Cinema e Argumento

Juventude para sempre?

Quando realizou Apenas o Fim, o diretor Matheus Souza tinha apenas 20 anos de idade e ainda cursava a faculdade de cinema. Cheio de boas ideias, ele teve imediato destaque por entregar um filme de interessantes reflexões sobre relacionamentos e diálogos dinâmicos. Apenas o Fim virou um cult queridinho – principalmente entre os adolescentes de gosto mais alternativo – e Matheus Souza, claro, uma promessa. Em sua segunda investida atrás das câmeras, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, a situação já é bem diferente. Repetindo diversos aspectos temáticos de seu debut, o diretor, agora, deixa a sensação de que já disse tudo o que tinha a dizer sobre o mundo adolescente. Hora de trocar o disco.

Os filmes de Matheus Souza, na realidade, são uma extensão de seu próprio jeito de ser: ele é um jóvem meio baixinho que usa óculos, fala rápido, tem um humor meio autodepreciativo, gosta de conversar usando referências e sempre acha um jeito de extrair humor de pessoas e situações. Enfim, um “querido”. Adjetivo também corriqueiramente usado para definir seus trabalhos no cinema. “Fofo”, “simpático” e “agradável”, mas a dura verdade é que ninguém se arrisca a dizer mais do que isso. Principalmente em relação a Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, longa que carece de evolução temática se comparada ao trabalho anterior do diretor e de um olhar mais amadurecido sobre o que apresenta.

Não é muito difícil perceber que Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida anda em círculos no desenvolvimento de sua história e até mesmo na forma como a executa: as situações são praticamente as mesmas (variando apenas em personagens e cenários) e até mesmo os planos escolhidos são constantemente idênticos. O esquema do filme é muito simples: menino dá conselho para menina a fim de ajudá-la a descobrir sua verdadeira vocação profissional. Ela conversa com alguém, aprende alguma coisa e descobre que não é aquilo que procurava. Um ciclo que se repete até, claro, ela achar (ou não) a profissão ideal – dilema que é o fio condutor do filme. Portanto, se já é difícil acreditar que uma protagonista enjoada (e uma intérprete tão sem variações) tenha sido aprovada no vestibular de medicina, como fazer para admirar um longa que a cada dez minutos repete seu formato?

Para não dizer que nosso olhar foi só depreciativo, admitimos que Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida também tem seus momentos. A forma como a própria frase do título é utilizada no longa é surpreendente, além de dita com muito pesar e veracidade. E se afirmássemos que Matheus Souza não tem boas sacadas, estaríamos sendo injustos. Aqui, pelo menos duas são marcantes: o curta caseiro que faz referência aos momentos contemplativos de A Árvore da Vida e a frase: “nossa, vô, só Nicolas Cage fez mais escolhas erradas do que você nessa vida”. Em suma, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida dialoga com facilidade em vários momentos, mas se repete em muitos outros – o que causa decepção. Como próximo projeto, Matheus Souza tem uma animação que, segundo ele, completará essa sua trilogia “geracional”. Pelo visto, ainda vai demorar um pouquinho para vermos uma outra vertente…

FILME: 6.5

* Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado

360

Direção: Fernando Meirelles

Roteiro: Peter Morgan, baseado na peça “La Ronde”, de Arthur Schnitzler

Elenco: Anthony Hopkins, Maria Flor, Jude Law, Ben Foster, Rachel Weisz, Juliano Cazarré, Lucia Siposová, Jamel Debbouze, Marianne Jean-Baptiste

Inglaterra/Áustria/França/Brasil, 2011, Drama, 110 minutos

Sinopse: Inspirado em “La Ronde”, clássica peça de Arthur Schnitzler, 360 é uma reunião de histórias dinâmicas e modernas, passadas em diversas partes do mundo. Laura (Maria Flor) é uma mulher que deixou a vida na terra natal para tentar a sorte em Londres ao lado do namorado Rui (Juliano Cazarré). Ao descobrir que o parceiro está tendo um caso com Rose (Rachel Weisz), ela decide voltar para o Brasil. Na volta pra casa, ela conhece um simpático senhor (Anthony Hopkins) e Tyler (Ben Foster), duas pessoas em momentos difíceis em suas vidas. Num outro lado da história, Mirka (Lucia Siposová) é uma jovem tcheca que começa a trabalhar como prostituta para juntar dinheiro. Ao mesmo tempo, lida com a desaprovação da irmã Anna (Gabriela Marcinkova). O primeiro cliente de Mirka é Michael (Jude Law), que por sua vez é casado com Rose. (Adoro Cinema)

