Cinema e Argumento

Os vencedores do Globo de Ouro 2026 (e deu Brasil de novo, agora em dose dupla!)

Wagner Moura e o seu Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama por O Agente Secreto.

É mais do que oficial: o cinema brasileiro vive uma verdadeira era de ouro. Não bastasse o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama para Fernanda Torres e o Oscar de melhor filme internacional para Ainda Estou Aqui em 2025, agora O Agente Secreto garante nosso protagonismo na temporada de premiações pelo segundo ano consecutivo. E, mesmo já colecionando consagrações desde o Festival de Cannes, é novamente no Globo de Ouro que um representante brasileiro vê suas chances serem consolidadas na corrida pelo Oscar. O resultado, aliás, foi melhor do que o imaginado: não só o favoritismo de Wagner Moura se confirmou na categoria de melhor ator em drama, como o próprio O Agente Secreto acabou levando o prêmio de melhor filme em língua não-inglesa. A segunda conquista dá enorme gás para a produção pernambucana porque ela foi capaz de desbancar Valor Sentimental, indicado em nada menos do que oito categorias, e Foi Apenas Um Acidente, que concorria em segmentos importantíssimos como os de direção e roteiro. É uma vitória triunfante e que muda de forma radical o jogo na disputa entre os filmes internacionais. Os caminhos abertos por Ainda Estou Aqui realmente não foram poucos.

Outros ótimos momentos de uma cerimônia bastante em discursos e seus respectivos posicionamentos diante do que vem acontecendo no mundo e, mais especificamente, nos Estados Unidos, ficaram por conta dos coadjuvantes. Primeiro, Teyana Taylor voltou a tomar a dianteira na disputa de atriz coadjuvante com seu reconhecimento por Uma Batalha Após a Outra. Logo em seguida, no mesmo bloco, Stellan Skarsgård foi escolhido o melhor ator coadjuvante por Valor Sentimental. Ambos os troféus movimentam disputas ainda suscetíveis a mudanças daqui para a frente, o que é sempre muito bom para qualquer temporada. O Globo de Ouro também não fez mais do mesmo em melhor filme de drama, desbancando o favorito Pecadores — que acabou vitorioso na categoria de conquista cinematográfica e de bilheteria — para premiar Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. A surpresa é excelente notícia para Jessie Buckley, pois evidencia o quanto sua celebração em melhor atriz vem ampliada pelo amor ao filme de Chloé Zhao. E, por falar em amor, acho que já dá para dizer que Uma Batalha Após a Outra é mesmo imparável. Definitivamente, chegou a hora de Paul Thomas Anderson.

Confira abaixo a lista de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICALUma Batalha Após a Outra
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Wagner Moura (O Agente Secreto)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Timothée Chalamet (Marty Supreme)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
MELHOR ROTEIROUma Batalha Após a Outra
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAO Agente Secreto (Brasil)

MELHOR ANIMAÇÃOGuerreiras do K-Pop
MELHOR TRILHA SONORAPecadores

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Pecadores

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMAThe Pitt
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIAThe Studio
MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILMEAdolescência

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Rhea Seehorn (Pluribus)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Michelle Williams (Morrendo por Sexo)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Stephen Graham (Adolescência)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Erin Doherty (Adolescência)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência)
MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP: Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality)

Apostas para o Globo de Ouro 2026

Quem diria que, após tantos anos ausente na corrida pelo Oscar, o cinema brasileiro teria duas temporadas consecutivas com chances reais de cair nas graças da Academia e ainda conquistar outras estatuetas pelo caminho? E é novamente no Globo de Ouro que temos as maiores chances: se Fernanda Torres se consagrou como melhor atriz em filme de drama no ano passado com Ainda Estou Aqui, agora é Wagner Moura quem chega forte na competição de melhor ator com O Agente Secreto. Wagner se beneficia da divisão de drama e comédia no Globo de Ouro porque o favorito da temporada até aqui — Timothée Chalamet com Marty Supreme — concorre em uma categoria diferente. Também não seria surpresa ver o próprio filme de Kleber Mendonça Filho ganhando entre as produções de língua não-inglesa, visto, por exemplo, a recente vitória no Critics’ Choice Awards em cima do favorito Valor Sentimental. Há motivos para muita torcida!

