
A CAÇA (Jagten, 2012, de Thomas Vinterberg): Em A Caça – longa exibido na última edição do Festival de Cannes – o diretor Thomas Vinterberg se utiliza da mentira inconsequente e rancorosa de uma criança e de pessoas que ajustam fatos e informações para moldar verdades absolutas para desafiar o público a acompanhar um incômodo retrato incômodo da vida de um homem injustiçado. A forma como o diretor mastiga além do necessário alguns aspectos (o desfecho não precisava ter um arco tão dramático tão esmiuçado) e entrega todas as cartas em determinados momentos (mais dúvidas e questionamentos perante a veracidade do principal conflito cairiam melhor à proposta) tira um pouco a chance do resultado ser mais brilhante. Porém, Mads Mikkelsen segura muito bem a barra como protagonista, o texto desenvolve sem maiores problemas as delicadas propostas (abuso, mentira, violência, injustiça) e a aproximação com a realidade torna tudo ainda mais interessante.
DARLING – A QUE AMOU DEMAIS (Darling, 1965, de John Schlesinger): Foi por esse filme que Julie Christie ganhou o seu Oscar de melhor atriz – e não por Doutor Jivago, como normalmente é confundido. A concorrência naquele ano não justifica sua vitória, especialmente porque outra Julie (a Andrews, por A Noviça Rebelde) tinha um papel muito mais icônico e, como o próprio tempo mostrou, inesquecível. Prêmios à parte, Christie é mesmo a estrela de Darling, esbanjando sua habitual beleza (intacta com o tempo, como vimos em Longe Dela) e segurando bem o protagonismo da história, que é totalmente entregue a sua figura. É provável que o filme de John Schlesinger tivesse se saído melhor caso não investisse em tantas elipses (especialmente quando a Diana Scott de Christie muda de amantes), mas nada que prejudique a presença da atriz – que, no final das contas, é quem faz Darling valer a pena.
INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild, 2012, de Benh Zeitlin): Em pequenos detalhes, Indomável Sonhadora lembra outros filmes recentes. No primeiro longa-metragem de Benh Zeitlin, está presente a relação conturbada de uma jovem com uma figura familiar extremamente problemática (Preciosa – Uma História de Esperança) e também a dura realidade contada através de um ponto de vista “fabulesco” (Quem Quer Ser Um Milionário?). Tais semelhanças não são um problema, mas também não conseguem ser necessariamente um bônus para esse filme apenas correto, onde pouco acontece. A trilha sonora é um destaque, mas, aqui, o único ponto mais especial a ser celebrado é a atuação da jovem Quvenzhané Wallis. Fora as desnecessárias discussões sobre ela merecer ou não indicações a prêmios por ser uma criança, não há nada a ser questionado na figura da garotinha, que é um verdadeiro furacão em cena e também responsável por tornar Indomável Sonhadora um filme no mínimo curioso.
KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011, de William Friedkin): Nas más línguas, Killer Joe será criticado pelo final inconclusivo ou pela repulsa que causa em uma cena particular (a da coxinha de frango). Mas é justamente a meia hora do desfecho que eleva o novo filme de William Friedkin a outro patamar. Não vale, no entanto, depreciar o resto: a história parece repetida (um plano infalível para matar um familiar e ficar com sua apólice), só que Killer Joe trilha caminhos diferentes – e resta ao espectador aprovar ou não um estudo maior de personalidade dos personagens do que do plano em si. Por falar em personagens, os atores conseguem dar bastante verossimilhança a esse mosaico de figuras extremas: do pai boboca vivido por Thomas Haden Church ao misterioso matador de aluguel do título conduzido com notável segurança por Matthew McCounaghey, todos parecem imprevisíveis – sejam por suas inteligências ou por suas particulares demências. Isso por si só já deixa o filme com um quê de tensão, onde o ápice está, como já dito, no final (o jantar cordial mas sarcástico posteriormente banhado em sangue também funcionou muito bem recentemente em Django Livre).
SONATA DE OUTONO (Höstsonaten, 1978, de Ingmar Bergman): Só os fortes conseguem sobreviver ao que o diretor Ingmar Bergman apresenta em Sonata de Outono. É aquele tipo de filme pesado, denso, sufocante – e que nunca se preocupa em fazer concessões para falar sobre as mágoas da vida. Isso mesmo: o longa estrelado por Ingrid Bergman (em impecável atuação) e Liv Ullman é inteiramente sobre relações familiares mal resolvidas, feridas nunca cicatrizadas e erros que ainda trazem tristezas. Não é nada fácil acompanhar a degradação de Charlotte e Eva, mãe e filha, respectivamente, que se reencontram com as intenções mais amigáveis, mas que, conforme passam os dias, começam a libertar todas as dores silenciadas durante anos. Com um texto extremamente forte e uma direção notável (percebam como a fotografia também é um primor), Sonata de Outono talvez seja uma experiência para ficar apenas na memória, porque haja força para rever um filme maravilhoso mas incrivelmente depressivo como esse. Curiosamente, no mesmo ano, Woody Allen realizou Interiores, sua obra máxima, claramente uma homenagem a esse universo de Bergman.