Oscar 2012: Filme

O Oscar anda mesmo perdido. Depois de banalizar o título “indicado ao Oscar de melhor filme” com essa história de dez indicados, erram ano após ano em suas escolhas. A princípio, a ideia de dez concorrentes parecia maravilhosa, mas foi um tiro no pé – especialmente porque esquematizaram, por exemplo, que sempre teria vaga para filmes específicos, como animações e independentes. Dois anos foram o suficiente para perceber que o formato não deu certo: afinal, de que adianta tantos indicados se os principais favoritos se refletem entre os cinco diretores nomeados?.
Ao invés de darem o braço a torcer com um retorno aos tradicionais cinco filmes, tomaram outra medida maluca: indicar somente aqueles filmes que ficaram em primeiro lugar na ficha de pelo menos 5% dos votantes. A expectativa para o Oscar 2012, portanto, era grande: afinal, essa ideia daria certo ou não? Não deu. Parece que nada mudou. Os indicados poderiam variar entre cinco e dez. Escolheram nove. Mais da metade, como sempre, sem muito merecimento para ostentar a honra da vaga.
Enfim, essa lista é, possivelmente, a mais fraca desde que não temos mais apenas cinco indicados. A cada ano, a esperança com o Oscar vai ainda mais para o ralo. Está na cara: eles precisam voltar ao esquema antigo. Esse seria o passo mais urgente para um prêmio que precisa se reestruturar logo – afinal, não é loucura de momento, já que os erros sempre se repetem. O Oscar, supostamente, deve ser uma celebração ao cinema. O que vemos é um jogo baseado em política e campanhas. Continuamos sem ver ousadias, novos valores ou escolhas que reflitam, realmente, a vontade de celebrar o bom cinema. Pena. Queria voltar a me encantar com o prêmio… Ainda não foi em 2012.
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CAVALO DE GUERRA: O pior indicado ao Oscar 2012. É até uma injustiça reclamar da puxação de saco de Stephen Daldry com Cavalo de Guerra concorrendo como melhor filme. O novo trabalho de Steven Spielberg é antiquado, forçado e sem ritmo. Se Tão Forte e Tão Perto recebeu indicação ao prêmio principal porque amam Daldry, Cavalo de Guerra também entrou nessa tendência por causa de Spielberg. Só isso para explicar a inclusão desse filme sonolento entre os nove melhores do ano. A consolação é que deve conquistar, no máximo, uma categoria de som.
O ARTISTA: O grande favorito da temporada. E não tem como questionar, já que os concorrentes desse ano estão longe de alcançar o nível do espetacular. Ainda pairam dúvidas em relação às limitações de alcance a um grande público impostas pelo formato do filme, mas a homenagem ao cinema deve falar mais alto. É uma experiência atípica e que, ao contrário dos últimos vencedores do Oscar, não causa qualquer divergência. Todos aprovam O Artista, o que já é um grande ponto positivo para o Oscar. Além de tudo, a equipe do filme é francesa, tornando a vitória ainda mais histórica.
O HOMEM QUE MUDOU O JOGO: Ok, Bennett Miller é um ótimo diretor, Aaron Sorkin é um roteirista conceituado e Brad Pitt tem participação em projetos vitoriosos. Só que essa fórmula não torna O Homem Que Mudou o Jogo universal. O filme é estado-unidense demais, além de longo e repetitivo. Foi indicado, claro, porque a temática de beisebol é muito forte nos Estados Unidos. Não deve fazer carreira significativa fora do país (até porque, sim, é um filme só sobre o esporte), o que, nesse caso, comprova que o assunto é decisivo para a correta apreciação do resultado final. Assim como vários dos indicados, é superestimado.
OS DESCENDENTES: E não é que Alexander Payne alcançou seu maior reconhecimento com esse que é o filme mais fraco de sua carreira? Até dá para entender o porquê da história agradar tanta gente, mas não é muito compreensível tanta festa para um filme que nada mais é tão… comum. George Clooney e Shailene Woodley, ótimos, mereciam um filme mais contundente e, claro, original. Principalmente porque estamos falando do cara que fez As Confissões de Schmidt e Eleição. Pelo visto, as premiações gostam mesmo é de quando os diretores se domesticam – como foi o caso de Gus Van Sant em Milk – A Voz da Igualdade.