Para os segmentos principais, não vejo como Uma Batalha Após a Outra possa ser desbancado em melhor filme de comédia/musical e direção. Trata-se do Oppenheimer deste ano: ao que tudo indica, desde já, é favorito absoluto ao Oscar e em todas as premiações que percorrerá até lá. Pecadores também deve confirmar sua ótima repercussão com o prêmio de melhor filme de drama, além de algum outro como trilha sonora e conquista cinematográfica/box office. O Globo também deve esclarecer se Amy Madigan (A Hora do Mal) tem mesmo o favorotismo para romper barreiras e ser premiada em melhor atriz coadjuvante por um terror. E Jacob Elordi? Será que ele, também, coadjuvante, foi apenas um caso isolado do Critics’ Choice ou tem mesmo a preferência na temporada por sua performance em Frankenstein? Em séries e minisséries, pouco a especular: basicamente todas as categorias são encabeçadas por candidatos que já gabaritaram outras premiações.

O Globo de Ouro será transmitido a partir das 21h30 no canal TNT e na plataforma de streaming HBO Max. Já a Rede Globo exibe a premiação após o fim do Fantástico.

Confira abaixo as minhas apostas:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: Pecadores / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Uma Batalha Após a Outra / alt: Marty Supreme
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Jafar Panahi (Foi Apenas Um Acidente)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) / alt: Renate Reinsve (Valor Sentimental)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria) / alt: Kate Hudson (Song Sung Blue – Um Sonho a Dois)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Wagner Moura (O Agente Secreto) / alt: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Timothée Chalamet (Marty Supreme) / alt: Ethan Hawke (Blue Moon)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Madigan (A Hora do Mal) / alt: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Stellan Skarsgård (Valor Sentimental) / alt: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ROTEIROUma Batalha Após a Outra / alt: Foi Apenas Um Acidente
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: O Agente Secreto (Brasil) / Valor Sentimental (Noruega)

MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop / alt: Zootopia 2
MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores / alt: Sirāt

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K- Pop) / alt: “I Lied to You” (Pecadores)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Avatar: Fogo e Cinzas / alt: Pecadores

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: The Pitt / alt: Pluribus
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: The Studio / alt: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILME: Adolescência / alt: All Her Fault

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Rhea Seehorn (Pluribus) / alt: Kathy Bates (Matlock)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt) / alt: Mark Ruffalo (Task)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Kristen Bell (Nobody Wants This)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio) / alt: Martin Short (Only Murders in the Building)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Sarah Snook (All Her Fault) / alt: Claire Danes (O Monstro em Mim)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Stephen Graham (Adolescência) / alt: Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Erin Doherty (Adolescência) / alt: Catherine O’Hara (The Studio)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência) / alt: Tramell Tillman (Ruptura)
MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP: Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality) / alt: Sarah Silverman (Sarah Silverman: Postmortem)

Os indicados ao The Actor Awards 2026

Com sete indicações, Uma Batalha Após a Outra se torna o filme mais indicado na história do The Actor Awards.

Aconteceu o esperado, mas não deixa de ser frustrante: o Screen Actors Guild Awards — agora renomeado The Actor Awards — decidiu ignorar todas as atuações em língua não-inglesa desta temporada. É um dado que trabalha contra a premiação porque são muitos os títulos internacionais cotados por sindicatos, associações e outros prêmios. Como explicar, por exemplo, a ausência absoluta de Valor Sentimental, que tem quatro interpretações individuais reconhecidas por outros grupos? Ou, então, qualquer lembrança para O Agente SecretoFoi Apenas um Acidente, dois títulos facilmente dignos de figurarem na categoria de melhor elenco?

Não é de hoje que o The Actor Awards pretere interpretações celebradas como a de Isabelle Huppert em Elle ou a de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui. Acontece que todas as premiações passam por um assumido processo de internacionalização, então, das duas uma: ou o The Actor Awards precisa urgentemente de uma reformulação para não ficar parado no tempo ou deve assumir um critério de seleção que seja restrito a interpretações em língua-inglesa. Do jeito que está, fica ruim para a imagem do prestigiado sindicato de atores.

