Cinema e Argumento

Serra Pelada

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Direção: Heitor Dhalia

Roteiro: Heitor Dhalia e Vera Egito

Elenco: Juliano Cazarré, Júlio Andrade, Matheus Nachtergaele, Sophie Charlotte, Wagner Moura, Laura Neiva, Jesuíta Barbosa, Rose Tuñas

Brasil, 2013, Drama, 100 minutos

Sinopse: Uma jornada ao maior garimpo a céu aberto da Idade Contemporânea. Os amigos Juliano e Joaquim deixam o Rio de Janeiro em busca do sonho do ouro. O ano é 1978. Os dois chegam a Floresta Amazônica como tantos outros milhares de homens chegaram. Repletos de sonhos e ilusões. Mas a vida no garimpo muda tudo. A obsessão pela riqueza e pelo poder os destrói. Juliano se torna um gangster. Joaquim deixa todos os seus valores para trás. Uma história sobre a febre do ouro, sobre ganância e violência. Sobre uma grande amizade e seu fim.

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Ter acompanhado a jornada de Walter White (Bryan Cranston), no recém-finalizado seriado Breaking Bad, influencia por completo a recepção de Serra Pelada. Ambas as histórias mostram as vidas de homens comuns que, quando entram em contato com negócios altamente rentáveis e um nível de poder que nunca tiveram, passam a ter todo os seus comportamentos alterados. Tanto Walter quanto Juliano (Juliano Cazarré) são transformados pelo dinheiro e pela autoridade que conquistam, perdendo seus ideais e suas boas índoles em circunstâncias que afloram o pior que existe dentro de cada um deles. Mas, se Breaking Bad teve cinco temporadas esmiuçar o tema com o devido ritmo (e de forma magnífica, diga-se de passagem), Serra Pelada já não tem a mesma sorte. Formatos à parte, o previsível roteiro da dupla Heitor Dhalia e Vera Egito não consegue impactar, seguindo caminhos óbvios e apostando em arcos dramáticos que não trazem essa perturbadora imersão na vida de um personagem que é consumido pela ganância e pelo poder.

Responsável por À Deriva, um dos filmes brasileiros mais interessantes dos últimos anos, o pernambucano Heitor Dhalia agora volta ao seu país de origem depois de uma investida mal sucedida nos Estados Unidos com 12 Horas, estrelado por Amanda Seyfried. O retorno é menos interessante do que se poderia esperar, especialmente porque Dhalia já realizou longas bastante diferentes, como Nina O Cheiro do Ralo. E talvez por ser justamente mais simples do que outras passagens da carreira do diretor que Serra Pelada se torne uma leve decepção. De qualquer forma, Dhalia tem seus momentos aqui, principalmente quando dá um tom mais documental à história. Quando se dispõe a fazer uma radiografia do lugar-título e explorar sua grande repercussão nos anos 1980, o diretor consegue dar um tom mais dinâmico e envolvente ao resultado, muito ajudado pelas imagens grandiosas, pela trilha do sempre admirável Antonio Pinto e pela excelente reconstituição de época.

O mosaico de personagens também é pra lá de interessante, sendo bem explorado pelo trio principal: Cazarré tem a força necessária para carregar o protagonismo do filme, Júlio Andrade ultrapassa os obstáculos de seu personagem previsível e Sophie Charlotte surpreende como a cobiçada mulher da trama. O elenco de suporte, que tem nomes como Matheus Nachtergaele e Wagner Moura, ainda dá um toque especial ao bom time de atores. O problema mesmo é a forma como o texto nunca consegue ser mais impactante ao construir a desconstrução moral do protagonista. Nós observamos suas mudanças, mas não necessariamente as sentimos. Isso porque Serra Pelada mostra de forma rasa o passo-a-passo das mudanças de Juliano, preocupando-se mais em trablhar pequenos conflitos de negócios entre ele e outros habitantes do local do que desenvolver o que de fato mexe com seu ego e a sua ambição.

