Serra Pelada

Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Heitor Dhalia e Vera Egito
Elenco: Juliano Cazarré, Júlio Andrade, Matheus Nachtergaele, Sophie Charlotte, Wagner Moura, Laura Neiva, Jesuíta Barbosa, Rose Tuñas
Brasil, 2013, Drama, 100 minutos
Sinopse: Uma jornada ao maior garimpo a céu aberto da Idade Contemporânea. Os amigos Juliano e Joaquim deixam o Rio de Janeiro em busca do sonho do ouro. O ano é 1978. Os dois chegam a Floresta Amazônica como tantos outros milhares de homens chegaram. Repletos de sonhos e ilusões. Mas a vida no garimpo muda tudo. A obsessão pela riqueza e pelo poder os destrói. Juliano se torna um gangster. Joaquim deixa todos os seus valores para trás. Uma história sobre a febre do ouro, sobre ganância e violência. Sobre uma grande amizade e seu fim.

Ter acompanhado a jornada de Walter White (Bryan Cranston), no recém-finalizado seriado Breaking Bad, influencia por completo a recepção de Serra Pelada. Ambas as histórias mostram as vidas de homens comuns que, quando entram em contato com negócios altamente rentáveis e um nível de poder que nunca tiveram, passam a ter todo os seus comportamentos alterados. Tanto Walter quanto Juliano (Juliano Cazarré) são transformados pelo dinheiro e pela autoridade que conquistam, perdendo seus ideais e suas boas índoles em circunstâncias que afloram o pior que existe dentro de cada um deles. Mas, se Breaking Bad teve cinco temporadas esmiuçar o tema com o devido ritmo (e de forma magnífica, diga-se de passagem), Serra Pelada já não tem a mesma sorte. Formatos à parte, o previsível roteiro da dupla Heitor Dhalia e Vera Egito não consegue impactar, seguindo caminhos óbvios e apostando em arcos dramáticos que não trazem essa perturbadora imersão na vida de um personagem que é consumido pela ganância e pelo poder.
Responsável por À Deriva, um dos filmes brasileiros mais interessantes dos últimos anos, o pernambucano Heitor Dhalia agora volta ao seu país de origem depois de uma investida mal sucedida nos Estados Unidos com 12 Horas, estrelado por Amanda Seyfried. O retorno é menos interessante do que se poderia esperar, especialmente porque Dhalia já realizou longas bastante diferentes, como Nina e O Cheiro do Ralo. E talvez por ser justamente mais simples do que outras passagens da carreira do diretor que Serra Pelada se torne uma leve decepção. De qualquer forma, Dhalia tem seus momentos aqui, principalmente quando dá um tom mais documental à história. Quando se dispõe a fazer uma radiografia do lugar-título e explorar sua grande repercussão nos anos 1980, o diretor consegue dar um tom mais dinâmico e envolvente ao resultado, muito ajudado pelas imagens grandiosas, pela trilha do sempre admirável Antonio Pinto e pela excelente reconstituição de época.
O mosaico de personagens também é pra lá de interessante, sendo bem explorado pelo trio principal: Cazarré tem a força necessária para carregar o protagonismo do filme, Júlio Andrade ultrapassa os obstáculos de seu personagem previsível e Sophie Charlotte surpreende como a cobiçada mulher da trama. O elenco de suporte, que tem nomes como Matheus Nachtergaele e Wagner Moura, ainda dá um toque especial ao bom time de atores. O problema mesmo é a forma como o texto nunca consegue ser mais impactante ao construir a desconstrução moral do protagonista. Nós observamos suas mudanças, mas não necessariamente as sentimos. Isso porque Serra Pelada mostra de forma rasa o passo-a-passo das mudanças de Juliano, preocupando-se mais em trablhar pequenos conflitos de negócios entre ele e outros habitantes do local do que desenvolver o que de fato mexe com seu ego e a sua ambição.
Reduzindo-se a meras explicações de “eu quero ficar rico!” para justificar as ações de um homem claramente corrompido por razões muito mais complexas, o roteiro ainda quase faz da relação da dupla principal um estereótipo. De um lado, Juliano, o ganancioso impulsivo que deseja muito dinheiro e poder. De outro, Joaquim, o pai de família racional e bondoso que se vê encurralado frente ao comportamento descontrolado do amigo. São abordagens que deixam a impressão de que Serra Pelada foi amortizado para as grandes plateias – o que certamente tem a ver com o selo Globo Filmes. Dentro do óbvio, cumpre bem todas as formalidades, tem boas pitadas de humor e em momento algum deixa qualquer má impressão. Porém, essa é uma história que, dadas as proporções e a equipe envolvida (especialmente Dhalia), merecia um roteiro mais ambicioso e que fosse mais afundo no que existe de pior dentro de um ser humano transformado pela ambição.
FILME: 7.5



O óbvio ganha tons muito nervosos em Invocação do Mal. Para os apreciadores de música, Jorge Mautner: O Filho do Holocausto pode ser bastante interessante. William Friedkin volta a apresentar um vigor surpreendente com Killer Joe – Matador de Aluguel. Em todos os sentidos, O Lado Bom da Vida é um dos filmes mais superestimados de 2013. Historicamente, Lincoln tem seu valor, mas está longe de ser um grande longa. Repleto de surpresas, O Lugar Onde Tudo Termina consolida o nome de Derek Cianfrance. Mama não assusta ninguém. O melhor filme do Oscar 2013 nem concorria nas categorias principais: O Mestre, de Paul Thomas Anderson. Os Miseráveis é o melhor musical desde… quando mesmo? A Morte do Demônio é pura agonia. Joseph Kosinski ainda vai longe, mas, com Oblivion, prova que precisa de melhores roteiros. Os fetiches de Lee Daniels atrapalham por completo o desfocado Obsessão. Mais um documentário musical dirigido aos fãs, assim é One Direction: This is Us. Poucas vezes a vergonha alheia foi tão grande como em Para Maiores.
Maria de Medeiros se sai bem ao retratar a ditadura com Repare Bem. Maggie Smith reina no singelo O Quarteto. O Que se Move é um dos filmes mais recompensadores de 2013 para quem se propõe a embarcar em seus difíceis dramas femininos. Uma das eras de ouro da fórmula 1 é relembrada de forma bastante digna por Rush – No Limite da Emoção. O coreano Park Chan-Wook não debutou em Hollywood com grande estilo. O roteiro pouco aprofundado impede que Serra Pelada seja um filme mais interessante. As Sessões é um verdadeiro banho de sutileza. Renato Russo nunca foi tão chato como em Somos Tão Jovens. Kleber Mendonça Filho marca época no cinema brasileiro com O Som ao Redor. A equipe de O Tempo e o Vento deveria entender que dois séculos de história não podem ser devidamente contados em meras duas horas. Steven Soderbergh se despede – mais uma vez – com o regular Terapia de Risco. Betse de Paula tem seus momentos com Vendo ou Alugo. Apenas a cena-título surpreende em O Voo.