Com tantos desfalques, os substitutos acabam não sendo escolhas necessariamente fora da curva (caso de Emma Stone, lembrada na categoria de melhor atriz pelo pueril Bugonia) ou de grande influência para a temporada (acho difícil que Miles Caton em ator coadjuvante por Pecadores seja uma tendência a ser seguida daqui para a frente). Se há algo que nós, como brasileiros, podemos comemorar é que, com a ausência de Wagner Moura em melhor ator por O Agente Secreto, os votantes optaram por Jesse Plemons (Bugonia). A notícia é boa porque estancou o crescimento de Joel Edgerton (Sonhos de Trem), que vinha figurando como favorito para emplacar uma vaga que ainda está em aberto e que, eventualmente, poderia prejudicar as chances de Wagner.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Missão: Impossível — O Acerto Final
Pecadores

MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)

Jacob Elordi (Frankenstein)
Miles Caton (Pecadores)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked: Parte 2)
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
Landman
The Diplomat
The Pitt
Severance
The White Lotus

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
The Studio
Only Murders in the Building

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE
Andor
Landman
The Last of Us
Stranger Things
Round 6

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Aime Lou Wood (The White Lotus)
Britt Lower (Severance)
Keri Russell (The Diplomat)
Parker Posey (The White Lotus)
Rhea Seehorn (Pluribus)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Gary Oldman (Slow Horses)
Noah Wyle (The Pitt)
Sterling K. Brown (Paradise)
Walton Goggins (The White Lotus)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (The Studio)
Jean Smart (Hacks)
Jenna Ortega (Wandinha)
Kathryn Hahn (The Studio)
Kristen Wiig (Palm Royale)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Ike Barinholtz (The Studio)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Seth Rogen (The Studio)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Christine Tremarco (Adolescência)
Claire Danes (O Monstro em Mim)
Erin Doherty (Adolescência)
Michelle Williams (Dying for Sex)
Sarah Snook (All Her Fault)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Charlie Hunnam (Monster: The Ed Gein Story)

Jason Bateman (Black Rabbit)
Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
Owen Cooper (Adolescência)
Stephen Graham (Adolescência)

Rapidamente: “Avatar: Fogo e Cinzas”, “O Filho de Mil Homens”, “Sorry, Baby” e “Wicked: Parte 2”

Eva Victor dirige, escreve e protagoniza Sorry, Baby.

AVATAR: FOGO E CINZAS (Avatar: Fire and Ash, 2025, de James Cameron): Ninguém duvida de que Avatar marcou época e promoveu inúmeras revoluções tecnológicas. Contudo, passados 16 anos desde o lançamento do primeiro filme, a impressão é de que, para o bem e para o mal, estamos falando as mesmas coisas sobre a franquia. Trata-se de algo positivo considerando a verve sempre inquieta de Cameron para criar os grandes espetáculos que hoje Hollywood parece incapaz de produzir, mas também de algo negativo, visto que roteiro nunca foi o forte do diretor — e tanto tempo dedicado a um mesmo universo só reforça essa tese. Em termos de história propriamente dita, as quase dez horas somadas de Avatar soam redundantes, muito mais agora em Fogo e Cinzas, que, por ser o terceiro capítulo, invariavelmente sofre com a ausência de novas ideias. É exaustivo, por exemplo, que tenhamos passado quase duas décadas com um antagonista — o coronel Quaritch, vivido por Stephen Lang — perseguindo o herói Jake Sully (Sam Worthington) de todos os jeitos possíveis, quando ele poderia ter facilmente saído de cena no segundo filme. Ao mesmo tempo em que introduz algumas novidades, como a entrada de outra vilã que traz uma ótima nuance para o mundo dos Na’vi, Fogo e Cinzas segue repetindo os discursos anticolonialistas já tão solidificados nos longas anteriores, assim como somente amplia a escala de sequências de ação muito similares entre os três volumes da saga. Nunca vi nenhum Avatar em casa, apenas nas salas de cinema, o que me deixa com a pulga atrás da orelha: será que, à parte a grandiosidade técnica e estética que vemos na tela grande, a trilogia formada até aqui sustenta parte de sua magia fora no sofá de casa? Ao contrário de outros trabalhos de Cameron, Avatar não me estimula tanto a uma revisão. Mau sinal?

O FILHO DE MIL HOMENS (idem, 2025, de Daniel Rezende): Outrora exímio montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta e Tropa de Elite, o paulista Daniel Rezende agora vem se firmando como um dos diretores brasileiros mais inspirados em atividade. Da irreverência de Bingo: O Rei das Manhãs à sofisticada doçura das duas adaptações de Turma da Mônica, ele navega em diferentes gêneros com o mesmo interesse e afinco. Ele não escapa à regra com O Filho de Mil Homens, em que se lança na complicada missão de levar às telas a literatura bela e poética de Valter Hugo Mãe. Falo em desafio porque a narrativa do autor é muito particular, seja na forma ou no conteúdo, e traduzir em imagens suas reticentes reflexões exige grande sensibilidade. Pois Daniel Rezende acerta outra vez, construindo um longa reverente à obra original, mas, ao mesmo tempo, livre para fazer suas próprias escolhas, inclusive do ponto de vista estético, já que esse se trata de seu trabalho mais apurado tecnicamente. Apesar de começar centrado no calado pescador vivido por Rodrigo Santoro, O Filho de Mil Homens se ramifica em outros personagens com o intuito de, eventualmente, entrelaçá-los e, assim, falar sobre a vida de figuras vistas aos olhos da sociedade como desajustadas, pecaminosas ou problemáticas. Em que pese os dramas genuínos e palpáveis de cada um deles, é a partir do momento em que suas histórias se cruzam que o filme fica ainda mais bonito, afinal, a generosidade é uma das maiores qualidades que qualquer ser humano pode ter hoje em dia. No acolhimento e na compreensão, o longa acentua a delicadeza do texto de Valter Hugo Mãe, e o faz sem ceder a convenções comerciais, evitando que o longa, produzido originalmente pela Netflix, flerte com mensagens rasteiras de autoajuda. O Filho de Mil Homens é bonito de ver e de sentir, além de acenar a todo momento para a literatura com os pés firmes no cinema.

SORRY, BABY (idem, 2025, de Eva Victor): A atriz, diretora e roteirista Eva Victor faz pelo menos duas coisas milagrosas em Sorry, Baby. A primeira é conseguir navegar nas diferentes fases de um trauma profundo com sobriedade, economia e até mesmo humor, sem perder de vista o pulso de uma história encenada em diferentes anos na vida da protagonista. Já a segunda é se despir completamente de vaidades para nunca fazer de seu trabalho uma egotrip. Não há deslumbre com as inúmeras diferentes possibilidades da história, sejam elas dramáticas ou cômicas. Tudo está a favor do filme, não do umbigo de sua realizadora. É um feito e tanto para uma cineasta que entrega o seu primeiro longa-metragem e que, a cada minuto dele, prova seu lugar de fala e a maturidade envolvida na construção do roteiro. Gosto, particularmente, da concepção da protagonista, uma acadêmica com senso de humor muito próprio e com plena consciência de que ela não tem as respostas certas para lidar com o que lhe assombra — e será mesmo que elas existem em experiências traumáticas? Aí está outro aspecto fascinante de Sorry, Baby: por meio de Agnes, Eva Victor mostra que cada história é uma história e que, nesta vida, nós administramos as dores a partir do que temos de repertórios ou (in)capacidades. Nada falta ou sobra também em termos de interpretação, visto que é fácil nos solidarizarmos com Agnes e ficarmos do seu lado seja qual for a sua reação diante do que lhe aconteceu.  Concentrando-se no peso do dia-a-dia, assim como nos momentos e nas relações que revigoram o passar do tempo, o filme conversa com o espectador da forma mais orgânica possível, o que só enfatiza a grata surpresa que é conhecer uma contadora de histórias tão sagaz e sensível.

WICKED: PARTE 2 (Wicked: For Good, 2025, de Jon M. Chu): Os aficionados pelo espetáculo original defendem a tese de que, nos palcos, Wicked já tem um segundo ato menos interessante do que o primeiro e que, portanto, não é nenhuma surpresa o fato da versão cinematográfica também ficar aquém do esperado. Bobagem. Adaptações também servem para propor novos olhares e leituras, assim como para mitigar escolhas não tão bem sucedidas. O que falta mesmo a Wicked é um diretor inspirado. A primeira parte, levada às telas com a mesma criatividade técnica e artística que qualquer outra aventura banalíssima da Marvel ou da DC, conseguia ser um entretenimento agradável muito em função de Cynthia Erivo e Ariana Grande, cujo frescor elevava o resultado junto às boas canções, culminando na clássica “Defying Gravity”. Por outro lado, Wicked: Parte 2, rodado simultaneamente com o primeiro filme, apenas deixa evidente a falta de um bom contador de histórias atrás das câmeras. Ao ter comandado os dois longas em um mesmo período, Jon M. Chu de fato concebe a parte 2 como apenas uma extensão da parte 1, sem elaborar absolutamente nada de novo. Não há um elemento ou uma identidade que dê qualquer tipo de vida própria à continuação. Nem mesmo a dupla protagonista, antes tão cintilante, consegue dar algum brilho ao material. De fato, a história decai na reta final, tanto do ponto de vista narrativo quanto musical, e o ritmo oscila entre o arrastado e acelerado, mas, quando os envolvidos não se esforçam para entregar algo minimamente novo, não há mesmo o que ser feito, muito menos quando decisões mercadológicas se impõem e já sugerem a produção de novas obras ambientadas no universo de Wicked.

