demais, que tem boas chances de faturar importantes categorias. Os coadjuvantes Christopher Plummer e Octavia Spencer também devem se encaminhar para o Oscar sem qualquer problema. O interessante está mesmo nos atores principais. Se Jean Dujardin parece uma aposta fácil, não duvide de Gary Oldman, um ator britânico que está em um filme que conseguiu um surpreendente número de indicações. Já entre as mulheres, Viola Davis deve abrir espaço para Meryl Streep. A veterana só ganhou o prêmio na década de 80, quando fez um papel britânico em A Mulher do Tenente Francês. Com A Dama de Ferro deve voltar a ganhar o BAFTA, justamente, por outro papel com a mesma origem.

Confira a nossa lista de apostas:

MELHOR FILME: O Artista

Ainda tenho minhas dúvidas se o Oscar conseguirá premiar um filme desse estilo. No entanto, a vitória de O Artista no BAFTA só comprova que não apostar no filme, a partir de agora, é um verdadeiro ato de loucura. E se não der O Artista, quem vence? Não tenho nem ideia…

MELHOR FILME BRITÂNICO: O Espião Que Sabia Demais

Prêmio mais do que esperado. Agora, resta saber, qual a influência do sucesso desse filme no BAFTA para a próxima cerimônia do Oscar?

MELHOR DIRETOR: Michel Hazanavicius (O Artista)

Também previsível. Ainda que O Artista não leve o principal prêmio da noite, é quase impossível que Hazanavicius não saia consagrado. E ele também não tem rival, já que Scorsese ganhou não faz muito tempo e acho difícil vê-lo como vencedor de novo tão cedo…

MELHOR ATOR: Gary Oldman (O Espião Que Sabia Demais)

Quem levou foi Jean Dujardin, o que era de se esperar. George Clooney já pode dar adeus ao Oscar?

MELHOR ATRIZ: Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Um prêmio óbvio, mas que marca algo muito importante: é o prêmio que mais se parece com o Oscar, já que Meryl só tinha vencido o BAFTA na década de 1980. Será que essa vitória também é o anúncio de uma possível quebra de jejum do Oscar com a atriz? Esse assunto será mais detalhado aqui no blog em breve…

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

Não é só pelo nome e pela carreira. Christopher Plummer está mesmo ótimo em Toda Forma de Amor. Reconhecimento merecido.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)

Até agora não entendo. Melhor até deixar para lá…

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Separação (Irã)

Uma das grandes surpresas do BAFTA, ainda que não tenha influência alguma no Oscar, já que A Pele Que Habito ficou de fora. Mas que alegria ver o maravilhoso trabalho de Almodóvar recebendo pelo menos uma merecida celebração!

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Meia-Noite em Paris

O Artista levou a melhor. Pelo jeito, o (errado) raciocínio de que “já tem Oscar/foi consagrado bastante” deve pesar também para Woody Allen.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: O Espião Que Sabia Demais

Vitória esperada mas que fortalece o filme para uma possível vitória no Oscar, especialmente porque Os Descendentes, a cada dia, perde força.

MELHOR AMIMAÇÃO: As Aventuras de Tintim

Rango venceu. Que confusão a categoria de animação esse ano, hein?

MELHOR DOCUMENTÁRIO: Senna

Última consagração para esse ótimo documentário que fez uma respeitável carreira lá fora. Que mancada, hein, Oscar?!

MELHOR TRILHA SONORA: O Artista

Ludovic Buorce vence de grandes compositores – o que parece bem merecido. Não palpito porque ainda não vi o filme.

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS: Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

Já estava me perguntando se Harry Potter não levaria um prêmio sequer pelo último filme. Ao que tudo indica, deve ficar pelo menos com prêmios para os efeitos, que são impecáveis.

MELHOR SOM: Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

Hugo foi o vencedor, o que não surpreende muito, já que o filme de Martin Scorsese deve se contentar apenas com as categorias técnicas.