Nunca eu diria que 360 é um filme de Fernando Meirelles. Nunca. Passaria pela minha cabeça qualquer diretor, menos ele. Primeiro porque 360 é um filme convencional. Segundo porque Fernando Meirelles não é de contar histórias sem deixar algum tipo de marca. Cidade de DeusO Jardineiro Fiel e o subestimado Ensaio Sobre a Cegueira – para mencionar seus trabalhos mais conhecidos – possuem algo de contundente e que atesta o vigor atrás das câmeras. Não é o caso de 360, um filme menor – e, como o diretor aponta, mais  intimista – que não consegue se expressar muito bem. Realizado com baixo orçamento, essa investida pessoal de Meirelles ao invés de mostrar um lado autoral e sensível do diretor, mostra que ele só funciona com histórias que fogem do convencional e que sejam diferentes em seu formato.

Não que Meirelles realize 360 com desleixo. Não é isso. Só que vindo de um diretor tão criativo, era de se esperar que o filme mostrasse uma outra vertente desse profissional que é um dos expoentes do cinema nacional. Só que 360, dentro do que se propõe, é mais do mesmo. E o pior: cai na velha armadilha da narrativa multiplot. Isso quer dizer que a proposta se perde em um infinito emaranhado de personagens que, como de costume, deixam o longa muito irregular, com histórias mais interessante do que outras. O formato acarreta, também, o desperdício de vários atores que, frente a um espaço tão limitado em cena, não conseguem sequer desenvolver algo de mais especial, como é o caso de Jude Law e Rachel Weisz, dois atores que não têm muito a fazer a não ser emprestar a pompa de suas presenças ao projeto.

O sopro de vitalidade de 360 está mesmo com Anthony Hopkins. É claro que, nesse longa, ele está interpretando a si mesmo e não necessariamente um personagem – o que o próprio ator confessou. Entretanto, é gratificante vê-lo tão à vontade em cena. Isso, por sinal, nos recorda de como veteranos como Hopkins não são frequentemente explorados com papeis e cenas mais livres, onde possam esbanjar todo o talento que lhe fizeram grandes. Por isso, pouco importa se a cena de seu personagem no Alcoólicos Anônimos parece batida. Ele, contracenando com a iluminada Maria Flor (que em nenhum momento se intimida perto de Hopkins), é um dos pontos altos do longa, que ainda dá destaque para outro excelente ator (Ben Foster). Pena que tantos saiam perdendo por não ter qualquer profundidade, como é o caso do brasileiro Juliano Cazarré, que sai do nada para o lugar nenhum.

360, apesar de tudo, tem várias tentativas de contar sua história com certo estilo. Nesse sentido, Meirelles usa recursos bem interessantes, especialmente quando mostra dois personagens conversando por telefone em ambientes diferentes ou quando faz conexões entre algumas histórias. Só que tanto as investidas quanto a ótima trilha escolhida cuidadosamente por Ciça Meirelles não conseguem trazer empolgação a esse filme que sofre com a narrativa multiplot. Na exibição em Gramado, o diretor assumiu que sofreu demais para fazer 360 e que admira Robert Altman por conseguir fazer tanto com milhares de personagens. Meirelles também revelou que nunca mais se arriscará no formato. Não seria essa, de certa forma, uma pequena confissão de que 360 não saiu do jeito que ele imaginava?

FILME: 6.0

Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado

Um Divã Para Dois

He is everything. But I’m… I’m really lonely. And to be with someone, when you’re not really with him can… it’s… I think I might be less lonely… alone. 