 

Os indicados ao Globo de Ouro 2026

O Agente Secreto coloca novamente o Brasil na disputa pelo Globo de Ouro.

Nós, brasileiros, já estamos mal acostumados: pelo segundo ano consecutivo, marcamos presença entre os indicados do Globo de Ouro, desta vez, com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. A premiação apresentou hoje (08) a lista que traz o longa-metragem concorrendo nas categorias de melhor filme de drama, melhor ator (Wagner Moura) e melhor filme de língua não-inglesa, feito ainda maior que o de Ainda Estou Aqui no ano passado — o que, com certeza, também é fruto da trajetória exitosa do filme de Walter Salles. Ao que tudo indica, Wagner é favorito em sua categoria, mas isso é assunto para o início do ano que vem, quando, no dia 11 de janeiro, conheceremos os vencedores. Por ora, seguem abaixo algumas avaliações preliminares sobre os indicados:

– O Globo de Ouro segue de parabéns: com a mudança no corpo de votantes — agora muito mais internacional e plural — as indicações de gosto duvidoso, que já haviam transformado a premiação em motivo de chacota, ficaram fora do radar. Ótima notícia.

– Parte dessa mudança está perfeitamente representada na categoria de melhor filme de drama, composta por três filmes de língua não-inglesa: O Agente Secreto, Foi Apenas Um Acidente e Valor Sentimental. Agora sim a imprensa estrangeira em Hollywood se faz ouvida.

– O apreço pelos longas em língua não-inglesa também mostra o quanto 2025 foi um ano menos inspirado para Hollywood. Afinal, como explicar tanto amor para Frankenstein. Gosto do filme de Guillermo Del Toro, mas é inexplicável, por exemplo, a indicação de Oscar Isaac a melhor ator.

 – O cinemão comercial corre com as pernas fracas na temporada. É o caso de Wicked, outrora um hit inclusive nos prêmios, teve quatro indicações, mas não chegou entre os indicados a melhor filme de comédia/musical. A ausência é expressiva porque o Globo de Ouro sempre foi apaixonado por musicais, sejam eles bons de verdade ou apenas medianos.

– E o que dizer de Avatar: Fogo e Cinzas, indicado à categoria de Conquista Cinematográfica e Bilheteria sem nem ter estreado ainda? A franquia de James Cameron é outra que perdeu a musculatura: antes premiada pelo Globo de Ouro como melhor filme, direção e trilha sonora com o primeiro capítulo, agora está reduzida apenas a uma indicação duvidosa.

– Entre as interpretações, uma indicação em especial me alegra: a de Julia Roberts como melhor atriz por Depois da Caçada. Ela está maravilhosa e deveria ser lembrança garantida na temporada se público e crítica não tivessem implicado com este trabalho de Luca Guadagnino.

– Se houve movimento para que Amy Madigan fosse reconhecida com uma indicação de melhor atriz coadjuvante pelo terror A Hora do Mal, o mesmo entusiasmo poderia ter sido direcionado à ótima Sally Hawkins entre as protagonistas com Faça Ela Voltar.

– Infelizmente, a concorrência é pesada para o Brasil em melhor filme de língua não-inglesa, começando por Valor Sentimental, que concorre em nada menos do que oito categorias. Já Foi Apenas Um Acidente tem quatro, mas figura em melhor direção e roteiro, categorias que o filme de Kleber Mendonça Filho não conseguiu emplacar.

Confira abaixo a lista de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA
O Agente Secreto
Foi Apenas Um Acidente
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Uma Batalha Após a Outra
Blue Moon
Bugonia
Marty Supreme
No Other Choice
Nouvelle Vague

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Guillermo Del Toro (Frankenstein)
Jafar Panahi (Foi Apenas Um Acidente)
Joachim Trier (Valor Sentimental)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA
Eva Victor (Sorry, Baby)
Jennifer Lawrence (Morra, Amor)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Julia Roberts (Depois da Caçada)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Tessa Thompson (Hedda)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Amanda Seyfried (The Testament of Ann Lee)
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Cynthia Erivo (Wicked: Parte 2)
Emma Stone (Bugonia)
Kate Hudson (Song Sung Blue – Um Sonho a Dois)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA
Dwayne Johnson (Coração de Lutador: The Smashing Machine)
Jeremy Allen White (Springsteen: Salve-Me do Desconhecido)
Joel Edgerton (Sonhos de Trem)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Oscar Isaac (Frankenstein)
Wagner Moura (O Agente Secreto)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Ethan Hawke (Blue Moon)
George Clooney (Jay Kelly)
Jesse Plemons (Bugonia)
Lee Byung Hun (No Other Choice)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan (A Hora do Mal)

Ariana Grande (Wicked: Parte 2)
Elle Fanning (Valor Sentimental)
Emily Blunt (Coração de Lutador: The Smashing Machine)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Sandler (Jay Kelly)
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ROTEIRO
Uma Batalha Após a Outra
Foi Apenas Um Acidente
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas Um Acidente (França)
No Other Choice (Coreia do Sul)
Sirāt (Espanha)
Valor Sentimental (Noruega)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR ANIMAÇÃO
Arco
Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito
Elio
Guerreiras do K-Pop
Little Amélie or the Character of Rain
Zootopia 2

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
F1 – O Filme
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores
Sirāt

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Dream as One” (Avatar: Fogo e Cinzas)
“The Girl in the Bubble” (Wicked: Parte 2)
“Golden” (Guerreiras do K- Pop)
“I Lied to You” (Pecadores)
“No Place Like Home” (Wicked: Parte 2)
“Train Dreams” (Sonhos de Trem)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA
Avatar: Fogo e Cinzas
F1 – O Filme
Guerreiras do K-Pop
A Hora do Mal
Missão: Impossível – O Acerto Final
Pecadores
Zootopia 2
Wicked: Parte 2

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
The Diplomat
The Pitt
Pluribus
Ruptura
Slow Horses
The White Lotus

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
Nobody Wants This
Only Murders in the Building
The Studio

MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILME
Adolescência
All Her Fault
Black Mirror
O Monstro em Mim
Morrendo por Sexo
A Namorada Ideal

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Bella Ramsey (The Last of Us)
Britt Lower (Ruptura)
Helen Mirren (MobLand)
Kathy Bates (Matlock)
Keri Russell (The Diplomat)
Rhea Seehorn (Pluribus)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Adam Scott (Ruptura)
Diego Luna (Andor)
Gary Oldman (Slow Horses)
Mark Ruffalo (Task)
Noah Wyle (The Pitt)
Sterling K. Brown (Paradise)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Ayo Edebiri (The Bear)
Jean Smart (Hacks)
Jenna Ortega (Wandinha)
Kristen Bell (Nobody Wants This)
Natasha Lyonne (Poker Face)
Selena Gomez (Only Murders in the Building)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Glen Powell (Chad Powers)
Jeremy Allen White (The Bear)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Seth Rogen (The Studio)
Steve Martin (Only Murders in the Building)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Amanda Seyfried (Long Bright River)

Claire Danes (O Monstro em Mim)
Michelle Williams (Morrendo por Sexo)
Rashida Jones (Black Mirror)

Sarah Snook (All Her Fault)
Robin Wright (A Namorada Ideal)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Charlie Hunnam (Monstro: A História de Ed Gein)
Jacob Elordi (O Caminho Estreito para os Confins do Norte)
Jude Law (Black Rabbit)
Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
Paul Giamatti (Black Mirror)
Stephen Graham (Adolescência)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME
Aimee Lou Wood (The White Lotus)
Carrie Coon (The White Lotus)
Catherine O’Hara (The Studio)
Erin Doherty (Adolescência)
Hannah Einbinder (Hacks)
Parker Posey (The White Lotus)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME
Ashley Walters (Adolescência)

Billy Crudup (The Morning Show)
Jason Isaacs (The White Lotus)
Owen Cooper (Adolescência)
Tramell Tillman (Ruptura)
Walton Goggins (The White Lotus)

MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP
Bill Maher (Bill Maher: Is Anyone Else Seeing This?)
Brett Goldstein (Brett Goldstein: The Second Best Night of Your Life)
Kevin Hart (Kevin Hart: Acting My Age)
Kumail Nanjiani (Kumail Nanjiani: Night Thoughts)
Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality)
Sarah Silverman (Sarah Silverman: Postmortem)