MELHOR FIGURINO: Jane Eyre

Ainda bem que pararam com essa monotonia de só premiar figurinos de filmes de época…

MELHOR MAQUIAGEM: A Dama de Ferro

Oscar de maquiagem à vista fazendo par com melhor atriz ao estilo Piaf – Um Hino ao Amor?

MELHOR MONTAGEM: Senna

Que lindo, prêmio merecidíssimo!

MELHOR FOTOGRAFIA: A Invenção de Hugo Cabret

O Artista venceu e se fortaleceu ainda mais…

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Invenção de Hugo Cabret

Deve ser uma das barbadas do próximo Oscar.

Os Descendentes

Goodbye, my love. My friend. My pain. My joy.

Direção: Alexander Payne

Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Beau Bridges, Patricia Hastie, Carmen Kaichi, Karen Kuioka  Hironaga

The Descendants, EUA, 2011, Comédia Dramática, 115 minutos

Sinopse: Havaí. Há 23 dias a vida de Matt King (George Clooney) mudou completamente. Foi nesta data que sua esposa Elizabeth (Patricia Hastie) sofreu um sério acidente de barco e entrou em coma. Desde então cabe a Matt cuidar das filhas Scottie (Amara Miller) e Alexandra (Shailene Woodley), que estuda e vive em outra ilha do arquipélago. Quando é informado pelos médicos que sua esposa irá morrer em breve, Matt resolve trazer Alexandra de volta. Ele conta com a ajuda dela para contar a triste notícia aos amigos e familiares, de forma que eles possam se despedir de Elizabeth ainda em vida. Desbocada e de gênio difícil, Alexandra surpreende o pai ao contar que sua mãe o estava traindo. A notícia afeta profundamente Matt, que passa a querer saber quem era o amante de sua esposa e se ela o amava. (Adoro Cinema)

Em uma recente entrevista, o diretor Alexander Payne disse: “Faço filmes baseado em personagens e relações. Isso não é o que interessa à indústria”. Falando sobre o seu mais recente trabalho, Os Descendentes, Payne apresentou uma grande verdade – que, inclusive, consegue se refletir muito bem em todos os filmes de sua filmografia. Autor de obras como Eleição e Sideways – Entre Umas e Outras, o diretor, que está prestes a completar 52 anos de idade, realiza um certo tipo de filme que, infelizmente, não costuma ser devidamente valorizado. Assim como Mike Leigh, Payne encena, como bem disse, histórias baseadas em personagens e relações. Tudo muito simples, humano, sem grandes atrativos técnicos ou pretensões narrativas. Os Descendentes, que recebeu cinco indicações ao Oscar, não foge à regra. A diferença é que, aqui, o diretor caiu na normalidade excessiva, entregando uma obra carente daquele caráter tão reflexivo que já havia explorado anteriormente no belo As Confissões de Schmidt ou no segmento 14e Arrondissement, de Paris, Te Amo.

Os Descendentes, assim como qualquer outro longa da filmografia de seu diretor, dificilmente causará aversão – até porque estamos diante de uma história que não tem muito potencial para se tornar, digamos, irritante. E o que o filme estrelado por George Clooney segue justamente essa linha: apresentar um resultado acessível, universal. Raro encontrar quem se sinta incomodado com Os Descendentes. O que acontece é que, ao tentar aproximar o espectador dos seus personagens, terminou tornando-se quase previsível. As figuras retratadas por Payne são verossímeis, os atores conseguem dominar seus personagens e a história, dentro de suas limitações, faz um bom desenvolvimento de tudo. Os Descendentes, contudo, perde pontos quando justamente coloca os personagens em situações comuns. Assuntos como traição e relação conturbada entre pais distantes e filhos já foram retratados milhares de vezes, e Payne conduz tudo sem variações, em um resultado muito plano, carente de novidades.

