Cinema e Argumento

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2025

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Wicked lidera a lista de indicados ao Screen Actors Guild Awards 2025.

Há um grande desnivelamento nas cobranças feitas ao Globo de Ouro em comparação ao Screen Actors Guild Awards, quando, na verdade, a imprensa estrangeira tem feito escolhas bem mais interessantes do que o tradicional sindicato de atores dos Estados Unidos. Isso porque foram poucas as mancadas do SAG nos últimos anos, quando, por exemplo, não indicou Regina King, a vencedora do Oscar por Se a Rua Beale Falasse. Ou porque vem confirmando reiteradamente a sua problemática relação com atores em performances de língua não-inglesa: para ficar somente em casos recentes, nomes como Antonio Banderas (Dor e Glória), Sandra Hüller (Anatomia de Uma Queda), Isabelle Huppert (Elle), Emmanuelle Riva (Amor), Yalitza Aparicio (Roma) e, agora, a nossa Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui) ficaram de fora da disputa. Esses e outros equívocos da premiação nunca se deram em prol de escolhas inspiradas, e sim apenas a favor de ampliar as indicações de filmes já confirmados na disputa, o que sublinha a falta de criatividade do Sindicato.

Em 2025, todas as “chamadas” surpresas não chegam a influenciar no cenário da temporada de premiações. Afinal, é difícil acreditar que  Jonathan Bailey consiga emplacar uma indicação ao Oscar por sua interpretação como coadjuvante em Wicked, assim como parece improvável que, de agora em diante, o nome de Jamie Lee Curtis (The Last Showgirl) esteja carimbado para ser lembrado por demais premiações. Somente em termos de vitórias o SAG poderá influenciar de verdade a corrida pelo Oscar, seja em um eventual reconhecimento que impulsionará ainda mais a trajetória de Demi Moore (A Substância) ou, quem sabe, uma virada de jogo para Ralph Fiennes em melhor ator com Conclave. Por ora, a lista de indicados é frustrante, inclusive no campo de séries, minisséries e telefilmes, onde há nomeações de previsíveis para baixo, quando não inexplicáveis, caso de Kathy Bates concorrendo em performance feminina por The Great Lillian Hall, telefilme em que o brilho absoluto fica não com ela, uma coadjuvante sem história própria, mas sim com a protagonista Jessica Lange, em desempenho marcante. Os vencedores do SAG serão conhecidos no dia 23 de janeiro.

Confira a lista de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Anora
Um Completo Desconhecido
Conclave
Emilia Pérez
Wicked

MELHOR ATRIZ
Cynthia Erivo (Wicked)
Demi Moore (A Substância)
Karla Sofía Gascón (Emilia Pérez)
Mikey Madison (Anora)
Pamela Anderson (The Last Showgirl)

MELHOR ATOR
Adrien Brody (O Brutalista)
Colman Domingo (Sing Sing)
Daniel Craig (Queer)
Ralph Fiennes (Conclave)
Timothée Chalamet (Um Completo Desconhecido)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked)
Danielle Deadwyler (Piano de Família)
Jamie Lee Curtis (The Last Showgirl)
Monica Barbaro (Um Completo Desconhecido)
Zoe Saldaña (Emilia Pérez)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edward Norton (Um Completo Desconhecido)
Jeremy Strong (O Aprendiz)
Jonathan Bailey (Wicked)
Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
Yura Borisov (Anora)

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
Deadpool & Wolverine
O Dublê
Dune: Parte 2
Gladiador II
Wicked

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
Bridgerton
O Dia do Chacal
A Diplomata
Slow Horses
Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
Shrinking
Only Murders in the Building

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Allison Janney (A Diplomata)
Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Kathy Bates (Matlock)
Keri Russell (A Diplomata)
Nicola Coughlan (Bridgerton)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Ayo Edebiri (The Bear)
Jean Smart (Hacks)
Kristen Bell (Nobody Wants This)
Liza Colóns-Zayas (The Bear)
Quinta Brunson (Abbott Elementary)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Eddie Redmayne (O Dia do Chacal)
Gary Oldman (Slow Horses)
Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Jeff Bridges (The Old Man)
Tadanobu Asano (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Harrison Ford (Shrinking)
Jeremy Allen White (The Bear)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR PERFORMANCE FEMININA EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Cate Blanchett (Disclaimer)
Cristin Milioti (Pinguim)
Jessica Gunning (Bebê Rena)
Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna)
Kathy Bates (The Great Lillian Hall)
Lily Gladston (Under the Bridge)

MELHOR PERFORMANCE MASCULINA EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Andrew Scott (Ripley)
Colin Farrell (Pinguim)
Javier Bardem (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos de Pais)
Kevin Kline (Disclaimer)
Richard Gadd (Bebê Rena)

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE
The Boys
A Casa do Dragão

Fall Out
Pinguim

Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

Os vencedores do Globo de Ouro 2025 (e obrigado por tanto, Fernanda Torres!)