TÃO FORTE E TÃO PERTO: Reclamam à toa desse novo filme de Stephen Daldry. Bom, já reclamavam dele antes. Sim, do diretor que fez a obra-prima chamada As Horas. Tão Forte e Tão Perto está longe de ser uma maravilha e é, sem dúvida, o filme mais fraco de Daldry. Mas por que pegar no pé logo desse filme que, assim como tantos outros, não merecia estar concorrendo ao prêmio principal? Implicância. Até porque ele tem elementos bem característicos do Oscar: dramas do povo estado-unidense (nesse caso, o atentado ao World Trade Center), relações familiares e um mensagens bem inofensivas. Não existe razão para tanto ódio, principalmente porque existem exemplares bem piores nessa lista (Cavalo de Guerra, por exemplo).
A ÁRVORE DA VIDA: Questão delicada, já que é o filme que ninguém pode falar mal. Se você não o considera em obra-prima, é um E.T. Baseando comentários em outros prêmios, não era para conseguir uma indicação na categoria principal – e é de se admirar que tenha conseguido tanta força desde a Palma de Ouro em Cannes que dividiu opiniões. Mas está aí e tem sua presença bem justificada. É um filme diferente, com fãs incondicionais e que, como já podemos notar, será um clássico contemporâneo. Só a lembrança dele já é uma vitória.
MEIA-NOITE EM PARIS: É aquele tipo de exemplar mais significativo que Woody Allen lança de três em três anos, como Match Point e Vicky Cristina Barcelona. Por alguma razão, caiu nas graças de todo mundo. A verdade é que Meia-Noite em Paris não difere muito de outros excelentes filmes do diretor que foram injustamente ignorados. Mas tudo bem, Woody Allen é sempre Woody Allen. Não dá para questionar. O longa é agradável, inteligente e inspirador. Reconhecer Woody nunca é demais…
HISTÓRIAS CRUZADAS: Representando a vaga de sucesso de bilheteria do ano, esse filme está longe de ser o estouro que sua arrecadação aponta. É um bom trabalho de atrizes (mais pelo conjunto do que por desempenhos específicos), onde elas seguram uma história que já foi contada mil vezes e que, aqui, recebe tratamento despretensioso e dramas bem açucarados para emocionar o público sem ter que trazer complexidade para o enredo. Outro indicado que tem uma indicação bem compreensível, mas que não merecia estar na categoria principal.
A INVENÇÃO DE HUGO CABRET: O único filme que pode estragar a festa de O Artista. É improvável, mas não duvide. A Invenção de Hugo Cabret é um filme completamente diferente das temáticas normalmente apresentadas por Scorsese, o que, naturalmente, chama a atenção. Ainda não tivemos a oportunidade de assistir ao filme, portanto, podemos apenas deduzir as chances que ele tem no Oscar. É provável que vença algumas categorias técnicas e, por que não, outras mais importantes. Se der um freio em O Artista, não será surpresa. Mas vale lembrar: Scorsese já tem Oscar (e relativamente recente), o que nunca é um ponto muito a favor.
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OS ESQUECIDOS
Impossível escolher apenas um. Então, aí vai a lista que seria impecável para o Oscar 2012, seguindo o formato de nove indicados (lembrando que ainda não conferimos A Invenção de Hugo Cabret):
– O Artista
– Guerreiro
– Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
– Meia-Noite em Paris
– Melancolia
– A Pele Que Habito
– Precisamos Falar Sobre o Kevin
– A Separação
– Tudo Pelo Poder

Quando um ator apresenta vários desempenhos bons em um mesmo ano, suas chances para o Oscar diminuem. Não foi diferente com Ryan Gosling. Muitos queriam que fosse indicado por Drive, mas bem que Gosling poderia ter sido pelo subestimado Tudo Pelo Poder, onde se destaca diante de um elenco afiadíssimo.
Certeza absoluta que os votantes não viram o mesmo filme… A exclusão de Tilda Swinton por Precisamos Falar Sobre o Kevin é um dos maiores absurdos da categoria nos últimos anos. A atriz foi indicada a todos os grandes prêmios e ficou de fora da seleção da Academia. Uma imperdoável injustiça com um trabalho tão contundente e humano.
Pela matemática de outras premiações, era óbvio que, infelizmente, Alan Rickman não seria indicado ao Oscar por Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2. Na parte final da saga, seu personagem tem importância fundamental, trazendo grandes cenas para o ator. Seria um reconhecimento pelo filme e pelo ótimo trabalho do ator na série.
Shailene Woodley não se intimidou ao lado de George Clooney em Os Descendentes. Bem pelo contrário. Completamente à vontade e surgindo como uma grande promessa, a jovem atriz foi um dos destaques do filme de Alexander Payne. Em um ano fraco para as coadjuvantes, sua presença entre as finalistas era mais do que necessária.