Quando decide abraçar muitos dramas sem ter um foco específico (parece que dá apenas pinceladas em vários questionamentos), não consegue a devida profundidade. Profundidade que o filme deveria ter. Precisava ter. Assim, Os Descendentes nem parece ser de um diretor que já havia mostrado muita facilidade em trabalhar personagens “gente como a gente” de forma atrativa e, principalmente, original. Visto o reconhecimento que recebe, Os Descendentes não corresponde às expectativas. Não quer dizer, por outro lado, que seja um filme ruim. Não, longe disso. Como mencionado anteriormente, essa é uma história que não afasta ninguém – inclusive porque, se o fizesse, estaria se colocando contra as convicções de seu diretor. O filme, inclusive, pode até emocionar, especialmente quando se encaminha para o final, quando reserva um momento extremamente emocionante para George Clooney. Só faltou mesmo mais complexidade – algo que certamente tiraria tudo do lugar-comum.

Em suma, o clima do Havaí, a forma sutil como fala sobre o perdão e a presença da jovem Shailene Woodley (uma revelação) são fatores que só proporcionam mais chances para aquele que é o grande destaque de Os Descendentes: George Clooney. Hoje, muito se fala que, aqui, ele tem o melhor desempenho de sua carreira e, em uma brincadeira não muito inteligente, chegaram a fazer um pôster falso do filme onde está escrito: “Olhem! George Clooney é bom atuando”. Quem fez tal piada não deve ter assistido Conduta de Risco ou Amor Sem Escalas É verdade, Clooney sempre interpreta a si mesmo – mas, felizmente, como no caso de Jack Nicholson, isso não é um problema. E se Os Descendentes ainda não consegue acabar de uma vez por todas com o fator “é George Clooney, não personagem”, pelo menos consegue mostrar como o ator está cada vez melhor e mais maduro em suas nuances nuances: os olhares, gestos e minúcias nunca estiveram tão eficientes. Clooney reina. Inclusive, tem um momento digno de honrarias (a última cena com a esposa). Sem ele, Os Descendentes não teria tanta vida…

FILME: 7.5

Inquietos

Direção: Gus Van Sant

Elenco: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Ryo Kase, Schuyler Fisk, Lusia Strus, Jane Adams, Paul Parson, Chin Han, Thomas Lauderdale

Restless, EUA, 2011, Drama, 91 minutos

Sinopse: Enoch (Henry Hopper) acaba de perder os pais em um acidente de carro. Ele, que sobreviveu após três meses em coma, agora participa de funerais de pessoas desconhecidas. Um dia, conhece Annabel (Mia Wasikowska), que também tem esse mesmo hábito. O problema é que Annabel só tem três meses de vida. No entanto, a ligação dela com Enoch é maior do que isso. Juntos, os dois se completam, e passam a se relacionar, mesmo sabendo da brevidade desse relacionamento. (Adoro Cinema)

A cada novo filme, o diretor Gus Van Sant confirma a tendência de que perdeu toda aquela ousadia e originalidade que já apresentou  em títulos como Elefante Um Sonho Sem Limites. É certo que ele sempre dividiu a sua carreira entre produções mais autorais e outras completamente quadradas (o exemplo mais recente é o superestimado Milk – A Voz da Igualdade). No entanto, nos últimos anos, parece ter pedido a capacidade de ser diferente e… interessante. Assim como o tedioso Últimos Dias, esse Inquietos tem caráter independente e, com certeza, conseguirá ter a simpatia de muitas pessoas. Mas a verdade é que esse drama romântico enjoado estrelado por Henry Hopper e Mia Wasikowska é mais um deslize desse diretor que anda desperdiçando muito o seu talento.

O principal problema de Inquietos não é nem a bobeira envolvendo a insana decisão dos protagonistas iniciarem um relacionamento amoroso mesmo sabendo que a mocinha só tem três meses de vida, mas sim a personalidade de cada um deles. É o esquema personagens chatos = filme chato. O Enoch de Henry Hopper e a Annabel de Mia Wasikowska são assim: não gostam de ninguém, fazem questão de se isolar, possuem hábitos estranhos, discutem Darwin e Einstein, lêem livros sobre ornitologia, acham que são intelectuais para filosofar sobre a relação vida/morte e ainda alimentam a loucura um do outro (a exemplo do fantasma que o garoto vê e que é tratado com normalidade pela moça). Una a isso o fato de Annabel ter câncer e não se abalar com isso. É o famoso discurso “a morte não é difícil, o amor é”.