Direção: David Frankel

Roteiro: Vanessa Taylor

Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Elisabeth Shue, Jean Smart, Ben Rappaport, Marin Ireland, Brett Rice, Charles Techman

Hope Springs, EUA, 2012, Comédia Dramática, 100 minutos

Sinopse: Kay (Meryl Streep) e Arnold Soames (Tommy Lee Jones) estão casados há 30 anos. O relacionamento entre eles caiu na rotina e há tempos não tem algum tipo de romantismo. Querendo mudar a situação, Kay agenda para ambos um fim de semana de aconselhamento com o dr. Feld (Steve Carell), que passa a lhes dar conselhos sobre como reavivar a chama da paixão. (Adoro Cinema)

Dos nichos cinematográficos que surgiram nos últimos tempos, o que trata da meia/terceira idade deve ser o mais interessante. Tudo começou com o ótimo Alguém Tem Que Ceder, que era diferente por trazer Jack Nicholson e Diane Keaton em uma comédia romântica que falava sobre as expectativas e decepções de pessoas já experientes e que não sabem muito bem o que fazer com diferentes tipos de solidão. Desde então, surgiram várias produções que dialogam com esse público até então inexplorado. Mais recentemente, por exemplo, tivemos O Exótico Hotel Marigold, comédia de John Madden sobre um grupo de idosos em uma viagem de auto-descoberta na Índia. Agora, Um Divã Para Dois se une a esse nicho, trazendo uma perspectiva mais reflexiva e menos de entretenimento sobre os desafios da vida a dois depois dos 60.

No mais novo filme de David Frankel – que, aqui, repete a parceria com Meryl Streep depois de O Diabo Veste Prada – acompanhamos a vida de Kay (Meryl) e Arnold (Tommy Lee Jones), um casal que já não tem mais aquele encanto de um matrimônio. Ele trabalha, ela é dona-de-casa. Os filhos são adultos, já saíram de casa e têm pouca participação em suas vidas. Só que a situação é ainda mais complicada: Kay e Arnold não dormem no mesmo quarto, são mais colegas de casa do que necessariamente conhecidos e só trocam palavras para falar sobre trivialidades como o prato especial para o jantar ou o que precisa ser comprado para a casa. Arnold está acomodado com essa sensação enquanto Kay, dia após dia, olha para o marido com a esperança de que eles voltem a se conectar. Um dia, ela toma a decisão de comprar um pacote de terapia intensiva com um psicólogo de outra cidade para alcançar esse objetivo. Relutante, Arnold aceita a ideia e ambos viajam até Maine para, quem sabe, conseguir uma segunda chance.

Pode parecer um limitador, mas na verdade não é: se dizer que Um Divã Para Dois só funciona por ter protagonistas mais velhos pode parecer demérito, logo essa ideia desaparece durante o longa. É por contar uma reflexiva história sobre pessoas de tal idade que o filme de David Frankel ganha o espectador – que, em determinado ponto, releva vários problemas só pela delicadeza da proposta. Vendido como uma comédia (principalmente no Brasil), Um Divã Para Dois, apesar de ter vários momentos de humor, é um drama em sua essência. Especificamente, um drama com toques de comédia. Para falar bem a verdade, todas as piadas envolvendo os personagens podem ser até um pouco incômodas, já que rimos de um casal que não sabe mais se conectar, de suas inabilidades em se comunicar, de sua incapacidade de demonstrar afeto e até mesmo de suas frustrações sexuais. Com um olhar mais crítico, Um Divã Para Dois nem engraçado é. E, para todos os efeitos, isso não é necessariamente um defeito. Pelo contrário: só enaltece a proposta do filme de trazer um olhar mais profundo sobre esse casal.

O que existe de mais belo em Um Divã Para Dois é a forma como ele fala sobre esperança. Se o personagem de Tommy Lee Jones cai no estereótipo de velhinho rabugento só para fazer o público rir (e o ator, em contrapartida, aproveita bastante os momentos de drama), o de Meryl Streep transborda humanidade: ela é o coração dessa relação. Sua Kay não quer desistir, mesmo que seu marido tenha se tornado uma pessoa particularmente desagradável e muito diferente daquela com quem um dia ela causou. Entre os constrangimentos de não ser uma perita na cama e de não conseguir falar sobre aquilo que lhe magoa, ela nos lembra que, a partir de certa idade, não temos mais a possibilidade de desistir. E se temos, esse será, possivelmente, o desafio mais doloroso e amedrontador de nossas vidas. Um casamento de 30 anos não se sustenta à toa. Kay sabe disso e prefere batalhar por ele. Com isso, Meryl esbanja sua habitual naturalidade e competência para, com um único olhar, dizer tudo aquilo que a direção de David Frankel muitas vez não consegue transmitir.