Reduzindo-se a meras explicações de “eu quero ficar rico!” para justificar as ações de um homem claramente corrompido por razões muito mais complexas, o roteiro ainda quase faz da relação da dupla principal um estereótipo. De um lado, Juliano, o ganancioso impulsivo que deseja muito dinheiro e poder. De outro, Joaquim, o pai de família racional e bondoso que se vê encurralado frente ao comportamento descontrolado do amigo. São abordagens que deixam a impressão de que Serra Pelada foi amortizado para as grandes plateias – o que certamente tem a ver com o selo Globo Filmes. Dentro do óbvio, cumpre bem todas as formalidades, tem boas pitadas de humor e em momento algum deixa qualquer má impressão. Porém, essa é uma história que, dadas as proporções e a equipe envolvida (especialmente Dhalia), merecia um roteiro mais ambicioso e que fosse mais afundo no que existe de pior dentro de um ser humano transformado pela ambição.

FILME: 7.5

3*

Rapidamente: 2013

Parece mentira, mas 2013 já está quase acabando. Até agora, tem sido um ano de pequenas grandes surpresas e, em um balanço mais breve, superior a 2012. Se você está querendo colocar os filmes desse ano em dia e não sabe por onde começar, preparamos esse especial com rápidos comentários sobre as 54 estreias de 2013 que conferimos até agora. Boa leitura =)

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J.J. Abrams reafirmou ser o grande nome da ficção científica contemporânea com Além da Escuridão – Star Trek. Depois do surpreendente A Pele Que Habito, Pedro Almodóvar errou feio com Os Amantes Passageiros. As dores de envelhecer nunca foram tão realistas como em Amor. Os rodopios no mato e a excessiva contemplação aborrecem o repetitivo Amor Pleno. Rachel Weisz é o grande motivo para se conferir Amor Profundo. Joe Wright só melhora como diretor de filmes de época, mas Anna Karenina carece de um roteiro melhor. A desconstrução de um amor cercado de idealizações ganha um retrato lindo e doloroso em Antes da Meia-Noite. Mais uma vez Sofia Coppola fala sobre o nada e se perde nesse mesmo vazio com Bling Ring – A Gangue de Hollywood. Wagner Moura dá mais uma prova do porquê é considerado o melhor ator brasileiro em atividade como o protagonista de A Busca. Mesmo não sendo necessariamente original, A Caça é um interessante retrato de uma vida interrompida. Poucas vezes grandes atores se reuniram para protagonizar um desastre como O Casamento do Ano. No contido A Coleção Invisível, Vladimir Brichta tem a chance de sua vida.

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O espirituoso Colegas tem leveza e ingenuidade de sobra, e resta a você saber até que ponto julgá-lo por isso. Depois de Lúcia certamente é um dos filmes mais incômodos do ano. O subestimado Detona Ralph tem aquele sopro de originalidade que está faltando à Pixar. Django Livre é cheio de excessos, mas é mais um ótimo Tarantino. Poucas vezes o cinema brasileiro viu uma homenagem tão sincera como Elena. Menos é mais surge como primeira ordem no excelente Ferrugem e Osso. Bruno Barreto tem o momento de sua carreira com Flores Raras. José Wilker inventa de ser diretor e se sai muito mal com o péssimo Giovanni Improtta. Baz Luhrmann se desapega da obra original e dá o seu tom – para o bem e para o mal – a O Grande Gatsby. Alfonso Cuarón dá uma aula de direção em Gravidade, o filme-evento do ano. Hitchcock é uma das grandes decepções de 2013. Denise Fraga mostra que merecia outras grandes chances como a que recebeu em Hoje. Em A Hora Mais Escura, Kathryn Bigelow dá um tom grandioso demais a um tema que, na vida real, há muito já estava praticamente esquecido. Indomável Sonhadora é todo de Quvenzhané Wallis.

thmasterO óbvio ganha tons muito nervosos em Invocação do Mal. Para os apreciadores de música, Jorge Mautner: O Filho do Holocausto pode ser bastante interessante. William Friedkin volta a apresentar um vigor surpreendente com Killer Joe – Matador de Aluguel. Em todos os sentidos, O Lado Bom da Vida é um dos filmes mais superestimados de 2013. Historicamente, Lincoln tem seu valor, mas está longe de ser um grande longa. Repleto de surpresas, O Lugar Onde Tudo Termina consolida o nome de Derek Cianfrance. Mama não assusta ninguém. O melhor filme do Oscar 2013 nem concorria nas categorias principais: O Mestre, de Paul Thomas Anderson. Os Miseráveis é o melhor musical desde… quando mesmo? A Morte do Demônio é pura agonia. Joseph Kosinski ainda vai longe, mas, com Oblivion, prova que precisa de melhores roteiros. Os fetiches de Lee Daniels atrapalham por completo o desfocado Obsessão. Mais um documentário musical dirigido aos fãs, assim é One Direction: This is Us. Poucas vezes a vergonha alheia foi tão grande como em Para Maiores.

thmoveMaria de Medeiros se sai bem ao retratar a ditadura com Repare Bem. Maggie Smith reina no singelo O Quarteto. O Que se Move é um dos filmes mais recompensadores de 2013 para quem se propõe a embarcar em seus difíceis dramas femininos. Uma das eras de ouro da fórmula 1 é relembrada de forma bastante digna por Rush – No Limite da EmoçãoO coreano Park Chan-Wook não debutou em Hollywood com grande estilo. O roteiro pouco aprofundado impede que Serra Pelada seja um filme mais interessante. As Sessões é um verdadeiro banho de sutileza. Renato Russo nunca foi tão chato como em Somos Tão Jovens. Kleber Mendonça Filho marca época no cinema brasileiro com O Som ao Redor. A equipe de O Tempo e o Vento deveria entender que dois séculos de história não podem ser devidamente contados em meras duas horas. Steven Soderbergh se despede – mais uma vez – com o regular Terapia de Risco. Betse de Paula tem seus momentos com Vendo ou Alugo. Apenas a cena-título surpreende em O Voo.

Gravidade

Beautiful, don’t you think?

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Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris (voz), Orto Ignatiussen (voz), Phaldut Sharma (voz), Amy Warren (voz), Basher Savage (voz)

Gravity, EUA, 2013, Ficção, 91 minutos

Sinopse: Matt Kowalski (George Clooney) é um astronauta experiente que está em missão de conserto ao telescópio Hubble juntamente com a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock). Ambos são surpreendidos por uma chuva de destroços decorrente da destruição de um satélite por um míssil russo, que faz com que sejam jogados no espaço sideral. Sem qualquer apoio da base terrestre da NASA, eles precisam encontrar um meio de sobreviver em meio a um ambiente completamente inóspito para a vida humana. (Adoro Cinema)

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Gravidade começa falando sobre a impossibilidade da vida humana como conhecemos no espaço. As condições de temperatura e oxigênio não deixam qualquer um de nós sobreviver por lá sem equipamentos e condições adequadas. Essa explicação poderia ser normalmente encarada como algo didático para uma mera ambientação, mas, no caso de Gravidade, é uma dica do que está por vir ao longo dos breves 90 minutos do filme: uma história passada em uma circunstância completamente inimaginável. Eis aí a raiz de toda a angústia causada por esse novo trabalho do mexicano Alfonso Cuarón: não é a “vida real”. Nós não saberíamos como agir caso estivéssemos na mesma situação dos protagonistas Ryan (Sandra Bullock) e Matt (George Clooney). Se, em tantos filmes, palpitamos facilmente sobre quais atitudes os personagens deveriam tomar frente a uma situação de desespero, aqui não temos esse estofo. É a natureza que dita as regras para o homem, e não o contrário. E, por estar ciente de todo o poder desse universo imprevisível, Gravidade se estabelece – com folga – como a melhor ficção científica dos últimos anos.

Se o ótimo Lunar era um drama passado no espaço mas não necessariamente um filme sobre o espaço, podemos dizer que a última vez que tal ambiente foi explorado com a devida dose de genialidade pelo cinema foi em 2008, com WALL-E. Não por acaso, Gravidade chega a fazer uma referência ao longa de Andrew Stanton, quando coloca Sandra Bullock orbitando rumo a um destino com a ajuda dos jatos de um extintor de incêndio. Muito me agrada essa conexão entre os dois filmes, pois, cada um ao seu modo, traz o que existe de melhor em relação ao espaço. Mais especificamente sobre o longa de Cuarón, não hesito em dizer que esse cenário nunca ganhou uma representação técnica tão fiel e impressionante no cinema como aqui. A tecnologia, claro, avançou infinitamente com o passar dos anos, mas foram poucos os diretores que souberam utilizá-la com uma devida lógica audiovisual. Cuarón é um deles. E se, em um primeiro momento, pode parecer estranho que o formato grandioso dos blockbusters tão dominado por estadunidenses ganhe um de seus ápices nas mãos de um cineasta mexicano, logo a teoria vai por água abaixo quando o nome do diretor vem à tona: Cuarón é simplesmente um dos realizadores mais versáteis da atualidade, passando por dramas hormonais (E Sua Mãe Também), adaptações literárias (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) e subestimadas obras-primas (Filhos da Esperança).

Não dava para imaginar, entretanto, que ele viria com um espetáculo de imersão tão poderoso como Gravidade. Talento não lhe falta, mas seu novo filme supera qualquer expectativa antes depositada em seu nome. Isso mesmo: o filme é uma verdadeira imersão (e que merece ser visto na melhor sala de cinema possível), capaz de mexer com todos os sentidos da plateia. Resultado de uma direção que sabe orquestrar de forma impecável todas as possibilidades do audiovisual: não deixe de reparar o detalhista trabalho de som, a impressiva fotografia, a bem explorada direção de arte e a discreta mas eficiente trilha sonora de Steven Price. Tudo para dar o máximo de realismo a um filme que é fiel a fatos completamente ignorados por consagradas histórias do cinema – como Star Wars, que tomava várias liberdades para mostrar infinitos barulhos e explosões em pleno espaço (o que, como comprova a ciência, simplesmente não é possível). São imagens encantadoras (a aurora boreal e a total escuridão são pontos altos para os olhos), cujos resultados se ampliam com a perfeição dos efeitos e o total envolvimento causado pelo, vale repetir, cuidadoso trabalho de som.

A história é muito simples: dois astronautas, surpreendidos por uma chuva de destroços, são jogados à deriva em pleno espaço. Uma busca pela sobrevivência, enfim. Há quem procure metáforas e filosofias no que é mostrado em Gravidade, mas fico no time dos que acreditam que o resultado não passa de um blockbuster de quinta grandeza. Sinceramente, não creio que Alfonso Cuarón tenha tido a vontade de criar simbolismos ali, especialmente porque o roteiro escrito por ele, em parceria com o filho Jonás, tem, inclusive, várias bobeiras e até mesmo clichês bem evidentes. Os maiores são: a necessidade de ter um alívio cômico para não sufocar o espectador por completo (representado pela figura de George Clooney, que, por isso mesmo, não tem muito o que fazer com o material) e um desenvolvimento muito esquemático, que segue basicamente a lógica de colocar um obstáculo no caminho da protagonista para ela superá-lo e, depois, ter que enfrentar… um novo obstáculo. É basicamente isso, sem grandes variações – de vez em quando com algumas pitadas dramáticas que, por mais que não sejam das mais geniais, funcionam porque estamos tão envolvidos na mesma situação que os protagonistas que não conseguimos ficar indiferentes a elas.

Porém, se ater aos (pequenos) defeitos de Gravidade é apenas procurar motivos para não entrar por completo no filme de Cuarón. Desde já favoritíssimo para concorrer ao Oscar 2014 (e merece levar todos os prêmios do universo – com o perdão do trocadilho – por sua irrepreensível parte técnica), é uma produção que veio para marcar época. Sem exageros, é um verdadeiro divisor de águas para o gênero e, acima de tudo, uma grande aula de direção. Destaque ainda para uma inspirada Sandra Bullock, que, por mais que não esteja em um filme dedicado a atuações, comprova que seu Oscar por Um Sonho Possível foi totalmente prematuro (recentemente também estava ótima em Tão Forte e Tão Perto). Ela supera os efeitos visuais e consegue dar uma boa dose de humanidade a sua personagem, que tem 100% da nossa torcida. Com todos esses acertos, Gravidade é o filme do momento, conseguindo ser aquele exemplar que chega ao conhecimento de todos: para você estar por dentro do que rola no cinema, você precisa ter visto o longa. E é uma grande alegria finalmente ver um filme que realmente merece chegar a esse status de popularidade pelas razões certas. Estávamos carentes de sucessos desse tipo.

FILME: 9.0

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Na coleção… Lembranças de Hollywood

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Quem está acostumado a acompanhar apenas o Mike Nichols ácido e afiado de filmes como Closer – Perto DemaisQuem Tem Medo de Virginia Woolf? certamente poderá se decepcionar com Lembranças de Hollywood. Ainda que o diretor comande esse longa de 1990 com certa dose de sarcasmo, não temos aqui uma trama necessariamente pesada ou de diálogos complexos. Isso, no entanto, não diminui o resultado, que, oscilando entre o drama e a comédia, consegue falar sobre vários temas de forma leve e sucinta. Baseado na vida da atriz Carrie Fisher (que escreveu o roteiro) e em sua batalha para equilibrar drogas, fama e conturbadas relações familiares, Lembranças de Hollywood é bastante feminino e diz muito sobre o universo cinematográfico e famílias que se formam nesse meio – tanto que a própria Liza Minelli escreveu à Carrie Fisher confessando que o resultado em muito se parece com a relação que ela estabelecia com a sua mãe, Judy Garland.

Mesmo com uma indicação ao Oscar para Meryl Streep (a nona da atriz e a única vez que ela não compareceu à cerimônia) e o claro protagonismo da mesma, o filme de Nichols é todo de uma dupla. Falar de Meryl sem mencionar sua parceria com Shirley MacLaine é uma heresia: como mãe e filha, ambas se saem igualmente bem (com Shirley extravagante na medida exata) quando trocam faíscas de inveja e afeto em uma relação permeada por carinho mas também por competição. A própria temporada de premiações daquele ano ficou confusa ao ter que escolher entre elas: ambas foram indicadas ao Globo de Ouro, apenas Shirley foi lembrada pelo BAFTA e Meryl foi a única finalista ao Oscar – juntamente com a canção I’m Checking Out. E aqui um adendo: antes mesmo de ganhar o mundo soltando a voz em Mamma Mia!, ela já dava um show ao soltar a voz em Lembranças de Hollywood, inclusive frente a um piano cantando You Don’t Know Me, de Ray Charles.

A cena da canção de Charles, por sinal, exemplifica bem a dinâmica de Suzanne (Meryl) e Doris (Shirley): enquanto a primeira dá uma versão muito sensível e intimista para a música, a segunda já dá sequência à apresentação da filha soltando com I’m Still Here, saltando em cima do piano e cruzando as pernas com uma acrobacia visivelmente planejada. Uma competição intrínseca por parte da mãe, que sempre precisa aparecer mais, e uma suposta derrota assumida da filha, que nunca se dispõe a entrar no caminho da matriarca, seja por admiração ou por medo mesmo. E é assim durante todo o filme: elas têm o mesmo sangue, mas são figuras opostas e que encaram a vida e a fama de maneiras opostas. Precisam se encontrar – afinal são atrizes e dividem o mesmo meio – só que não possuem nada em comum além da profissão, do sangue e dos deveres familiares em comum.

Contudo, todo esse interessante cenário se constrói muito mais em função das ótimas performances de Meryl e Shirley do que do filme em si, uma vez que Lembranças de Hollywood carece de um clímax e termina, justamente, com número musical de Meryl sem qualquer aviso prévio de que aquela trama estava chegando ao fim. Com incontáveis atores em breves pontas (Annette Bening, Richard Dreyfuss, Gene Hackman, Oliver Platt), o longa de Nichols chama a atenção em função das duas. Leve e descompromissado, Lembranças de Hollywood conseguirá seu carinho durante pouco mais de 90 minutos, mas não se perpetuará por muito tempo. Falta uma força maior nessa história, que pouco se aprofunda em algumas questões (Dennis Quaid só serve para ser mais um obstáculo passageiro na vida infeliz da protagonista). Talvez seja resultado de uma grande confiança depositada na até então inexperiente roteirista Carrie Fisher, que ainda se baseou em um livro de autoria própria! Ela não foi muito além do previsível formato de uma discreta biografia apegada mais à linearidade dos fatos de sua vida do que a uma narrativa diferenciada.

FILME: 7.5

3*

Invocação do Mal

The devil exists. God exists. And for us, as people, our very destiny hinges on which we decide to follow.

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Direção: James Wan

Roteiro: Chad Hayes e Carey Hayes

Elenco: Vera Farmiga, Lili Taylor, Patrick Wilson, Ron Livingston, Shanley Caswell, Hayley McFarland, Joey King, Mackenzie Foy, Kyla Deaver, Shannon Kook, John Brotherton, Sterling Jerins, Marion Guyot

The Conjuring, EUA, 2013, Suspense/Terror, 112 minutos

Sinopse: Harrisville, Estados Unidos. Um casal (Ron Livinston e Lili Taylor) muda para uma casa nova ao lado de suas cinco filhas. Inexplicavelmente, estranhos acontecimentos começam a assustar as crianças, o pai e, principalmente, a mãe. Preocupada com algumas manchas que aparecem em seu corpo e com uma sequência de sustos que levou, ela decide procurar um famoso casal de investigadores paranormais (Patrick Wilson e Vera Farmiga), mas eles não aceitam o convite, acreditando ser somente mais um engano de pessoas apavoradas com canos que fazem barulhos durante a noite ou coisas do gênero. Porém, quando eles aceitam fazer uma visita ao local, descobrem que algo muito poderoso e do mal reside ali. Agora, eles precisam descobrir o que é e o porquê daquilo tudo acontecendo com os membros daquela família. É quando o passado começa a revelar uma entidade demoníaca querendo continuar sua trajetória de maldades. (Adoro Cinema)

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Nunca é demais lembrar que os gêneros mais cansados do cinema atualmente são o suspense e o terror. Tanto que basta um filme ser acima da média para que o consideremos até mesmo um sopro de originalidade em um universo que raramente cria histórias verdadeiramente tensas ou assustadoras. Se recentemente Mama reforçou essa sensação de desgaste, logo também veio a refilmagem de A Morte do Demônio, filme que, para o escriba que vos fala, acertou em cheio ao apresentar uma estética atrativa e uma trama cheia de agonia. Agora, Invovação do Mal também chega para restaurar nosso entusiasmo com o suspense e o terror. Aqui, nada do angustiante gore ou dos divertidos exageros de A Morte do Demônio, e sim um filme que sabe tirar o melhor proveito de ferramentas essencialmente óbvias. E isso não é fácil: causar tensão genuína com truques batidos é para poucos. Por isso, Invovação do Mal pode, sem sombra de dúvida, ser considerado mais um notável momento da carreira do  James Wan, cineasta nascido na Malásia que, anos atrás, ganhou o mundo com o excelente primeiro capítulo de Jogos Mortais.

Contando uma história baseada em fatos reais, o longa-metragem já ganha pontos ao optar pela lógica mais certeira de todas: a de que a nossa imaginação causa muito mais medo do que aquilo que os nossos olhos podem ver. Quando Mama, por exemplo, colocou o peso de seu suspense em uma criatura computadorizada que era mais cômica do que assustadora, tudo foi por água abaixo. E é exatamente o oposto que acontece em Invocação do Mal: uma vez ou outra, Wan pode até dar explicações demais (e é aí que a história diminui a marcha), mas, ao deixar todo o medo de seu filme reservado para o imaginário do espectador, alcança momentos realmente admiráveis. Também já escapa à memória a última vez que vimos um suspense de dimensão mais popular dar tantos sustos de forma óbvia sem parecer… Óbvio! Isso mesmo: você sabe que, quando Invocação do Mal faz um personagem andar pela casa em pleno silêncio, o susto logo está por vir. Mas, claro, o ápice dessa tensão é inevitável e você vai se assustar. Por isso, prepare os nervos: difícil não se angustiar e pular da cadeira várias vezes durante o desenrolar da história.

Ao longo de quase duas horas de duração, o diretor nos conduz por uma trama bastante simples (casa mal assombrada, possessão, exorcismo) e que faz questão de passar por todas as etapas das apresentações formais: a família feliz que se muda para uma casa, os dias descobrindo aquele lugar, a primeira noite cheia de sinais estranhos que vão destrinchar eventos cada vez mais drásticos, etc. Tudo isso com uma trilha sempre presente (e sem grandes inventividades), sustos barulhentos (a porta que se bate! O pássaro que sai voando! O copo que se quebra!) e, no clímax, gritos, violência e possessão. São fatores que normalmente irritariam, colocando o resultado em uma vala comum, mas que aqui ganham um tratamento surpreendentemente eficiente. Não existe uma resposta necessariamente certa para o porquê de James Wan ter acertado nesses mesmos elementos que tantos diretores falharam. Até porque o suspense/terror não se baseia na razão: ele é uma experiência muito mais sensorial. Se você sentiu, é o que importa. E Invocação do Mal é certeiro nesse sentido.

Estrelado por uma atriz em ascensão (Vera Farmiga, que, depois da indicação ao Oscar por Amor Sem Escalas, ganhou seu espaço na TV com a série Bates Motel e agora as bilheterias com Invocação do Mal), esse novo acerto de Wan não chega a ser uma revolução para o gênero, mas faz jus a todo barulho que causou entre público e crítica. Muito bem ambientado (a direção de arte é boa, a casa onde a trama se passa é bem explorada pelas câmeras, os atores se saem bem), é um suspense que merece apreço por conseguir o que tantos não conseguem quando resolvem repetir elementos óbvios de uma história de tensão. Existem aqueles que podem contra-atacar alegando justamente isso: que Invocação do Mal não tem inventividades e que, apesar dos sustos, é carente de qualquer aspecto mirabolante. Mas aí voltamos a uma questão que me parece essencial: claro que um suspense/terror bem arquitetado e engenhoso é sempre mais interessante, mas gosto de acreditar que o gênero deve ser analisados de forma mais sensorial. E, se Wan conseguiu causar tantos sustos e prender a atenção durante quase duas horas com uma agonia quase sempre presente, é porque o filme tem sim seus méritos. Não reconhecer essa habilidade é colocar mais um prego no caixão desse gênero tão sedento por novidades dignas, como essa chamada Invocação do Mal.

FILME: 8.0

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