Se já não bastasse toda essa abordagem “quero ser cult” de Inquietos, ainda precisamos juntar muita paciência para aturar não só a eterna expressão de moça chata de Mia Wasikowska (que, por alguma razão, nunca repetiu o show que deu no seriado In Treatment), mas o próprio desleixo de Gus Van Sant em deixar essa história cair no enjoativo do início ao fim. Não existe nada de novo em Inquietos e, sinceramente, ao que tudo indica, é um filme de férias do diretor, onde ele achou que poderia criar um mini-cult sobre adolescência, amor e morte. O resultado, como se pode constatar, ficou bem longe disso. Resta saber, agora, o que Gus Van Sant nos reserva – especialmente depois que anunciou seus planos para trabalhar com… Taylor Lautner. Medo do que vem por aí.

FILME: 3.0

A Dama de Ferro

What we think we become.

Direção: Phyllida Lloyd

Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Susan Brown, Alexandra Roach, Iain Glen, Harry Lloyd, Emma Dewhurst, Victoria Bewick, Olivia Colman

The Iron Lady, Inglaterra/França, Drama, 105 minutos

Sinopse: Antes de se posicionar e adquirir o status de verdadeira dama de ferro na mais alta esfera do poder britânico, Margaret Thatcher (Meryl Streep) teve que enfrentar vários preconceitos na função de primeiro-ministra do Reino Unido em um mundo até então dominado por homens. Durante a recessão econôminica causada pela crise do petróleo no fim da década de 70, a líder política tomou medidas impopulares, visando a recuperação do país. Seu grande teste, entretanto, foi quando o Reino Unido entrou em conflito com a Argentina na conhecida e polêmica Guerra das Malvinas. (Adoro Cinema)

A Dama de Ferro, desde que foi anunciado, sempre esteve cercado por expectativas. Boas e ruins. As boas, claro, eram direcionadas para Meryl Streep. Retomando o sotaque britânico (que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar por A Mulher do Tenente Francês) e interpretando uma polêmica figura da Inglaterra, a atriz despertava a curiosidade de todos por estar, possivelmente, preparando mais uma grande interpretação. Já as expectativas ruins ficavam por conta da diretora Phyllida Lloyd, que dirigiu o divertido Mamma Mia! – um musical que, apesar do clima “feel good”, tinha uma comandante amadora atrás das câmeras. Por isso, o que sempre se esperou de A Dama de Ferro foi o seguinte: um filme repleto de falhas mas que traria outro momento maravilhoso de uma das melhores atrizes que o cinema já viu. A Dama de Ferro atendeu a tudo isso. Não é à toa que, quando os créditos finais aparecem, o primeiro nome que surge na tela é o de Meryl Streep e não o de Phyllida Lloyd…

Para falar a verdade, a cinebiografia de Margaret Thatcher nem surpreende tanto negativamente. Quer dizer, qualquer cinéfilo bem atento já poderia prever que a diretora não tinha cacife para um filme como esse. Além de ter suas origens no teatro, sua primeira investida no cinema foi, justamente, uma adaptação de seu trabalho nos palcos! Partir de um musical descontraído e assumidamente bobo para a cinebiografia de uma polêmica figura política não era o mais aconselhável… A diretora não tinha embasamento para isso. Não só em função de sua pouca experiência, mas por sua falta de talento mesmo. Assim, o falho roteiro de Abi Morgan termina apenas como um leve problema desse filme que, por causa de sua diretora, não teve um décimo do impacto e do envolvimento que poderia ter.