Por não ter uma direção mais consistente – e, por que não, experiente – como seus protagonistas, Um Divã Para Dois, em diversos momentos, descamba para um estilo água com açúcar mais simplista e mastigado do que deveria. Existe um certo impasse ali: não é nem tão contundente para ser abraçado como um produto refinado nem tão popular para fazer sucesso de bilheteria. Assim, as ótimas cenas dramáticas se misturam com uma estrutura meio estranha que traz repetitivas cenas de terapia (o que não ajuda tanto a contida interpretação de Steve Carell como um unilateral terapeuta) e uma ou outra cena de humor só para cumprir tabela. Sorte que o interessante roteiro de Vanessa Taylor e a boa dinâmica entre Streep e Tommy Lee Jones conseguem ultrapassar esses obstáculos e conquistar o coração do espectador. Quem sabe o que esperar (sem muita exigência) passará, pelo menos, quase duas horas com bons atores em um filme descompromissadamente agradável.

FILME: 7.5

Dores cantadas

O Que se Move, ao contrário do que o título indica, é um filme sobre imobilidade – emocional, especificamente. Narrando as histórias de três mães que lidam com perdas e reencontros com seus filhos, o diretor Caetano Gotardo emprega lirismo a esse enredo estruturado em três blocos, onde os ápices emocionais estão todos em dolorosos momentos musicais. A experiência proposta pelo diretor é, assim, difícil, pesada e extremamente complexa – tanto no conteúdo quanto na forma. Gratificante para quem estiver disposto a embarcar na viagem, mas bastante complicada para o público desprevenido.

Lembrando brevemente Coisas Que Você Pode Dizer Só de Olhar Para Ela e Questão de Vida, longas menores que falam sobre o universo feminino através de histórias isoladas, O Que se Move, em um primeiro momento, causa estranhamento. Além dos espectadores não estarem acostumados com a música como forma de expressão dramática em um filme brasileiro, o trabalho de Gotardo ainda tem um ritmo lento, quase imóvel – o que, claro, é uma extensão da vida e dos sentimentos das próprias personagens.

Só que existe algo muito precioso nas sensações passadas por O Que se Move. Apesar do longa ser difícil em uma análise inicial, ele cresce após a sessão. Não é o tipo de história que fica apenas na sala de cinema. E isso já diz bastante sobre o filme, que merece ser conhecido pelo menos em função de um fator fundamental nessa sensação de que a história reverbera após a sessão: o extraordinário trio de protagonistas. Não gosto de fazer comparações com filmes que considero superlativos, mas aqui é o caso: desde As Horas não via três atrizes tão impressionantes e com tanta sintonia – mesmo que suas histórias nunca se cruzem.

Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna parecem pessoas da vida real. São personagens e não atrizes em cena. E isso é um dom cada vez mais raro. Todas estão arrasadoras, tanto na sutileza quanto na hora em que precisam extravasar os sentimentos das vidas sufocantes das figuras que interpretam. E é no momento musical que elas ganham qualquer um por completo. Cantando com som direto (o que, segundo o diretor, foi fundamental para que as atrizes pudessem evidenciar ainda mais a dor das personagens), Cida, Andrea e Fernanda tocam o espectador e criam as mais belas cenas de O Que se Move.

De certa forma “ousado” na estrutura e mais complexo do que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro, o filme de Caetano Gotardo precisa de tempo para ser processado. Certamente, esse texto não será meu registro final sobre o que acho de O Que se Move. Até porque ainda não consigo discernir muito bem até que ponto o ritmo arrastado e como cada história demora a dizer ao que veio em seus dramas me incomoda. De todo jeito, é, certamente, uma experiência diferente e que só poderá ser absorvida com o passar do tempo e algumas revisões. E não é esse o melhor tipo de cinema?

Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado

Colegas

Direção: Marcelo Galvão

Roteiro: Marcelo Galvão

Elenco: Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola, Leonardo Miggiorin, Lima Duarte, Juliana Didone, Christiano Cochrane, Marco Luque, Maytê Piragibe, Otávio Mesquita, Theo Werneck

Brasil, 2011, Comédia, 99 minutos

Sinopse: Três amigos portadores da síndrome de Down vão superar suas limitações para correr atrás de seus maiores sonhos. Um dia, inspirados pelo filme Thelma & Louise, o grupo foge no antigo carro do jardineiro (Lima Duarte) e parte numa viagem que tem a felicidade como objetivo. Márcio deseja voar como um pássaro, Aninha espera arrumar um bom partido para se casar e Stalone só quer ver o mar pela primeira vez. Eles vão viver diversas aventuras juntos e irão descobrir que a liberdade é um direito de todos. (Adoro Cinema)

Só por sua proposta, Colegas já merecia aplausos. Ora, quando foi que o mundo das pessoas com deficiência – e, nesse caso, síndrome de down – teve um retrato tão livre de preconceitos e estereótipos? Normalmente, essa temática sempre é trabalhada com um olhar vitimizador, por muitas vezes enfadonho. É, então, no mínimo louvável a escolha do diretor Marcelo Galvão de criar uma história que, além de quebrar essa constante do retrato de pessoas com deficiência, brinca com o tema e traz uma inovadora percepção sobre o assunto. Ao contar a história de três jovens (Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk) fãs do filme Thelma & Louise que resolvem fugir da instituição onde vivem para realizar seu sonhos, Colegas esbanja otimismo e um humor nonsense irresistível.

Stalone quer ver o mar. Aninha quer um marido. Márcio quer voar. A partir dessas motivações, os personagens roubam um carro e passam a ser procurados pela polícia. Com muitas referências (e elas são realmente infinitas, indo de Psicose a Cidade de Deus, por exemplo),  Colegas é uma grata surpresa por, justamente, unir o tema síndrome de down com uma narrativa perfeitamente cinematográfica, sem nunca parecer mera panfletagem ou um hino de culpa social. Grande vencedor do 40° Festival de Cinema de Gramado, onde foi ovacionado em sua sessão com aplausos entusiasmados durante e após o filme, o novo trabalho de Marcelo Galvão ainda fez bonito nos bastidores: no Festival, teve sessão de audiodescrição – prática ainda inacreditavelmente escassa e que só tornou a sessão ainda mais especial. A recepção refletiu a proposta de Colegas: fazer com que o espectador esqueça o fator síndrome de down e embarque em uma divertida aventura.

Claro que, por se tratar de um longa protagonizado por jovens com síndrome de down, Colegas toma algumas liberdades que não seriam possíveis com protagonistas convencionais. Ou melhor, tornariam o filme forçado, irritante. Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk são as grandes estrelas do longa. É gratificante acompanhá-los nessa jornada que, através da caricatura de personagens que seriam os “vilões” (como é o caso dos policias e dos apresentadores de TV exagerados), brinca com extrema naturalidade com temas delicados, a exemplo do corriqueiro uso de termos como “retardado” e “mongolóide”. Além da naturalidade, Colegas ainda faz piada disso. Em determinado momento, um dos protagonistas, apaixonado por uma “gordinha”, pede para beijá-la. A moça imediatamente responde: “Você não notou que somos diferentes?”. E ele retruca: “Não tem problema, eu gosto de gordas”. Por momentos assim, onde não existe qualquer amarra com o politicamente correto ou com a necessidade de falar sobre o tema com receio, o longa ganha o espectador.

Contando com os mais variados tipos de locação (incluindo algumas em Buenos Aires), Colegas é espirituoso e bem humorado no seu tom de fábula. Por fugir da abordagem emocional (o que talvez decepcione quem espera algo mais dramático) e por tratar do tema sem qualquer preconceito, o filme de Marcelo Galvão faz o espectador sair da sessão de alma leve. É uma baita lição, e o longa não precisa estampar isso a cada cena. No acender das luzes, o espectador sai da sessão sem se importar muito com o final apressado e abrupto, com os coadjuvantes inexplorados (Lima Duarte é um deles) ou com situações não tão inspiradas ou bem executadas. A verdade é que Colegas, antes de tudo, é uma experiência humana. E esse seu inestimável valor já significa mais do que muitas tentativas de expressão de nosso cinema. Uma vitória!

FILME: 8.0

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