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As recentes reformulações no corpo de votantes do Globo de Ouro, ampliando a diversidade de perfis e nacionalidades, já surte efeito na prática, a começar pelo que pontuei na minha publicação anterior: como a primeira premiação televisionada da temporada, o Globo de Ouro pode mudar muitos caminhos antes dados como certos. E os efeitos percebidos, felizmente, são muito positivos, uma conquista importante para um prêmio que, apesar de tradicional, já cometeu muitos erros a ponto de perder imensa parte de sua credibilidade.

Dois nomes, em particular, começam a traçar uma nova rota a partir dos prêmios entregues neste domingo (05). A primeira, considerando a ordem cronológica da cerimônia realizada em Los Angeles, é Demi Moore, consagrada como melhor atriz em filme de comédia/musical por A Substância. A vitória se deu em um cenário onde Mikey Madison (Anora) era tida como favorita e resultou em um lindo discurso de Demi, que revelou ter houvido de um produtor que ela estaria fadada a ser apenas uma triz de filmes-pipoca. Após de quatro décadas atuando na indústria, ela finalmente conquista o seu primeiro grande reconhecimento — e por um filme arriscado, fora da caixa e que lhe diz muito do ponto de vista pessoal e profissional. Era a plataforma que Demi precisava para também impulsionar sua campanha para o Oscar.

E o que dizer da vitória de Fernanda Torres como melhor atriz em filme de drama por Ainda Estou Aqui? Tudo é cercado de simbolismos: ganhou na categoria que sua mãe Fernanda Montenegro perdeu 26 anos atrás por Central do Brasil, derrotou grandes nomes do porte de Nicole Kidman, Angelina Jolie, Kate Winslet e Tilda Swinton, marcou época como a primeira brasileira a ganhar um prêmio de interpretação no Globo de Ouro (por um filme falado em português!), e chegou lá com os próprios pés, sem nunca, ao longo de uma prolífera carreira, ter ficado à sombra da lendária Fernandona. Nunca vivi uma emoção como essa em quase 20 anos acompanhando e escrevendo sobre a temporada de premiações. É um prêmio que ilumina o nosso país e o nosso cinema, além de aumentar consideravelmente as chances da atriz na disputa por uma indicação ao Oscar. Obrigado por tanto, Fernanda Torres!

Outras escolhas inspiradas marcaram a cerimônia. Ainda no campo das atuações, foi inspirado o prêmio de melhor ator em filme de comédia/musical para Sebastian Stan por Um Homem Diferente. Reconhecimento merecido para um ator que teve excelente ano no cinema e concorria também em melhor ator em filme de drama por O Aprendiz. Ver o lindo Flow reconhecido como melhor filme de animação foi mais uma escolha inspirada do Globo de Ouro porque é muito difícil um longa independente desse gênero, vindo da Letônia e inteiramente sem diálogos ganhar o espaço que costuma ser cativo para Disney, Pixar e outros grandes estúdios. Ainda teve láurea para a trilha de Rivais, que sequer apareceu nas pré-listas do BAFTA, por exemplo. E eu poderia falar sobre Emilia Pérez, musical que adoro, mas a internet já me deixou exausto demais para comentar algo por ora…

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMAO Brutalista
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICALEmilia Pérez
MELHOR DIREÇÃO: Brady Corbet (O Brutalista)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Demi Moore (A Substância)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Adrien Brody (O Brutalista)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Sebastian Stan (Um Homem Diferente)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Zoe Saldaña (Emilia Pérez)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
MELHOR ROTEIRO: Peter Straughan (Conclave)
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAEmilia Pérez (França)
MELHOR ANIMAÇÃO: Flow
MELHOR TRILHA SONORA: Trent Reznor e Atticus Ross (Rivais)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “El Mal” (Emilia Pérez)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIAWicked

SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMAXógum: A Gloriosa Saga do Japão
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILMEBebê Rena
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jeremy Allen White (The Bear)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Colin Farrell (Pinguim)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jessica Gunning (Bebê Rena)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Tadanobu Asano (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
MELHOR PERFORMANCE DE COMÉDIA DE STAND-UP: Ali Wong (Single Lady)

Apostas para o Globo de Ouro 2025

O Globo de Ouro costuma ser o ponto de virada em muitas temporadas. É com ele que as premiações televisionadas começam, e elas funcionam de forma muito diferente em comparação às dezenas de associações de críticos que revelam suas listas desde novembro e dezembro. No Globo de Ouro, por exemplo, Laurie Metcalf começou a ver seu favoritismo como coadjuvante por Lady Bird dissipar após liderar as láureas entre os críticos. A estatueta acabou indo para Allison Janney (Eu, Tonya), bem como o SAG e o Oscar. Timothée Chalamet também acabou não vingando com Me Chame Pelo Seu Nome quando, pelos olhos dos críticos, era um grande queridinho da temporada. E o que dizer de Kristen Stewart, que, com Spencer, liderou as vitórias como melhor atriz entre as mesmas associações, e não ganhou um prêmio televisionado sequer?

É importante essa contextualização para termos a noção de que muita coisa pode vir a se confirmar no Globo de Ouro, como o favoritismo de Emilia Pérez em várias categorias, mas que também podemos ver novos caminhos sendo traçados a partir daqui. Na minha lista de apostas disponível abaixo, tentei considerar essa mistura entre o esperado e o surpreendente, além da personalidade por vezes imprevisível do Globo de Ouro. Como brasileiro, meu coração se divide: ao mesmo tempo em que o meu coração quer que Ainda Estou Aqui vença as duas categorias em que concorre (filme internacional e melhor atriz em filme de drama para Fernanda Torres), sei que a realidade é bem diferente e que, apesar das chances existirem, elas são realmente mínimas. Nossas dúvidas serão desvendadas logo mais, quando, a partir das 22h (horário de Brasília), o Globo de Ouro começa a revelar seus vencedores com transmissão pela TNT e pelo Max.

Eis as minhas apostas:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: O Brutalista / alt: Conclave
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Emilia Pérez / alt: Anora
MELHOR DIREÇÃO: Brady Corbet (O Brutalista) / alt: Coralie Fargeat (A Substância)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Angelina Jolie (Maria Callas) / alt: Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Karla Sofia Gascón (Emilia Pérez) / alt: Demi Moore (A Substância)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Ralph Fiennes (Conclave) / alt: Adrien Brody (O Brutalista)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Hugh Grant (Herege) / alt: Sebastian Stan (Um Homem Diferente)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Zoe Saldaña (Emilia Pérez) / alt: Ariana Grande (Wicked)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kieran Culkin (A Verdadeira Dor) / alt: Denzel Washington (Gladiador 2)
MELHOR ROTEIRO: Sean Baker (Anora) / alt: Peter Straughan (Conclave)
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: Emilia Pérez (França) / alt: Tudo Que Imaginamos Como Luz (Índia)
MELHOR TRILHA SONORA: Conclave / alt: Rivais
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “El Mal” (Emilia Pérez) / alt: “Mi Camino” (Emilia Pérez)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Wicked / alt: Gladiador 2

SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: Xógum: A Gloriosa Saga do Japão / alt: Round 6
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Hacks / alt: The Bear
MELHOR MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Bebê Rena / alt: Pinguim
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão) / alt: Keri Russell (A Diplomata)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jean Smart (Hacks) / alt: Kathryn Hahn (Agatha Desde Sempre)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna) / alt: Cate Blanchett (Difamação)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão) / alt: Eddie Redmayne (O Dia do Chacal)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jeremy Allen White (The Bear) / alt: Jason Segel (Shrinking)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Richard Gadd (Bebê Rena) / alt: Colin Farrell (Pinguim)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jessica Gunning (Bebê Rena) / alt: Liza Colón-Zayas (The Bear)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Harrison Ford (Shrinking) / alt: Javier Bardem (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais)
MELHOR PERFORMANCE DE COMÉDIA DE STAND-UP: Jamie Foxx (What Had Happened Was) / alt: Ali Wong (Single Lady)

Adeus, 2024! (e as melhores cenas do ano)

A cada 31 de dezembro, bato ponto religiosamente aqui no blog para elencar minhas cenas favoritas do ano. Com filmes da melhor safra do Oscar em muito tempo e outros que fizeram a cabeça do público ao longo de outros meses, tive extrema facilidade em selecionar os momentos que mais me emocionaram ou me entusiasmaram no cinema em 2024. Acho que muita gente vai concordar com a lista, que considera somente títulos lançados comercialmente no Brasil e que está organizada aleatoriamente, sem uma ordem preferencial. Levo lindas lembranças dos últimos 365 dias, e não só dos filmes, pois 2024 foi extremamente generoso comigo do ponto de vista pessoal e profissional. Só as coberturas internacionais do Independent Spirit Awards e do Festival Internacional de Cinema de Toronto já seriam suficientes para que eu não esquecesse esse ano. Que venha muito mais em 2025! Feliz ano novo! Agora, vamos às minhas dez cenas favoritas de 2024.

vidaspassadascena

Despedida em Vidas Passadas

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Elisabeth Sparkle (Demi Moore) se prepara para um encontro em A Substância

rivaiscena

A última partida de Rivais

jurado2cena

A visita de Faith (Toni Collette) em Jurado Nº 2

divertida2cena

Crise de ansiedade em Divertida Mente 2

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Hirayama (Kōji Yakusho) dirige ao som de “Feeling Good” em Dias Perfeitos

aestouaquicena

Passeio na sorveteria em Ainda Estou Aqui

anatomiaquedacena

Briga de casal em Anatomia de Uma Queda

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Céline Dion canta “I’m Alive” em Eu Sou: Céline Dion

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Uma conversa franca entre pai e filho em Todos Nós Desconhecidos

Rapidamente: “O Auto da Compadecida 2”, “Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra”, “Jurado Nº 2” e “Lee”

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O AUTO DA COMPADECIDA 2 (idem, 2024, de Guel Arraes e Flávia Lacerda): Na atrasada esteira em que o cinema brasileiro entrou de fazer continuações de produções célebres da sua filmografia, O Auto da Compadecida 2 é outro caso frequente de sequências que, nem de longe, conseguem fazer um raio cair duas vezes no mesmo lugar. Minha primeira grande decepção foi constatar que o filme abandona as locações paraibanas do original para ser rodado inteiramente em estúdio. Além de conferir uma estética muito superficial ao resultado, a opção apequena a mitologia em torno O Auto da Compadecida como um todo, seja ela a audiovisual ou a do espírito de Ariano Suassuna. Por sinal, as palavras do autor fazem falta. O que temos agora é a dupla Guel Arraes e João Falcão (com colaboração de Jorge Furtado e Adriana Falcão) criando algo original, em tom de reverência à obra do nordestino. Ainda que o esforço seja nobre, a continuação praticamente não avança em ideias e se limita à tentativa de recriar tipos e situações. Entretanto, Suassuna é Suassuna: único — e, portanto, impossível de ser emulado. Como João Grilo e Chicó, Matheus Nachtergaele e Selton Mello conseguem evocar a aura da produção anterior, que, no frigir dos ovos, parece revisitada como um especial de final de ano feito no Projac para exibição na TV, com, aliás, direito a merchandinsing do Chopp Brahma e tudo.

COMO GANHAR MILHÕES ANTES QUE A AVÓ MORRA (Lahn Mah, 2024, de Pat Boonnitipat): Quase caí para trás quando descobri que Usa Semkhum, matriarca-título de Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra, nunca atuou e é apenas uma dona-de-casa de 78 anos em seu primeiro papel. Essa tocante produção tailandesa conta a história de um jovem que vê a oportunidade de conquistar a preferência da avó doente e, assim, ficar no topo do testamento a ser deixado por ela. Cômico, gracioso e emocionante na mesma medida, o longa examina os diferentes prismas dos laços familiares e como a construção do afeto (ou a falta dela) se dá ao longo de uma vida. O diretor Pat Boonnitipat também faz sua estreia aqui – antes, ele havia dirigido apenas alguns episódios para três séries na Tailândia — e acerta especialmente no tratamento do (melo)drama dos personagens. Não deixa de ser uma tarefa complexa tanto porque a história poderia cair em lágrimas baratas quanto porque seria fácil ver o roteiro, escrito por Boonnitipat com Thodsapon Thiptinnakorn, destrinchando uma série de lições de moral. Em suma, Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra é um filme simples, de poucas ambições, mas genuíno em todo o seu DNA, o que torna certeiras as investidas diretas do filme para emocionar a plateia. Usa Semkhum brilha como a avó, transmitindo a graça, a delicadeza e as pequenas sabedorias de uma mulher nunca tratada de modo condescendente pelo texto. Como Ganhar Milhões Antes Que a Avó Morra se conectou tanto com o público que se tornou um verdadeiro hit nas bilheterias tailandesas, a ponto de conquistar o título de filme mais visto do ano no país. Aclamação merecida para uma obra irresistível e de grandes emoções.

JURADO Nº 2 (Juror #2, 2024, de Clint Eastwood): Aos 94 anos, Clint Eastwood pode muito bem ser o último cineasta veterano capaz de trabalhar uma narrativa clássica com vigor e rigor, oferecendo insights sobre temas importantes que apenas a experiência é capaz de produzir. Nem sempre Eastwood acerta — filmes como Sully, Sniper Americano, J. Edgar e Além da Vida, para citar alguns dos mais recentes, são medianos para baixo —, mas Jurado Nº 2, lançado diretamente em streaming aqui no Brasil e em circuito limitadíssimo nos Estados Unidos, mostra como ele segue perspicaz na escolha dos roteiros que deseja filmar. Dessa vez, seu interesse recai sobre a ética, a moralidade e a justiça, refletidas a partir de um ângulo instigante: o de quem somos quando ninguém está olhando ou percebendo. Para tanto, Jurado Nº 2 se vale da narrativa de tribunal, escrita, surpreendentemente, por Jonathan A. Abrams, um estreante. Eastwood não se preocupa em inventar a roda, mas, sim, em conduzir com maturidade uma trama cujos caminhos são difíceis de prever e que, a todo momento, colocam em xeque a crença de seus personagens, seja a do protagonista vivido por Nicholas Hoult ou a de coadjuvantes-chave, como a promotora de Toni Collette. O longa resiste a todas as tentações de sensacionalizar os temas em discussão, suprimindo o uso de qualquer ferramenta que possa interferir no posicionamento do espectador — a trilha sonora, por exemplo, é usada muito discretamente, bem como a exploração de detalhes envolvendo os bastidores de trabalho da acusação e da defesa. Com elegância, o conjunto de escolhas culmina em um desfecho maduro, sem discursos prontos e que convoca quem está assistindo a tirar suas próprias conclusões.

LEE (idem, 2024, de Ellen Kuras): Kate Winslet se jogou de corpo e alma em Lee, cinebiografia da fotojornalista de guerra Lee Miller, que, entre diversos cliques históricos, chegou a fazer um registro dentro da banheira de ninguém menos que Adolf Hitler! Sua atuação atrás das câmeras como produtora é um atestado: Winslet chegou a pagar semanas de trabalho da equipe com dinheiro do próprio bolso. Acontece que boas intenções não chegam a lugar algum se a direção não está à altura. Indicada ao Oscar de melhor documentário em 2009 com The Betrayal, Ellen Kuras fez uma prolífera carreira na TV após esse reconhecimento (Ozark, The Umbrella Academy e Inventing Anna estão entre alguns de seus trabalhos), e só agora volta a dirigir um longa-metragem, com resultados decepcionantes. Se o roteiro escrito a seis mãos por Liz Hannah, John Collee e Marion Hume abarca uma série de temas impactantes, como a violência contra mulheres, o pioneirismo de Miller no fotojornalismo e os próprios horrores inerentes à Segunda Guerra Mundial, Kuras, inexplicavelmente, não consegue traduzir a urgência ou sequer a emoção de cada um deles em imagens. Lee é um filme esvaziado e plano, em que o envolvimento com personagens e situações inexiste. A protagonista, uma figura deveras interessante, está limitada às formalidades desse tipo de filme — ou não é mais do que batido o formato em que alguém, já envelhecido, dá entrevista contando sobre a sua vida enquanto o filme ilustra a narrativa com idas e vindas no tempo? No entanto, talvez esse seja o menor dos problemas para um longa que insiste em desperdiçar as potencialidades da história de uma mulher cuja trajetória oferece, por si só, todas as cartas para um excelente relato.