A Dama de Ferro já começa errando com a escolha de narrar o filme a partir das memórias de uma já esquecida Margaret Thatcher (Meryl Streep). Portanto, temos duas correntes que guiam a história. Primeiro, a velha Margaret tendo alucinações com o já falecido marido (Jim Broadbent). Segundo, os flashbacks contando as memórias dessa senhora que, hoje, está praticamente enclausurada em um apartamento sem saber direito de sua vida. Com isso, cerca de 70% do filme é passado com uma Meryl Streep usando uma pesada (e impressionante) maquiagem. Se o envelhecimento da atriz foi feito com uma precisão de cair o queixo, o mesmo já não pode se dizer de seus dramas nesse segmento. Na velhice, é sempre o mesmo esquema da protagonista alucinando com o marido (que é usado como piadista durante praticamente todo o tempo). Ou seja, a velhice de Margaret impressiona por um lado mas se torna exaustiva por outro.

Nos flashbacks, acompanhamos a vida dessa mulher que era filha de um quitandeiro: passamos por seu início na política, as difíceis decisões, a proposta de casamento, a decisão de concorrer como primeira-ministra, a mudança de postura e visual, sua adoração, seu ódio, a Guerra das Malvinas, a conhecida fama de dama de ferro, a sobrevivência a um atentado, a luta contra os sindicatos, as divergências com seus colegas e… ufa, a crise que a tirou do poder. Se narrado de forma linear, A Dama de Ferro conseguiria aproveitar boa parte desses assuntos. Porém, como tudo isso é apresentado em flashbacks, bons dramas se perdem em abordagens rasas. Além de não sabermos direito como era a convivência com o marido ou muito menos com os filhos (que mal aparecem!), os fatos políticos surgem sem muita explicação ou consistência. Por mais que, como já declarado pela diretora, a política não seja o principal foco do filme, merecia mais atenção. Não dá para se envolver com fatos que parecem tão gratuitos e jogados com descaso na trama. A Dama de Ferro mostra muito mas comunica pouco.

O problema mesmo é a direção de Phyllida Lloyd. Não bastasse o roteiro falho, a britânica simplesmente não sabe transmitir qualquer elegância que disfarce a sua falta de experiência atrás das câmeras. Ela estraga qualquer chance de A Dama de Ferro se tornar algo a mais. É uma direção problemática, que traz cortes inexplicáveis (em dado momento, quase estraga um dos melhores momentos do filme com mudanças bruscas de enquadramento), e que pode, inclusive, trazer momentos de humor involuntário com o uso de certos artifícios como o de câmera lenta (o atentado ao hotel onde está Margaret não tem impacto algum) e outras escolhas amadoras. Ela não consegue dar linha dramática a um filme que não tem foco definido e que, por consequência, termina sem variações e, o mais preocupante, sem clímax. A Dama de Ferro, ainda que com o roteiro falho, teria mais chances com uma direção competente. Phyllida não sabe o que faz e, no final das contas, parece ter elaborado esse filme só pela oportunidade de trabalhar mais uma vez com Meryl Streep e, claro, possivelmente dar o tão esperado terceiro Oscar para a atriz.

Meryl, como era de se esperar, é um caso à parte. Sempre surpreendente, tem se reinventado a cada ano e, em A Dama de Ferro, entrega justamente aquilo que as premiações gostam tanto de celebrar. É um trabalho de postura, sotaque e maquiagem, onde a atriz interpreta de forma impecável uma figura política. O que existe de mais brilhante na interpretação de Meryl é a versatilidade. Estamos diante de um trabalho completo. Na velhice, não se limita ao uso da maquiagem (sua última cena é particularmente destacável em função de seu trabalho com o olhar); na juventude, vai além do sotaque; no auge de Margaret, utiliza aquela sua conhecida expressão de poder e firmeza que já vimos em longas como Dúvida e O Diabo Veste Prada. É uma verdadeira aula de atuação que dá força a esse filme quadrado, antiquado e mal dirigido que parece ter sido feito para a televisão (no pior sentido dessa afirmação). Só é uma pena que uma interpretação tão marcante para a atriz esteja, justamente, em um filme que está longe de fazer jus ao seu talento e grandiosidade. Meryl, como sabemos, é singular e de arrasar. Ao contrário de A Dama de Ferro.

FILME: 5.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO: